terça-feira, 13 de outubro de 2020

Madeira de lei

 

Madeira de lei


Há assuntos irrelevantes. Há assuntos que me deixam indiferente. Há maneiras odiosas de abordar determinados assuntos. Há ideias que desviam o foco quando se aborda um assunto. Há confusão de sentidos quando determinadas palavras me deixam bem perplexo ao pensar um assunto candente, daqueles que puxam, sacodem e dão um tranco, ou seja, pegam daquele jeito. Há muito assunto à espera de uma palavrinha que lhe abra caminho neste mundo de labirintos, encruzilhadas e becos sem saída.

Uma ponte ajuda. E como.

Assim, com isso na cabeça, tomo o rumo de juntar gravetos. Faço um dique. Abandono a construção. Poderia melhorá-la, porém o outro lado acaba submerso onde deveria estar à tona, e firme. Nem sei se posso falar que estou na margem oposta, pois, de fato, estou perdido. E bem cansado de fazer coisas inúteis. Como ir a milhão atrás do que fazer sem a mínima ideia do que fazer, apenas pelo impulso de agir.

Preciso começar a trabalhar com a mentalidade dos práticos, dos que fazem tudo com um objetivo, de quem, tendo a meta em mente, não perde tempo e ganha um dinheirinho. Afinal, leva tempo ganhar dinheiro, ainda mais com alguma coisa trabalhosa, cheia de detalhes, algo que valha a pena desde o princípio, e justamente pela canseira. Contudo, um guindaste, de tão pesado, afunda na lama da beira, fica impraticável sua movimentação e é preciso largar. Puxa vida, não foi desta vez, de novo.

Então, puxo o ar, paro, olho as condições, calculo ângulos, levanto os problemas, estudo com paciência as circunstâncias, vai dar certo. Dará certo: desde que aquilo funcione assim; aqui pode ser a base contanto que ali siga sendo assado; então, fico a par do que existe, do mais necessário, do que pode fugir ao riscado, do que vai pedindo correções enquanto vai sendo realizado, do que serve mesmo à coisa toda lá no fim da trabalheira. Oba. Desta feita, o que tinha de ser feito está de pé, funcionando que é uma beleza.

Olho a obra realizada, a produção imprescindível. Sorrio, ô glória.

Problema encontrado e solução implementada?

Como tudo que é humano, chega um momento, este momento, o instante em que o jeito é encarar a realidade. Mudanças ocorrem com ou sem planejamento, tendo previsibilidade ou fora do esperado, por acaso, pelo componente precário que nós humanos trazemos dentro da gente. Todavia, isso quer dizer...

Significa que inteligente é ter guardado os ensinamentos, não só do que deu certo. É preciso ter cabeça, pesar os prós e os contras. E daí bolar um dique, uma balsa, um bote, uma jangada, uma pinguela, uma boia, um colete, uma ponte, um submarino amarelo.

Só fica uma maçada se sair juntando palavra depois de palavra, ir assoreando o riozinho apenas para exibir o orgulho de ter vencido, ter chegado, finalmente, aonde queria.

Taí, bom mesmo é não bancar saúva com bico de tungstênio.


Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 13 de outubro de 2020.

domingo, 11 de outubro de 2020

Coisa besta

 

Coisa besta

 

Conheço quem tenha tarântula ou leitoa como membro integrante da família, o que não consola da solidão, mas permite conversações em que não há contrariedades fúteis de modo algum. No entanto, vou contar meu caso: em vez de bicho exótico, ou tradicionalmente aceito à mesa de jantar como um coelho ou hamster, adotei um friozinho na barriga.

Peguei carinho, que nem sei o que seria de mim sem ele.

Percebo a geada anunciando a madrugada, já emendo um pigarro no outro para enfatizar que estou respirando com a desenvoltura da minha estabilidade emocional. Entendo ter alguém pulando o muro do vizinho, pisco os olhos como se uma lágrima apagasse a gatunagem. E antes do gole de café quando em visita da amiga diabética que põe melado só para um agrado, logo a mim que aprecio beberagens sem sequer um minúsculo grão de açúcar.

E lá vem o danadinho pôr as caras.

A língua estuda o gosto, e desgosto. Sinto areia na garganta, que nem arrisco palavras. Subo espuma rasa pra maré dos olhos. Ajeito o esqueleto pro suor a me esgotar de tanta esperança abatida.

Sem o desespero dos hiperbólicos, contudo, trato de me confortar. Assim, não digo que ando certo de que posso vir a sofrer um colapso dos nervos. Acalanto o friozinho como quem cuida de pessoa inválida das pernas, mas que ainda conserva a cabeça funcionando dentro do razoável. Ou seja, pelo bê-á-bá da aritmética sentimental, a soma de um mais um continua dando dois.

Então, não vou exagerar que me arrepio inteiro.

Que sorte administrar o faniquito com a discrição dos tímidos, que sou mesmo bem reservado. Talvez seja falha minha pensar que sorte dá em quem tenha mérito, e nada do que faço me enquadra.

Vivo a vidinha dos destinados a pagar suas contas no prazo posto no boleto, comer meu pãozinho com presunto magro no café das três e roncar diante da TV antes de ir fazê-lo na cama.

Sem drama, minha rotina tem muito pouco do que imagino a quem merecedor de destaque na comunidade.

Dia a dia, calo a calo, durmo bem. Eleição depois de eleição, gripe a gripe, como bem. De lua a lua, no morde e assopra, a minha mente suporta uns trancos.

Embora um joelho inche quando corro atrás do ônibus que preciso pegar pra ir pra longe, tão longe, que topo atravancar o corredor com a minha máscara lavada.

