domingo, 18 de julho de 2021

Que azar

 

Que azar

 

Parece que foi ontem, e não foi. A lembrança surgiu aparentemente sem motivo. Não dar com a razão do surgimento, porém, não anulava o sentido de ter lembrado de repente. Não só pela irrupção quase que instintiva, se não estivesse escamoteando pormenores, era um retrato muito rico que ganhava vida. Aliás, sua memória era pródiga em fusões sem pé nem cabeça, o que deixava difícil pro destino dobrá-la.

Gostava de bagunçar, muito, e sem se esforçar. Vivia tomando para si o que nunca vivera. Achava-se protagonista em eventos que sequer presenciara, tal o grau de convicção com que pintava o só imaginado. A sua imaginação era mesmo dada a carimbar como verdadeiro o que concebia real, exagerado que era ao fantasiar tantas realidades. Mas se a realidade tinha falhas, sentia-se à vontade ao preenchê-las.

Numa ocasião, no lançamento de um livro, de mais um livro daquele poeta que não via há tempos, súbito trouxe-os de volta: o autor do livro sendo lançado e o episódio dessa noite de autógrafos.

Sem pensar que a sua vida não conhecera, por experiência própria, o que podem provocar acontecimentos dramáticos, ele estava tirando cisco do mindinho quando a senhora ao seu lado perguntou que horas eram. Batendo no vidro do relógio, certificou-se: ele estava parado.

Então, notando um zunzunzum na biblioteca, a pessoa responsável pela organização disse que os trinta minutos de espera bastavam. Pois o público presente não tinha que pagar por quem não veio a tempo.

O homem, cujo nome cintilava de ponta a ponta no alto da capa, se perguntou se a chuva não teria um dia melhor para cair. Emendou que chuva era coisa boa, porém fosse cair em lavoura ou cabeceira de rio, porque uma quarta-feira à noite, dia de jogo na TV, já era bem ruim pra quem queria casa cheia. Ainda mais quando se lança poesia neste Brasil que tem mais poeta do que leitor de Drummond, Cabral e Bandeira.

Todavia, a arte não tem plateia. A arte com a maiúsculo, essa arte não tem chamariz pro grande público. Essa gente prefere ficar em casa vendo novela em vez de vir prestigiar o artista que fala o que é preciso falar. O poeta de verdade não fica repetindo chavões sem saber o que já foi dito por Drummond, Cabral e Bandeira.

O homem, cujo nome em vermelho vivo ia de lado a lado no alto da capa, era alguém feliz, pois tinha sido honrado com a orelha escrita por uma pessoa realmente especial, muito importante na sua vida, alguém cuja amizade vinha de bem antes que a sua voz como locutora de FM servisse para identificá-la.

Pena que estivesse demorando. Provavelmente, culpa do tempo. O trânsito pesado, perigoso, isso poderia estar atrapalhando a chegada. Não que aquela presença fosse mais relevante do que a de quem já estava ali. Não iria se lamentar dos ausentes na frente dos presentes, isso ele não faria. Era só falta de sorte.

E a azarada comendo pizza...

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 18 de julho de 2021.

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