quinta-feira, 13 de agosto de 2020

Milagre de casa

 

Milagre de casa

 

Caraca, logo agora?

Sim, vovó, está todo mundo pela hora da morte. Por isso, deixe de manha e faça-nos a gentileza. A senhora entre neste carro brilhante, majestoso, que vai puxado pelos hieráticos corcéis de crinas de ouro, verdadeiros Pégasos. Embora mitologicamente metamorfoseados em reles cabo de vassoura, e pau para toda sova no lombo da criançada baguncenta ― a minha prima e eu. Que infestávamos com balbúrdia a ordem que ali tinha se domiciliado desde antes do Getúlio; nos idos dos novecentos e quatro ― quando da chegada da dupla ancestral: o patriarca, Antonio, e a matriarca, Antonia.

Não estou brincando; eram mesmo: vovô e vovó.

Vovô viera da sua Coimbra na toga recém-empossada, carregado daqueles perdigotos bacharéis que ornamentam as paredes, enfiados entre molduras tão diplomáticas, a dar banana a quem duvidasse da honestidade dos títulos, do mérito assinalado universal por brasão.

Já vovó, a Antonia do coche refugado, viera de Coimbra fiada nas promissórias de um Ernesto, que a tapeou direitinho com a promessa de rasgar seda, emendar o soneto e tirar moedas do nariz. O castelo fedeu a maré, que a mãe de mamãe deu com as burras n’água.

Carvalho, Antonio!

Para aligeirar o nosso passo, pomos Antonio e Antonia já casados na mesma história. No entanto, pra verdade do bem, não foi isso que vovó gritou quando viu o avoado esposo estatelado no chão, caído da legendária jabuticabeira, em cujo galho que enveredou serrar tomara lugar, sentado e pimpão.

É coisa séria?

Bem, vovó Antonia nunca molhou os pés na Jureia. Botei isso pra tornar menos dramático o calamitoso do momento. Uma vez virada a sorte, se o lobo corre pro mato sem ser notado, trato de tirar o jaleco do nostálgico pra não trajar as velharias de velhaco.

Voltando ao causo da Jureia. Sabe, perto de Iguape? Foi na barra daquele rio, que o vovô ilustre, mão pra toda obra, resolveu dar jeito naquilo. Pra dormir sossegado, óbvio. Porque um dos dedos folhudos do dito cujo instrumento do diabo pra testar a calma ficava roçando a veneziana do probo ancião. Ora bolas, antes de surtar possesso com antanha ousadia, o Serrote de Ouro pôs abaixo pau e buzanfa.

Parece peta?

Gente, vovó Antonia não partiu de Portugal; vovô, sim. Antonia foi nome abraçado pra acoplar com Antonio, que tomo espirituoso extrair o vinho da uva.

Pareço lelé?

Entusiasmado com a química, virei outra pessoa.

Sem chilique, conto o bê-á-bá por uma vida melhor, que a mágica está na substância secreta.

Cumé?

Para deixar a casa piscando sem ficar esfregando os rejuntes feito condenado, cloroquina na cândida. Para temperar alface sem adição de sal que azeda a pressão, cloroquina no vinagre. Prum sono manso nos cornos da lua, cloroquina na cachaça.

Vamos, vó! Salte de banda. Entre no coro:

Cloroquina... Cloroquina... Cloroquina de Jesus.

 

Rodrigues da Silveira

Praia Grande, dia 13 de agosto de 2020.

terça-feira, 11 de agosto de 2020

Pomada de ozônio

 

Pomada de ozônio

 

Foi no curso da vida que fui topando com uns mistérios vaporosos que, com sua teia de conhecimentos indeléveis, muito enredam quem distraído do fundo pantagruélico de onde provém a coisa toda, inteira, o universo que me tonteia. Permaneço boquiaberto, louco para saber como e por quê.

Preso ao insólito pela curiosidade da compreensão, tenho parado diante de mecanismos que, tão mais especulados por mim, fogem ao escrutínio, como cobra corre do fogo.

Não tinha como não reparar, pelo atrativo do âmbar que se abre à vontade de ir lá, nas entranhas de Cronos, e vir com a chama que me ilumine em meio à escuridão. Foi, portanto, que pulei no braseiro para me chamuscar o bastante, pra dominar as labaredas, pra passar meu café. Passado o jejum, porém, novas fomes me atiçam. Na pajelança sem pajé, acossado por urticárias indômitas, eis-me aqui, mosca que enfrenta e pergunta.

Já reparou que, quando o assunto é grave, daqueles que mexem com a gente, feito o uso da guilhotina para tornar fumável o charuto, do Recôncavo ou de la isla, cujo nome afinal nem abano dizer com o medo capital de socializar estímulos a ideias retrógradas, posto que sou moderno, contemporâneo do GPS e da terapia genética, não hei de viralizar meu próprio cancelamento por lacrações ortodoxas, nem toda pessoa que escreve, fala ou gesticula, seja jornalista de vistoso crachá, cronista de boteco apinhado ou poeta de louros passados, vai reta à raiz do problema, vem abrindo espaço à luz do reconhecimento que identifica o sentido mais profundo, ela topa com o fulcral da ideia, o recorrente do emprego exacerbado que poderia entrar pelo labirinto à prova de fuga da banalidade, que brilhantemente consegue sair-se bem ao barrar o acesso ao âmago da coisa enquanto faz a graça da significação sobre significação, numa trama rica, multicolor, distração grudenta que pouco atalha, trajeto que não se apaga súbito, todavia a etimologia deixe o rastro desde a partida, já?

Sem dar uma de besta que adora falar besteira, como achar que o Mendel das ervilhas é pai do Mendelssohn da Marcha Nupcial, farei o mesmo, e vou. Puxado do cochilo pelo ronco, gravitando de sonso, pega-me no pulo a palavrinha grave.

Quando o nome engata, a seriedade diz que a gravidade do troço cai feito bomba numa cabeça oca; e faz marola, eco que se expande, feito círculo saindo de dentro de círculo. Será pedra atirada no futuro d’água parada? Qual! É cometa no céu da pátria.

