quinta-feira, 17 de junho de 2021

Requebrado

 

Requebrado

 

Acredito que lá fora faça um dia lindo, com pássaros cantando nos floridos ipês amarelos. Acredito, a escuridão está delimitada por quatro paredes, feita de tijolos, erguida por mãos experientes, firmes. Assim, ainda que meus olhos vermelhos ardam para caramba, nada de pensar que a bolha vai estourar de uma hora para outra, como nas fantasias de um desajustado, alguém fora do prumo, como se a solidez do chão estivesse à prova. Pois não está nem nunca esteve. Essa escuridão, o cubo escuro em que estou nem é luva que me sirva, doendo estão os miolos cansados.

Então, serve para quê? Para circunscrever-me.

No que a minha percepção dá como um nó, a carcaça sem cachaça perde a graça. Do cósmico nada absoluto ao relativo vazio existencial, esqueço que a cabeça não tem paredes, mas o diálogo da consciência comigo sugere um desarranjo, como se as forças não estivessem coisa nenhuma por um fio, como se bastasse mais um passo para despenhar ribanceira abaixo, na apoplexia de um instante, a indicar-me que estou abismado, de olhos abertos.

Desconfio que minha sensatez supõe ter alguma imparcialidade, já que não tenho remorso. A ponto de dizer adeus? O meu siso tem que parar de dizer que sou eu essa pessoa que confronta quem acho que poderia ser, caso estivesse dormindo.

E dormir para quê? Para ter algum alívio.

Quando a tensão vai aumentando, aumentando, numa progressão que faz os pintassilgos nos ipês amarelos virarem urubus nos postes de eucalipto, então, o corpo acaba subjugado.

Apaga. Desaba. Sem escolha, acaba adormecido.

O repouso leva a quê? Põe recomposto o corpo.

Recompor-me para prosseguir? Para retomar de onde estou.

Desde onde parei. Não parei, o meu corpo apagou. Desabei. Vi-me obrigado a dormir. Por esgotamento. O corpo não conseguiu mais se sustentar, foi apagado por dentro. A mente não pôde mais se controlar, viu-se desabada. Meu esqueleto precisa de uma boa reconfiguração. Refazer-me outro, livre de sentir-me esgotado.

Mas corpo e mente não têm unidade? Unidos em eclipse.

Como o corpo não se separa da mente e a mente não se separa do corpo, eu, assim como todo ser humano que tem consciência de si no mundo em que vive, aceito como natural me sujeitar à restauração das funcionalidades através do sono.

Do sono, sim. Da inércia, não.

Porque uma pessoa apagada por exaustão não se sente no limite, e o ultrapassa. Distraída, com tanta coisa para cuidar, ocupada com as trampas do mundo, a pessoa sorri quando aprovam o que faz. Todavia, nem se vê vivendo a realizar tarefas, a cumprir os prazos, a pedir pela próxima tarefa, pelo próximo prazo, até que...

Até que a vida fique um troço chatíssimo.

Então? Sem conseguir manter-me em pé, eu danço, e sucumbo. De tão cansado, nem percebo que nem penso direito, tanto que...

Fazendo um dia maravilhoso lá fora, ronco, e ronco que nem porco.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 17 de junho de 2021.

terça-feira, 15 de junho de 2021

Desejo caliente

 

Desejo caliente

 

Estava decidido: iria sair. Não porque fosse preciso, porque decidiu que precisava fazê-lo. Pondo, tirando, emparelhando, relacionando os argumentos como se permitissem estabelecer um ponto médio: o lugar razoável do equilíbrio momentâneo.

Já que era ser humano a mover-se entre emoções, tinha chegado à conclusão de que tinha mesmo de sair de casa.

E precisava ir-se naquele instante, antes que a posição favorável à saída se visse convertida no oposto, quando condenações à decisão resultassem em um sentimento vergonhoso, a projetá-lo uma pessoa irracional, dada a rompantes, mesquinha, que só pensa em atender os próprios desejos. Verdadeiramente irrefreáveis, esses desejos, porque orientados pela pacificação mental.

Brasileiro, sempre foi de dar de si o seu melhor. E no presente caso, o melhor a fazer era ir comprar uma proteção para a sua careca ou os seus humores ficariam ácidos, deixando-o intragável.

Ainda era outono, mas o frio incomodava um bocado. Como pensar com calma, sem azedumes irreprimíveis quando a temperatura média andava pela casa dos dez graus?

Não foi à toa que Dante fez do núcleo do inferno um antro glacial, inospitamente feito somente de gelo, um buraco terrível destinado aos condenados irremissíveis, eternamente incorrigíveis, sem perdão.

Portanto, cobrir a careca era uma questão de preservação da mente como fonte de pensamentos ordenados, fundamentados e socialmente aprovados, porque, bem aquecida a cabeça, a consciência não sofreria oscilações bruscas, mantendo-se a racionalidade intacta.

O homem razoável, que pondera sem se ver constrangido a vencer abismos a cada passo, é aquele que se decide pelo bem comum, uma vez que sabe pôr-se no lugar do próximo. Alguém calmo e solidário.

A solidariedade fortalece a individualidade, não a envenena como expressão egocêntrica da subjetividade absoluta. Quem está disposto a conviver produz bem-estar coletivo, e isso, ao fim e ao cabo, resulta em postura saudável para si. Pois o solidário é de fato alguém gregário.

Como cidadão de saúde mental energizada pela felicidade pública, ele estava certo de que precisava de uma boina. Não queria um boné nem um chapéu, queria mesmo era uma boina.

Contra o boné pesava a imagem daqueles jovens que andam em turma, todos com a viseira virada para trás, porém, que diacho!, a nuca não tem olhos, logo não fica ofuscada pela exuberância do Sol.

O horror ao chapéu... Tinha idade para lembrar-se dos faroestes em que John Wayne matava peles-vermelhas como se não fossem gente como a gente, mortos feito búfalos.