Agora, estando no sofá de casa, de camiseta e bermuda, dispenso o rigor dos protocolos. Comendo maçã, e que delícia de carne macia, aguada, nutritiva. Isso me convém; convencido, permaneço a comer fatia a fatia. Tomara o geladinho da fruta não traga dor de dente.

Fecho os olhos, a dor que não sinto vai atrás de mim. Na torre da igreja, estou badalando os sinos. Quero acordar quem sonha. Mas os pardais não se compadecem. Tem chão até a alvorada. Na pracinha, tem cães dormindo. Com gente querendo ficar junto.

Não está doendo, mas poderia. A ideia nem mexe comigo.

O caso é sério, doutor?

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 11 de outubro de 2020.

quinta-feira, 8 de outubro de 2020

Um sol pra cada um

 

Um sol pra cada um

 

Tem feito calor, muito. Se as condições me permitem adiar meus compromissos, faço-o que nem disfarço o sorriso. Ficar em casa tem preferência em dias de sol de rachar. Há vários dias, por sinal, tenho ficado no quarto. Longe do sol, mas não do suor, do esgotamento, do cansaço úmido. Certamente, há quem veja alguma vantagem em ficar em casa a maior parte do tempo. Se consigo resolver o que preciso, então, o dia está salvo. Como, no entanto, as quatro paredes não me protegem da temperatura elevada, nem mesmo a careca está isenta do suor. Nem preciso falar do ar parado, terrivelmente abafado.

A inclemência? Seca-me a boca. Tomo muita água, fazer o quê.

Reclamo da situação do planeta; a que ponto a civilização levou a Terra. Há no ar um panorama de fim dos tempos. Mas não é por isso que bebo água. Tenho: sede; tendência a ter pedras nos rins; e gosto de molhar a garganta antes de ralhar contra a sociedade de bípedes, mamíferos, seres habilitados a usar a dupla polegar e indicador como ferramenta. Duvido muito que tal uso tenha origem natural, pode bem ser que tenhamos copiado de algum bicho mais esperto. Logo, vítima de nossa barbárie, que a cobiça e a ganância nos mobilizam a querer dar a nossa cara a tudo que tocamos. Achando que somos o rei, daí que destruímos em nome de progresso, bem-estar, como se o mundo fosse nosso.

Reinamos? Sinto que estou pegando fogo. Sinto as queimadas do Pantanal, da Amazônia e da Mata Atlântica. Tenho pescoço, e minha nuca fica suada. Dia e noite, sinto-me suado, pegajoso. Da nuca para baixo, suarento. Contrariado com a realidade.

Os dedos sob os raios do sol também suam. E conferem a pele do pescoço. E sabem que fico chato quando não durmo direito. Ponho a tamborilar por qualquer motivo. Todos os motivos são um só, dar um basta ao calorão que aborrece, impacienta e tanto irrita. Tanto pego a batucar que mais fico suado, deveras aborrecido.

A neve preta denuncia a devastação. De resto, é preciso recolher a cinza que o vento traz. País afora, o vento espalha.

Como queria que o calorão acabasse em água. Mas não chove.

Então, as águas evaporam, viram nuvens e vão inundar Sampa? Então, é assim que os céus compensam a minha prostração? Chover só em São Paulo?

Vai chover longe daqui. Isso nada tem que ver com a intensidade que meus vizinhos atribuem ao calor. Vai chover por aí, e sentimos o termômetro frustrando nossos desejos. De que chova aqui também, a dar alívio ao mormaço que gruda na pele, ensopa as roupas, e acaba criando micose.

Estou confuso; leio o que vim escrevendo. Dou por encerrado. O cérebro diz que está bom. E a consciência? O cérebro ignora-a.

Quero honrar a educação que recebi.

Quero água.

Quero um final feliz, um bem bacana.

E como quero.

Com dez graus a menos, a minha sapiência ficaria evidente. Mole, mole. Todavia fritos, os neurônios impedem-me.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 08 de outubro de 2020.


terça-feira, 6 de outubro de 2020

Meio intolerante

 

Meio intolerante

 

Os olhos estão cansados, e a realidade, que poderia dar uma boa colaborada, continua no lugar de sempre. Sob tensão. Indisposta com o sofrimento que a gente anda passando. Então, o jeito é pedir com entusiasmo, pondo ênfase nas palavras mágicas: xô, corona!

Neca.

Claro. É óbvio que o mundo não vai ouvir desejos. Por mais que a pessoa tenha fé, autorize os céus a intervirem no cotidiano restrito de movimentos ou queira falar de outros assuntos que não sejam vírus e política. Sei, sei. É crueldade da vida ficar batendo nas mesmíssimas teclas dia sim, outro também.

Por ingenuidade ou ignorância, a miopia não deixa ler a vida nem com a praticidade dos realistas nem com o desagrado dos utopistas. Melhor selar a luz das coisas com as retinas afeitas à resignação.

Veja só, uma garça passa crocitando no começo da noite. Talvez ali por volta das oito, comigo lendo na cama. Já as pálpebras tecendo o peso nas letras, que viram uma mancha, com tendências a taturana a percorrer um tanto. Nem um palmo, uns milímetros. Só pra dificultar a leitura; portanto, prontamente interrompida. Seja pelo som do bicho que passa, seja pelo cansaço de todo um dia de tarefas.

Comprar a lâmpada da sala e trocá-la. Decepção, que coisa louca o soquete ou um fio oxidado. Sei lá. Mexo, mexo, até que acenda.

Consigo dominar a saliva, embora o pé force na escadinha.

