Feijão
no prato
Depois de uma noite daquelas em que a
barata fica presa na teia sob a cama, quando não há nada a fazer a não ser virar
Franz Kafka, a fera tranca-se na jaula.
A criança tentando processar o espanto
de despertar no meio da noite, de pijama molhado. A infância mordendo o
travesseiro, a sua nuca suando o bafo do pesadelo. No colchão forrado de fungo,
chora de condoído, o barro lambido pelas águas intempestivas. Absurda, a vida
queima quando assopra, brinca porque fere.
Disparate!
E, por acaso, era domingo?
Era domingo, cavalo selvagem nas
imensidões da ansiedade. Era domingo, à mesa, quatro cadeiras à disposição das expectativas.
Era domingo de frango assado pelas convulsões da farsa. Era domingo, ainda que
fosse, quisera largando de sê-lo. Embora não fosse mais que outro qualquer, retorcia-se
sobre o domingo que era. Era mesmo demasiado aquele domingo, louco por uma matéria
sensacional com o último faquir obeso do Circo das Maravilhas, em fantástica reprise.
Para lidar com esse demônio
hospitaleiro, o domingo, antes que o feijão acabe queimado: basta baixar o fogo
da panela. Pois é preciso manter a pizza do sábado, o chope da sexta, a corridinha
na quinta, a consulta na terça, a tosse de segunda... Para gozar as esperanças de
um caldinho de feijão.
A cultura que pergunta faz arte?
A arte não obriga ninguém a pensar o
que não quer, ela convida ao diálogo com o que não se havia pensado.
Possibilita a inclusão de visões de mundo que estavam de fora. Pede atenção ao
que não se via, ao minúsculo e ao maiúsculo, a vetores de força. Mostra doloroso
o equilíbrio efêmero, precário e ilusório. Propõe a diferença, o abrupto do diverso,
o começo da conversa, e as rupturas do consenso. Nada como uma boa noite de
insônia para aprofundar-se no risco de agir sem o polegar do positivo, do artístico,
do bem-feito, do bonitinho de tão ordinário. Porque a arte pede ensaio, tentativa,
e não o temor de errar. Faz-se pela dúvida que persiste como pergunta. Quem só sabe
as respostas carece da cultura que educa pela arte.
Cadê tempo pro corpo com fome o tempo
todo?
Diz um sujeito: “Alienado de mim é que
não fico, porque, dentre as mil razões para não me apartar de mim, o meu café
com pão faz-me estar em casa”.
Diz o retrato: “As palavras mexem com as
pessoas, que passam a agir pelo que acreditam ter entendido do que se diz. Fica
óbvio que a palavra existe porque, no uso, o sentido que vem à tona fecunda nas
pessoas a certeza do poder que as palavras têm. Afinal, palavras são coisas
humanas, feitas por pessoas, fabricadas para ajudar a intervir no mundo. Mas o
evidente apaga esta sua origem, como ferramenta. Então, a palavra impõe uma
carga semântica que despista quem não a domina ou não põe questão de fazê-la
útil”.
O normal do tenso?
Condicionado à dor que sente, quando chinela
na curva, o medo capota, ou mente.
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, dia 26 de maio de 2020.