Espio, me arrepio, e me embaraço. Haverá no mundo remédio que cure estupidez agravada por cupidez? De topada em topada, a sarna engrossa. Se dá um gás, aumenta o cheiro; se não mexe uma palha, amontoam-se os porcos. Santa merda.

Segundo a Lei de Ivan: gozando esquecer os últimos quinze anos, esculhambamos os próximos quinze...

Diacho!

Nem cânfora nem sanfona safam da enrascada.

 

Rodrigues da Silveira

Praia Grande, dia 11 de agosto de 2020.

domingo, 9 de agosto de 2020

Identidade secreta

 

Identidade secreta

 

Não sei bem o que anda acontecendo comigo, pode ser efeito da reclusão forçada. Sem nenhuma formação psicológica, então, aceito que seja, sim, sintoma de estresse por exposição contínua ao ser que me habita. Ego que vem se apresentando angustiado e angustiante, com minha forma e semelhança, com o volume afeiçoado aos setenta quilos neste metro e meio de humanidade. Na pessoa que me vejo a suportar cargas e encargos do mundo, o que me acarreta sustentar a envergadura psicoativa conhecida por eu. Este meu eu, ele mesmo.

Como ia dizendo, tentando dizer, tendo começado a querer dizer, venho me sentindo um tanto tonto. Por estes dias, os quais já se sabe como têm sido, dias de afastamento, me perco fácil. Ô agonia.

Logo: chega de conversa mole. Uma vez... quê?

Sem fim, o cotidiano vai impondo sua agenda de repetições. Com ação depois de ação, das mais banais como comer pizza fria no café da manhã ao cuidado para encerrar um telefonema com um tanto de empatia. Sem que meu desejo de que tenhamos um dia bom não me faça soar hipócrita, cínico ou tolo.

Queria, mas não consigo. E quero.

Estou perdido? Parece. Mas não perdi a vergonha de admitir isso em público. Com você lendo que não perdi a noção de que é preciso defender a relação: de um lado, a razão que manipula as situações e o entendimento que as aquilata, de outro.

Desconfiando do que passo, encalacrado no veneno de quem está atado à pessoa que não sabe, ou faz de conta. Um tarado? Confuso.

Seguindo neste fado torto, bailo coxo porque danço comigo. Que a cabeça solte os meus cachorros mais ferozes, que a ideia cubra com areia meus cocôs mais imundos, que a lógica da postura mantenha o sentido alerta, a pesar os pesares, em prontidão.

Mesmo com a mente rodando feito bêbado de pinga?

Que ridículo.

E latindo mal meu latim, avançando meio sem notar, caço a minha própria sombra. Desconcertado, largo dois litros de sorvete de creme sem chegar a lamber o pote. Pelo rabo sem cueca, emporcalhando o pijama, me sujo todo. Que feio falar isso de boca cheia. Melhor fechar a matraca; pensar nas maritacas. Há muita vida boa alhures, mesmo com o medo que leva a pôr espuma em excesso na careca por limpar dos brotinhos de cabelo. E um fio solto nem...

Tome juízo, filho. Vá uivar pra lua, linda e nua.

Enrolando, eu?

Vim... Estou... Queria esquivar-me da razão de ser desta prosa.

Sem fazer do coração um covil de sentimentos nefandos, sinistros, que embaraçam a mãe da gente, vou contar qual pulga me pica.

Uma amável amiga avisou que iria parar de ler as crônicas. E teria parado mesmo, mas informada que trataria da sua decisão, ela topou mais umazinha, esta última.

Sem possibilidade de renovação do interesse? Não, senhor, sem.

Dona do adeus, sem o travo da saideira e já numa doce saudade, guardando seu nome comigo, envio um bom-bocado, o abraço bom.

Saúde!

 

Rodrigues da Silveira

Praia Grande, dia 09 de agosto de 2020.

quinta-feira, 6 de agosto de 2020

Ginga natural

Ginga natural

 

Bêbado de vida, talvez queira cigarro ou o gole de água. Contudo, quanto de compaixão pode a miséria? Quanto de dor brota do gesto que não se contém?

O que teria acontecido: havia um lugar no ônibus, ao lado daquele homem. Havia passageiros em pé, muitos e vários. As abas largas do chapéu na cabeça fossem a razão daquele isolamento.

Nem bem sentado, germina a fala que tem nutrida atenção.

Subindo, tornando-se audível. Aquela era uma rua movimentada. Bem barulhenta, mais naquele horário. Falava alto, portanto. Com as rugas do evidente desconforto, ao dar-se a ver.

Como girassol, os olhos do idoso ansiavam pelo olhar de quem o cultivasse falante. Embora, mal fosse entendido.

No rosto, o ouvinte puxado pelo cansaço. Certo, não murcharia a prosa do outro, que precisava de salientar-se, falando. Regado com a escuta, o cacto da carência florescia os seus espinhos.

Exibido na particularidade do tom, na inflexão do modo. A voz ia e vinha, riachinho manso de águas barrentas. Correnteza apaziguada, a leve suspeita de alguma marola. Talvez algum boto que passe, ou o exposto dissimulando o pungente, o sofrido da sua existência.

Até ali, naquele ônibus lotado. Dizia o que vivera, ainda vive. Mais anos que as irmãs mais velhas, mortas ainda moças. Enterradas nos matagais indomados de Roraima.

Como o punha triste, apertado por dentro, a lonjura que o apartava dos seus, dos irmãos mais novos. Crescidos bem esperançados nas colheitas do açaí, nos rincões do Acre.

De lá é que tinha vindo, com a solidão dizendo a qual propósito na vida. Teve pouso no Mato Grosso e passagem pelas Gerais, e veio.

Por sua vez?

