Realmente
Estou menos oco, realmente. Foi olhando
a moça do caixa a pôr as compras em cada sacolinha que veio a ideia que estava
faltando para explicar o desajuste a me apoquentar desde que fui confrontado
com o queijo que evaporou de modo inexplicável. Era um enigma e tanto, pois o
queijo sumiu mesmo hermeticamente protegido na geladeira.
Com senso de proporção, volume e peso, a
funcionária do mercado demonstrou o quanto tinha de habilidade e técnica ao ir
encaixando os itens no espaço disponível.
Se exagero?
Não sendo nenhum Giorgio Vasari, John
Ruskin ou Harold Bloom, mestres de nomeada pela agudeza crítica, entendo que
uma bela ideia nunca pede explicações para que seja adulada por mim. Adulo
mesmo, inflo-a feito bola que rola redonda pelos gramados do mundo, a pedir um
chute certeiro na gaveta, aliás, a suplicar pelo toque de classe bem no ângulo,
trivela a encher os olhos de todo Maracanã lotado.
Uma bela ideia, todavia, jamais tive
uma, pois sou um cara limitado. A minha inteligência não é daquelas que ata alho
com bugalho, o rótulo honesto ao cabernet correto, sem fazer esforço algum.
Minha cabeça mediana não é pródiga em insights
desconcertantes, surpreendentes, estupefacientes. Não tenho talento nem vocação
para fantasias, como um Merlim a comandar dragões. Não tenho o dom de
cartografar cavernas subaquáticas ou supraterrestres. Sou desses que enxergam
mesmo só o que conseguem ver. Ou seja, não me lamento estar conformado por um dia
a dia parco de maravilhas, raso de fábulas e despido de quimeras.
Não sendo gente que fica hipnotizada
quando intui que a naja está dançando para que o flautista não pare de tocar,
não perco o fôlego ao me pegar cometendo o que não sei fazer.
Não vou inventar uma explicação do
arco-da-velha. Como o danado do queijo foi desaparecer do nada? Como vou ficar
irritado quando não coço pulgas atrás da orelha? Como a porca torce o rabo sem
mim, só de pensar em cumplicidade o ar foge de repente.
Se posso alegar ignorância?
Por notar que a noite estava querendo
aprontar, foi botar a cabeça no travesseiro, porém, para que o ovo da serpente
chocasse com meu calor de dorminhoco. Deveria ter encarado a madrugada e me
despido para sentir o frio que sente quem vive nas ruas? Poderia ter a coragem
de ter ido ao banheiro e não urinado na cama feito criança medrosa.
Contudo, o mijo gelado me enregelou até a
nuca!
E na falta do Leviatã no mar noturno do
meu sono? Saúvas.
Hein! Saúvas a penetrar a porta
inexpugnável do refrigerador?
Se estivesse lúcido na vigilância do meu
mundo, certamente não ia engolir uma barbaridade dessas. Mas foi em sonho
ferrado que pude ver claramente. Minha razão pouco tem de formicida, e a coisa devorou
o meu queijo inocente enquanto eu estava sonhando que não era eu a atacar na
escuridão das horas.
Sim! As saúvas são um baita problema,
Policarpo.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 06 de julho de 2021.