A favor da boina?

Da memória, o rosto ꟷ Décio Pignatari. Trigêmeo concretista, com hambre do explicitamente sutil, o hombre do Panteros.

Pois bem, um brasileiro não faz o melhor pelo Brasil?

Pra uma nascente alegria em mim, uma boina existe.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 15 de junho de 2021.

domingo, 13 de junho de 2021

Porta portão

 

Porta portão

 

Ultimamente, faz um pouco mais de um ano, ficar esperando que a porta tome coragem para abrir-se como um sorriso desabrochando as suas pétalas de convivência solar é pedir muito.

Muito mesmo, já que uma falta (uma carência que brota latejante; essa dificuldade intensa para lidar consigo como se fosse uma pessoa sem perspectiva que não a felicidade) faz dela uma inconformada com a tristeza reinante. Por isso, pede, sorrindo pede o que tanto adora.

Para que servem os aplicativos descoladíssimos?

Não a queiram desmobilizada, afeita às solidões acabrunhadas de quem vive para suplicar desavergonhadamente abraços calorosos dos familiares, como se os houvera de fato desejado apaixonadamente em pensamento.

O que sua mente insone tem produzido?

Admite, porque tem razão de sobra para admitir-se conectada com o mais além do que a vista alcança, que dá ouvidos, sim, à campainha do telefone, que toca esplendorosamente os seus avisos, uma vez que gente amiga não se nega a abraçá-la à distância de um clique.

Sua boca de lábios carmesins sabe dizer sim, e tem dito tantos.

E ela gosta de estimular respostas, que o fluxo da vida alegra o seu coração oxigenado pelos relacionamentos múltiplos.

Fiel ao seu tempo, ela tem olhos lépidos, habilitados a piscadelas, dando prova de estar atenta e forte, sem medo de compartilhar-se.

Para seus três dedinhos de vodca uma mordida de pizza, pois isso dá liga e agiliza a cachola, que sintoniza a noite de sábado com o dia seguinte, voando logo pro almoço vindouro.

Claro, claro, puxa vida. Sua louca, que anda tão confusa que quase deixa de lado o mais importante: combinar a hora certa para começar a comer aquele frango assado regado à teleconversa informal.

Sem colocar em risco os demais como a si mesmo, a positividade do mundo depende do alto-astral de cada qual.

Está bem, está certo, a honestidade é que deve prevalecer.

Ela assume que não usa máscara dentro de casa, nem para tomar banho nem para dormir. Prefere viver de alma lavada, como pessoinha devidamente harmonizada por um ansiolítico porreta.

Que o insondável permaneça um mistério, isso basta e conforta.

Se dá azar?

Quando a moringa solta umas neblinas úmidas que grudam no céu da boca, bom é botar um Chet Baker para sussurrar aqueles riachinhos que têm sol manso afinando as suas águas. Porque há sons que portas não barram, nem borram.

Todavia, aquela porta sem olho mágico, que se acha a principal, ela mesmo não passa de uma filha de uma...

Essa é a porta que descreve dores em quem não sofre. É porta que dispensa angústias a quem não chora. Porta para pântanos viscerais a quem não nega um gole d’água.

Musa prafrentex, sempre transando outros transes, abriga a galinha da gema de ouro pelo portão adentro, que, no fundo, jamais há de estar fechada com o sumo cabidela das pérolas das ostras do desgosto.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 13 de junho de 2021.

quinta-feira, 10 de junho de 2021

Visão impoluta

 

Visão impoluta

 

Na varanda do nono andar daquele edifício, o homem a fumar o seu cachimbo estava a ponto de encontrar alguma resposta à pergunta que o engasgava desde cedo. Parecia que estava realmente se acercando de alguma coisa que o pusera na condição de pessoa a questionar-se. Afinal, em meio à calma do sofá, alguém parecia ter reavivado aquilo; da televisão parecia ter vindo novamente à baila algum detalhe fulcral; algo do que se ia comentando na TV acabou por imiscuir-se aos seus pensamentos. Sim, ele era dessa espécie de gente que conjectura que cabe ao ser humano esperto conduzir a própria vida sem vacilação.

Blang!

Pelo som de elevadíssimos decibéis, sem a necessidade de que um técnico empunhasse alguma geringonça captadora de espanto sonoro, tinha ocorrido um incidente.

A mulher que falava ao telefone virou-se tão logo ouviu o estrondo. O homem que se abaixara para pegar do meio-fio a bagana levantou a cabeça sem indício de comoção. Apavorada, a menina que já estava choramingando passou a berrar alucinada. Tomada de irritação, a mãe tratou de sacudi-la, insistindo que parasse, como se agitá-la com tanta firmeza cortasse aquela palhaçada, uma chatice, coisa de bobocona.

Na varanda lá no alto do prédio da esquina, o homem fumou o seu cachimbo convicto de que aquele acontecimento era passível de outra abordagem, menos passional. O universo passava-lhe outro dos seus recados: a vida tem fundamentos que escapam ao contato direto. Não iria lamber o sangue para sabê-lo sangue, pois bastava vê-lo e isso, o exercício de observar à distância, pouco interferia no prazer de fumar. Além disso, não pensava com a boca nem com os pulmões.

A mulher que falava ao celular cortou a falação porque lembrou que o aparelho teria melhor utilidade se filmasse a situação todinha.

O homem atrás de bitucas estava certo de que não iria tirar proveito algum da distração, pois fumar era uma prioridade. E comer, também precisava comer. Ele cheirou os restos de um marmitex. A feijoada era gorda. Antes que surgisse algum vira-lata, devorou tudo.

A menina que esgoelava aumentou o estardalhaço ao ver o sangue se espalhando das mãos para as roupas de quem foi acudir o rapaz da bicicleta estrebuchando no asfalto.

A mãe da menina passou a suplicar pela vida daquele entregador de água, cujo sangue jorrava da barriga rasgada.