O dia passara. Na pressão da hora, esfriou-se o almoço. A saliva do aguardo azedando o instante. Adestrado a não roer as unhas além da conta. Amestrado a lavar a carne com o suor do expediente. Bem treinado, sem muxoxos fúteis. O consciente de mente aberta, pra que o sopro da estupidez não o fulmine. E siga exemplar enquanto dure. Um sujeito simples, nome comum, de posse da faculdade normal. De todo útil, tão cretino. As tarefas programadas, todas satisfeitas. A tela do computador cega-o pra tonterias. Afinal, rotinas sabem a osso. Se a coleira do rendimento produz monstros, o pedestre não trava.

Na passividade banguela de consumir-se em fogo brando?

À noite, ao deitar, batera a cabeça. Aquela mesma, a que pesava, obscurecia o entorno, empalidecia pessoas, acinzentava o concreto do mundo. E tudo porque conservara a paz de sempre, mantivera-se ausente na presença de si, renitente quanto ao revigorante do sono. Como foi esquecer que o travesseiro funciona como anteparo? Que a guarda da cama, tão maciça? Cadê cupins pra varar o drama?

Assim, no bom de estar no mundo, havia aqueles dois sorridentes: o nítido, a contar-se jururu; um obscuro, a desconversar-se.

E vai-se, indo...

 

Rodrigues da Silveira

Praia Grande, dia 06 de agosto de 2020.


terça-feira, 4 de agosto de 2020

A verdade seja dita

A verdade seja dita

 

Araponga de mim mesmo, de péssimo humor, este velho anormal, na lata, trata de revirar o rumo da toada: nada de sabatina sobre sua saidinha sabática. Fá-lo, pois, pra não perder a linha a esse respeito, quanto ter saído pra comprar uma calça de moletom, uma aflanelada, própria pros dias de friozinho bom do inverno, quando voltou, porém, gastara uns cobres numa flor de beleza inútil até a vinda do caloroso sol da primavera, teve aflorado carteira afora um bermudão xadrez.

Deixou-se cair na tentação?

Ora, ora, sejamos francos, camaradinha, bem sabe o senhor que, com a vulgaridade de recorrer ao prestimoso Oscar Wilde, “influenciar uma pessoa é emprestar-lhe nossa alma”.

A qual?

A nossa, no caso, a sua que é a minha, e sendo a minha, pondero e especulo, sem o véu do embuste, todavia.

Quem me conhece sabe que normalmente não costumo mentir, a não ser quando uma mentirinha sirva para esconder alguma verdade algo inconveniente.

Claro, claríssimo, longe de mim a pretensão de ter ideia cristalina do que seja a verdade, ou sobre mentiras cabeludas. A intuição ajuda a sentir quem embala perfumar o hálito com o verniz do anis. Mas, se alguém consegue a proeza de me enganar, posso mesmo reconhecer o talento de quem não passa de um grande mentiroso.

Como todo grande mentiroso não se jacta de que seja um, ele age com confiança, desenvoltura e engenho. Certo da invisibilidade que o camufla leal, incorruptível e desembaraçado, vive a ludibriar quem lhe dá crédito.

Pego no gosto de obter vantagens em tal comércio com a retidão dos incautos, acelera a curva do lucro próprio. E quanto mais mente, mais enriquece a fama que o prestigia. Por contradição lógica, faz-se rotundo perdulário que gasta para o bem da própria fortuna.

Terá destino... Terá caráter...

No entanto, mente quem diz que está mentindo? Ou a verdadeira arapuca está em dizer que diz a verdade quando não está mentindo?

Embora decifrar o enigma soe difícil, não nos furtemos de ouvi-lo.

Assim, atrás de tão lúbrica perversão, obra o peso da mão leve do logro. Portanto, o grandessíssimo mentiroso não ri com a gente e não ri pra gente, o filho da mui bucólica devassidão ri é da gente.

E ele ri pra disfarçar que está gargalhando por dentro. Acha graça em saborear a trapaça na cara de todo mundo. Pra não dar na vista o ás posto na mesa, facilita o riso. Manipulador contumaz de palavras ― troça, tropeça, e truca.

Mostra a habilidade da fala ágil, afiada, de duplo sentido. Não tem gracejos de amostra grátis. Vendilhão do turvo, almeja, sim, o que lhe renda dindim. Dá razão ao coração. Ilumina com a escuridão. Torce e contorce. Não eleva nem levanta. Confirma sem afirmar. Desafoga no dito o fogo da desdita. Abusa do uso que nem se acusa.

Pra remontar uma verdade verdadeira?

Se mentira tem a perna curta, tem Pernalonga a minha prudência.

 

Rodrigues da Silveira

Praia Grande, dia 04 de agosto de 2020.


domingo, 2 de agosto de 2020

Quatro cenas e uma explicação


Quatro cenas e uma explicação

Tirando o sumo, laranja é só bagaço? Diante do rumo do universo, mesmo sem pôr influência na erradicação da malária entre as emas, doida para mostrar o uso da sensatez para manter-se inconsistente, a crônica pede calma enquanto bica o próprio umbigo.
Se há razões bastantes para tão animada demência?
Ocupado em fazer direito o que o cosmo parece ter-lhe incumbido de prestar contas, com a afobação momentânea pelas circunstâncias dadas no presente, o velho anormal, no figurino de careca de pijama amarelo, cuidava do café quando uma distração de origem estranha, surtindo sua gravidade metafísica, mui agravada pela pandemia geral logo às cinco da matina, foi quando o suporte do filtro tomou para si a decisão de tombar sobre a mesa.
Com este tombamento, desencadeou-se uma série lamentável de eventos, dos quais o destaque fica pra mistura de pó de café com os cacos fumegantes das palavras, amálgama largado no chão por uns minutinhos porque pelando de quente.
Antes de dar o domingo como terrivelmente perdido, mas imbuído das prerrogativas de cronista, vendo-se, portanto, compelido a soltar desculpas a quem lê, eis que o texto admite umas tantas cenas, uma vez que, isoladas da estupefação que as ideias costumam provocar quando agitadas pelos ventos da inspiração, podem apanhar sentido justamente pela súbita fulguração.
A primeira das cenas sucedeu-se na esquina Pinoia com Brasil:
― Corruptados? Uai, então, no Senado não tem corrupto?
― Tô falando de outra coisa. Se tem corruptado, tem corrupteiro.
― Entendi. Então, instalaram luz vermelha no Congresso?
Como foi dito acima, a mistureba traz para perto o que a distância encobre: a desconectividade dos fios. Por improvisados, com lapsos embromando a impedância, a lâmpada da inteligência pisca, pisca. O comprovante? A seguinte anedota.
Diz o vagamundo do cão:
― Careca do pijama amarelo, por que exibe sua máscara amarela aqui nas ruas de gente gris de tantas mágoas acumuladas?
Ao que responde o homem que traça histórias a granel:
― Sarna que fala, vim pra mais bem ouvir os meus silêncios.
Pra evitar que mijo de cão resulte em vacina a quem babando uns imoralismos diante das emergências do clima, engata-se a terceira:
― Quanto tempo, dona paciência. Andava sumida, hein?
― Como não vou me adaptar ao que me testa sem parar, tenho cuidado de mim, seu ódio.
― Quanta lucidez.
― Não mango do riso a desalinhar-se do prumo do siso.
Quando mal se espera...
A nossa quarta cena, singela e humílima, com raízes no coração e florescência na cabeça, como toda beleza convulsiva, vira uma brasa, queima no céu da boca, busca o tépido d’água de Alhos & Bugalhos do Paulo Mendes Campos.
A fiar? O sim.
Parceiro dos encantamentos mamulengos de quem não se dá por vencido, pleno de planos e já ébrio da pimenta deste rango, firmo,

