Requebrado
Acredito que lá fora faça um dia lindo,
com pássaros cantando nos floridos ipês amarelos. Acredito, a escuridão está
delimitada por quatro paredes, feita de tijolos, erguida por mãos experientes,
firmes. Assim, ainda que meus olhos vermelhos ardam para caramba, nada de
pensar que a bolha vai estourar de uma hora para outra, como nas fantasias de
um desajustado, alguém fora do prumo, como se a solidez do chão estivesse à
prova. Pois não está nem nunca esteve. Essa escuridão, o cubo escuro em que estou
nem é luva que me sirva, doendo estão os miolos cansados.
Então, serve para quê? Para circunscrever-me.
No que a minha percepção dá como um nó, a
carcaça sem cachaça perde a graça. Do cósmico nada absoluto ao relativo vazio
existencial, esqueço que a cabeça não tem paredes, mas o diálogo da consciência
comigo sugere um desarranjo, como se as forças não estivessem coisa nenhuma por
um fio, como se bastasse mais um passo para despenhar ribanceira abaixo, na
apoplexia de um instante, a indicar-me que estou abismado, de olhos abertos.
Desconfio que minha sensatez supõe ter alguma
imparcialidade, já que não tenho remorso. A ponto de dizer adeus? O meu siso tem
que parar de dizer que sou eu essa pessoa que confronta quem acho que poderia
ser, caso estivesse dormindo.
E dormir para quê? Para ter algum alívio.
Quando a tensão vai aumentando,
aumentando, numa progressão que faz os pintassilgos nos ipês amarelos virarem
urubus nos postes de eucalipto, então, o corpo acaba subjugado.
Apaga. Desaba. Sem escolha, acaba
adormecido.
O repouso leva a quê? Põe recomposto o
corpo.
Recompor-me para prosseguir? Para retomar
de onde estou.
Desde onde parei. Não parei, o meu corpo
apagou. Desabei. Vi-me obrigado a dormir. Por esgotamento. O corpo não
conseguiu mais se sustentar, foi apagado por dentro. A mente não pôde mais se
controlar, viu-se desabada. Meu esqueleto precisa de uma boa reconfiguração.
Refazer-me outro, livre de sentir-me esgotado.
Mas corpo e mente não têm unidade? Unidos
em eclipse.
Como o corpo não se separa da mente e a
mente não se separa do corpo, eu, assim como todo ser humano que tem
consciência de si no mundo em que vive, aceito como natural me sujeitar à
restauração das funcionalidades através do sono.
Do sono, sim. Da inércia, não.
Porque uma pessoa apagada por exaustão não
se sente no limite, e o ultrapassa. Distraída, com tanta coisa para cuidar, ocupada
com as trampas do mundo, a pessoa sorri quando aprovam o que faz. Todavia, nem
se vê vivendo a realizar tarefas, a cumprir os prazos, a pedir pela próxima
tarefa, pelo próximo prazo, até que...
Até que a vida fique um troço chatíssimo.
Então? Sem conseguir manter-me em pé, eu
danço, e sucumbo. De tão cansado, nem percebo que nem penso direito, tanto
que...
Fazendo um dia maravilhoso lá fora, ronco,
e ronco que nem porco.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 17 de junho de 2021.