Aquela
canção
Hoje? Ontem? Na dúvida, permaneci
parado. E não apenas, fiquei na minha. Embora não soubesse qual era mesmo a
minha. É que não penso direito quando estou queimando o carbono das pestanas. Sei,
a emoção suplanta a razão. Estímulo? Os ritos da travessura azedam as coisas, e
o sono tira a paz bem no meio do sonho. Dali em diante? Mantenho os olhos fechados,
naquela quietude de quem tem mais é que ficar dormente. Que a noite germine
calamidades. Padeço ouvir o que não ouço? Fácil, passo a sorrir pra chuva que imagino.
E quando topo desperdiçar a lucidez, acordo.
Sei aquela canção da manhã cantada
como quem bebe histórias da ostra encontrada sob a areia, coberta de terra,
retirada da lama. O ventre da noite cósmica protegia a ciência. Sim, até das
ambições.
Aquela canção do fim da manhã diz que
há pérola dentro de mim. Há o sol, como objeto de valor fora das vitrines onde
o penhor ofende desigualdades. À medida de algas petrificadas, o grau da eclosão
em mares sempre navegados, sem que os extintos nas eras evaporadas queiram reinar
nos veios calcinados do bicho agora exposto. Eu?
Aquela canção no meio da tarde cantada
junto, desafinada junto, acompanhada com o estralo dos dedos, com abraços
acolhedores, é o mundo redivivo a cada assobio. Tal canção traduz: a esperança
na fatia do peru, mesmo o gosto alterado; a promessa na solidariedade, já mofado
o lixo na lata. Ambas impregnadas do tão humano? E isso faz máculas vencerem o
amor. E isso pode cálculos. Nós?
Aquela canção no meio do gole de água
vem despida da sede que não devo prometer a quem espera que, a qualquer instante,
a boneca que fala que me ama naquele inglês perfeito brote ao pé da árvore ou a
capotão nº 5 de costura grossa crescerá túrgida junto da lareira.
Nem lareira nem pinheirinho, que o
país tá numa draga. Eles?
Dá-se um jeito, pois tudo nesta vida
tem como. Basta querer. E se basta, que venha a nós de uma vez. Se puser fé na reza
brava, virá logo. Se tiver figa de madeira roxa na bolsa. No meio da tranqueirada
da bolsa, o cartão der crédito a quem precisa.
Entre as folhas do contrato do
apartamento e o celular cuja bateria pifou, aí está o cartão do SUS. E os dias
andam mesmo pedindo esse basta bem dado. Sem fazer fita, bem na fuça do olho
grande.
Que os invejosos sonhem. Também.
Depois que apreciadores da fantasia alheia
saírem em segurança, o restante fique como se encontra. Sem perdão, o atendimento
canta alto. E com tanto amor no coração, a noite maravilhosa sempre quis ser
uma noite feliz. Mas a canção no meio da madrugada tinha de vir logo com a
geladeira entupida de pudim de leite condensado? A vida de ingratidões estraga
a humanidade, o gelo no freezer também.
Ontem. Descascada, a banana adoça. Hoje.
A bunda amorteça a queda. Somando saberes: coma-se o fruto com casca e tudo.
Mesmo sem entender os estratagemas,
cantemos.
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, dia 24 de dezembro de
2019.
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