domingo, 19 de abril de 2020

Uma história de amor


Uma história de amor

Muito se engana quem busque nestas linhas as marcas de alguma apologia ao equilíbrio que filtra a atualidade das circunstâncias com a placidez dos sensatos. Muito pouco há disso, uma vez que a seguir vem um caso de amor entre lápis e papel.
Então, conseguindo-se tirar um tempinho para prestar atenção ao que se conta, eis o lápis a pretender agir com desenvoltura no papel de sempre. Porém, em razão dos eventos, por temer estar passando em branco, feito algaravia sublimada no registro, o grafite pode muito bem disparar, havendo o estímulo da escuta, o que amedronta.
Já se disse que falar libera o sofrimento. Mas falar quando se quer não é o mesmo que falar quando seja inconveniente. Sob pressão, a contragosto, sem controle, para que se revele o que nem se percebia torturante. Sem meias palavras, desmesurada, isso torna interessante a pessoa, que vai soltando pistas do que não diz às claras.
Ops! Ter direito à transparência não garante a claridade de si nem o autoconhecimento fundamenta a identidade. A intimidade tem como dissimular, diz o medo. Tentando evitar contradições, acreditando-se o discurso possível de quem comanda, diz a vaidade. O descuidado, sem perceber, pode estar adulando o demoniozinho que adora soprar à língua as palavras a quem as avaliza indispensáveis.
A ilusão da fala sem mistérios? Falar tomando cuidado com o que é falado engendra o que não se diz? O autoengano de conhecer-se a ponto de imaginar-se ocupando o lugar que manda?
Como alguém já alertou, desejos não se submetem.
Incontroláveis, os desejos brincam com as aparências, não jogam com o acaso, por isso ganham a aposta que não fazem. Permanecem fora dos domínios da linguagem articulada. Preferem tramar-se de tal maneira que a comunicação borra no retrato o ruído dos traços.
Eis o enevoado, o inacessível à lógica que move os moinhos.
Nesse campo obscuro o pensamento fica protegido. Desvia o foco pras satisfações e pros prêmios que acomodam. Quando há o prazer do reconhecimento, há o contentamento e o relaxamento que alivia. E está armado o círculo.
Fazer o bem para merecer aplausos? Dá para aferir como um bem o que se diz? O aplauso serve para medir a felicidade de quem fala e de quem ouve? Quando o aplauso move quem vive dizendo o quanto tem feito de bem, a audiência está no palco.
Se a fala apaixonada foge ao padrão, como medi-la?
Para não vir à tona, cala-se sobre o que não diz. De entrelinha em entrelinha, quer tornar intransitável o que não quer dizer. Pra vir à luz, demanda-se encarar o que a escuridão esconde, encobre, abriga.
E até parece que excessos fortalecem.
Dizem que duvidar faz bem pra cabeça que quer tudo decorado de acordo com o bom senso, talvez isso explique por que anda sumida a amante caprichosa que, beirando o insuportável, acha um escândalo ver desfecho onde não tem.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 19 de abril de 2020.

quinta-feira, 16 de abril de 2020

A lógica da coisa


A lógica da coisa

Quem sabe aquele vinho tinto à noite, um uísquinho cowboy antes do almoço e o néctar do Ceará em forma de caninha.
Com a máscara no lugar, e o pensamento no mundo da rua, vê-se a que ponto pode chegar quem bate na mesma tecla, o desejo que o agasta. Em plena quarentena, assim feito o sul pro norte do ímã, não porque não queira mudar de assunto, mas, súbito, com a convulsão em andamento, passou a ter essa ideia fixa.
E sente muito.
Está isolado do calçadão, afastado do supermercado, distante dos bancos, apartado do dia a dia.
E deseja seguir.
Sentado no piso frio da sala, está torto. Sobre a mesa de trabalho, as lentes sujas dos óculos, largados entre a tela do computador e a do televisor, não filtram as imagens, aumentam a decepção acrescida de saliva. As mãos no rosto ilustram aquele estado, de pessoa que só tem o rumo a que se sujeita ruminar.
Num soluço envergonhado, quase um pranto sem lágrimas, tenso, na certeza doída de que entojou, de que tem sobrevivido estropiado.
O pior, naquelas circunstâncias de confinamento, é ter a sensação de que a memória anda engasgada, meio danificada.
Quando foi que o mal-estar tinha começado?
Não, tal descompasso vinha de antes da restrição do livre trânsito. Agora, parece que questionar é bobagem, uma vez que permanecerá fechado no apartamento. Vendo TV ou não, terá de suportar-se entre o desassossego de cão sem poste e a rabugice de gato faminto.
A coisa não ia por água abaixo nem o afogava, estando no raso. E punha gás de que não iria acomodar-se daquele jeito, contrariado por autoridade a que não se submeteria sem confrontação.
Como deixara de malbaratar a trama da vida, não iria repor panos puídos na carne envilecida por anos na esbórnia. De modo algum.
Numa hora dessas, ter de aturar-se?
Como a sensatez não esconde o doido que passa a pensar com a pressa dos incréus, é óbvio que estava pagando por águas passadas. Com o pé fora do mar, não seria agora que daria ouvidos a sereias na preamar. Terá de reverter tanta negatividade.
Tem medo. Sabe o quanto pena.
Bem na semana de todo auê na mídia, quebrou-se um molar. Com a mente ocupada em comprar mantimentos, foi-se a obturação de um pré-molar. Pra acentuar o fundo do bagaço, abre-se a janelinha.
E toca pensar que aquilo não haveria de ser nada, que tinha gente desdentada, que por aí tem quem esteja passando fome.
Não é o caso.
Ele pode abocanhar o pão da manhã, tomar suco de manga bem gelado e comer biscoito lá pelas quatro. Mas o tempo virou.
Vai deixar para lá quando poderia ter tomado pulso de cara?
Falta coragem pra ir ao dentista. Pode dar o azar de pegar o vírus letal na cadeira odontológica.
Melhor pensar bem; e focar na solução menos traumática.
Sem ficar criando fantasmas, tira o pijama, cobre boca e nariz com um lenço. Com a cabeça dos iluminados, voa.
Ufa! Paga logo uma dúzia de Velho Barreiro.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 16 de abril de 2020.

