O
impossível
Há repetições que são indispensáveis a
quem fadado a cometer os mesmos erros reiteradamente, uma vez que, portador de
idiossincrasia deveras incorrigível, deixa à mostra, em tudo que faz, deficiências
que, basicamente, precisarão ser retificadas.
A quem procura ganhar tempo ao tempo,
sabendo de antemão que seu melhor desempenho está em aprimorar o feito às
pressas, tão logo confie ter realizado o que tinha para fazer, capital é
debruçar-se sobre a fissura que o seu olhar reconheça como sendo a principal, posto
que, é bem provável que não se deixe equivocar, a falha que dá sustentação ao
malfeito esteja produzida de modo evidente.
Para maior aperfeiçoamento, repetir.
Todavia, sempre que posso, cuido não cair na lábia dos agourentos. Porque sou fraco, me impressiona fácil a ladainha dos nefastos.
Não sei quanto a você, mas costumo
evitar determinadas pessoas, as que fazem parte daquele tipo humano, grupamento
vasto e atuante, que raramente é capaz de transmitir notícias alegres,
positivas, boas.
Assim que vejo representante desse
aziago pessimismo ambulante, troco de calçada sem maiores constrangimentos. Fujo,
pois fugir reduz o impacto negativo que as infelicidades provocam na minha alma,
tão suscetível aos augúrios do fim do mundo.
Nestes dias, que mais parecem
emperrados, parados pela roda da vida, desequilibrados por ação malfazeja, me
sinto mais desafortunado que o mais azarado dos fracassados, pois, então,
nestes dias horríveis, prefiro maritacas tagarelando à solta.
Uma vez que estou sofrendo, carente, que
ando mesmo precisando de amor, compaixão e carinho, confesso minha
vulnerabilidade. À boca miúda, tenho caminhado cabisbaixo, temeroso de ouvir a
mim mesmo, acredito-me vero imbecil, um bobo a dar voz ao tartamudo.
Com a rua formigando, pensava nas doses
cavalares de clemência que preciso pra me animar a querer o equilíbrio entre o
desassossego e a tranquilidade. Mas a pacificação pede a consciência das
emoções, as quais, sem terminar subjugado, nem sei bem como encarar.
Na falta de prática de ler com isenção o
meu rosto como arena em que atuam as paixões, se fosse alguém sabido, escolheria
observar as expressões das pessoas que passam por mim.
Sem fazer alarde, sem despertar
antagonismos à minha disposição de observá-las amiúde, com intervalos curtos e
por breves que fossem as olhadelas, queria os meus olhos convertidos em uma
máquina para tirar esses retratos.
Assim, a posteriori e sem cutucar nas
pessoas suas feridas abertas, poderia examinar os desejos registrados.
Para imagens fidedignas, a minha mente
precisaria ter captação a mais cristalina possível? Creio que demandaria ser a
tal grau sensível, que permitisse intuir as sutilezas com que as faces se camuflam.
Em outras palavras, minha cabecinha anseia
o impossível.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 08 de julho de 2021.