quarta-feira, 1 de abril de 2020

Sol na varanda


Sol na varanda

“Eta mundo besta sem porteira, ou solução”. Assinadas por Pedro Luís, as aspas estão em Tempo de Menino (2011). Vá ao aplicativo de sua preferência e ouça a obra, pois, a mim me parece, o disco tem muito a ver com estes nossos dias.
Estes nossos dias...
Há quem faça questão de não ver a realidade estando mergulhado nela. Sim, é como a anedota dos peixinhos que, perguntados por um peixe mais velho se também achavam a água boa, saíram-se com...
― Água? Que água?
“Sem a consciência de cidadania, não há sentimento republicano”, disse Otto Lara Resende na crônica Acepção de pessoas, de 07/92. O jornalista avaliava a igualdade da palavra de motorista em relação à de presidente. Afinal, “se a cidadania é a plenitude dos direitos civis e políticos, como distinguir um cidadão de outro?”
Todos iguais perante a lei, diz a constituição vigente.
Então...
Sobre a saúde, por que não ouviríamos um médico ministro?
Tomo um susto com Achille Mbembe, na Folha de SP deste 31/03, pois fico ciente de que meu corpo pode voltar-se contra mim. Na raiz da crise, econômica ou sanitária, o que preciso me perguntar é:
― Quero a vida ou vou acelerar a morte?
Me angustio, só de pensar.
Como não posso tudo, diz a razão, posso ao menos cantar. Afinal, quem canta seus males espanta. Não sendo banana, diz o coração, é preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã.
Talvez isso explique porque, às vezes, canto que nem percebo. O dia a dia indo numa boa, comigo concentrado nas coisas, e, quando vejo, estou trocando as letras, e fazendo piada.
Como quatro paredes soltam as loucuras, pego Meu ex-amor, eu tive um amor, amor tão bonito, do Amado Batista, e tasco a emendar variações fesceninas, bestialógicas, pornôs.
Afora andar pelado... diverte-me.
Só por diversão, brinco com as ideias. Sem vocação ou formação musical, pelo jogo. Encaro o ato de escrever do mesmo modo, como algo lúdico. Gosto tanto da brincadeira que a levo mui a sério. Canto sozinho, isto é, escrevo concentrado. Afinal, o texto surge na mente e experimento ir mudando. Assobio com palavras na página, troco isso, ponho aquilo. Vou fazendo a minha parte, que é me divertir e fabricar a crônica da melhor maneira que posso. Sim, às vezes canto e danço só com as palavras.
Sério, seu Rodrigues?
Sim, vem do fundo de mim, emerge da lama, da névoa em que me modelo. Primeiro, escrevo. E depois, invento pegadinhas. Daí o texto tá pronto. A hora voa. O banheiro tá limpo. O almoço, na mesa. Tá na hora de dormir. Por improviso e lucidez. Pra acertar, é preciso errar.
E o coronavírus massacrante?
Sei, haja transtorno. Tem gente misturando tosse com crime. Será por isso que aquele vizinho que sempre tem razão, o Nero Eugênio, tem evitado tomar sol na varanda?
Ô amigão, relaxe um pouco, ouça Pedro Luís e Milton Nascimento cantando “o choro bom faz florescer”.
Tente.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 01 de abril de 2020.

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