O homem que procurava as palavras para auxiliá-lo a entender-se com suas ideias, uma vez que a linguagem permitia-lhe pensar-se no mundo sem que sua realidade acabasse abstraída, como se a pedrada na vidraça prescindisse da pedra para estilhaçar a fachada, perplexo, sem ter outra opção, ele decidiu que iria descer à rua.

Apto a revestir o acontecimento de modo irretocável, convencido da relevância do seu relato, ele contou que teve despertada a curiosidade pelo fato quando:

Bleng!

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 10 de junho de 2021.

terça-feira, 8 de junho de 2021

Burro n'água

 

Burro n’água

 

Sucede que estou atrás de um documento, mas não lembro qual. A informação sobre alguma coisa tem importância para alguém que não sei mais quem seja. É pessoa que me enviou e-mail, cujo rastro está apagado na caixa postal. Devo ter deletado por descuido, ou num dos meus acessos de faxina geral. Depois da limpeza repentina, não tenho como encontrar uma vírgula sequer do que poderia estar buscando nos interstícios siderais dessa realidade paralela, a virtual.

Sucede, então, que desisto.

Dane-se a procura da materialidade da pesquisa. Em vão querê-la concreta. Inútil lamentá-la perdida. O dia, afinal, tem outros pedidos, e cabe a mim atendê-los.

Ô diabo! Como posso prestar conta do que faço se nem sei bem o que ando fazendo?

Já faz um tempo que estou jogando palavras na memória, mas as recordações mais desencontradas é que vêm comer os farelos dessa minha ceva ingênua. Algo desesperado, já implicante, frustro-me.

Cão sem dono, a realidade toca viola para se livrar das pulgas mais irritantes, as que não se contentam com picadinhas intermitentes, mas não caça o próprio rabo por si só, que isso funcionaria como uma dica.

Não vou dizer que o mundo costuma pôr os distraídos para uivar à lua ou que talvez os melancólicos acabem minguantes sem saber que estão definhando a cada uivo.

Boa! Encontrado o cardume, mergulho o anzol.

Todavia, Rachel de Queiroz corta o fio da minha empolgação ao me sugerir que a minguante que morre na madrugada não é louvada nas cantigas nem preside as serenatas.

Tiro da água o meu anzol lavado em fracasso, amoldo a isca com os dedos que digitam NUDEZ em vez de LUA.

Todavia, Rubem Braga desfaz a emenda, que o lacinho singelo não dá liga aos meus pensamentos soltos que os forço lógicos e plausíveis, como a sustentar que a minha visão do mundo precisa de mim para dar a ela, a essa perspectiva de filósofo iluminado, o viés circunspecto de persona racional, e coerente.

Oxe, o Sabiá da Crônica canta que estou nu em minha vulgaridade barata a querer Marilyn Monroe como sereia nessas minhas águas de umbigo, balão inflado pelas fumaças desse meu ego, que acha espelho o que nem tem reflexo. Oxe, vampirizo o Velho Braga.

Terá cura esta cepa da minha estupidez?

Todavia, Ivan Lessa refaz o retrato que venho compondo.

Sim, disse o jornalista que a cada quinze anos o brasileiro esquece o que fez nos últimos quinze anos.

Sim, de quinze em quinze segundos rompe-se o fio do que penso.

Caramba! Dá-se o estalo como crônica: Não ande nu por aí.

Cercado de gravidade por todos os lados, já que sou um homem no cosmos, encontra-me súbito o que procuro.

Veja só como a minha cabecinha desnorteada age sem atinar nada com nada, pois vim erguendo em labirinto esta falta de semancol.

Quem sou eu para criticar Jeff Bezos que pode torrar o seu dinheiro para levar o maninho ver a Terra lá da estratosfera?

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 08 de junho de 2021.

domingo, 6 de junho de 2021

Força estranha

 

Força estranha

 

O sol está disposto a aquecer até mesmo os seres que porventura nem queiram o seu radioso calor. A estrada não espera que a utilizem como escoadouro de frustrações banais, nem por isso finge não ver os caminhantes que acreditam estar indo com a certeza das suas justas necessidades. Não, não é possível reconhecer que o momento da vida que a cena registra diz a quem vive que há mortos sem sepultura.

Nesse contexto de tão fundo prosaísmo, eis um homem que briga consigo para desenlouquecer-se sem dar na vista de ninguém. Se bem que, justamente porque ocupado com o que possa estar aparentando, ele não se permite escapar como um desapontamento a outrem, e isso, por sua vez, orienta-lhe a transparecer-se como um cara tranquilo.

O que não quer dizer que essa tranquilidade de rosto e gestos faça dele um bom papo, afável, gente que bebe o seu pingado enquanto vai palpitando sobre fatos mundanos.

Além da porta, o caminho veste-se de via pública animada, com as pessoas indo em uma única direção.

Mais calado do que o normal, está consciente de que essa maneira discreta chama a atenção de quem o conhece de outras tantas manhãs ensolaradas.

Tem um desejo incontrolável de um raio de paz, mas o astro rei de sua majestosa manhã pouco tem de luminoso ou pacífico. A querer-se em paz, inquieta-se. Ao ansiar-se longe do turbilhão que o assombra, percebe pontas sem nexo, um emaranhado de histórias mal-acabadas, descontinuadas, que o angustiam por obrigá-lo a ter um pouco mais de desfaçatez, de ostentar-se uma pessoa sensata, de juízo calmo.

Ele quer manter a sobriedade dos empáticos, pois tem que seguir convivendo com quem anda participando da sua jornada.

Urbana, a rua não se lamenta do aumento do movimento.

Pudera, lá do alto, um sol tremendo nem liga diferenciar os corpitos, que bem se assemelham a animais ─ os orgânicos se embebedam de caninha, os mecânicos explodem com carbono sem açúcar.

