Sem
vaidade
Vida é movimento.
Como a noite está impregnando os
lençóis amarfanhados, sacudo as pulgas de ontem. Ajeitando-o, o leito nem
precisa dizer que o dia não perde tempo. Vem aí um friozinho de fim de tarde.
Corro a porta da varanda, guardarei o calor do outono.
Vou fazer a barba, mas não pra dar umas
voltinhas. Levo a sério o achatamento da curva da peste; persevero no distanciamento
físico; devo preservar a saúde e a do outro. Só não quero parecer doente.
Já que não me vejo corroído pela
acidez das angústias, tiro o som da TV. E, em meio ao caos pandemônico, a Terra
segue ocupada em produzir rotação, translação, e excreção.
Nada mais natural.
No mundo, há coisas boas e ruins.
Sempre as houve. Assim, pode ser que esta pandemia aumente o sentimento de
humanidade que as pessoas têm umas pelas outras. Há, entretanto, os animais
cultivados com doses pouco sutis de mentiras, manipulações, hipocrisias; como
não testam positivos falsos?
Hélas! Ao ver-se confinado ao convívio
consigo, eis que a cara de pau que o perverso fingia não trajar no cotidiano
passa a espernear, gritar, amaldiçoar, querer fugir do cerco, dessa pavorosa aproximação
íntima. Sob maquiagem de palhaço, revela-se o vilão de máscara.
E o truque da trapaça?
Não deixo pra amanhã o que era pra
ontem. Concentro-me. Vou à geladeira pra petiscar um pedaço de bolo sem sorvete
de chocolate. Ignoro o que está havendo nas ruas, preciso avançar. Recuso
engolir as notícias, preciso manter a cabeça em paz. Estico a coluna no sofá, para
que dores incômodas não me impeçam de trabalhar. Controlo o tempo, ajeito a
cadeira. Tenho muito a dizer. E digo o que quero. Sem me importar se desagrado.
Quero continuar no comando. Não posso deixar que a realidade contamine meu texto.
Guerras assim não são travadas no papel. Para mim está claro em que teatro
preciso atuar. Escrevo; corrijo a escrita, expurgando intromissões incoerentes.
Nada mais justo do que me entregar de corpo inteiro ao que me satisfaz. Conscientizo-me
do compromisso comigo. Muito de mim transparece no que faço, por isso labuto para
marcar a minha presença. Uma vez que a época em que vivo é esta, faço agora o
que tenho para fazer. A luta exige de mim o esforço para parecer simples,
natural e agradável de ler. Tenho viva consciência de que estou me encorajando
a dar ao mundo o melhor de mim. Porém, não fico pensando sem nexo. Acabo
concordando que não devo correr do que me perturba. Aqui e agora, o jogo é para
sempre. Aposto que nunca antes tinha percebido que o que faço precisa ser feito
confrontando a permanência. Leio o escrito, isso me tranquiliza. Pela isenção
diante do medo, não vai ser apenas citado, servirá de modelo de coragem. Movido
pelo amor ao próximo, neste preciso instante, faltaria com a verdade se me furtasse
a admitir que, pessoalmente, sinto um orgulho danado.
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, dia 14 de abril de 2020.