Ainda de manhã, ida ao supermercado. Sem perda de tempo. Item por item, tudo pego. E toca voltar ao setor de frutas e legumes, pois a pesagem deveria ter sido feita antes da carantonha da caixa.

O sangue dobra a língua, encorpa o pqp. Escapa mentalmente.

Cultivo um mundo circulando dentro de mim. Visita os rins, e bebo água. Mais de quatro copos, é pra não enfurecer de cólica. Divulga a insuficiência do fígado quando há exagero de gordura. Contrafilé tem rebarbas de banha que dão gosto à carne, e nem só de sal vive este carnívoro. Puxa vida.

Como se vê, minhas neuroses clamam pela escuridão sem lua. Vá dormir, seu infeliz. É preciso encaixar seu esqueleto entre o sono que já está vindo e a orelha sem pulgas do ronco largado.

O amanhã mais próximo não é sábado. Terá negócios outra vez. Terá outra renovada agenda de afazeres. Trate de domesticar-se pra enfrentar a feira dos dias. Como se o horário comercial seguisse por umas horinhas a mais. Caramba.

Por curiosidade, atiçado pelas minhoquinhas da moringa, acendo o abajur. Fuço no celular na cabeceira da cama.

Descubro...

Garças gazeiam; quem crocita é o corvo.

Sinceramente, percebo alguma bondade formigando?

No sacro, à direita de mim, em pé ou deitado, há um desvio. Como bom desviante, curto uma dorzinha bem sacana. Ajuda tirar de mim o mel de outro mundo, aquele mais belo, cheio de garça crocitante.

Não quero nem saber da placidez como virtude.

Ou os fatos fazem as pazes comigo ou vou piorar, na ranhetice.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 06 de outubro de 2020.

 

 

 

 

 

 

 

domingo, 4 de outubro de 2020

Dando linha

 

Dando linha

 

Sempre firme, o horizonte mantendo distância confortável da vista serpejante de rios e montanhas, assim há espaço pro azul aquietado, embora inquietante a quem ainda o quer bem bonito. Meteoro arisco, explode a ideiazinha diabólica de que ele possa um dia vir a sumir do mapa, varrido pros abismos da Terra, onde prosperam os humanos a comer, insaciáveis, as entranhas da sua face, e nosso lar já infernal.

Quando entro a pensar na postura da espécie à qual estou ligado por genética travessa, tonteia-me sabê-lo. Uma vez que como e bebo com a agonia dos inconformados, passando palavras amáveis sobre a hipocrisia, na torcida pra que a demão edulcore-a.

Meio pueril de minha parte, admito.

Sempre firme, no propósito de sustentar-me mais equilibrado, sigo trabalhando pro próximo e para mim. Ainda que os calos doam-me as mãos, as costas sintam o suor da carga morro acima, trabalhando. Já o riso, já a lágrima, os preservo não tão exagerados e reservo-os pros instantes de sua manifestação, menos pândego.

Assim, parado um instante na laje de casa, sentado numa cadeira de vime que acomodou o meu avô, olho estupidamente pra tarde que nada me diz das suas vontades.

O mistério do mundo está no sensato.

De repente, a criançada fora da escola solta pipas. O céu ganha o alarido daqueles volteios, fica tingido de esperanças desconcertantes a quem um dia irá soltá-las da linha 10, e mantém-se lúcido, que nem o bando de maritacas que passa ignorando a loucura da guerra aérea por varetas, sedas e metros e metros da tal linha.

Até numa brincadeira, somos vorazmente carniceiros.

Pra não desabar num mau humor que afete meu estômago, deixo que as nuvens contem histórias, movendo e removendo formas. Dali a pouco, a face horrenda da bruxa dos desenhos de meus nove anos. Depois, um bicho, elefante virando cachorro virando camelo.

Olho, e sinto o que vejo.

O sadio do meu coração espia o céu. Brilhando desafiador, há sol. Topo deitar no cimentado da laje. Além dos muros de casa, há esta cidade que envolve. O entorno tão vivo convida a sentir o corpo como objeto de prazer, e gozo, outro dos “irresponsáveis trabalhando”.

Tiro tênis e meias. Tiro a camiseta. E meus óculos.

Estico as pernas. Pouso os calcanhares no chão. Passo os braços sob a nuca. Sinto-me flertando com a vida azul daquele céu. Falta um silêncio de mosteiro no alto da montanha. Tudo bem, o Monte Athos fica longe, bem longe de onde estou, mas estou numa boa, curtindo a folga do apocalipse. Quero uns minutinhos.

Sem um real a mais no salário ─ calço as meias, preciso cortar as unhas dos pés; calço os tênis, que pedem água com urgência; e visto a camiseta encardida, desbotada, bem surrada.

A coisa aperta. Há em mim esse sentimento que pouco se parece com satisfação, que já não tem pastel de palmito na rua onde a gente andou de bicicleta pela primeira vez.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 04 de outubro de 2020.

quinta-feira, 1 de outubro de 2020

O intermediário

 

O intermediário

 

Era aniversário do pai. E tudo contribuía pra felicidade geral, dele próprio com as devidas expansões, afinal sentia-se bem, com os seus ossos bem dormidos, os seus pulmões bem arejados e a cabeça boa pra cálculos improvisados. A data pedia mesmo um sujeito apto às verdades, que a realidade não o constrangesse a negar-se felizardo. Embora surgisse aquela coceirinha danada em algum lugar da massa cinzenta, louco pra contrariar-se, sabotar-se, desapontar-se. Sentindo a autoestima em ótimo estágio, percebia-se no comando de si, mas a vaidade moderadamente mal-intencionada...

