Um
sol pra cada um
Tem feito calor, muito. Se as
condições me permitem adiar meus compromissos, faço-o que nem disfarço o
sorriso. Ficar em casa tem preferência em dias de sol de rachar. Há vários
dias, por sinal, tenho ficado no quarto. Longe do sol, mas não do suor, do
esgotamento, do cansaço úmido. Certamente, há quem veja alguma vantagem em
ficar em casa a maior parte do tempo. Se consigo resolver o que preciso, então,
o dia está salvo. Como, no entanto, as quatro paredes não me protegem da
temperatura elevada, nem mesmo a careca está isenta do suor. Nem preciso falar do
ar parado, terrivelmente abafado.
A inclemência? Seca-me a boca. Tomo
muita água, fazer o quê.
Reclamo da situação do planeta; a que
ponto a civilização levou a Terra. Há no ar um panorama de fim dos tempos. Mas
não é por isso que bebo água. Tenho: sede; tendência a ter pedras nos rins; e
gosto de molhar a garganta antes de ralhar contra a sociedade de bípedes,
mamíferos, seres habilitados a usar a dupla polegar e indicador como ferramenta.
Duvido muito que tal uso tenha origem natural, pode bem ser que tenhamos
copiado de algum bicho mais esperto. Logo, vítima de nossa barbárie, que a cobiça
e a ganância nos mobilizam a querer dar a nossa cara a tudo que tocamos.
Achando que somos o rei, daí que destruímos em nome de progresso, bem-estar,
como se o mundo fosse nosso.
Reinamos? Sinto que estou pegando
fogo. Sinto as queimadas do Pantanal, da Amazônia e da Mata Atlântica. Tenho
pescoço, e minha nuca fica suada. Dia e noite, sinto-me suado, pegajoso. Da
nuca para baixo, suarento. Contrariado com a realidade.
Os dedos sob os raios do sol também
suam. E conferem a pele do pescoço. E sabem que fico chato quando não durmo
direito. Ponho a tamborilar por qualquer motivo. Todos os motivos são um só,
dar um basta ao calorão que aborrece, impacienta e tanto irrita. Tanto pego a
batucar que mais fico suado, deveras aborrecido.
A neve preta denuncia a devastação. De
resto, é preciso recolher a cinza que o vento traz. País afora, o vento
espalha.
Como queria que o calorão acabasse em
água. Mas não chove.
Então, as águas evaporam, viram nuvens
e vão inundar Sampa? Então, é assim que os céus compensam a minha prostração?
Chover só em São Paulo?
Vai chover longe daqui. Isso nada tem
que ver com a intensidade que meus vizinhos atribuem ao calor. Vai chover por
aí, e sentimos o termômetro frustrando nossos desejos. De que chova aqui
também, a dar alívio ao mormaço que gruda na pele, ensopa as roupas, e acaba criando
micose.
Estou confuso; leio o que vim escrevendo.
Dou por encerrado. O cérebro diz que está bom. E a consciência? O cérebro
ignora-a.
Quero honrar a educação que recebi.
Quero água.
Quero um final feliz, um bem bacana.
E como quero.
Com dez graus a menos, a minha sapiência
ficaria evidente. Mole, mole. Todavia fritos, os neurônios impedem-me.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 08 de outubro de 2020.