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 02 de agosto de 2020.

quinta-feira, 30 de julho de 2020

Jogo jogado


Jogo jogado

Na tomografia do instante, não falta o que pensar. E quem vive em paz põe o mundo em ponto morto? Se acelerar não resolve porcaria alguma, talvez um adiantamento dê jeito na coisa. A coisa de sempre. Pois o tempo masca, masca, e, como trem que custa a enjoar, cospe fora a massa de carne já com a boca torta. E não responde pelo que faz. É sério? Está decidido. E ninguém perde por esperar. Hoje o dia está ganho? É jogo jogado.
E vai ganhá-lo ficando na cama. Abrirá mão de comer ovo, lavar o sovaco, mandar e-mail. Sequer lerá as mensagens no celular. Aliás, o telefone ficará desligado. E não pense que é para deixar no mudo ou em modo avião. Tome tento do caso, esqueça o aparelho. Deixe-o lá. Estará ferrado se se lembrar de onde o tinha deixado ontem, antes de apagar a luz e deitar-se, contrariado.
Já deletou o surto que teve?
De novo, foi por ir. Nem o sono tinha vindo dar a cara. Foi só por obrigação. Pro dia seguinte, este ora corrente, vir com o roteiro dado como certo. A vida condenada ao ordinário? Redobram-se as tarefas.
Francamente.
Dê um tempo. O tempo que seja. Livre-se das aporrinhações, nem que dure apenas uma mentira. Conte-a, até três. Talvez funcione e a fornalha dos dias alcance a pressão necessária. Descarrile-se.
Não chore. Choro é pros impávidos? Então tá, chore.
Só não invente de dar descarga no telefone. Finja que o encontrou assim, meio no susto. Estava passando por onde nem sabia que era. Quis pegá-lo, arque com as consequências. Mimimi ultimamente tem desentupido bem menos os encanamentos. E a turma do prédio anda louquinha pra vir socar a porta. Que ficar cobrando explicações acaba levando a alguma resposta? Até às sensatas.
O vento sacode a janela. É o sinal.
É sinal de que não dá para deixar nada para depois, então, melhor nem começar. Pois começar por começar é arriscar a nem terminar e tem tanta coisa que tem ficado pelo caminho.
Tipo a fatia de queijo em cima da mesa. Até as baratas estão com nojo. Aquilo mofado, já fedendo. Você poderia ter comido. Anda sem apetite? O mundo não quer saber. Lave e coma.
Se ao menos não tivesse trocado as pilhas do relógio, ficaria sem saber que a roda gira, rodopia, enovela os fios do progresso. E mente sadia ignora os ponteiros; ela vê a hora e não os seus agentes. Aliás, pare de mimar a quarentena como um bichinho de colo.
Quer colo?
Isso de dormir menos, comer menos e abusar do leite, isso nunca vai impelir a compreender aquele povo todo indo atrás do jogador? E sem dar um tostão por lhe sungar a farda canarinha.
Se bem que... Pode ser. Vai que seja. Está parecendo que vai ser hoje? Vá à luta. Pois há pontos na história que ocorrem quando nem se sabe que há um antes e, de repente, passa a ter um depois.
Que gracinha!
Nada como viver um momento único...
Contra o Brasil, às 12h30 da sua TV, faz 131 dias que a Azzurra vem se mantendo uma invicta bicampeã.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 30 de julho de 2020.