Nem bem sentara à mesa, passou a elogiar-se. Antecipou-se aos problemas, que lamentavelmente não atinariam com seu momento de confraternização efusiva.

O mundo inteiro sabe que basta falar e as desgramadas das dores de cabeça estragam o estrogonofe, azedam os pavês, fazem aquele estrago. Pode ir dando adeus à nuvenzinha levemente hidratante de neurônios exaustos; tchau, paz de espírito.

O grande homem, porém, não esmorece com facilidade.

O grande homem se reconhece pela espiritualidade, de gente que conta com suas moedas para negócios de pequena monta, como ir comprar cigarros na esquina depois da novela. Mesmo que não fume, vai num trago e volta num pigarro. Senta-se já alegrinho na roda das crianças pra ouvir-lhes os bonecos no salvamento do dia.

Quando sóbrio, o homem honrado nem repara no que vai fazendo. Tão logo tenha escovado os dentes, apaga a luz do banheiro; saindo, dá uma olhadinha rápida pra torneira bem vedada.

Capaz de idolatrias, preocupadíssimo com família, até telefona pra namoradinhas do colegial, cobrando boletins dos ocorridos. Que não lhe escondam nada ─ nem caxumba e nem virose.

Brilha na TV um ícone do jornalismo, alguém que há tempos dizia o que segue dizendo só que em outro contexto: a favor da mudança política, que a maioria fosse ouvida por meio do voto. O voto sofresse as cirurgias éticas precisas, pra ver-se livre de cabrestos coronéis.

A pessoa de fibra não se entristece; agradece ao recusar a última fatia de bolo de carne; dispensa comentar os chavões que pululam a torto e a direito. Não entra na ciranda contra os dias correntes, que as minorias tremulem aos quatro ventos as suas agendas.

Você enaltece o homem quando as pessoas, sem parentesco com o dito cujo, dizem dele maravilhas. E muito mais gente, sem usufruir do café da manhã na cama com o fulano, destaque nele as virtudes e as capacidades práticas que dão inveja. Assim como muitíssimos não franzem a testa nem fazem bico, nem mesmo pelas costas, você quer apoderar-se dessa alma, imitá-la.

Enfim, com uma autonomia que dá gosto, o seu surrado fígado faz a ponte entre a consciência natural do mundo e a carapaça agitadora da realidade; e a besta só tem que voar baixo pro sanitário em plena alvorada.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 01 de outubro de 2020.

 

 

 

 

 

 

 

 

 


terça-feira, 29 de setembro de 2020

Galo aberto

 

Galo aberto

 

A janela era pequena, parecia menor que um metro. Não bastasse o tamanho minúsculo, desproporcional à face de pedra em que se via incrustrada, uma das suas metades, do centro pra direita, exibia uma cortina abreviando-lhe a abertura.

E poderíamos ir além do pano coberto de figuras. Reparando bem, uns pequenos beija-flores, pretos sobre fundo laranja. Algo relevante, de imagem sóbria.

Fixemos a nossa atenção na parte nua. Mais, tenhamos a audácia de ir pela fenda. Há luz, provavelmente de uma vela.

Mesmo que não haja quem nos dê permissão expressa de sondar o seu derredor, imaginemos o que possa estar iluminando.

Que coisa. Por algum motivo, recuamos.

Um gato miando na vizinhança? Um bêbado proclamando pragas?

Uma distração.

Ainda que a curiosidade com aquele recanto parcialmente exibido por meio metro de visibilidade funcione como ímã, a nós outros que aqui estamos observando, prefiramos calar quanto às relações dos seres vivos com os objetos do recinto.

Mantenhamos a cautela de não saborearmos outros dissabores.

Temos nossas obrigações históricas e políticas; no entanto, que a nossas fabulações não extrapolemos, que isso nos impeça de supor o que não ouvimos dali, além da janelinha simples sobre o caos.

Fiquemos nessa presença. De uma distinção acusatória.

Não sei quanto a você, mas me desgosta tomar alguma correção pelo constrangimento do dedo levantado como se algum limite tivesse sido desrespeitado. Vindo o pito, acabrunho-me, dá-me um calor, fico vermelho; vendo o efeito, quem pensa corrigir a falha com o gesto de autoridade cutuca a ferida, como se adviesse um aprendizado besta.

Mas a pessoa bestificada, bestificada ela fica.

Onde a linha imaginária foi cruzada? Se imaginada, invisível. Se a mim não me serve de barreira a não ser transposta, como evitá-la?

Pessoa comum, como qualquer que enfrenta os problemas com a dignidade dos tranquilos, posso presumir que me julgam prejudicado de algum modo pelo juízo, incapaz de avaliar a minha falta, já que a cometi metendo o nariz onde não deveria.

Respiro fundo. Olho a janela. E a luz ignora o mundo de cá, fora.

Como isso me atordoa.

E penso: antigamente era ainda um instante querendo tornar-se o passado perfeito, só que não passava. E, perdurando, segue sendo a escuridão que meus braços cegos não medem o suficiente para evitar a testa no batente.

Acidental, o presente que continua a se tornar insuperável por não distinguível do corpo que sinto; lugar em que me vejo circunstanciado por sensações, e abstrações correlatas.

É óbvio: canta latejante o galo, querendo gelo.

No aturdimento da ideia, o oxigênio escasseia, o sangue engrossa e os joelhos pedem o chão. Seguro a lágrima, que não descarregaria a vergonha do engano, do cálculo que não muda a porta um palmo.