Em outras palavras, o pai de família não bebe um dedo de cachaça porque não está livre das aporrinhações da função a que está sujeito. Desde o momento da gravidez aparecida daquela noite inigualável, é camarada responsável, sem direito a uma vida de estripulias.

Nada de inventar ter um tempinho para uma cerveja, um truco, uma olhada maliciosa para a mulher do cartaz ao lado da porta do banheiro, uma vez que a rua não para de lembrá-lo que tem de conferir se a mãe dos seus meninos já se encontra no lugar combinado.

O ronco do batalhão de motocicletas não impede o pensamento de conjuminar a boca carrancuda com onde está. Não haja desculpa, pois um bar, todo bar, é antro de perdição.

Ainda que as suas costas doam, o marido levanta o isopor, que está bem pesado.

Do lado de cá do rio, cestas despejam mortadelas, salames, lombos e caixinhas de leite, suco e chá.

Mesmo barrentas, as águas fazem que não vêm das cordilheiras.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 06 de junho de 2021.

quinta-feira, 3 de junho de 2021

Monólogo a duas vozes

 

Monólogo a duas vozes

 

Pegue jeito, sonso. Tome o controle, tonto. Mas não seja impulsivo. Porque o precipitado perde-se. E perdido, vira reclamar que tem razão. Quando quer algo, meça. Saiba medir e aja, não fique só no desejo. Desde que realmente saiba, não fuja do que de fato deseja tanto.

Assim como o relógio da matriz tem semana que passa badalando os seus sinos com dois minutos de atraso, como se fosse possível ter controle sobre a ansiedade, como se os sons chegassem do passado, querendo com isso apontar que a recordação do que se está vivendo apurasse a realidade pelo que tenha sido vivido, assim, aja.

Sobre a vontade, tome pulso. Queira ratificar-se como ser vivo que pensa e diz a própria experiência de estar vivo enquanto vive. Dê esse passo, e faça andar o mundo. Ande no mundo, não enrole. Porque um querer a mais não move moinho. Não basta. Não vacile, aja. Vacilante, aja com educação. Ponha os bons modos à frente, porque alguém que sabe o que quer tem o pudor de não se fingir de indeciso.

Assim como o relógio da matriz tem semana que passa badalando os seus sinos com três minutos adiantados, como se fosse provável o controle sobre o futuro, como se os sons trouxessem o que ainda não se sabe ter vivido segundo o que se quer enquanto destino, como se a conjunção das possibilidades nem decorresse do que se faz, faça-se.

Agora? Hoje. Hoje? Então, que seja momento único. Inesquecível. Uma noite de gala. Noite de gala? Noite de pizza. Noite de pizza? Que seja. Mesmo não sendo sábado? Mesmo. Pense bem, a semana tem sido puxada. Bastante puxada. O ar está pesado. O chão foge dos pés. Os remédios não têm dado conta do sufoco. A pressão é tanta que nem as pílulas para baixar a pressão têm funcionado. Haja calmante. Pois é, amigão, a semana tem que acabar numa pizza. Tem sido tensa. Tão exaustiva. Muito exasperante. Para hoje? Agora.

Meio a meio? Portuguesa e calabresa. Ou portuguesa e de atum. Ou de atum e quatro queijos. Que alivie o estresse. Para que ao menos o estresse não extrapole. O estômago? A noite ronca. O estômago não dorme. Não dá trégua. Por inteiro. Inteiramente. Tão irritante. Muito. Tem havido um estresse desumano. Insuportável. Que derruba quem acha que suporta. Não aguenta o peso. Entra em colapso. Afunda.

Que troço chato. Chato para dedéu. Melhor mudar de assunto. Para falar do quê? Da casa suja. Das folhas rasgadas no chão do quarto? Pelo quarto todo. Anotações de um diário ilegível. Que língua esquita que não diz nada sobre o momento! Pois é.

Ora, você poderia ter sido menos idealista. Mais real? Menos bobo. Alguém parecido comigo neste instante? Você é uma pessoa que tem telefone. Mas, então? Então, peça aquela pizza sem igual que apenas você sabe o quanto precisa, mas coma curtindo cada mordida.

Comer antes que esfrie? Coma.

Mas comida quente não queima a língua?

Zonzo, queimemos.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 03 de junho de 2021.

terça-feira, 1 de junho de 2021

Felicidade condicional

 

Felicidade condicional

 

Ele disse: “não”, “não sei” e “já falei que não sei”.

Com tantos nãos ditos em sequência, sua mente tinha mesmo que enveredar por algum caminho menos sombrio.

Sem ligar para a garoa na careca, desceu a rua em vez de subir.

Entrou no comércio da esquina. Todavia, só entrou ali para ganhar distância de um pitbull invocado que vinha protegido por um bombado brutamontes sem focinheira. Numa hora dessas, sobreviver é vacina.

Nem bem estando dentro, a ajuda que não carecia foi-lhe oferecida com a presteza de quem sufocado por dívidas a granel.

Aceitou que precisava urgentemente de sementes de girassol.

Que realmente eram necessários dois pacotes para atender a sua demanda, no entanto, já era um sinal evidente de uma impressionante habilidade humana, a telepatia.

Espantado com a interação mental, pagou no cartão. E o fez porque o dinheiro ainda não tinha asas para vir cantar bonito na sua carteira.

Que alívio ter carteira no bolso. Que alegria redobrada ter cartão de crédito no bolso. Que espetáculo poder sorrir satisfeito por ainda dispor de algum crédito. Ou o cartão seria só mais um objeto inútil, de plástico vagabundo, tão inimigo da natureza.

Tinha esquecido que a agência saíra do seu trajeto como algo bem natural, sem deixar sequelas, tiques ou inflexões imponderáveis.

Afinal, nem se lembrava de que economizar três reais numa compra de um quilo extra de comida para passarinho era sua imprescindível e incontornável prioridade.

Opalá! A memória piscou o alerta.