terça-feira, 28 de julho de 2020

Mas entretanto


Mas entretanto

O velho anormal manda lembranças. Em vez de flores?
Sim, mandar buquês é de outros tempos. De uma era de poesia e de romantismo piegas. Parecido com o mundo a ponto de... Todavia, não direi: há cinquenta anos se amarrava cachorro com linguiça.
Acaso delirasse assim, na utopia nostálgica ainda entraria a minha cadelinha pequinês. Brincando comigo num quintal imenso de árvores frutíferas, e não naquela gaiola de chão cimentado entre os paredões laterais dos prédios vizinhos. Tocando a farsa: mamãe chamaria para comermos; a companheira e eu iríamos de imediato; e comeríamos o que o sonho tivesse ousado comprar, menos bife, arroz e feijão. Sim, cão e gente seguiríamos dividindo do sóbrio repasto. É vero, mesmo a passados não adaptados ― cães e gatos não comiam ração.
Aliás.
Desde que me entendo por gente, quando passei a ter permissão pra falar do tempo em que não era pessoa, era criança. Embora seja anacronismo apontar que toda e qualquer criança seria então pessoa humana. E com tamanha fartura de linguiça, todo e qualquer cachorro seria muito bem alimentado que só correria atrás do próprio rabo para manter azeitada a mandíbula.
Seria um idílio na Terra, o paraíso melhor que o Éden e verdadeiro Eldorado. Embora haja quem pense, diga e aja como se aquilo fosse regra. Dizem que estou enganado. Havia famílias e famílias. A minha é que tratava criança como aprendiz sob as varas da lei, e ai daquele que pusesse em questão a ordem dada por eles, os adultos.
Como cópia atual de mim, porém em versão revisada, apropriada aos códigos em vigor, longe de mim querer atentar contra o vigoroso padrão de vivência social, porque a hora do instante faz-se de lucidez e respeito. Entretanto, não me alimentarei da loucura?
Tendo na cabeça a boa prática sanitária na intimidade do lar e na convivência pública, passei a pensar na mulher nua que vi.
“Atena” desafia os cães de guerra ― afirmaram.
Um pelotão armado? Empunhando cassetete, atrás de escudo, de saliva lubrificando caninos, calçando botas: o poder incontestável.
A tropa deu um passo. A majestosa abriu as pernas.
E fim de jogo?
A musa estava de costas, nas fotos mostradas na TV. Então, meu demônio favorito, o interior, foi ele que riscou o fósforo para mostrar a profundidade da minha ignorância. Bebi da água obscura que ilumina os meus recônditos mais sombrios, tentadores, sedutores, que atiçam o louco em mim. E atiçado, mordi a própria sombra.
De costas pra mim: teria o sorriso enigmático da Mona Lisa ou os olhos marotos da Maja de Goya? E de frente para o ódio espumante: desarmara com rosa tão ardilosa?
Ora, como velho anormal que não sabe ler, leio do meu modo.
E meio tonto, meio turvo, pude ver o que vi?
O renascimento de Afrodite, a poderosa.
Vige!
Atarantado que só, até me arrepiei gargalhando dos juízos.
Que cão danado da peste...

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 28 de julho de 2020.

domingo, 26 de julho de 2020

Apocalipses


Apocalipses

Estando no mundo a trabalho, empenho-me a fazer com alegria o que a mim me toca fazê-lo. Por designação ou desejo, porém pouco à vontade com alvarás e procedimentos, todavia em razão da entrega à persona do curioso, retiro a máscara de quem sabe o que faz com o que pode. E se bem o faço?
Mais repulsivas as tentações, mais estimulado a fracassar.
Hedonista, vou ao Concertgebouworkest; de Beethoven, nos seus 250 anos de nascimento, regozija-me a sua 7ª sinfonia, em Lá Maior, a opus 92, na versão estreada em 03/06/2020, vista numa terça-feira, mais um 21, de outro julho, deste 2020.
Tendo ouvido, passo aqui a apurar os sentidos:
“O coitado, digno de dó, fazendo o que sempre faz, sendo quem é, esvaziava as garrafas, enchia os copos, até que a noite o vomitasse pra cama, de volta ao consolo dos sonhos abandonados. O infeliz, o desabrigado de si, recorrendo ao despropósito permanente da fuga, corria aos supermercados, comprava mais das mesmas marcas, até que o dinheiro o jogasse no carro, farto do desprezo dos próximos tão assemelhados. Mas o amor quebra a espinha, disseminando as suas contrariedades, fortalecendo as rupturas, fraturando suas rotinas. Não vou generalizar, somos todos iguais. E matamos nossos amados com o bom-dia antes do meio-dia. E adulamos nossos ventríloquos com o boa-tarde depois do almoço. E conservamos nossas misérias quando ajoelhamos em vão, escarrando nosso boa-noite a quem nos antoja. O insatisfeito, armado de boas intenções, recupera-se da insônia ao insistir com a vigília dos desesperados, porque abrimos nossos olhos, escancaramos as janelas, porém o vento traz morte, inocula venenos, dá alento a quem insepulto. O passional, o senhor dos descontroles, dita à razão o que julga ferver nas veias, suas artérias entupidas de gordura, as suas opacidades de doido varrido, de menino mimado, de maior aporrinhado. Bebe do fel que baba sem notar. Até que a morte o separe: à direita com a sua bengala inútil, à esquerda entregue aos ratos. Há ratos por todos os lados, aí, em baixo da cama, em cima do forro, dentro da pia, fora do espelho. Não há o que fazer? Nada. Caso tenha pensado em comer pipoca, falta o milho, sobram as desculpas. Quando nada pode ser feito, nada há para ser perdoado. As notícias chegam antes, apressadas pelas esperanças perdidas, vilipendiadas, ignoradas. Não há nova que não envelheça, apodreça. E não há noite que não amanheça, aconteça. Não. Afinal, não é não. Antes que tudo se perca, percamo-nos. Sinto. Às vergonhas que me expus, as nunca antes mencionadas ao público, deixei-as atrás das paredes da casa fechada, detrás das portas do guarda-roupa trancado, por detrás do zíper do casaco cujo couro resiste às chamas do fogo interno”.
Eco!
Gozará a música do intraduzível?
Porquanto não afino o tino somente pelo que domino, amo.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 26 de julho de 2020.