Aliás, galos abrem as manhãs, não janelas.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 29 de setembro de 2020.

domingo, 27 de setembro de 2020

Precisão

 

Precisão

 

Há prazeres civilizados que prosperam com maior facilidade nas pessoas que separam o joio do trigo só pelo faro. Experientes de tal forma que as condições de cada estação entram a orientar o sentido de sua estada no mundo sem pânicos nem desesperos. Satisfeitas da vida, mais acentuadamente com a passagem da seca do inverno pra umidade da primavera, sorriem feito ipês amarelos, roxos, vermelhos, azuis, uma palheta de irradiações tão esplendorosas que a realidade oferece a quem esteja perceptivo a tamanhos maravilhamentos.

A sabedoria vem pela atenção às coisas da vida. Geralmente, nas pressas disso agora e daquilo pra ontem, a boca engruvinha de tensa e o olho pisca inventando cisco. Vê-se que dá trabalho ir vivendo.

Portanto, sábio não cochila debaixo de jaqueira carregada.

Contudo, tem quem goste de criticar só pra manter a posição que julga ter.

E como havia o que pensar depois daquele almoço, com a família reunida em torno das contrariedades. Sobrando passar pito no genro perdulário, a remendar dos maltrapilhos da netinha predileta. E assim, falta sal no talharim; e assado, é muito alho no frango.

A cabeça do sujeito estava neste estado, vítima de aflições vindas de roldão. Pressentindo o angu virado da congestão, saiu.

Foi caminhar.

Pra respirar em paz, andava devagar. Tinha de sentir-se calmo.

Queria deixar-se à solta pelo mundaréu de árvores, que nem sabia os nomes. Ouvia a passarinhada, gostando bem.

Homem da cidade, aquilo entrava pelos nervos, tirando o peso na pegada. Mas, precisando provar concreto o terreno pisado, cuidando não cair nem nada, firmava o pé num caminho já trilhado.

Respirando o úmido da relva, apurava o senso, que nem percebia.

De repente, talvez por sugestão da mata tão viva em diversidades de planta e bicho, deu com um cajueiro exercendo a clareira de sua beleza, como uma história antiga.

Diante do insólito da abundância de cajus, ruminou contar-se que eram três homens. Cada qual pegou resolver o que tinha de dar cabo.

O primeiro plantou uma mangueira na frente da casa. Prevendo as mangas madurinhas, fez uma escada. Quando a árvore estava cheia de frutos vistosamente suculentos, nem pôde erguê-la, uma vez que tinha dado cupim.

O segundo virou um touro de bravo porque ficou sem TV. Da noite pro dia, por conta do vento forte, a parabólica rodou que não pegava canal algum. Pra piorar, gastou um dinheirão com escada pronta.

O terceiro dos homens, esse plantou uma pereira. Foi podando de tempos em tempos, acompanhou o crescimento da planta. Confirmou na internet a época certa pras peras serem colhidas. Cortou galhos e preparou a madeira, fez a sua escada. E curtiu comer no pé uma fruta mais gostosa que a outra.

Ô caminhada.

Ainda que não tenha ido muito longe com o domingo, justamente, salivava azedo o creme de leite das goiabas da cachola.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 27 de setembro de 2020.

 

 

 

 

 

 

quinta-feira, 24 de setembro de 2020

Aqui e agora

 

Aqui e agora

 

Muito bem. Pelo acaso, digamos que você tenha estado num lugar dos sonhos, um bom paraíso, com tempo firme e instável, calor e frio, sol e lua, ipês floridos na mata ribeirinha e grama boa para uma cabra aqui e uma vaca ali, fora as galinhas pros ovos benfazejos nos galhos de limoeiro, laranjeira ou abacateiro, menos na araucária apinhada de pinhão, que o inverno merece café com pipoca. Já ia pondo de lado a casa híbrida: pro frio de julho, tem a parte de alvenaria; e pro calor de fevereiro, tem sala e cozinha de madeira, nada mais comum de achar em muito interior por aí adentro. Puxa vida, parece que sua televisão, sua geladeira, a sua máquina de lavar roupa, o seu ferro de passar, o telefone celular, o microcomputador, o micro-ondas, e todas aquelas bugigangas não mencionadas, tudo dispensável, por falta de luz.

Mas tal prosperidade, assim como veio, evaporou-se.

Você está de volta ao seio da civilização, de acordo com o modelo de um ocidente europeu com toques asiáticos e africanos. Todavia, o regresso deixará de provocar dores e espantos abissais, passando-se por cima de sutilezas e pormenores que particularizam cada pessoa. Grosso modo, há de ignorar vieses.

Ter sua vida posta outra vez nos eixos do progresso irritantemente tecnológico, da ordem monetária especulativa, dos modos massivos a ditar o errado pelo certo, das coletividades maquiadoras de indivíduos e de um estado demográfico que endireita. Em outras palavras, terá você tirado a sorte grande de ir viver de novo no hospício controlado pelo Simão Bacamarte erigido em contraindicações, por dar excesso à razão ou abusar das ervas?

Nestas circunstâncias, alguém diz para você que o tempo passado longe da sociedade tem que ganhar corpo em histórias, e contratos já começam a pedir autógrafo nas linhas pontilhadas, e roteiros já levam em consideração podcasts, lives, curtas e longas metragens, novelas, séries para maratonar com a família, entrevistas exclusivas com meio mundo mais seu pai.

No meio desta avalanche de situações bastante embaraçosas pra você, que nunca antes tinha se tocado da importância de cultivar uma fama própria, você acha redundante a insistência e a persistência de perguntas e mais perguntas sobre a mesma coisa: a vida numa ilha.