terça-feira, 14 de abril de 2020

Sem vaidade


Sem vaidade

Vida é movimento.
Como a noite está impregnando os lençóis amarfanhados, sacudo as pulgas de ontem. Ajeitando-o, o leito nem precisa dizer que o dia não perde tempo. Vem aí um friozinho de fim de tarde. Corro a porta da varanda, guardarei o calor do outono.
Vou fazer a barba, mas não pra dar umas voltinhas. Levo a sério o achatamento da curva da peste; persevero no distanciamento físico; devo preservar a saúde e a do outro. Só não quero parecer doente.
Já que não me vejo corroído pela acidez das angústias, tiro o som da TV. E, em meio ao caos pandemônico, a Terra segue ocupada em produzir rotação, translação, e excreção.
Nada mais natural.
No mundo, há coisas boas e ruins. Sempre as houve. Assim, pode ser que esta pandemia aumente o sentimento de humanidade que as pessoas têm umas pelas outras. Há, entretanto, os animais cultivados com doses pouco sutis de mentiras, manipulações, hipocrisias; como não testam positivos falsos?
Hélas! Ao ver-se confinado ao convívio consigo, eis que a cara de pau que o perverso fingia não trajar no cotidiano passa a espernear, gritar, amaldiçoar, querer fugir do cerco, dessa pavorosa aproximação íntima. Sob maquiagem de palhaço, revela-se o vilão de máscara.
E o truque da trapaça?
Não deixo pra amanhã o que era pra ontem. Concentro-me. Vou à geladeira pra petiscar um pedaço de bolo sem sorvete de chocolate. Ignoro o que está havendo nas ruas, preciso avançar. Recuso engolir as notícias, preciso manter a cabeça em paz. Estico a coluna no sofá, para que dores incômodas não me impeçam de trabalhar. Controlo o tempo, ajeito a cadeira. Tenho muito a dizer. E digo o que quero. Sem me importar se desagrado. Quero continuar no comando. Não posso deixar que a realidade contamine meu texto. Guerras assim não são travadas no papel. Para mim está claro em que teatro preciso atuar. Escrevo; corrijo a escrita, expurgando intromissões incoerentes. Nada mais justo do que me entregar de corpo inteiro ao que me satisfaz. Conscientizo-me do compromisso comigo. Muito de mim transparece no que faço, por isso labuto para marcar a minha presença. Uma vez que a época em que vivo é esta, faço agora o que tenho para fazer. A luta exige de mim o esforço para parecer simples, natural e agradável de ler. Tenho viva consciência de que estou me encorajando a dar ao mundo o melhor de mim. Porém, não fico pensando sem nexo. Acabo concordando que não devo correr do que me perturba. Aqui e agora, o jogo é para sempre. Aposto que nunca antes tinha percebido que o que faço precisa ser feito confrontando a permanência. Leio o escrito, isso me tranquiliza. Pela isenção diante do medo, não vai ser apenas citado, servirá de modelo de coragem. Movido pelo amor ao próximo, neste preciso instante, faltaria com a verdade se me furtasse a admitir que, pessoalmente, sinto um orgulho danado.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 14 de abril de 2020.

domingo, 12 de abril de 2020

Aprender a nadar


Aprender a nadar

Muita gente está lendo A peste do Albert Camus, todavia, por me sentir um lobo enlouquecendo pelo uivo da matilha, busco Robinson Crusoé pelas lombadas, em vão.
Não por isso. Invento outra versão.
O náufrago vai dar numa ilha, entra numas de matar o tempo. Faz isso, faz aquilo, repete isso, e repete aquilo. Até que se dá conta que precisa disciplinar-se. Ter a liberdade de instituir a rotina que sempre pediu aos seus. O destino deu-lhe o presente de praticar a empatia, de poder olhar o mundo com os olhos de outra pessoa. Que beleza! Altruísta como nunca antes, o Robinson da minha história deixa-se acordar pelo sol da aurora; vai cedo correr pela beira-mar; senta na praia para beber água de coco, regalo caído na areia; com um rústico arpão artesanal, fisga um peixe gostoso que chama de... peixe; sim, a sua imaginação é parca; a sua voz pouco se ouve, só quando ralha com umas aves que arrisca chamar gaivotas; uns bichos desordeiros que mergulham na água do mar para papar os peixes, o que o atrai para área de mergulho das barulhentas; como não suporta algazarra, tampa os ouvidos com caracóis pontudos. Putz! Os dias não passam. A melhor maneira de ter certeza de que estão passando é marcar sua passagem. Então, assim que é acordado pelos raios da manhã, lá vai ele riscar num tronco um pauzinho por dia. E isso ele faz todo dia. Por vinte e oito anos, foi o que fez. E parou por quê? Não teve jeito, como a marcação no tronco de cada árvore foi sendo feita com um canivete enferrujado, aquilo adoeceu cada uma das árvores da mata antes do rio. A floresta já era? Sem problemas, o Robinson caniveteiro podia ver a maravilha daquela vista. Uma montanha! Lindo monte que todo aquele mato tapava. Ô lugarzinho cheio de vida. Tanto que entrou em erupção, forçando-o a nadar feito doido pro barco do Sexta-Feira.
Olho pela janela.
Ai. Esse negócio de ficar trancafiado entre quatro paredes está me deixando injuriado. Tem crescido em mim essa tensão, uma vontade de cometer alguma confissão. De cunho bárbaro, vulgar e obsceno, o que pode causar assombro, em quem acredita em assombração. Há um broto meio crescido, acho uma flor exótica. Que a minha discrição padece tensa e perplexa, porquanto desaprove o coração desvelado assim em público. Tornada ferida aberta, desassossego que se nutre de ansiedades, a minha mente precisa de lufadas de ar renovador.
O sol venta o seu mar.
Leio o que diz Christiane Torloni, no Estadão do feriado, a respeito do seu trabalho em Fina Estampa:
― “Você tem que lutar com você mesmo para não tentar criticar o personagem, sua performance... Quer dizer, o personagem, não. Isso é uma coisa que eu percebo já há muitos anos: não faço julgamento de valor de personagem, nunca. O único que pode fazer isso é o público”.
Mas, cáspite!
Maremoto nenhum tem medo de afogar-se em braços míopes.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 12 de abril de 2020.