quinta-feira, 23 de julho de 2020

À flor da pele


À flor da pele

Uma árvore cai na mata, o estrondo não tem testemunha humana. À vista de tal condição, o evento terá ocorrido de fato? Sim, ocorreu. A realidade existe, ainda que o ser humano pressuponha a chancela de dizê-la universalmente percebida.
Percebemos, logo criamos.
Se pesa um bocado em quem se dispõe a narrar as aventuras da espécie? Que responsabilidade.
Acerto o passo.
Pessoa amiga, a Luísa, nome trocado para preservar a identidade, costuma dizer que meus textos parecem relógio: como nada está fora do lugar, tudo funciona na hora certa.
Vem-me a imagem da matriosca. Aquelas bonequinhas russas: da maior à menor. Assim, tiro do assunto amplo um tema mais focado e deste retiro o tópico específico, e vou até chegar à palavra-chave.
Exemplo?
Eis que baixei no computador o Zoom, meio a contragosto, mais a pedido da Bruna e do André, ambos nomes mudados pra obviedade da mentirinha. Enfim, pro bate-papo virtual via internet, instalei a dita cuja ferramenta na bugiganga eletrônica que utilizo.
E a conversa estaria restrita ao trio?
Mal começamos, entrou em cena uma senhora que não conheço. Encantadora, lembra a voz da Divina e pelo centenário de nascimento da cantora, passo a chamá-la de Elizete. E ela botou reparo na minha crônica Retrato fiel, que ficaria mais saborosa se o bolo de morango citado levasse cobertura de chocolate.
Nem sei bater bolo...
Mas, acrescentei que o parágrafo naquele texto tinha a função de destacar o uso da preposição sobre com os significados em cima de e a respeito de. Ora, está na moda dizer “discutir sobre a lei” em vez de “discutir a lei”. Ah!
Em Retrato fiel, não escrevi chocolate. Desejei ir por outra vereda que não a do racismo, por isso tracei o perfil de um cínico.
Mas cínico tem muitos tipos. Seu Rodrigues, de que tipo?
De quem fala de boca cheia: povo, vontade popular, humanidade.
Que povo? Qual vontade? De que ser humano está se falando?
Dessa gente aliviada porque a pandemia atingiu o platô, como se, ultrapassando mil mortes por dia, pudéssemos retomar os rotineiros comércios. De pessoas querendo o novo normal de sempre, como se fosse natural negar ao fluxo mudar de rumo.
Dá raiva? Dá.
E dou Cego de amor.
Ouvindo-me, a Elizete, tendo compartilhado este texto no grupo de leitura, alegrou-se com suas amigas que entenderam narcisista quem ama seu semelhante mas odeia não ser correspondido.
E como nutre a ilusão de não ter preconceitos. Quem?
Quem, com muitíssimo orgulho de si, se intitula brasileiro, patriota, nacionalista, gente comum, igual a todo mundo. Sim, sim, igualzinho a quem não viu, não vê e continuará sem ver a cor da maioria deste outro Brasil: a dos jovens mortos pela polícia, de quem sobrevive nas ruas, de pessoas desalentadas.
Latindo de ódio, respiro.
E minha matriosca não lavra o amor como outro relógio pulsando no peito.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 23 de julho de 2020.

terça-feira, 21 de julho de 2020

Retrato fiel


Retrato fiel

Então, a crônica de hoje é sobre o quê?
Poderia ser sobre a cobertura de morango num bolo de morango. A dizer respeito à camada que fica em cima, uma tentação pra mudar a cara destes dias. Se poderíamos falar sobre o queijo? E justamente por imprecisarmos disso, a verdade seja dita: quando falamos sobre o queijo, nele jogamos perdigotos, espargimos aerossol. Um horror!
Sim, a consciência abre os olhos da gente.
A palo seco: curando a sarna, ficam as pulgas?
Corpos a mais, mortos a menos.
Que a imprecisão alivia o que entendemos por achatamento, pela visibilidade do tal platô. No limite da platitude, escancaramos.
Até aqui viemos, então daqui voltaremos.
Mais à frente. Voltaremos dois passos à frente. Para o futuro. Sim, não retornaremos, pois somos do amanhã, de onde Sebastião ainda espera. Fomos ungidos a priori. Batizamos a lágrima serena da noite do universo. A nós não nos resta senão cumprir com o nosso caráter.
Destinados à glória; submissos à glorificação em vida.
Sem desdém, vamos.
E se há fios soltos, com eles tecemos a humildade da nossa fibra. Com as gotas de sangue de nossas pacificações tropicais pincelamos a irreverência de nossas alegrias tacanhas. Com a galhofa de nossos pecadilhos confessionais nutrimos os famintos que desabrochamos a meio do caminho de lugar nenhum.
Pelo povo, pela vontade popular ― não estamos a passeio.
A pedir mais. Quer porque quer. A ele seja negado. Pra que possa o aprendizado da dor, da fome, da miséria. Perca o enfezamento.
A brisa noturna lambe o chão das covas. O triste sofre e chora. De cara amarrada. Fechado no mistério. Tem mãos pro trabalho, mas os calos lamentam, imploram. A luta ainda está vindo, segue vindo, não para de vir. À venda? Venda-se.
Se conhecemos? De passagem.
Abençoamos a nós que nos julgamos abençoados. Seguimos pela modéstia que nos faz bem-humorados, cientes da iluminação que nos orienta na escuridão dos sentidos. Temos luz interior, somos farol. A quem perdido, ditamos o caminho. Basta ouvir. Ouça nossa voz. Siga à sombra. E coma do farelo, porque o nosso pão é doce, energético e salubre. Não há no mundo mágoa que nos paralise, nem infelicidade que nos vitime, e nenhum eco nos guia. Soltamos à palavra o que em nós é água, maná, origem que perdura, inesgotável fonte, compaixão que nos faz desbravadores. Vocacionados, tradutores do amor. Sim, amar nos faz condutores, então induzimos. Solidários, motivamos.
Mas, conseguirá suportar? Suporte; dê sustentação.
Seja ombro, seja amigo.
Vê? É nosso o céu do Cruzeiro, das Três Marias.
Ah! Sim!
Com o lobo intacto, o coração em faíscas, mãos untadas de cuspe abundante, tomemos a dose certa do amor. Gozemos por abraços. E beijemos por aliança. Amemos agora, bem na hora.
Pra completar este retrato do cronista feito cão vivo?
Alegra... Pondera... Gardenal!