Parado à porta do estabelecimento de viva importância a sua atual condição de pessoa não portadora de bicho engaiolado, uma dúvida mostrou-se atroz: semente de girassol alimenta aves de que tipo?

Como lhe foi prontamente comunicado, muitos são os tipos de aves comedoras de sementes de girassol.

Tem ave: que canta de madrugada; que canta na hora do almoço; que canta sem que sol e chuva influenciem na cantoria.

Que diversidade surpreendente.

Tanto diversa quanto misteriosa é a natureza, emendou o vendedor com a tarimba visionária para morder feliz um bom dinheiro, já o senhor fique sabendo que o sabiá, sim, o nosso velho amigo sabiá que canta nas madrugadas, muita gente tem a facilidade de chamar o bichinho de sabiaúna, sabiatinga, da restinga, da praia, do campo, do sertão, da campina, capoeira, tropeiro, da mata-virgem, do mato-grosso, ferreiro, sabiapoca, cachorro, cara-de-gato, coleira, barranco, branco, cinzento, piri, laranja, laranjeira, barriga-vermelha, verdadeiro, ponga, gongá, e, o senhor nem me olhe torto porque sei disso tudo, tem quem chame o inocente de sabichão-do-papo-amarelo.

Caçamba!

E pensar que todo este conhecimento poderia permanecer ignorado se o cidadão não tivesse participado de modo tão positivo da pesquisa eleitoral. Apesar do número desconhecido.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 01 de junho de 2021.

domingo, 30 de maio de 2021

Espetacular

Espetacular

 

Aplaudindo, mas apenas depois de reaberta a cortina, uma vez que a trupe saiu de cena assim que a história acabara de ser contada. Sim, do começo ao fim, o fio da meada não foi cortado nem enrolado. Afinal, era história conhecida, por isso querer dar voltas ou pular algum trecho seria errar o tom. Não, da cortina aberta até a cortina fechada, o rumo bem ensaiado foi seguido à risca pelo pessoal: bravo!

Conforme todo mundo sabe, uma das regras não escritas da nossa sociedade fala que uma criança, qualquer criança que esteja cativada em sua inocência, é esperta o suficiente para chiar no exato momento em que cortes ou mudanças interfiram no andamento do aguardado.

A criançada não deixa por menos e cobra fidelidade ao já trilhado, portanto não convém querer inventar. Sim, insistir em enfiar novidades em algo mais do que testado pode muito bem magoar a audiência.

Decepcionada, mais e mais entristecida ao testemunhar surpresas que soam como ruído frustrante, a meninada olha, pede que seu olhar seja compreendido, comunica a perda do entusiasmo e suplica que o seu aborrecimento tenha o valor de uma bruta vaia.

Não alimente falsas esperanças, pois meninas e meninos educados pelo respeito à estupidez de terceiros não são de ficar resmungando, apupando, atirando tomates, botando para correr estrelas que julgam caídas em desgraça. Sem dar bobeira, elas e eles abrem o berreiro.

Viva! Que os astros condenados sumam no abismo.

A questão não é pedir reembolso; o ponto é simples: voltem e façam direito o que tinha de ser feito direito. Ora essa, se a coisa está errada, é muito simples: basta começar de novo, mas recomeçar sabendo que o certo de uma história bem contada é mantê-la igual a si mesma.

Entretanto, os benditos foram salvos e punidos os malditos:

ꟷ Bravíssimo!

Aplaudindo protocolarmente o elenco de apoio.

Aplaudindo, assoviando e batendo os pés nas tábuas da plateia, quando um a um dos personagens que tinham nome inclinavam-se em respeito ao afago do público.

Aplaudindo, soltando pequenos gritos, saltitando na arquibancada, isso porque, magnética, sol magistral a capturar com os mil tentáculos da sua visão, avançou a Chapeuzinho.

Que maravilha!

Feliz da vida com o espetáculo que não enganou ninguém, montou na bicicleta sem rodinhas e, quando ia tomando a direção de casa, uma bicicleta com cestinha junto ao guidão barrou-lhe o caminho.

Sem aquele macacão de pelos ensebados, sem aquele focinho de dentes assustadores, só que ainda exibindo a maquiagem escura ao redor dos olhos, era o Lobo.

A voz... A voz era mesmo a do monstro.

E viera falar com ele. Logo com quem nem tinha reparado que a fera da apresentação tão bacana o tinha visto no meio de toda gente.

Caraca, o rapazinho dos seus onze para doze anos nem se lembrou de que tinha língua ao ser presenteado com um belíssimo beijo.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 30 de maio de 2021.


quinta-feira, 27 de maio de 2021

Meia laranja basta

 

Meia laranja basta

 

A tarde transcorria quase tediosa; quase, porque ficaria sendo, não fosse a delícia de chupar laranja, daquelas bem doces, uma lima.

A doçura da fruta era tanta que nem carecia pensar nisso, seria uma desfeita, pois o bom era se entregar ao agradável de desfrutar do sumo daqueles gomos sem projetar algum senão.

Era mesmo docinha, mas tão docinha, que parecia que tinha sido adoçada com mel.

Isto, aliás, é uma adição redundante, um adendo dispensável, sem relação alguma com a realidade da fruta em sua essência.

Assim, a mente juntava o prazer do sossego com a vagareza de ir chupando a tal preciosidade. E a boca se enchia de água, de tanto que deleitava poder usufruir aquilo sem aflição alguma.

Todavia, como gato não sabe chupar laranja nem dá a mínima para pessoa que gosta de apreciar algo bom sem interrupção, veio a gatinha miar sem dó.

Olhando para o trinco da porta, miava. E não parava.

Era um bicho que miava. Era um ser determinado que dava a ver o que tinha em mente através do miado.

O que estaria dizendo?

Com o olhar fixo no alto, a danada pedia que a chave fosse virada, a lingueta da trava, recolhida, e a folha da porta admitisse passagem.