quinta-feira, 9 de abril de 2020

Morte e vida coronavariana


Morte e vida coronavariana

Ontem à noite, por volta das nove da noite, a postos: à espera das manifestações. Confirmo: nove e três. A vizinha do quarteirão depois da Jaú chama: boa-noite. Insiste, clama resposta, e obtém.
O chatão aqui nem se esforça pra disfarçar que desdenha. Gritaria num pandemônio desses? Com tanta panela tagarela nas varandas, como sacar que tem gente que nem bate boca por falta de Face? E a morte ronda os altares suplicando moedas?
Há pessoas que começaram a ver que tem alguma coisa vindo na direção delas; outras tantas já se aperceberam que tem vindo algo na direção de todo mundo; as poucas que tinham olhos como lunetas e ouvidos como audiômetros ficam em casa pra evitar que se acelere o pasmo nem se intensifique a carnificina.
O planeta é um só? Poxa, caramba, vixe.
Algumas pessoas estão perdendo o foco; outras estão posando no palco compartilhado; estamos numa oitava atravessando a escala.
Num átimo, do outro lado da rua, entra em cena, naquela varanda com ar-condicionado, o adorador de derivados do cloro.
Nero Eugênio, exemplo de fôlego, funesto exemplar.
Os ventos de perdigotos travam os moinhos? Não se engane, tem gente que está mentindo. Hidroxicloroquina já! Depois não reclamem quando o diabo vencer a guerra. Quem com a verdade se liberta, com a verdade libertará. Anote aí o que, ó que já faz tempo, tenho dito.
Poxa, provocar conflito. Caramba, nem dá pra respirar. Vixe, ainda bem que pude aprender a lavar as mãos de olhos concentrados.
Sem conseguir ouvir direito o que se dizia logo ali, volto pra sala.
Com um gosto amargo na boca, sim, ainda tenho paladar e olfato, me vem à mente um desânimo, uma frustração, uma fronteira que foi ultrapassada. Parece que o fantasma martela, bate, vai perfurando.
Eu falo. Falo mesmo, porque é preciso dizer. Tem que abrir o olho. O brasileiro é um tonto que não vê que estão enganando o coitado. Digo, fico repetindo, mas o bobalhão cai na conversinha dos espertos e não toma jeito. Falo, falo, falo, e nada de ser ouvido.
Se ninguém escuta, viva o amor livre dos pandas encarcerados.
Sim, amiga leitora e amigo leitor, o mundo animal anda curtindo o sumiço dos seres humanos.
Notícia vinda de zoológico em Hong Kong diz que, depois de uma década morando juntos num cativeiro público, dois amáveis pandas gigantes, Ying Ying e Le Le, mandaram bem com sol e tudo. Também pudera, com seis bilhões de pessoas intoxicadas de tanta pornografia coronavírica, sentiram-se à vontade pra perder a virgindade conjugal.
Sexo selvagem em TVs, jornais e sítios de família?
Dias bizarros. Quem vive? Uma época rara. Quem morre? Nunca antes vivi algo assim. Quem vence? E o que posso dizer nessa hora? Quem é vencido? Como traduzir o que tenho vivido?
Seria um acaso coronaviral... Ou uma chance coronavirana...
Ô cabeça, de onde vem o título da crônica?

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 09 de abril de 2020.

quarta-feira, 8 de abril de 2020

Mais uma cascata


Mais uma cascata

Cadê o lápis que uso pra escrever meus textos? Eita, o tempo não para, vou tecer direto no micro. Porém, como não existe rascunho pro abismo da queda, vou pé ante pé pelo improviso:
21 horas, por aí. Começam os gritos. Até que os entenda, soam como ruídos. Efeito da clausura: usar a loucura como cura? A vizinha da frente põe-se a traduzir a situação, berra a favor da solidariedade, saúda. Janelas, sacadas e varandas são a boca imprevista, de cujos lábios partem perguntas a perguntas. Faz-se o diálogo, algo raro que não vinha havendo; assim publicamente? Necas.
Atrás de cortinas corridas, sob lâmpadas apagadas, ensimesmado pelas pálpebras cerradas, o homem atormentado pelas azáfamas do dia a dia agradece a vivacidade que torna leve o ar. A vida tem fome de vida, isso a rua tem, isso o renova pro amanhã.
E os números da curva, e o vetor do contágio, e a propagação dos cuidados? Angústias, e mortes, e desespero.
Sem formação nas áreas médica, biológica ou estatística, resta ao personagem voltar-se pra leitura do entorno. Sem gritar, espernear ou dar murro no espelho, pois cacos e sangue não matam o invisível.
Com este coronavírus provocando a morte de tanta gente como todo vírus faz, como é que a história não se repete? “A história não se repete, mas os mecanismos de como a sociedade responde aos problemas são sempre os mesmos. Por isso temos as respostas na história. Como não mudamos, as reações coletivas são iguais. Somos animais, não devemos esquecê-lo. Diante de medo, incerteza e falta de orientação, reagimos sempre igual. No entanto, se sabemos que reagimos assim nos controlamos. Por isso temos a civilização”.
Tudo bem, Géraldine Schwarz, não estou com cabeça pra pensar a respeito. Estou mais para concordar com o Gonçalo M. Tavares: “É preciso infiltrar nas fissuras a alegria. Como se a alegria fosse um material médico”; “A alegria não basta, mas é necessária”.
Que coisa. Sim, e está ali na frente, impossível de ser alcançado. Então, prevendo que nunca hei de atingir, não tenho a petulância de pensar ter dado o melhor de mim enquanto faço o que estou fazendo nem depois de feito.
Ainda mais com a montanha perto. Quero subir, ir ao topo.
Aliás, antes pudesse só me concentrar na escalada.
Vem uma névoa, adeus pico da montanha. Sem visão, imagino.
Vou tentar algo. Sacudo as mãos, agito os braços, quero agachar. Opa! Melhor não arriscar cair... Na água? Parece que estou pisando em pedra solta, flutuante. Parece que roda, e não saio do lugar.
Para evitar confusão, boto uma bruxa na história. Sua casa fica no sopé do monte, já que é a guardiã de um tesouro, acho.
Até estou sentindo que há um rio subterrâneo. Se não tenho nome pro sentimento? Isso me escapa. Se a bruxa não disser nada, irei às cegas.
Palavras, pedras rodogirantes flutuando em rio que não se vê.
Oxe. Um estrondo?