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 21 de julho de 2020.

domingo, 19 de julho de 2020

Viagem na carne


Viagem na carne

Disposto a encarar o dia que chovia, ocupei o posto de observador equidistante: protegido pelas lentes lamentáveis dos meus óculos; e seguramente a quatro palmos da tela do computador de mesa.
Entre o factível e o fictício, o factídico.
Foi quando, neste dia 13/07/2020, neste Estadão, neste Caderno 2, nesta matéria assinada por Julio Maria, não sei o quê me assaltou desde as garrafais: sons da alma em construção.
Logo me pus a cofiar uns fios do cavanhaque.
Não relinchei nem escoiceei, todavia empaquei. E empacado, este pônei miúdo de suíças em cultivo coçou a calva, lisinha por lâmina de barbear. O careca de pijama amarelo gosta de deliciar-se com a pele desnuda da cabeça. Algo infantil, num prazer de deslizar a mão pelo cocuruto. Sem estudá-lo na forma, reconfortando-se com o quentinho. De um gostoso calmo, tranquilo, sereno.
Uma gota de serenidade brotou-me da página em que escrevo, aí a imaginação viu diversamente: o que se forma.
Irei mudado pelo que acho que vi?
Os sons das palavras, a delícia de dizê-las em pensamento. Que morar sozinho admite relacionar-me comigo apenas na cabeça, dizer aos neurônios o que me dá na caçoleta. A escutar-me vivo a viver. No impulso, o momento de agir por mim. A vivenciar-me sem a obrigação do juízo certinho, de ouvir a voz da razão. Sobretudo, sem medir cada uma das minhas bobagenzinhas, aquilo que faço sem o compromisso da sanidade que pondera, calcula e ajuíza.
Quero a conta errada, imperfeita, fora do prumo da chave posta.
Cacos de um espelho fosco. Mole, pelo sorrisinho malicioso.
Deliciosamente vago, flutuando no ar da sala. Livre em mim, tendo a cachola mergulhada em ir pensando sem pensar que pensa. Que a âncora siga sendo a cadeira, com o corpo sentadinho. Sem o líquido e certo, sem a frieza do gelo, sublimando-me rarefeito. E que a mente siga enfunada pelo vento da imaginação, rumo ao desconhecido que em mim navega em silêncio.
Sem palavra, sem sentido?
Uau!
Tem o outro. Este outro. Aquele outro. Tantos, num só. A fazer-me esquisito. Sem a autorização de sentir-me estranho. Não me outorgo o direito de instituir-me familiar. O mundo informa, deformo. Conforme a hora passa, me reformo num segundo.
Mesmo já? Agora.
Há um propósito que faz cócega na ponta dos dedos. Há a barriga que ronca, vem pra página. Há a brisa boa que não afoga a realidade nas abstrações mentais. Poderia fluir na corrente das sensações que fervem nos vasos do corpo.
O que não calam os cotovelos? Que a carne tem dores.
E a minha boca, nada? Salivo.
Se caído estivesse, com os braços apoiados no tampo de vidro da mesa e a tela recolhendo o que vou digitando, poderia jurar que estou tonto, rodopiando no imóvel.
E como ninguém de nós foi sugado pro mundo da lua, a título de quê assumo que a sensualidade seduz?
Obviamente, analisa-se bem melhor quem faz análise.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 19 de julho de 2020.

quinta-feira, 16 de julho de 2020

Brilhante


Brilhante

Em A vida e o tempo, texto do dia 12 de julho de 2020 no jornal O Globo, atribuindo a Nietzsche, Martha Medeiros citou: “Aquele que não dispõe de dois terços do dia para si é um escravo”.
Nem bem me ocorre se acaso serei, soa o interfone.
Minha água acabou, o entregador veio rapidinho trazer o garrafão. Até aí, nada de novo sob a chuva; a não ser a capa plástica deixando molhados os pés enfiados na típica sandália de borracha, cuja marca nem preciso nomear. Mesmo na adversidade, a perseverança. Mas, divago. Retribuindo o bom-dia, o jovem fez o sinal com a mão que por estas plagas quer dizer... joia.
Subo para continuar a ler os jornais, em versão digital, cópia fiel à edição impressa. Ao final do texto, é-me oferecida a oportunidade de avaliar o que li por meio de dois sinais gráficos: o polegar para cima, gostei; o polegar para baixo, não gostei.
Para entender a semiologia da coisa, visualizo a minha identidade. O documento de registro geral, o famoso RG. Uma vez que a cédula de identidade contém uma série de dados, como o nome, a filiação, a data e o local de nascimento, origem e data da expedição, o número do registro, com a localização de lavratura.
E a foto?
Digo que, nas circunstâncias em que é preciso a comprovação da idade ou o reconhecimento físico, o RG é solicitado. Você quer entrar no cinema pra ver filme só permitido a maior de 18 anos?
O seu RG, por favor.
O lanterninha estabelece a conexão entre você, de carne e osso, e a imagem no documento. A foto é sua. Contudo, não passa disso: uma representação da sua pessoa.
A ubiquidade... Que tentação vivenciá-la.
Será banal saber o quanto há de mim em quem me conhece?
Vence a vontade.
Então, nas redes sociais não fica surgindo gente do nada só para atormentar, perseguir, atacar as pessoas que ganham fama?
Bem instruída, essa gente age como se nem gente fosse, pois tem o dom de multiplicar-se e atingir milhares de pessoas numa rapidez.
Por curiosidade, entro numa página. Algumas fotos. Pouquíssima interação com os amigos do perfil. Amigos?
Continuo, seleciono comentários idênticos. Procuro mais. Prossigo e vou entrando nas páginas de pessoas com poucas fotos e raríssima relação com outra leva de amigos tão diferentes.
Quando vejo, isso de ficar indo atrás de perfis que se comportam como fantasminhas nada camaradas, gastei uma boa parte da tarde.
Que babaquice a minha.
Cada minuto, cada clique... Sem que me pedissem, fiquei gerando dinheiro pros robôs, fiquei trabalhando de graça.
Nos coliseus do mundo, não estou nas tribunas entre convivas de togas elegantes nem nas arquibancadas boquirrotas, e nem na arena como leão que ataca ou cristão assassinado, sigo me condenando a exercer o posto de narrador da carnificina nossa de cada post.
De novo, fígado, quero ter outro futuro?
Irra! Preciso da Lei de Abolição de Servidão Digital.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 16 de julho de 2020.

