Terrivelmente
bom
Os bons seguem fazendo coisas boas.
Como deles se espera que façam, sem dúvida. Por ventura, há quem os reprove
tanto amor ao próximo. Embora condicionem o verão dentro de casa, sabem que só é
possível abrir espaço planejando a mesa na cozinha.
Fazem bem de dispor dos três banheiros
conjugados aos quartos, ou teriam a vida tolhida por uma perdiz assada em molho
de aspargo. Mesmo sobrando cadeiras à mesa, o amargo da média está nos dois
dedos de café sem qualquer pitadinha do mascavo.
Como não ter medo se o futuro está nos
ponteiros? Para onde vão os famintos durante a noite? Anda-se muito para poder
abraçá-los? E como dizer-lhes o quanto de amor há nas palavras por dizer?
Não se faça perguntas. Como se a
bondade existisse sem os bons que a praticam. Com um pé atrás, nada ajuda quem
precisa.
A generosidade do próximo só vem ao
mundo porque os bons vão além das palavras, transformando-as em ações. A generosidade
está na certeza de beijos, abraços e apertos de mão.
Simulacro do caos, com uma dose
exagerada de desordem, o que tira da verdade a credibilidade da mentira
desmascarada, o cotidiano merece da fé o concreto das obras bens realizadas.
O chão da rua não mede o luar pelo
sonho. A boca quer do copo a água. Por isso, homens há que cuidam de: pôr
regras a quem tem pústulas nas canelas; ditar orquestrações pra que a fila vá
constante; confabular a moral da história para o bem geral.
Os bons é que conduzem ao bem-estar
dos que mal conseguem ir em paz pelas praças sem coreto, embora possam dormir
sem alegria.
Ainda que venham os pessimistas com
números e tabelas, os tais que vivem a marcar flagelos, rinhas, balas perdidas.
Embora venham, a eles sejam apresentadas a misericórdia do desprezo e a
ociosidade da indiferença. Embora os bons não se comparem aos ruins, afinal o
rei está nu a quem tem olhos pra nudez.
Ou seja, a alegria pode camuflar o
ronco do desespero na fome que não enche a barriga de ninguém.
E seja dito sem rancor, ninguém como eles;
homens bons que só fazem o que fazem porque há quem precise das coisas boas.
Bons o bastante, pois homens de bondade não explicam nem querem saber as razões
inconscientes que os mobilizam.
Homens de bondade comprovada pelos
atos dão notícias do bem que propagam, divulgam, comentam, indicam, espalham,
contaminam e tornam o mundo este lugar menos confuso. Homens bons põem as
devidas ressalvas quando vírgulas atravancam a fluidez da corrente. Os bons, os
que estão imunes à raiva, eles têm na honestidade dos propósitos a verdade da
sua modéstia. Agem como bons.
Mas o selo que os diz bons está em mostrar
tudo que fazem.
Uma vez que cai bem enviar um axé a
quem dá o melhor de si até de olhos abertos, que 2020 seja bom, terrivelmente
bom, àquelas e àqueles que seguem mantendo a dieta racional de ter aparelho de TV
na cozinha apenas para as receitas do dia.
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, dia 05 de janeiro de 2020.