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 07 de abril de 2020.

domingo, 5 de abril de 2020

A dar conta


A dar conta

Se presto conta do que nem faço conta?
Li em algum lugar por aí que o cineasta Jean-Luc Godard teria dito que a cultura é regra e a arte, exceção. Acolho este pensamento.
Assistindo ao filme Rolling Thunder Revue, de 2019, dirigido por Martin Scorsese, confirma-se a ideia.
Nem um pouco excepcional, viro a viajar no sofá.
A obra mescla material de 1975/76, em que uma trupe de artistas arregimentada por Bob Dylan incursionou pelos EUA de raiz e não só pelo país das metrópoles, e recente.
Logo no princípio, o cantautor diz: “A vida não serve para você se encontrar, nem para encontrar nada. A vida serve para você se criar. E criar coisas”.
O que tenho feito que possa ainda mudar?
Para mudar, preciso primeiro avaliar o que ando fazendo. Isso me agrada; isso me aborrece; pouco me importo com isso. Que vida feliz tomo por modelo? A saúde antes de mais nada? O bolso sofre abalo? A cama com ciúme do sofá? A fruteira está oxidando?
A maresia, a maré, o mar... Merda.
Se o oceano ensina, ignoro. Se emergisse, afogar-me-ia.
A mesóclise como metáfora do medo-em-vida, dum eu-zumbi.
Seu Rodrigues, sua pessoa tá mesmo bem à vontade, hein?
Estou em casa, mantenho os pés no chão, respiro o ar que entra pelas janelas abertas, cozinho ovo pro almoço; à mesa sem TV, como folhas da alface hidropônica de sempre, abocanho à medida da boca, mastigo com a velocidade de quem aprecia e não de quem se livra da comida que tem que engolir de qualquer modo; me ajeito comigo.
Não me sujeito. Se bem que... Retirei da crônica anterior, Daora, o seguinte desenho de uma carantonha darwinista social:
Como não rezo nem me apiedo, não sinto culpa por desprezá-lo.
Nos momentos de pânico desesperadamente contagioso, quando a razão alucina, pus em prática a autocensura.
Nem antes nem depois ― o entre.
No vão, nisso grassa tal pessoa cheia de infâmias.
Então, o que mudou? Então, avaliei o que andava querendo com a crônica, sem mensagem em garrafa atirada ao mar. Sem mar, só algo dado como normal.
Escrevo. O uso das palavras estabelece a comunicação, mas isso de querer pôr o que tenho pra dizer é empulhação. Longe de mim dar uma de pastor diante do rebanho em crise epidêmica.
E escrevo. Junto palavras, organizo-as de algum jeito.
As leituras? Desorientam.
Aliás, leria O livro das ignorãças. Não tenho. Vou de Gramática expositiva do chão porque, a esmo, sigo fisgado:
O homem de lata anda fardado de camaleão.
Bem que a pandemia tenta, todavia não uso fardamento. Opto por me distrair com a materialidade das palavras, de coisas sonoras, que as andorinhas voam quando pousam.
Este escriba erra por si, não em si nem pra si. Sim, não me viciam as virtudes. O meu ofício está em transformar o erro em algo que não sei o que seja até que venha a ficar pronto.
Quando tá pronto, tá terminado? Não, nada.
Girassóis, girassóis, girassóis... Giraluna.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 05 de abril de 2020.