Portanto, o miado não pedia que tudo isso fosse executado de uma vez por todas; miando, o insistente e pequenino animal exigia.

Que abrissem a porta. Viessem abri-la. E ela teria de ser aberta.

Contudo, aquela laranja, sem nada de ácida, nem um pouco azeda, merecia uma degustação tranquila, gomo a gomo, como uma flor que se abre lentamente, pétala a pétala, liberando um perfume aprazível, e que encanta, seduz, faz a gente respirar com serenidade.

Quando o odor maravilha, atrai e cativa, a gente não abusa?

Ele estava bastante incomodado. E sabia como bancar o chato.

Para não desperdiçar sequer uma gota daquele néctar sem igual, lambia os dedos com a maior calma do mundo.

A gata que miasse até ir-se dali para brincar com uma bolinha de papel, que muitas pelotas estavam espalhadas pela casa.

E fosse logo.

Afinal, a sua cara, que tinha papilas que bem conheciam o quanto de açúcar o suculento pomo oferecia ao paladar, queria silêncio.

Pela inteireza da gustação desse fruto tão magnânimo, somente as sementes deveriam acabar no lixo. Sem fiapos do bagaço.

Sim, o bagaço. Que tinha que ser macerado, dilacerado e triturado com a convicção de quem age com gosto, ciente de estar vivendo um prazer que não tem como ser dito sem parecer fútil ou ridículo.

Qualquer tentativa de traduzir o sentimento de estar gozando o que se faz enquanto se está fazendo resulta em singela estultice.

Nesse caso, no instante de tão mansa fruição, a boca queria mais era mastigar trinta, trinta e uma, trinta e duas.

Todavia, gato algum mia por inércia.

Então, já tendo metade da laranja sido saboreada soberanamente, a porta foi aberta; que a gatinha continuasse a miar, mas lá fora.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 27 de maio de 2021.

terça-feira, 25 de maio de 2021

A balada das vidraças alvoroçadas

 

A balada das vidraças alvoroçadas

 

Na rua, em situação desgraçada, catando rejeitos de abacaxis mal descascados, atalhando pelo arroz com feijão das marquises varridas por crachás bem-ajambrados, espera que as vidraças aflorem o vento que anuncia outra tarde retumbante das velhas amizades velhas.

Velhos amigos velhos cirandam.

Velhas amigas velhas cirandam.

À  janela, com pulmões carunchados, ataviando alegrias de coração bem passado, aviando tristezas de diamante mal lapidado, espera que as vidraças impecáveis permitam bendizer a ciranda entusiasmada das contagiantes velhas amizades velhas.

Velhas amigas velhas cirandam.

Velhos amigos velhos cirandam.

De olhar demiúrgico, focal, afetando um rosto despido das rusgas mal resolvidas, confeitando uma carinha lavada por saliva bem acética, espera que as vidraças inabaláveis sigam surdas a maldições rogadas à roda das adoráveis velhas amizades velhas.

Velhos amigos velhos cirandam.

Velhas amigas velhas cirandam.

Na lona, sem bolsos remendados, ciscando uns passinhos tímidos de frango na muda, cercando as galinhas imaginárias que cacarejam à solta, espera que as vidraças indevassáveis resguardem as virtudes das veneráveis velhas amizades velhas.

Velhas amigas velhas cirandam.

Velhos amigos velhos cirandam.

Na bossa novidadeira, feraz, gorando gerânios ungidos por urina de sal descalibrado, gozando asseclas de cassetetes de tacanha atitude, espera que as vidraças tão solidárias protejam mais do que a fachada intocável das velhas amizades velhas.

Velhos amigos velhos cirandam.

Velhas amigas velhas cirandam.

Neste chão mundano, sacrifiquem-se olhos petrificados pelas dores crônicas, mumifiquem-se andrajos pestilentos; curem-se do mal curtido no bem negado ꟷ não espere que as vidraças infrangíveis estilhacem as velhas amizades velhas.

Velhas amigas velhas cirandam.

Velhos amigos velhos cirandam.

Sem abismos intransponíveis que hipnotizam, escolhendo arestas íngremes vencidas por braços indomáveis, escalando planos arejados por revoltas não sufocantes, não espere que as vidraças alérgicas aos ares renovados não asfixiem como velhas amizades velhas.

Velhos amigos velhos cirandam.

Velhas amigas velhas cirandam.

Com amores tolhidos na fonte, sequioso de viver a serviço da vida, desejoso de revolucionar o mundo, redirecione as energias aviltadas, revele às arrogantes vidraças hostis o ódio regenerador que solapa as pervertidas, abjetas e velhas, velhas amizades velhas.

Velhas amigas velhas cirandam.

Velhos amigos velhos cirandam.

Por amar alvoradas, por querer auroras, por cantar as primaveras, por brindar o sol coradouro, por aspirar ao meio-dia a luz que dissipa a névoa dos ossos, que a balada frutifique em amizades novas.

Para que cirandem as amigas e os amigos.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 25 de maio de 2021.


domingo, 23 de maio de 2021

Sensatez

Sensatez

 

A promessa do futuro existe, você a vê. Por poder distingui-la como o ponto que vem de lá, daquela névoa em que o mar oceano e o céu oceano suspendem a clareza, comove-se ao vê-la. Onde floresce um, onde germina outro? Pois tal perspectiva sugere uma ansiedade que mobiliza, e você a aceita, acolhe e aconchega. Nutre-se pela promessa de que é possível uma esperança menos cerrada, pois o encontro do mar com o céu dá horizonte a quem trancafiado no íntimo de si, como a abrir-se à ideia de ser que o faz humano a pensar-se:

Flui quem não sou porque já fui quem serei sendo quem flui.

Você não dispensa filosofar como pessoa que pensa além dos pés calçados por chinelos a ostentar aquelas unhas por cortar e aquém do sorvete de coco a derreter porque, matutando, custa a lambê-lo.