Sua existência era mesmo alienada. Fora do padrão definido pela régua dos costumes, dos consumos, dos comportamentos. Esta sua estada temporária à margem da vida plena, você não se alimentava de vaidades e tagarelices tolas, fúteis, acondicionadas pelo efêmero. De fato, ela era deveras de outro mundo.

Já pra cá!

Mas, pro futuro financeiro dos vendedores de sonhos acessíveis a quem sem vocação para engendrar fábulas tão diferentes do lugar comum a toda gente, fazendo bem rapidinha uma revisão mental...

Se não tem semente, jabuti não come jabuticaba.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 24 de setembro de 2020.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

segunda-feira, 21 de setembro de 2020

Queima de escroque

 

Queima de escroque

 

Quando impensável, o inacreditável sai correndo sem ter apertado a campainha da velha senhora farta das brincadeiras de criança. Para evitar precipitações estapafúrdias deste quilate é que existem carros de publicidade: vendendo, por escandalosa pechincha, suas pamonhas de digna procedência, suas cartelas de ovos de galinhas otimizadas; comprando, por um preço muito assombroso, ferro, aço e alumínio de natureza pura, casta e imaculada. Ainda bem que o incrível acontece de vez em quando, como exceção bem-vinda, pois a tal da monotonia chatonilda não iria provocar nem um sorrisinho miserável no cidadão atarefado com o pouco sal no arroz sem bife, com batata morna. Para que a rotina pasmacenta seja pega de surpresa: bem na cara de toda gente, passa aquele veículo inconfundível: em cada uma das laterais traseiras há um espetaculoso painel de recursos gráficos circenses; invisível aos olhos, mas auspiciosamente audível, o fino da novidade derruba todo e qualquer óbice com o choque de ir vociferando:

A MAIOR ÓTICA DE TODOS OS TEMPOS!

A maior. É sensacional. Agora, sim, os reais já estão coçando por armações de nomeada, lentes sensíveis, estojos agradabilíssimos, e aquele atendimento do balacobaco, uma vez que, por suposto, todo e qualquer freguês bem o mereça.

Até se pode discutir a potência de uma visão cristalina, correndo o risco de algum desapontamento, por gerar tristezas opacas, preferível fingir-se embasbacado com o céu magistral, sem enxergar os urubus que seguem completando círculos contínuos, centralizando antes do mergulho verticalmente cirúrgico, no alvo.

Urubus atacando feito águias, falcões ou gaviões.

Sim, transmutações acontecem. Mas os olhos precisam acordar.

E o que dizem do mundo os olhos realistas?

Sobre urubus. Pra angariar fundos, com fúria animal, caçam ratos míopes, abatem preás astigmáticas e desvisceram víboras ceguetas. Gananciosamente, no ataque.

Padronizados no bom-tom dos efeitos, não só razões amealháveis despertam tamanho furor nos urubus, leia-se, nessa esquadrilha tão funcionária que acaricia balcões, acalanta cartões, seduz cifrões.

Vendedores têm fome. Deles, os maiores endividados endoidam diante da clientela. Assim, farejando algum bolso com forte tendência a abocanhar logro como patacoada irrelevante, assanham-se com as ofertas.

Dentre os consumidores, por sua vez, há que se destacar aqueles com sede dos mais inebriantes sentimentos, de coração sem fundo a palavras gentis, gestos afáveis e olhares convidativos.

Embriagados por ouvidos românticos, colhem do luar o orvalho de jasmim; da enseada, o murmúrio relaxante; da praia, o torpor próprio a enlaces lúbricos, aos enamoramentos esvoaçantes.

E a luz no fim do túnel?

Tem desejos que torram a alma com os olhos da cara.

 

Rodrigues da Silveira

Praia Grande, dia 21 de setembro de 2020.

domingo, 20 de setembro de 2020

O chão do amor

 

O chão do amor

 

Dispenso ao tolo perguntar: o Brasil ainda existe?

A hora é grave, a mim não me convém responder pelas pessoas. Por gravíssima, aliás, nem mesmo hei de ousar resposta, qualquer ou específica.

Especializada. Particularizada. Meticulosamente, organizada.

Por brasileiríssimo, erraria, todavia, ao privar-me dizê-lo: este país está na fauna e na flora; pelas relações alimentares em inter-relações intempestivas ou extemporâneas, organismo vivo.

Fixe-se a ideia.

O micróbio que luta neste estômago murcho (mesmo que forrado de vez em quando) come o bife que apressadamente mastiguei (com os meus possantes dentes: obturados ou postiços) no almoço com os respeitáveis representantes (pessoas a pôr ordem às semânticas) da sociedade, em algum evento (civil ou paramentado) digno de menção numa de minhas recentes notícias (cronicamente assimétricas, posto que resta a mim escrevê-las ou padeceriam no vazio) ao mundo, para que se mantenha funcionando, com milhões de milhares de bactérias (mais os bilhões de seres nanométricos) a trabalhar (reputo possível a interferência do que, ô vida, aspiro) pela realidade.

Porque é justamente aqui, definido por longitude e latitude, que há tal chão florescido substantivo que bem o nomeia único: Brasil.

Não fraquejarei. Ainda que a orquídea de tantas contendas muito evocadas interrompa o trânsito de tantas timidezes, terei franqueza.

O momento é decisivo, e decididamente é preciso dar um basta, e que seja bastante efetivo. Faz-se a hora de avivar o pensamento; dar corpo próprio ao entusiasmo; amá-lo casto no visível das uniões; ao palanque do Chuí ao Oiapoque, trazê-lo palpitante; coordená-lo mais otimista; louvável de jeito e maneira; com a cara de muita gente.