sexta-feira, 3 de abril de 2020

Daora



Daora

Para fazer as compras da quinzena, vou ao supermercado. Com a quarentena em vigor, o acesso ao interior da loja está controlado por funcionário da rede. À entrada, garantido o distanciamento, é lançado álcool em gel na mão de cada cliente que chega.
Um movimento tranquilo. E sem falta de mercadorias.
Comparo com o que vivi dias antes das restrições.
Lá estava, de lista na mão, pegando cada item na quantidade para duas semanas. Comprando o necessário, idosos sem afobação. Sem demonstrações de medo com o fim do mundo.
Como comprava em dobro, ia calculando o peso. Resolvi dividir.
Fui para casa, mas voltei uns quarenta minutos depois.
O frenesi tomava conta do ar. O supermercado tinha mais gente. A maior parte das mulheres adultas empunhavam seus carrinhos com comida pra uma multidão. Que coisa! Todo mundo pelejava pra estar munido com papel higiênico, prevendo iminente a invasão zumbi.
Realmente, o cartão de crédito protege dos zumbis. Sem cinismo, ricos compram mais porque podem pagar pela diferença.
E nas duas vezes que estive no supermercado, vi aquele vulto que me é bem familiar, porque moramos próximos: um velho com pernas de atleta e pulmões de bailarino, o Nero Eugênio.
Explico-me.
Quando estava chegando, o dito cujo saía. Carregado de sacolas, cigarro aceso. Quando retornei, o próprio estava de saída. Carregado de sacolas, fumava outro cigarro.
Então, o sujeito se destaca por correr como um Bolt sexagenário?
Vou direto ao ponto. Fui e voltei, desabei diante da TV. Panelaços, cantorias, diário do confinamento à brasileira. Dou um tempo. Vou pra varanda. Quero sol, curtir o horizonte, respirar a ilusão azul.
Do outro lado da rua, ignorando seus passarinhos engaiolados na sacada envidraçada, insulta-me ouvi-lo, o babaquara, tentando bater na vizinha com seus gritos.
Coronavírus que nada! A vida não tem de mudar nada! É coisa de comunista falir o comércio e prender pessoas em casa!
Mais que nunca, é hora de abraçar as pessoas amadas da melhor maneira possível: contatando-as por mensagem, telefone ou vídeo.
Cá entre nós, escolho a varanda; faz um dia lindo, e não sofro.
Tenho ciência do que posso, preciso e devo fazer. E faço.
Posso estar enganado, como volta e meia me acontece, mas o sol não me parece criminoso, não o percebo contrariado, não sinto a luz irradiada como instrumento de morte. Aliás, sem me purgar de algum lado sombrio em mim, ele me é benigno. Como desconheço se ando carente de vitaminas, quero cinco minutos de banho de sol.
Estou em pé, apoiando-me na mureta da sacada, respirando sem febre e sem tosse. Fico parado, até que os meus joelhos comecem a acusar o mormaço nos ligamentos, um formigamento barafunde pela espinha e a nuca peça almofadas.
Como moro sozinho, não me preocupa conviver comigo.
Oxe.
E quando o mundo aborrece? Fecho a casa, apenas.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 02 de abril de 2020.

quarta-feira, 1 de abril de 2020

Sol na varanda


Sol na varanda

“Eta mundo besta sem porteira, ou solução”. Assinadas por Pedro Luís, as aspas estão em Tempo de Menino (2011). Vá ao aplicativo de sua preferência e ouça a obra, pois, a mim me parece, o disco tem muito a ver com estes nossos dias.
Estes nossos dias...
Há quem faça questão de não ver a realidade estando mergulhado nela. Sim, é como a anedota dos peixinhos que, perguntados por um peixe mais velho se também achavam a água boa, saíram-se com...
― Água? Que água?
“Sem a consciência de cidadania, não há sentimento republicano”, disse Otto Lara Resende na crônica Acepção de pessoas, de 07/92. O jornalista avaliava a igualdade da palavra de motorista em relação à de presidente. Afinal, “se a cidadania é a plenitude dos direitos civis e políticos, como distinguir um cidadão de outro?”
Todos iguais perante a lei, diz a constituição vigente.
Então...
Sobre a saúde, por que não ouviríamos um médico ministro?
Tomo um susto com Achille Mbembe, na Folha de SP deste 31/03, pois fico ciente de que meu corpo pode voltar-se contra mim. Na raiz da crise, econômica ou sanitária, o que preciso me perguntar é:
― Quero a vida ou vou acelerar a morte?
Me angustio, só de pensar.
Como não posso tudo, diz a razão, posso ao menos cantar. Afinal, quem canta seus males espanta. Não sendo banana, diz o coração, é preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã.
Talvez isso explique porque, às vezes, canto que nem percebo. O dia a dia indo numa boa, comigo concentrado nas coisas, e, quando vejo, estou trocando as letras, e fazendo piada.
Como quatro paredes soltam as loucuras, pego Meu ex-amor, eu tive um amor, amor tão bonito, do Amado Batista, e tasco a emendar variações fesceninas, bestialógicas, pornôs.
Afora andar pelado... diverte-me.
Só por diversão, brinco com as ideias. Sem vocação ou formação musical, pelo jogo. Encaro o ato de escrever do mesmo modo, como algo lúdico. Gosto tanto da brincadeira que a levo mui a sério. Canto sozinho, isto é, escrevo concentrado. Afinal, o texto surge na mente e experimento ir mudando. Assobio com palavras na página, troco isso, ponho aquilo. Vou fazendo a minha parte, que é me divertir e fabricar a crônica da melhor maneira que posso. Sim, às vezes canto e danço só com as palavras.
Sério, seu Rodrigues?
Sim, vem do fundo de mim, emerge da lama, da névoa em que me modelo. Primeiro, escrevo. E depois, invento pegadinhas. Daí o texto tá pronto. A hora voa. O banheiro tá limpo. O almoço, na mesa. Tá na hora de dormir. Por improviso e lucidez. Pra acertar, é preciso errar.
E o coronavírus massacrante?
Sei, haja transtorno. Tem gente misturando tosse com crime. Será por isso que aquele vizinho que sempre tem razão, o Nero Eugênio, tem evitado tomar sol na varanda?
Ô amigão, relaxe um pouco, ouça Pedro Luís e Milton Nascimento cantando “o choro bom faz florescer”.
Tente.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 01 de abril de 2020.

