Sol
na varanda
“Eta mundo besta sem porteira, ou
solução”. Assinadas por Pedro Luís, as aspas estão em Tempo de Menino (2011). Vá ao aplicativo de sua preferência e ouça
a obra, pois, a mim me parece, o disco tem muito a ver com estes nossos dias.
Estes nossos dias...
Há quem faça questão de não ver a
realidade estando mergulhado nela. Sim, é como a anedota dos peixinhos que,
perguntados por um peixe mais velho se também achavam a água boa, saíram-se
com...
― Água? Que água?
“Sem a consciência de cidadania, não
há sentimento republicano”, disse Otto Lara Resende na crônica Acepção de pessoas, de 07/92. O
jornalista avaliava a igualdade da palavra de motorista em relação à de
presidente. Afinal, “se a cidadania é a plenitude dos direitos civis e
políticos, como distinguir um cidadão de outro?”
Todos iguais perante a lei, diz a
constituição vigente.
Então...
Sobre a saúde, por que não ouviríamos um
médico ministro?
Tomo um susto com Achille Mbembe, na
Folha de SP deste 31/03, pois fico ciente de que meu corpo pode voltar-se
contra mim. Na raiz da crise, econômica ou sanitária, o que preciso me perguntar
é:
― Quero a vida ou vou acelerar a
morte?
Me angustio, só de pensar.
Como não posso tudo, diz a razão,
posso ao menos cantar. Afinal, quem canta
seus males espanta. Não sendo banana, diz o coração, é preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã.
Talvez isso explique porque, às vezes,
canto que nem percebo. O dia a dia indo numa boa, comigo concentrado nas coisas,
e, quando vejo, estou trocando as letras, e fazendo piada.
Como quatro paredes soltam as
loucuras, pego Meu ex-amor, eu tive um amor, amor tão bonito, do
Amado Batista, e tasco a emendar variações fesceninas, bestialógicas, pornôs.
Afora andar pelado... diverte-me.
Só por diversão, brinco com as ideias.
Sem vocação ou formação musical, pelo jogo. Encaro o ato de escrever do mesmo modo,
como algo lúdico. Gosto tanto da brincadeira que a levo mui a sério. Canto sozinho,
isto é, escrevo concentrado. Afinal, o texto surge na mente e experimento ir
mudando. Assobio com palavras na página, troco isso, ponho aquilo. Vou fazendo
a minha parte, que é me divertir e fabricar a crônica da melhor maneira que
posso. Sim, às vezes canto e danço só com as palavras.
Sério, seu Rodrigues?
Sim, vem do fundo de mim, emerge da
lama, da névoa em que me modelo. Primeiro, escrevo. E depois, invento
pegadinhas. Daí o texto tá pronto. A hora voa. O banheiro tá limpo. O almoço,
na mesa. Tá na hora de dormir. Por improviso e lucidez. Pra acertar, é preciso
errar.
E o coronavírus massacrante?
Sei, haja transtorno. Tem gente
misturando tosse com crime. Será por isso que aquele vizinho que sempre tem
razão, o Nero Eugênio, tem evitado tomar sol na varanda?
Ô amigão, relaxe um pouco, ouça Pedro
Luís e Milton Nascimento cantando “o choro bom faz florescer”.
Tente.
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, dia 01 de abril de 2020.
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