Que
azar
Parece que foi ontem, e não foi. A
lembrança surgiu aparentemente sem motivo. Não dar com a razão do surgimento,
porém, não anulava o sentido de ter lembrado de repente. Não só pela irrupção
quase que instintiva, se não estivesse escamoteando pormenores, era um retrato muito
rico que ganhava vida. Aliás, sua memória era pródiga em fusões sem pé nem
cabeça, o que deixava difícil pro destino dobrá-la.
Gostava de bagunçar, muito, e sem se
esforçar. Vivia tomando para si o que nunca vivera. Achava-se protagonista em
eventos que sequer presenciara, tal o grau de convicção com que pintava o só
imaginado. A sua imaginação era mesmo dada a carimbar como verdadeiro o que concebia
real, exagerado que era ao fantasiar tantas realidades. Mas se a realidade tinha
falhas, sentia-se à vontade ao preenchê-las.
Numa ocasião, no lançamento de um livro,
de mais um livro daquele poeta que não via há tempos, súbito trouxe-os de
volta: o autor do livro sendo lançado e o episódio dessa noite de autógrafos.
Sem pensar que a sua vida não conhecera,
por experiência própria, o que podem provocar acontecimentos dramáticos, ele estava
tirando cisco do mindinho quando a senhora ao seu lado perguntou que horas
eram. Batendo no vidro do relógio, certificou-se: ele estava parado.
Então, notando um zunzunzum na
biblioteca, a pessoa responsável pela organização disse que os trinta minutos
de espera bastavam. Pois o público presente não tinha que pagar por quem não veio
a tempo.
O homem, cujo nome cintilava de ponta a
ponta no alto da capa, se perguntou se a chuva não teria um dia melhor para
cair. Emendou que chuva era coisa boa, porém fosse cair em lavoura ou cabeceira
de rio, porque uma quarta-feira à noite, dia de jogo na TV, já era bem ruim pra
quem queria casa cheia. Ainda mais quando se lança poesia neste Brasil que tem
mais poeta do que leitor de Drummond, Cabral e Bandeira.
Todavia, a arte não tem plateia. A arte
com a maiúsculo, essa arte não tem chamariz pro grande público. Essa gente
prefere ficar em casa vendo novela em vez de vir prestigiar o artista que fala
o que é preciso falar. O poeta de verdade não fica repetindo chavões sem saber
o que já foi dito por Drummond, Cabral e Bandeira.
O homem, cujo nome em vermelho vivo ia de
lado a lado no alto da capa, era alguém feliz, pois tinha sido honrado com a
orelha escrita por uma pessoa realmente especial, muito importante na sua vida,
alguém cuja amizade vinha de bem antes que a sua voz como locutora de FM servisse
para identificá-la.
Pena que estivesse demorando.
Provavelmente, culpa do tempo. O trânsito pesado, perigoso, isso poderia estar
atrapalhando a chegada. Não que aquela presença fosse mais relevante do que a
de quem já estava ali. Não iria se lamentar dos ausentes na frente dos presentes,
isso ele não faria. Era só falta de sorte.
E
a azarada comendo pizza...
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 18 de julho de 2021.
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