domingo, 29 de março de 2020

Tempo de amar


Tempo de amar

Ó bela luz da manhã, sol que ilumina. Faz abrir meus olhos, abrir melhor o olhar. Acaso insistisse permanecer no escuro, iria sem ver que tateara o ar que fugia, morcego que se encolhe emudecido? Se fosse ficar buscando reflexo em espelho opacificado pela visão ignara não sentiria o chão que toco, com pés nus a errar o caminho? O que não quero é dar-me como sobras; luto pra apoiar toque menos míope. Ó ânsia que confronta o vil, a vergonha, o abjeto, meu desejo é não ir de rastos sobre restos.
Sem me ferir com os cacos? Evito.
Não me quero mudo diante da realidade que me assombra. Quero sentir o espanto, me permitir à perplexidade, não à impotência. Quero murchar em mim o que for baderna, bagunça, balbúrdia.
Por que busco o inteiro? Reflito.
As palavras fogem? Convido-as a voltar.
Olho pros livros. Houve apartamento, em Santos, em que os livros brincavam pelo chão, tomavam conta do tapete, e corriam ir deitar-se ao lado da cama, subiam as torres comunicantes de letras, ideias, de sabedorias. Traçavam caminhos que se bifurcavam, se coleavam, se amavam, animais da liberdade bem à vista da minha indolência.
Na clausura das entrelinhas? A vida manda notícias.
Leio no El País que Penderecki morreu. Penso nestas suas aspas: “O destino de um artista é um labirinto. Acredita conhecer o caminho, mas deve buscá-lo sem trégua. Amiúde avança, porém, de repente, deve retroceder e reabrir uma porta que havia fechado. É o diálogo constante com o passado”.
Outro dia, quinta-feira última, a minha imperícia com a tecnologia frustrou minhas ansiedades. Não acessei a videoconferência em que amigas e amigos comentaram suas leituras recentes.
Havia me preparado. Tinha separado livros pro bate-papo online. Inventei discurso, amarrei trechos, estudei o fluxo. Reli as passagens, que poderiam reforçar as poucas ideias que tive.
Maravilha? Depois de carregar a bateria do telefone, pude enviar a mensagem dando os detalhes de mais este fracasso.
Terei falhado? Se textos só retratarem o explícito.
Como a pandemia massacra, mudo o foco.
A vida de um país é sua economia? A vida do país é a saúde das pessoas. Sem pessoas, não há empresas nem consumo. Além disso, pessoas dão consciência ao mundo.
Busco ajuda ao Rubem Braga. “Afinal de contas os escritores dão apenas o reflexo da realidade, ou de um de seus aspectos ― e não é vedando a sua imagem num espelho que você remove um objeto”.
Atualmente, poucos livros estão na minha mesa de trabalho. Pego um, manuseio-o com carinho.
Que bela capa, o desenho feito à mão. Há uma árvore e, soltas no ar, há folhas flutuando. E a imagem ganha outros significados com as leituras. Toca-me o verso: o tempo não dá escolhas.
Já foi dito que no universo, nada se perde, tudo se transforma.
Eis a beleza que a obra semeia em mim: a flor não seca enquanto houver amor a cultivá-la.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 29 de março de 2020.

quinta-feira, 26 de março de 2020

Encruzilhada


Encruzilhada

Presente em Companhia e outros textos, O caminho, de Samuel Beckett, apresenta um labirinto a céu aberto, constituído por caminho de mão única a impor que se vá adiante. Do sopé ao topo e do topo ao sopé, sem poder inverter de cima pra baixo ou de baixo pra cima, só sendo possível ir adiante, o que implica em passar por onde tenha passado. Como se nunca antes tivesse estado ali, pois não há marca que permita qualquer reconhecimento. Mas, chegando ao topo ou ao sopé, lá ou cá, há a liberdade pra dar uma pausa.
Para mim, a vida é caminho de mão única, indo adiante, indo sem saber pra onde, tentando estabelecer referências que me auxiliem na jornada que, ao que parece, serpenteia, faz cruzamentos. Ora vou ao topo, ora ao sopé; tenho êxito, fracasso; sigo em frente.
Estou numa pausa?
Estou fritando um ovo. Ele pode grudar na frigideira ou ficar daora. Depende. Pra variar, marco a bobeira do pouco óleo, daí vira troço de bolotas cruas e outras queimadas. No fundo, vivo aprontando.
Mas por que é que estou dormindo mal? Será por que não posso andar no calçadão? Será por que a TV tem abusado de coronavírus? Uma hora tem gente que diz pra ficar em casa, depois vem outro que diz que o bicho não é tudo isso que andam falando; e agora?
Palpite ou ciência.
Sujeito às orientações pra contenção sanitária, o mundo todo quer mais é tocar a vida. Com altos e baixos; com alegrias e tristezas. Só que, nas atuais circunstâncias, estamos à mercê de uma certeza.
Hein?
A certeza de que, durante a quarentena, familiares e amigos estão onde deveriam estar. Cada qual ocupando um lugar previsto.
Mas a vida é surpreendente porque imprevisível.
Então, me esforço, me fecho dentro de casa. Passo a compartilhar os metros quadrados com os demais da família. E pra quê? Pra evitar que algo dê errado, pra não tornar indigesto o convívio. Como adulto, sonho, boto na cabeça que vai passar, faço planos. Mesmo temendo que alguma coisa possa sair pela culatra, faço a minha parte. Oriento. Sim. É preciso cuidar de si, em primeiro lugar. Mas este cuidar de si é necessário pra tornar possível cuidar do outro. Não vou me infectar, porque não quero infectar as pessoas. Pessoas com as quais convivo em casa, no prédio, no serviço em que não posso faltar; porque sou médica, sou balconista na farmácia, sou o policial que vigia pra que a praia fique sem aglomeração.
Não se trata de distanciamento social. É distanciamento físico.
Com as redes à disposição, mantenho-me conectado, interessado nas pessoas, preocupado, e afetando quem me afeta. Posso acolher o mundo por meio de Face, Zap, Messenger, Skype, telefone.
Sem ofensa, digo o que penso. Sem abrir mão do que penso, vou me livrando do medo. Assim, acho legítimo agir em nome da saúde, da segurança, da responsabilidade de ir e vir ― em casa e na rua.
Vou nessa. Tenho um ovo cozido pra comer.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 26 de março de 2020.

