Milagre
de casa
Caraca, logo agora?
Sim, vovó, está todo mundo pela hora
da morte. Por isso, deixe de manha e faça-nos a gentileza. A senhora entre neste
carro brilhante, majestoso, que vai puxado pelos hieráticos corcéis de crinas
de ouro, verdadeiros Pégasos. Embora mitologicamente metamorfoseados em reles
cabo de vassoura, e pau para toda sova no lombo da criançada baguncenta ― a
minha prima e eu. Que infestávamos com balbúrdia a ordem que ali tinha se
domiciliado desde antes do Getúlio; nos idos dos novecentos e quatro ― quando
da chegada da dupla ancestral: o patriarca, Antonio, e a matriarca, Antonia.
Não estou brincando; eram mesmo: vovô
e vovó.
Vovô viera da sua Coimbra na toga
recém-empossada, carregado daqueles perdigotos bacharéis que ornamentam as
paredes, enfiados entre molduras tão diplomáticas, a dar banana a quem
duvidasse da honestidade dos títulos, do mérito assinalado universal por brasão.
Já vovó, a Antonia do coche refugado,
viera de Coimbra fiada nas promissórias de um Ernesto, que a tapeou direitinho
com a promessa de rasgar seda, emendar o soneto e tirar moedas do nariz. O
castelo fedeu a maré, que a mãe de mamãe deu com as burras n’água.
Carvalho, Antonio!
Para aligeirar o nosso passo, pomos
Antonio e Antonia já casados na mesma história. No entanto, pra verdade do bem,
não foi isso que vovó gritou quando viu o avoado esposo estatelado no chão,
caído da legendária jabuticabeira, em cujo galho que enveredou serrar tomara
lugar, sentado e pimpão.
É coisa séria?
Bem, vovó Antonia nunca molhou os pés na
Jureia. Botei isso pra tornar menos dramático o calamitoso do momento. Uma vez virada
a sorte, se o lobo corre pro mato sem ser notado, trato de tirar o jaleco do
nostálgico pra não trajar as velharias de velhaco.
Voltando ao causo da Jureia. Sabe,
perto de Iguape? Foi na barra daquele rio, que o vovô ilustre, mão pra toda
obra, resolveu dar jeito naquilo. Pra dormir sossegado, óbvio. Porque um dos
dedos folhudos do dito cujo instrumento do diabo pra testar a calma ficava
roçando a veneziana do probo ancião. Ora bolas, antes de surtar possesso com antanha
ousadia, o Serrote de Ouro pôs abaixo pau e buzanfa.
Parece peta?
Gente, vovó Antonia não partiu de
Portugal; vovô, sim. Antonia foi nome abraçado pra acoplar com Antonio, que tomo
espirituoso extrair o vinho da uva.
Pareço lelé?
Entusiasmado com a química, virei
outra pessoa.
Sem chilique, conto o bê-á-bá por uma
vida melhor, que a mágica está na substância secreta.
Cumé?
Para deixar a casa piscando sem ficar
esfregando os rejuntes feito condenado, cloroquina na cândida. Para temperar
alface sem adição de sal que azeda a pressão, cloroquina no vinagre. Prum sono
manso nos cornos da lua, cloroquina na cachaça.
Vamos, vó! Salte de banda. Entre no
coro:
Cloroquina... Cloroquina... Cloroquina
de Jesus.
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, dia 13 de agosto de
2020.