O
intermediário
Era aniversário do pai. E tudo
contribuía pra felicidade geral, dele próprio com as devidas expansões, afinal
sentia-se bem, com os seus ossos bem dormidos, os seus pulmões bem arejados e a
cabeça boa pra cálculos improvisados. A data pedia mesmo um sujeito apto às
verdades, que a realidade não o constrangesse a negar-se felizardo. Embora
surgisse aquela coceirinha danada em algum lugar da massa cinzenta, louco pra
contrariar-se, sabotar-se, desapontar-se. Sentindo a autoestima em ótimo
estágio, percebia-se no comando de si, mas a vaidade moderadamente mal-intencionada...
Nem bem sentara à mesa, passou a
elogiar-se. Antecipou-se aos problemas, que lamentavelmente não atinariam com seu
momento de confraternização efusiva.
O mundo inteiro sabe que basta falar e
as desgramadas das dores de cabeça estragam o estrogonofe, azedam os pavês, fazem
aquele estrago. Pode ir dando adeus à nuvenzinha levemente hidratante de
neurônios exaustos; tchau, paz de espírito.
O grande homem, porém, não esmorece
com facilidade.
O grande homem se reconhece pela
espiritualidade, de gente que conta com suas moedas para negócios de pequena
monta, como ir comprar cigarros na esquina depois da novela. Mesmo que não
fume, vai num trago e volta num pigarro. Senta-se já alegrinho na roda das
crianças pra ouvir-lhes os bonecos no salvamento do dia.
Quando sóbrio, o homem honrado nem
repara no que vai fazendo. Tão logo tenha escovado os dentes, apaga a luz do
banheiro; saindo, dá uma olhadinha rápida pra torneira bem vedada.
Capaz de idolatrias, preocupadíssimo
com família, até telefona pra namoradinhas do colegial, cobrando boletins dos
ocorridos. Que não lhe escondam nada ─ nem caxumba e nem virose.
Brilha na TV um ícone do jornalismo,
alguém que há tempos dizia o que segue dizendo só que em outro contexto: a
favor da mudança política, que a maioria fosse ouvida por meio do voto. O voto
sofresse as cirurgias éticas precisas, pra ver-se livre de cabrestos coronéis.
A pessoa de fibra não se entristece;
agradece ao recusar a última fatia de bolo de carne; dispensa comentar os
chavões que pululam a torto e a direito. Não entra na ciranda contra os dias
correntes, que as minorias tremulem aos quatro ventos as suas agendas.
Você enaltece o homem quando as
pessoas, sem parentesco com o dito cujo, dizem dele maravilhas. E muito mais
gente, sem usufruir do café da manhã na cama com o fulano, destaque nele as
virtudes e as capacidades práticas que dão inveja. Assim como muitíssimos não
franzem a testa nem fazem bico, nem mesmo pelas costas, você quer apoderar-se dessa
alma, imitá-la.
Enfim, com uma autonomia que dá gosto,
o seu surrado fígado faz a ponte entre a consciência natural do mundo e a
carapaça agitadora da realidade; e a besta só tem que voar baixo pro sanitário
em plena alvorada.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 01 de outubro de 2020.