terça-feira, 24 de março de 2020

Sem discurso


Sem discurso

Sigo na labuta. Inventei de pôr a casa em ordem. Hoje foi a vez do quarto. Limpando os móveis; arrastando a cama; batendo as cortinas; varrendo; passando no chão a lavanda do cheirosinho.
Sem sentimentalismo. Sem moralismo, sem ficar dizendo o quanto estou sendo verdadeiro ao querer-me dado como bom. O momento é de fazer o certo, sem almejar o adequado que esteja fazendo como bem. Sem visão utilitarista, sem pragmatismo do útil, sem querer ser tomado como modelo do que seja considerado exemplar. A cidadania em ato. Meu dever é dizer que faço o bem por que sou bom?
Ô vaidade que revolta. O momento é de sobrevivência, empatia. É hora de lutar pela vida ― a minha e a do próximo.
A vida do próximo?
Da minha família, de amigas e amigos, da vizinha de oitenta anos, do vizinho de trinta e um, da funcionária cortês e do funcionário chato do banco, da caixa tatuada e do segurança tenso do supermercado, da atendente tensa da farmácia, de caminhoneira e caminhoneiro, de quem transporta remédios às farmácias e alimentos aos mercados.
A hora é de solidariedade ― presencial ou a distância ― a quem mantém a Terra funcionando.
O momento é de escolha. E escolher com responsabilidade, com alegria, permitindo-se à alegria de viver e de querer permanecer vivo. Com medo, ansiedade, amor, carinho, afetos pro bem e o pro mal.
Como assim, pro mal?
Sim, continuo humano, carente de abraços e beijos. Mas também sujeito ao cuspe de quem me odeia quando diz que exagero ao ouvir médicas e médicos.
Sim, continuo humano, exasperado por ficar restrito à minha casa. Mas pra me resguardar de quem segue dizendo que a gripezinha se cura com a crueldade de quatro meses sem salário, como se fossem férias não remuneradas, pro próprio bem da vítima.
Quantos somos desempregados, desamparados, desalentados?
Esta quarentena veio para permitir olhar bem fixamente pra sujeira que a correria do cotidiano anda acumulando nas veias e artérias. Daí o meu coração envilecido, carcomido por dentro, petrificado no deixa pra lá que passa, esse treco imundo suplica.
Sim, vai passar. Mas que passe e siga em frente, não retome do ponto onde a podridão do nefasto azeda o leite, aumenta o colesterol e desvirtua por atalho que não resolve os humores nos rins, fígado e cabeça. Vai passar, sim, a dor de cabeça é passível de analgésico.
Com o cérebro no timão, tanto posso ir pro porto quanto pro meio da borrasca. Penso? Penso.
E penso, mal sei fingir a lágrima que brota por acaso.
Termino a limpeza do quarto. Ponho as coisas de volta no lugar. E recolho o lixo, embalo-o; desço sozinho; deposito o saco com cuidado na lixeira.
Há demônios em demasia pro inferno limitado que temos feito do planeta. Efeito do famigerado fruto que atiçou nas pessoas o desejo do conhecimento do caminho?
E, ciente de que a precisão funda a busca:
― José, para onde?

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 24 de março de 2020.






domingo, 22 de março de 2020

Dentro da floresta


Dentro da floresta

Senhora e senhor, contagiante pelos encantos graciosos, afora a técnica que deixo de comentar por falta de conhecimento, foi assistir à Anna Prohaska, junto com aquele grupo de cellistas da Filarmônica de Berlim, num delicioso “canta, cambaxirra! canta, juriti! canta, irerê! canta, canta, sofrê! patativa! bem-te-vi!”. Pois, com pandemia à solta, o Digital Concert Hall ficará aberto até o dia 30/03.
Estou no apartamento, tocando a rotina, lendo jornais pela manhã, escrevendo minha crônica, movendo a vida, preparo a refeição, tomo meu banho de cada dia, mexendo com a mente, tenho ouvido Barber depois do almoço, volto ao romance que estou disposto a terminar de escrever, tecendo a estrada na caminhada, cuido da janta, vejo a TV, faço entrar o Aldir Blanc, topo lê-lo, curto ouvi-lo, mas, cicializado pelo Morfeu, aceito ir pra cama, porque, sim, estou em casa.
Por conta dos meus afazeres com a escrita, escolhi uma vida que leva em conta NÃO SAIR de casa. Com outras necessidades, outras pessoas não gostariam da situação de momento, pois NÃO PODEM SAIR de casa. Bem distintas, as circunstâncias. Entendo.
O ponto que para mim surge como relevante é dizer que qualquer pessoa pode estabelecer uma rotina durante a quarentena. É preciso tornar menos dramático o confinamento; e a adaptação às restrições faz-se urgente, pra ontem.
O espaço continua sendo o mesmo de outro dia. A pia da cozinha anda precisando de uma boa esfregada. O fogão, atenção redobrada. O rejunte do box do banheiro? As lâmpadas sujas do apê? Há tantos detalhes que revelam o tamanho da negligência. Ô vida corrida.
Limpar a casa não tira as preocupações com o vírus. É real o que estou sentindo, o medo. Mas a calma precisa ser estabelecida. Digo que, no meu caso, cuidar do espaço físico me faz buscar um alívio.
Por que, então, eu fui deixado para trás, mãe?
Curioso, ansiosamente curioso. Pela manhã, fiquei uns minutos na varanda. Sem pedestre e sem automóveis, confirmando o desajuste. Não desisti. Um carro passou na rua logo ali; simultaneamente, surgiu na esquina um morador com a sacolinha velha de guerra, trazia pão e leite pra família, acho.
O que há de errado comigo, mãe?
Ouvir a engrenagem do elevador do prédio. Saber que há pessoas levando o lixo pra lixeira no subsolo. Sigo acordado.
Telefonar pra minha mãe, escutá-la ralhar com a programação da TV, ouvi-la me aconselhar a não passar o dia engolindo tanta notícia sobre a pandemia. Não me intoxicar, isso me deixa acordado.
Você sabe o que deseja?
Há condições de sobrevivência que o vírus impõe a toda gente.
Isolamento, quarentena, o confinamento. Passar por isso é viver a excepcionalidade. Que não é a regra, não é normal.
A atualidade com suas premências não transformará em bunker o apartamento. Curtindo o uquelele da Roberta Sá, fico em casa.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 22 de março de 2020.