Longe, bem longe, num lugar que lhe escapa da capacidade mental de calcular com alguma precisão, você se arrisca a batizar como barco de pesca a embarcação que navega, quiçá uma tainheira que volta.

Ainda que nomeá-lo barco de pescadores de tainhas seja apenas uma aposta necessária a você para ultrapassar o bando de surfistas que está interposto entre o vórtice extremo dessa figura em cujo ângulo reto sua moringa ferve ao sol, que fecha a forma.

A alegria de banhar-se nessas águas de ondinhas mansas acaba definhando em sua mente, porque aquela areia toda o desanima.

Ainda que banhistas gritem felicidades mil, fervilham as micoses. Ainda que moças continuem papeando sobre esteirinhas, você não se mexe. Ainda que crianças empinem pipas, o seu lugar é ali.

Há um gavião sobranceiro na caçamba que não comporta sequer mais um saco de lixo. Todo este resto só aumenta porque a cupidez o define material inútil, descartável; o que é, no fundo, contestável.

Desancorar-se dessa lógica geométrica transpira açodamentos.

Avisando que tem e-mail novo, o telefone vibra. Você arremessa o palito na lixeira, e acerta. Quer saber de quem é a mensagem, e bufa mais ainda depois de ler a caixa-alta que berra o assunto:

PARIS É UMA FESTA!

Não era sem tempo que o exibido iria se manifestar. Com a Cidade Luz renascendo, era óbvio que o bacana iria à forra. Nada mais certo que esteja armando o manjado: outra festança.

Mas as fronteiras não estão fechadas a brasileiras e brasileiros?

Ora, você não duvida que o finório ande fazendo uma finesse.

Se Paris barra quem tão vivamente a louva sempre radiante, uma soirée culturelle viria a calhar.

Que o Louvre venha brilhar no seu lar. Que a Mona Lisa sorria aos seus adoradores. Que A Barca de Dante não naufrague na ignorância. Que A Rendeira siga tecendo em dignidade sutil.

Está na cara que o espertalhão deve ter instalado uma big de uma gigantesca tela de borda infinita para exceder em realismo com zilhões de pixels, cuja vista humana nem pode alcançar.

Para não embarcar nessa insanidade, você apaga o e-mail.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 23 de maio de 2021.

quinta-feira, 20 de maio de 2021

Pensamento positivo

 

Pensamento positivo

 

Depois do almoço, com os afazeres em dia, vou zanzando, certo de que o assunto para crônica aparecerá, e tal certeza põe-me tranquilo.

A tranquilidade colabora para a digestão, do que comi à mesa e do que acontece enquanto ando. Sem que esta atrapalhe aquela de modo desastroso, embora fatalmente os acasos trombem comigo.

Satisfeito da vida, creio que consigo me manter ligado ao entorno. Basta a realidade não me levar a escolher alternativas nem pensadas e tudo vai seguir sem sobressaltos.

No entanto, dou azar, porque esta minha figura sossegada passa a impressão de pessoa que não corre de cachorro que late. Acham-me capaz de manter a fleuma mesmo com bicho de presas arreganhadas a me confrontar. Como não sou de fazer de conta que tenho a valentia dos heróis, nem bem a fera ameace atacar, arredo pé.

Adeus, distinto cavalheiro.

E a rua conhece este fracote, medroso, mais um sobrevivente, tão logo furo sinal vermelho, ignoro faixa de pedestre e tiro a máscara de gente boa, de ponderado.

Tomado pelo embaraço desta vexatória atuação, esbaforido, suado e melindroso, já entro pedindo uma dose de caninha enquanto sumo no banheiro.

Com a esperança de ter vencido a sanha humana de rir de minhas canelas muito pouco treinadas, volto e viro o copo no balcão.

Seguro o fogo nas tripas e digo boas-tardes a todos. Todo mundo e mais o dono, a quem dirijo o sorrisinho de bom moço que sabe das coisas do mundo pelo mundo mesmo. Uma vez que assisto a canais de notícias e leio jornais e revistas. E não duvido que isso me instrui, educa e faz de mim outro homem.

Alguém melhor, que não fuma, dorme cedo, masca folhas de boldo.

Melhor seria se parasse de beber, mas cachaça é tão danada que a paz da minha alma depende de mais uma. Aliás, me controlo.

Já meio alegrinho, a felicidade que me anima sabe que a razão tem ilusões. Faço o condutor parar no lugar certo, na hora certa.

Sim, o universo conspira a meu favor. Tenho fé, afinal sei manter o juízo. E raciocino rápido quando fico bebum.

Convicto de minhas virtudes, bem no momento que estou virando a terceira ou quarta dose, quem não me conhece chega grunhindo para o meu lado.

Bufando suas fumaças, vem babando uma palavra atrás de outra. Sem tirar nem pôr, diz que o seu maior pecado é ser gente que gosta de gente. O que o torna alvo de quem o inveja. Que a malícia afia as línguas que o destratam. Coisa dos sóbrios de maldade.

Prefiro a TV. Queria ver a sessão política, só que a baba voa beijar meus óculos. Queria muito que aqueles perdigotos dessem-me força para ir embora, porém, entre a antipatia e a simpatia, há esse fogo que atiça os vermes.

Gargalhando como o quê, o fanfarrão apita que o general da banda faz fanfarra para farda, fardão e bandalheiras.

Caraca! A besta tem pulmões tão potentes que lhe pago uma birita em troca do apito, que guardo no bolso para não enguiçar.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 20 de maio de 2021.

 

terça-feira, 18 de maio de 2021

Vago lume noturno

 

Vago lume noturno

 

Eis o que foi dito por sicrano:

Desperto no meio da noite escura. Nem abro os olhos. Sei que o quarto está imerso na escuridão. Vai alta a madrugada. Desprotegida, a minha careca está gelada. Não confiro, afirmo. E isso me basta.