Quando falo de gente, ando falando de quem?

Gente, em demasia sofrida, assaz brasileira na variedade de suas esperanças, adrede impávida apesar das derrotas, álacre jovial nos seus pecadilhos, verdemente imberbe pros fios gris da vilania.

Avante!

Venha à luz o sol de Ipanema. Suba ao luar a viola pantaneira.

O país livre de promessas precárias. A nação libertada de alianças predatórias. Pátria libertadora que refuta o boçalismo das castrações.

Basta de espasmos ácidos, flácidos e ciclotímicos.

Faça-se ao justo a honra do amor ao próximo. Possa o operário as obras de uma vida saudável. Colha o rizicultor mais que a palha das suas tarefas. Cresça no tíbio a voz da sua confiança. Que a juventude abrace a senectude sem roaz desafeto.

Neste instante de palavras sinceras, a honestidade desta verdade: é estúpido dar megafone a quem surta na calada do susto.

Não há mágica que esconda no truque o turbante do falaz?

A verdade seja dita. Seja, de fato, explícita. De fato, óbvia.

Que eu grite; que você possa gritar; por isso, então, gritemos:

─ O mocotó é nosso!

 

Rodrigues da Silveira

Praia Grande, dia 20 de setembro de 2020.

quinta-feira, 17 de setembro de 2020

Viola ensolarada

 

Viola ensolarada

 

Tocado pela vida, toca-a.

E percebe, deve estar ultrapassando algum limite, o do bom-senso talvez, ao admitir que topa fazê-la soar de alguma forma menos árida, de algum modo mais harmônica e de um jeito todo seu. Já intui em si a mão dourada da fortuna a convertê-lo em ouro, e sorri.

E sente, está nele vivê-la ao vivo, em carne viva, sem ensaio, no improviso da alegria e na satisfação do solo. E aberto a duetos, trios, quartetos e, enfim, a uma orquestra inteira que venha portar-se junto, incluindo-o. Toma parte no que toca, bem feliz.

E aprende o tom. Faz-se um instrumento afinado. Busca o primor na execução e na audiência, a primazia da fruição. Pode aplaudir-se, captando a melodia: passivamente ao acompanhá-la e ativamente ao compô-la. Sua, que a apresenta da partitura ao diálogo.

Apreende horizontes enquanto respira.

Há decisões que o espelho cobra-lhe e, entretanto, nem água lava ou torna mais leve. Há mensagens por demais transformadoras que o abalam, obrigando-o a levantar o queixo, e encarar. Há especulações inadiáveis, cujas premências definem outros rumos, e os acolhe como norte, e pedem perspectivas diversas, e as vislumbra desintoxicantes.

Então, reconhece: há sombras que se dissipam, voláteis; há rugas que se manifestam, maduras. Entre feroz e cordato, há de viver sem usar os cacos para rejuvenescer ou mascarar-se ingênuo, inocente, inconsciente. Mas sangrias entortam a vida, e cabe a ele vivenciá-las iluminações rutilantes. Perde-se; acha-se. Por sujeição; por sugestão. Há apuros que depuram. Há apupos que envaidecem.

E compreende o que entende, pois assume o posto ao qual acorre quando possesso, distraído, tonto ou centrado, uma vez que, se bem se mantém, a toda hora, a todo momento.

Lá está o farol pulsando aquele eco de luz que o arremata do mar de desespero no qual se vê abismado. A âncora da realidade não o encontra morto nas certezas e petrificado na constância, afogado nas tristezas que o acovardam.

Disparate: o alarme de emergência do elevador está doidinho.

Embora vindo sem pedidos de socorro, acolhe e deixa-se acolher. O aleatório acossa, incomoda, seja pela estridência monstruosa, seja pela reprodução caótica; suscitando-lhe uma dependência emocional, uma carência bioquímica, o aprendizado do imoral.

Astuto, filtra a sobriedade ao trocar sol por dó...

Tanto age pra fora quanto reage por dentro.

Como imbecil, rasga a pauta; fanfarrão, coloca fogo na lira; burro, bate suas patas na terra em que circula, à beira d’água. Se tem sede, não bebe. Com fome, não come. Dispensa a onda, e não surfa. A vez não vem: tasca pressa, e mais acelera.

E agora? Brigo comigo por que me desobrigo do futuro?

Bastante infeliz, abre os olhos, escancara a janela. Escuta melhor: o tropel dos passarinhos ajuda a livrar do cativeiro o amanhã.

 

Rodrigues da Silveira

Praia Grande, dia 17 de setembro de 2020.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

terça-feira, 15 de setembro de 2020

Passos da estrada

 

Passos da estrada

 

Isso é ridículo, eu sei.

Mas, digamos que você não tenha dado a devida atenção, como quem chupa uma bala grudenta, talvez uma toffee que toma os vãos todos dos dentes, com artimanhas de felicidade acelerada, só que vai indo contra si, contra o prazer do desfrute, daí vem este resultado que derruba o entusiasmo, numa frustração bem irritante.

Isso é constrangedor, eu sei.

No entanto, se você pensasse com um pouco mais de parcimônia, como quem ao vir um uniforme não divise a violência nem o risco de morte, enxergaria nitidamente a ordem seguindo um poder natural, de atendimento às suas, que também são as suas, regras e atribuições ─ de manutenção sanitária, gestão administrativa, vigilância social.

Isso é assustador, eu sei.