quarta-feira, 18 de março de 2020

A quarentena


A quarentena

Sempre é bom começar deixando as coisas bem claras, pra que o vento não venha a soprar o lume, que útil é manter a luz, ainda mais quando faz a vez de iluminar pro combate às trevas.
Dito isso, não será preciso referir-se a menina ou menino, trata-se de uma criança. Pois é, também não será necessário recapitular cada palavrão que a personagem rugiu, enquanto fazia questão de bater a porta em câmera lenta, pra dar tempo de gritar o repertório do calão.
A criança zanzava. Como toda pessoa que medita, ia pesando os gestos, avaliando o que ouvira, querendo esquecer as circunstâncias que eram bastante desagradáveis, pois tinham passado do limite.
Que limite? Isso é coisa que seu pai vivia repetindo, como se ficar insistindo em dizer isso tornasse compreensível. Pra ela era evidente a relação entre proibição e implicância, por ser criança.
A criança, enfim, resolveu que estava cansada de sua caminhada e sentou-se sob uma árvore. E de que tipo? Ela não sabia distinguir a laranjeira da goiabeira.
Isso é coisa de gente grande, oxe.
Então, a criança ouviu barulhos; eram vários ao mesmo tempo. De onde vinha aquela barulhada todinha?
Olhou para cima. Havia um ninho de passarinho. Por favor, nada de querer que a criança saiba se era ninho de pintassilgo ou canário.
Quando a criança já ia se posicionando para subir pelo tronco da árvore, passou rasante aquele passarinho que, pelo jeito, era a mãe dos filhotinhos.
Será possível que aquela bagunça toda era por causa da mãe?
A criança deu alguns passos até o ponto de onde poderia ter uma visão do que se passava entre a mamãe e a sua ninhada. E ela pôde ver que a adulta estava dando de comer aos bichinhos. Parecia, pois ela levantava o bico, fazia uns tremeliques engraçados e enfiava um treco qualquer na boca de cada filhote.
Que esquisito.
Será que os animais sempre fazem assim pra alimentar os filhos?
Aquela era uma boa pergunta. Era mesmo, tanto que a fez andar sem ver aonde pisava. A curiosidade meio que a cegava.
Foi quando, nem bem deu cinco passos, ela topou com uma gata.
Nem vou contar... Pois é, ela também tinha a sua ninhada. Era a hora do almoço, pelo jeito. Sem cerimônia, os bichaninhos estavam mamando nas tetas da mãe. Mesmo espremida entre um pneu velho e o muro, a gata mantinha a elegância de miar macio, como se fosse um sorriso de boas-vindas, se bem que, para não atrapalhar nada, a criança ficou a distância.
Oia! Oia!
A criança subiu num pé a escada. Passou voando pela cozinha. E como não queria que bicassem o que tinha para dizer, foi digitando a descoberta com seus dedinhos de cientista depois dum gol.
Sem ligar que aquilo talvez não fosse alegria coisa nenhuma, mas euforia, a criança nem viu em que grupo disparou:
Gente, é muito legal ficar em casa, porque acabei de saber que a minha mãe dá uns gritinhos sem sair do lugar porque ela me ama.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 17 de março de 2020.

terça-feira, 17 de março de 2020

Loucura santa


Loucura santa

Entusiasmado pela perspectiva de conviver comigo durante quinze dias inteirinhos, admito que tal circunstância proporcionada pelo vírus SARS-Cov-2 tirou-me do sério, de fato.
Indubitavelmente desgovernado por quem de direito, esta cabeça, uma gracinha que adora semear brócolis bastardos em vez de belas begônias. É no solo insondável dos nevoeiros plúmbeo-narcotizantes da minha consciência que a espevitada faz-me tornar possível a falta de ar angustiante, os calafrios perturbadores das variações térmicas, o peso opressivo no peito repleto de pelos brancos.
Ô sacola de cachola. Para que foi estragar o babado? Não poderia ter ficado se esbaldando numa boa? A visão de trazer dentro de mim toda uma sacolejante fauna coronária no pulmão?
Especulação mantém a pose até o primeiro espirro.
Adeus equilíbrio, tchau razoabilidade. Bem-vindo rondó, benfazejo minueto, forró de pares intercambiáveis. Uma puta algazarra. Loucura de virar o mundo de ponta-cabeça.
Xô circo de horrores!
Não sei dizer de onde vem isso que em mim se manifesta. Isso? É tal a força de origem desconhecida que produz resultados visíveis e palpáveis. Sudorese, salivação, vontade de soltar perdigotos.
Soltar-me. Pra dar maior motivação a quem anda robotizado, meio facilitado. Deixar acontecer, baixar a guarda, encarar o desafio.
Mesmo que uma ou outra situação fuja ao controle? Entregar-se.
Contudo, recusar a alegria do sucesso apenas por que não estava planejada a felicidade obtida fora do cálculo?
É admissível que a engenharia da vida desconheça benevolências ou malfeitorias da arquitetura do mundo. Isto é, ao número o número e à natureza o natural.
Claro, isso é chover chovendo.
Se há poesia no universo, e ela há, o olhar não apaga o invisível, torna-o mensurável pelo absurdo, por oximoros, antíteses, paradoxos, numa dialética que inclui ao excluir e numa aposta que põe o nada no vazio, ou vice-versa, e tudo junto e misturado.
Sim, da confusão pode brotar o caos. Do caos, a noite. Da noite, o dia. Do dia, a chatice mecânica de viver no automático.
Ô dó.
Por favor, mente esperta, permita-me olhar para o céu sem acusar nomes, mitologias e orientações aos navegantes. Faça a gentileza de consentir a apreciação da árvore pela moderação da floresta. Saiba das amostras congeladas pelas quais cientistas babam. Sei da minha insônia pelo excesso de séries via cabo. Vamos, não vou esquecer as janelas fechadas. Usarei a porta com o juízo que me resta. Sairei pras tarefas inadiáveis e voltarei satisfeito pelo que puder fazer. Prometo nem me expor ao ridículo de tirar fotos com celulares de quem nunca antes tenha visto na vida.
Ilustríssima Covid-19, como pandemia de linhagem apocalíptica, respeito-a tanto que até o zumbi alucinado que faz festa em mim está invocando um tal de Brad Pitt.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 15 de março de 2020.