O
ovo da serpente
ꟷ Papai, o que são favas contadas?
Na iminência de saborear aquela
colherada exuberante de pavê, o homem foi pego de surpresa. Percebendo,
entretanto, que se abrisse a boca tumultuaria o ambiente já bastante familiar, conteve
a língua.
Interessante, não ter resposta pronta
não era nenhuma novidade, e calar pra pensar poderia impedi-lo de comer, mas
não.
Se vivesse em outros tempos, quando o Papai
Noel ainda descia das nuvens trazendo presentes decepcionantes, que nunca eram
os brinquedos pedidos; época em que não trazia a bola oficial da Copa do Mundo
nem a bicicleta de alumínio levíssima, nem repartia cestas com nozes,
panetones, biscoitos e, menos ainda, o espumante que o guri de seis anos não
deveria beber escondido, só que não vivia.
Ora, o rapazinho atual poderia levantar questões
melhores. Talvez se não estivesse sentado, comendo chocotone, bebendo suquinho
de maçã. Dócil, de pernas cruzadas, guiado pela estrela peculiar do tênis de
couro, posto que sabia ser bom, como mimadinho da mamãe.
Boa! Essa dá pra contar sem ficar fulo
da vida.
O menino comendo a guloseima, e fazendo
questão de mastigá-la dando espetáculo. Sem ligar pros farelos emporcalhando o
carpete e sem dar a mínima pros bons modos de não falar de boca cheia.
Fez o que fez; portanto tendo feito, empenhou-se
em negá-lo. Daí a necessidade de disparar as desculpas, e sem perdão. Pedir
perdão seria admitir estar errado, e não queria levar um pito desmoralizante.
A tal queda, o fato ocorrido, era ter
dado um pedaço de chocotone pro Átila, que se engasgou feio a ponto de obrigar
a sua dona, e dona da casa, a passar um sabão daqueles em quem estava na sala e
não moveu um dedo para impedir o ato do desmiolado que deu o que não devia ao
pobre do cachorro.
Átila, xodó e paulistinha, já bem
maltratado pelos tantos anos de combate a moscas e outros insetos mil, já descadeirado,
desdentado, cego por catarata e meio surdo, um farrapo portador de pulgas, mais
outra vítima da longa jornada neste mundo afeito a atrocidades. Sim, eram flagelos
bem naturais que empesteavam de verdade o coitado.
Então, à vista das condições execráveis
do paciente, se não tinha remédio que ajeitasse a situação, restava recusar até
o visto do gesto a assumir a autoria incorreta. Saiu-se com essa, então:
ꟷ Isso aí no vômito do Átila é uma coisa
inexplicável, vovó, muito inexplicável.
Abjeto, abjetíssimo, porque o cidadãozinho,
calma e cruelmente, quase enfiou o veneno pelo focinho do indefeso quadrúpede.
Sempre adepto da racionalidade
ponderada, lembrou-se a tempo de que era quarta, o ponto médio entre a sexta
natalina e o Ano Bom da quinta seguinte, período propício a tomar partido,
ainda mais que julgava irrefutável ter argumentos pra entrar nessa história.
Do filho do seu filho escutara, afinal:
ꟷ Vovô, o que são favas contadas?
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 03 de janeiro de 2021.