Deus
ex machina
Súbito, a vontade de urinar quebra o
encanto. Levanto-me rápido e dou de cara na parede. Saído da cama pro corredor,
sem luz acesa, a desorientação fica evidente quando enfio o nariz na parede do
lado de lá da porta do quarto. Um desastre, não o apocalipse.
Me desencanto.
Frustra-se o idealista, pois a realidade
é descontrolável. Acontece, está acontecendo. Até quando desconfio que nem esteja,
está mesmo. Não se tem controle sobre o que acontece, nem como ideia. Afinal,
até as ideias têm autonomia, e vêm de tudo quanto é canto. Aprovando-se ou não,
os pensamentos brotam que é uma beleza. Encharcam a alma. Dão calafrios na
espinha. Por que o inconsciente apronta tanto?
Como a cachola me faz desconhecido até
pra mim, a realidade que conheço é um mistério. Tem vez que fico bem desanimado.
E a solidão vem de mansinho. Quando
vejo, já estou na garupa.
A brisa na cara minimiza o processo. A
bicicleta vai macia, disfarça. Sem solavanco, a paisagem fica maior. O
horizonte se afasta. Vou que nem percebo que o ar que me circunda pesa nas
coxas. Permanecer em movimento fica difícil. Os músculos doem. Há esforço.
Respiro com dificuldade. Penso que não vou dar conta de prosseguir. Preciso
parar.
Solitário, quero um remanso para poder descansar
um pouco. Mas não vejo onde plantar os pés.
Se devo tomar pulso de mim? Tomo.
Deito-me no escuro. Em descompasso, quero
um tempo pra dar ao metro a medida exata. Se resolve? Acredito. Tenho esperança
de estar realmente acalmando o desequilíbrio. Porque a decisão que me afeta
cabe a mim tomá-la. A mais ninguém cabe decidir o que a mim me seja melhor.
Mesmo sem clareza do que preciso fazer para acertar o passo no vai-da-valsa. O
calo dói. Se a solidão machuca, sofro ao vivê-la.
Feito bicicleta, resolvo parar. Escolho.
As rodas parecem paradas. Parece que a
corrente não passa mais pelos dentes da catraca. Nenhum ruído. Nada. O silêncio
parece estar indicando que estou parado. Estacionado em mim, isso me perturba.
Como aliviar a carga?
Escuto música. Não a ouço, escuto-a. Se
posso estabelecer em que condições escutarei uma obra musical, não procrastino
nem tergiverso. Fecho portas e janelas. Corro as cortinas. Apago a luz. Ponho
os fones. Pra que não agridam meus tímpanos, ajusto o volume. Sem distrações,
quero vivenciar a realidade que os sons tenham a oferecer.
Não suporto ficar ouvindo só o barulho
que o mundo produz. Uma cachoeira não é L’Orfeo. Um ganido não é Pierrot
Lunaire. Nenhum flato se compara a The Yellow Shark.
Como explicar o bem-estar que a música orquestra
em mim?
É simples!
Que a consciência orgânica volte no
tempo, viaje ao princípio, antes do surgimento do homo sapiens, instale-se
no carbono que ainda nem sabe de si, para que a vida ganhe o sentido de ir apurando-se,
até sem linha reta, pra não tirar de ouvido o dó-ré-mi-fá do cosmos.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 13 de julho de 2021.
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