terça-feira, 14 de julho de 2020

Moléstia factual


Moléstia factual

São seis horas e sete minutos, começo o texto.
Fiz questão de marcar o início, pois esta é uma experiência inédita para mim. Nunca antes escrevi sem rascunho, direto no computador. Digitando letra a letra, palavra por palavra, frase depois de frase, sem o auxílio de dicionários, sem apagar nada, sem perder tempo. Dando ao pensamento a velocidade dos dedos que batucam as teclas.
Sim, esta é uma vivência toda minha. Por que me decidi fazê-la?
Acordei no horário habitual, mas virei pro outro lado.
De ontem para hoje, esfriou. Está chovendo. Uma chuvinha fria. O esperado, próprio da estação, algo típico do inverno. As andorinhas e os cães, no entanto, eles e elas não sabem carregar nos corpos estas prescrições. E haverá quem sustente: irracionais.
Não me definiria irracional nem me acusaria mandrião, vagabundo ou imbecil, por ignorar em mim alguma característica moral a que me possam, de fato, atribuir, como caráter. Traço próprio, marco típico, e procedimento previsível de adversário à ordem natural das coisas.
Minha cabeça está cheia de coisas. Por fazer. Mas, vá lá: admito a inclinação de ficar quieto, longe da disposição que este dia requisita. Com um sentimento difuso que me põe incapaz de agir conforme ao figurino do óbvio, quero mais é ter tempo pra não fazer nada.
Contudo, não vou transformar o sofá em divã. Estou desconfiado que as tempestades que minha mente julga como fundamentais para definir quem sou não passam de fumaça. Nevoazinha sem febre, que a brasa é fantasia de quem não tem tutano para enfrentar fantasmas de origem inconsciente. Daí a densidade da nuvem, estacionada em mim como preguiça.
Pego o Lafarque que havia separado para ler hoje, todavia "uma estranha loucura está possuindo as classes operárias das nações em que reina a civilização capitalista. Essa loucura arrasta na sua esteira misérias individuais e sociais que, há séculos, estão torturando a triste humanidade”. Largo o livro.
Continuo a escrever sem criar expectativa alguma. Para não gerar decepções que, sem dúvida, irão me aporrinhar, como frustrações.
E aí, como eu lido com as minhas frustrações?
Quimicamente humano, recorro a cápsulas, pílulas e comprimidos. Por prédica profissional, ajeito minha mente. Fisiologicamente, estou sereno. Prudente, ignoro a hora informada pelos fatos. Sinceramente, desconheço a história que não busco. Honesto, escolho a sabedoria de não confirmar a realidade configurada pelas notícias.
Aos fatos ― o que acontece, o que conta como acontecido, o que produz reações ao que se conta como teria acontecido. Donde posso concluir que há uma fantasia, um discurso artificial, uma narrativa que conta pra mim o que pensa e faz o mundo.
O que estou fazendo? Quero viver o momento?
E o sofá ali.
São seis horas e treze minutos... Adeus, crônica.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 14 de julho de 2020.

domingo, 12 de julho de 2020

Anatomia do abismo


Anatomia do abismo

Em vez de autorretrato: outrorretrato. As visões dos outros ajudam a ver-se com matizes variados, além do branco e preto das certezas. O que pode ser um problema a quem não quer dúvidas, certo de que o mundo só fica complicado quando há normas, regras e leis que ora dizem, ora contradizem. Com história única, própria e particular, cada pessoa contribui para torcer e distorcer, travar e destravar, avançar e recuar a figurinha que cada qual faz de si.
Muitas vezes, ouve-se mais a voz interior, dando valor exagerado ao que o ego diz. Outras tantas, ouvidos moucos dissimulam o que se pretende projetado de quem está por perto. Entretanto, a comédia e o drama resultam das misturas, das sopas que se faz, errando a mão, o passo retificando.
Quer agradar? Aborrece. Quer-se repugnante? Apetecível.
Mas... Saindo da abstração.
Aí, por estes dias, me peguei pensando em Leonor Watling, atriz e cantora espanhola, casada com o cantautor uruguaio Jorge Drexler. E vejo/ouço o casal em Toque de Queda. Ambos estão recuperados da Covid-19, então, acolho: que o amor penda a balança para a vida.
E posso recolher da coluna de Hélio Schwartsman, Por que torço para que Bolsonaro morra, a lição ética do racionalismo, um cálculo moral do consequencialismo que supõe que as “ações são valoradas pelos resultados que produzem”, porque, passando de 70.000 mortos no país, para que vidas sejam preservadas, a lógica deve prevalecer.
Indiferença ao milhão de infectados numa estatística?
Alvoroço pela personificação num título?
Tento ouvir o mundo. Há gritarias. Há trovoadas. Há tornados. Há sussurros. Há silêncios. Há pardais pipilando. A vida ouve o mundo? Quem dá ouvidos ao que a vida diz?
Não ando sofrendo de surdez. Todavia, com o volume mais baixo dos ruídos cotidianos e com o espaçamento entre os barulhos, posso comparar ontem e hoje.
A minha deficiência auditiva baseava-se em ouvir sem escutar, no automático, sem prestar atenção. Agora, me certifico da respiração e acompanho o pulso. Impressiono-me, pois noto o meu corpo vivendo. Assombrado, mantenho a escuta sensível ao que antes sequer ouvia, mesmo consciente de que, sob as mesmas camadas do defectível e sondável de sempre, a realidade está tão factícia por suas sutilezas.
Enquanto me for suportável, mantenho o abismo da vigília.
Não obstante, com um pé na razão e outro na emoção, assisto ao Sr. Brasil na TV Cultura, edição comemorativa dos quinze anos do programa. De Êta nóis!, cantada por Ney Matogrosso e Luli e Lucina, compositoras da canção, colho: no milagre da lida, o amor vira mel.
Para reconstruir o destruído?
Ainda do programa do Rolando Boldrin, de Pesadelo de Maurício Tapajós e Paulo César Pinheiro, colho: quando um muro separa uma ponte une.
E retorno a Leonor: poco a poco la pena se va.
E que vá? O amor canta que: vá!

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 12 de julho de 2020.