Todavia, será possível que você possa um dia entender o quanto o mundo tem vida própria, como quem dispensa os motivos de uma pedra afundar na água, mesmo que o copo seja pequenino, com uma diminuta profundidade; mesmo que o aquário esteja turvo, com baixa oxigenação; mesmo que o rio passe pesado, barrento, com horrenda exposição de cadáveres, desde uns galhos ressequidos às cadeiras berrantes de plástico; pouco importa o quanto haja de vontade de não ir pelos caminhos de sempre, ainda vai.

Isso é coisa que não se diz nem mesmo em público, eu sei.

Contudo, os galos ainda cantam, como quem abomina atrasos; os pardais seguem avançando a manhã, como quem lota trens e ônibus; as margaridas labutam sem trégua, como quem recolhe das calçadas o que, sem piedade nem misericórdia, os toscos teimam em vomitar diuturnamente, para o delírio de tantas gentes.

Isso é nojento, eu sei.

Certo, nunca se deve duvidar da própria sorte, como quem dá por perdido o que sequer está em jogo ─ a plenitude do desejo, a audácia dos sonhadores que despertam por conta própria na hora certa; como quem colabora com o inimigo, movido menos pela vingança, na frieza calculista que deixa a sopa esfriar, mas por desânimo raquítico.

Isso é lamentável, eu sei.

Embora seja o que seja, é preciso abrir a janela antes de sair para o tempo; é recomendável destravar a porta para receber a dignidade dos visitantes que pedem água; é preferível ir com aqueles que não desistem de cantar; mesmo atravessando o coral, como quem tem a espinhela pensa, numa tensão de querer andar um passo à frente, só que redunda em curva, e vai, pensando conseguir um passo a mais, vai e, justamente quando nem espera, chega, está de novo às voltas da partida, como se em todo fim brotasse o começo.

Isso é política, eu sei.

Porém, peço que parem os arremessos de copo no rio que sopra sua canção de melodias conflitantes, que canta sua ode ao confronto, que ignora quem o observa, à margem de si, à parte da vida, mesmo no mundo, constrangido a negar-se como parte interessada naquilo.

Sabe-se bem que é de matar, essa tragédia.

 

Rodrigues da Silveira

Praia Grande, dia 15 de setembro de 2020.

 

 

 

 

 

 

 

domingo, 13 de setembro de 2020

Um caso sério

 

Um caso sério

 

Protocolo: 064/6901690451-51.

Usufruindo das mais perfeitas condições de sanidade, portador de idade superior a 21 anos, residente e domiciliado nesta presente casa em que habito, divulgo o número acima para que a operadora da rede de internet não fique perdida ao me chamar de mentiroso, permito, de fato, o acesso ao conteúdo gravado para todos os indevidos afins.

Aqui, passo a transcrever o diálogo, ipsis litteris, conforme alguém relapso franqueou-me vítima do testemunho, logo a mim que estava apenas interessado em saber se havia problemas com a linha.

No momento da ligação, eis o que pude escutar de bico calado:

─ Tem neurose que dê sono?

─ Tenho.

─ Então, me veja duas.

─ Duas? O sono é um só.

─ Ando numa dureza pra pegar no sono.

─ Uma só já basta. Pode dar overdose.

─ Overdose é pros fracos. A minha insônia tem saúde de ferro.

─ Então, vai dar ferrugem. Meu dever é antecipar o perigo.

─ Abono de Natal é que vem antecipado.

─ Não, não. O que chega antes é quem vence.

─ Ao vencedor, o sofá. Eu sei, por isso preciso cochilar logo.

─ Depois, vem reclamar que dorme pouco. Custa dormir de olhos abertos? Por que não tenta puxar ronco de barriga cheia?

─ Depois do almoço, vou ao supermercado. Gasto menos, porque a cabeça precisa aprender a respeitar a listinha. Nada de correr, nada de comer arroz carunchado, pois ninguém merece.

─ Que chique pedir neurose pelo telefone, hein?

─ Chique uma ova.

─ Ah! O senhor vai abater as neuroses do imposto de renda...

─ Sabe, né? Como a carestia voltou a colocar as asinhas de fora, então, a gente tem é que se remediar com o que está à disposição. O leão ruge alto, mostra as garras, porém lambe, manso, de um jeitinho todo manhoso. Assusta quem não tem plano nem acesso à saúde de qualidade. Enfim, como a vida não está nada fácil, a gente precisa de comprovante, seja da terapia personalizada, seja da medicação vinda manipulada do exterior. Aliás, remédio em dólar custa uma fábula, daí a doença precisar de nome complicado e ser rara, raríssima. E tenho que pedir a nota fiscal do programa de código autêntico, com o selo original pago na fonte. Afinal, até o software deve ser caro, caríssimo.

─ Quer que mande por SMS ou pode ser por e-mail mesmo?

─ Depende.

─ Como assim? Depende do quê?

─ Tem angústia que desça fazendo estrago goela abaixo?

─ Oxe! O senhor vem com complicação atrás de outra, hein?

─ Pois é, menina. Além de neurótico, ando compulsivo, querendo achar angústia onde a curva molda o vento.

─ Ô diabo!

Notaram a gravidade do caso?

Em resumo...

O que pesquei da prosa alheia, cuspindo o fogo da farofa cheinha de paio avivado por cominho macerado por indicador e polegar, mais a pimenta dedo-de-moça colhida de noitinha na horta da vizinha, foi o luar de quê, mesmo?

Ora, neste pirão gorado, o acontecimento em tela delata:

─ Quem entornou a papa não foi o freguês.

 

Rodrigues da Silveira

Praia Grande, dia 13 de setembro de 2020.