Posso estar errado. Por podê-lo, erro com moderação. Uso a mente para relacionar alho com bugalho. Confundo as coisas, torno dificultoso apontar qual o joio, qual o trigo.

Vislumbro sem detença um campo dourado, não apenas receptivo à luminosidade do sol. Tal horizonte me fascina. Afeito à beleza, deixo que o desejo de um bem-estar momentâneo me ofusque.

Deslumbrado com a amplitude do espaço aberto, me pego a pensar o infinito. Magnífica, é realidade revestida como ideia sem fim.

Que visão soberba. Sobrevivo aos meus instintos que me querem projetando uma lua nas retinas estressadas.

Adoro o vento noturno. Tenho os olhos ardendo, sinto que o vento pode me abrandar o incômodo que há dias me aborrece.

Não vou voltar a dormir. Estou aliviado por estar acordado.

Se a lógica turvasse o pensamento, seria besteira.

Tomo a tolice como veneno que a mim me fortalece. Portanto, não tenho sono, estou de olho. Mais forte, estou mentalmente habilitado a me julgar imparcial.

Senhor da razão, vejo o que vejo e sinto o que sinto.

Não estou disposto a lamentar que o mundo insista em contradizer os meus mais verdadeiros sentimentos. Veridicamente sinceros, uma vez que os acabei de gerar.

De olhos fechados na escuridão, não me dispenso de contar o que sei. Sigo sensato, deixo a respiração controlar os fluxos cerebrais.

Certo de que estou errado, percebo uma dormência no olhar.

Reforço, o sono não mastigará o meu entusiasmo de ter descoberto que o universo quer queimar os meus neurônios.

Esperto, continuo respirando. Desperto, não deliro fora da noite.

Sinto-me bem, com minhas faculdades mentais me estimulando.

Pois é, o chato na cama só fica ocupado com conversinha?

Chega a ser grotesco respingar dúvidas na cachola que sabe que não sonha de olhos amargurados. Estou calmo. Minha consciência diz o campo que jorra ouro ao sol que obscurece o éter das esferas.

Desnecessário querer me corrigir, pois o ar que me mantém vivo é o mesmo ar que me oxigena a mente.

Feito vento a renovar o ar do quarto, o colírio da madrugada faz um bem danado. Não abro as janelas nem os olhos porque a brisa noturna é desintoxicante.

Enxergo de olhos mareados. Náufrago de pijama, posso enxergar o que meus olhos querem que eu veja quando não me enxergo a seco.

Nem penso nisso.

E que sensação boa! E que instante brilhante!

Este instante pede que a sua história seja contada. Que beleza. É momento tão, tão luminoso que até me seduz.

Tantas são as platitudes que fomento que algum sobressalto me faz recordá-lo outro?

Não é lorota o que não minto.

Dito até que foi, mas beltrano fez que se esqueceu de ouvir.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 18 de maio de 2021.

domingo, 16 de maio de 2021

Linhas tortas

 

Linhas tortas

 

ꟷ Está perdido, poeta?

Era evidente que não. Estava aborrecido. O acesso à minha conta fora barrado pelo sistema. Isto é, meu dedão não tivera reconhecida a informação biométrica cadastrada como pertencente a mim.

Sem cabeça para amolações bisonhas, pois tinha recebido convite para falar a estudantes, queria pensar com carinho de que modo iria abordar o tema que me foi indicado: a escrita.

Então, chegou este Luisinho com sua leitura equivocada da minha cara. Logo ele que é camarada amigo, sujeito que me conhece muito bem porque convivemos desde miúdos, falantes em fraldas.

Que decepção. Uma pessoa tão íntima achar-me mergulhado em especulações metafísicas, representante do perfil que tantos atribuem aos poetas. Como se este versejador desiludido me condenasse ao lugar comum de sonhador que vive em uma torre de marfim a tirar a água que bebe das nuvens etéreas do mundo da lua.

Lembrei-me de Carlos Drummond de Andrade que gostava de se definir jornalista, cujo ofício é lidar com a realidade questionando-se como o real tem vez no dia a dia do vasto mundo.

Jornalista, este cético cronista da vida cotidiana, escruta as pedras do caminho, e, assim, vai mapeando as veredas pelas quais o amor, a beleza e a justiça contrastam o terreno infestado de tão profundas desigualdades, deformidades e brutalidades.

Querendo sondar feridas não cicatrizadas, alguns profissionais da escrita, enviesando o olhar pelas entrelinhas das linhas tortas, sabem ouvir “o que se deposita no fundo do fundo do mar de nós mesmos”, conforme diz o itabirano na crônica A mão esquerda.

Todavia, não me afogo no raso do pouco que conheço de mim. As minhas pretensões são modestas, e bem acanhadas diante da vida.

Quem dera tivesse uma gota da agudeza de Clarice Lispector que, mascando um chiclete pela primeira vez, como se ele fosse “bala que dura a vida inteira”, pôs em voz inimitável a tal vivência em Medo da eternidade.

De pronto, a mão traduz em palavras as ideias do escriba?

O que toca fica gravado, a mente, então, trabalha imagens, sons e sentidos. Sim, escrever tem regras marcadas. Mas aposto, não passo o tempo repassando pensamentos. Escrevo, logo jogo.

Contudo, busco o tom próprio ao que escrevo. Nisso, há alegrias e tristezas, êxitos e frustrações. Mas um texto não me agrada de todo, sempre quero aprimorá-lo. Isso desperta sensações viciantes. Assim, antes que a semente apodreça, publico.

Gol de placa?

Para cumprir à risca a escrita desse meu dia, digitei os números que me foram solicitados. Duro foi constatar que o meu dinheiro não era suficiente sequer para o saque mínimo.

Com a cachorra, de cara amarrada, com o reflexo do Luisinho no vidro do caixa a me enxotar “para o inferno da rua inundada de luz”, tratei de ir cuidar da orquídea púrpura que ansiava alguma sobrevida com uns dedinhos de água.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 16 de maio de 2021.