domingo, 22 de dezembro de 2019

Panetone cancelado


Panetone cancelado

Antecipando-me às festanças, começo pedindo pra esclarecer que pouco tenho a dizer sobre o tal do Santa, esse que nunca mostrou a cara que dizem que ele tem. Embora baseado no depoimento sincero de pais observadores, atentos às sutilezas consumistas dos rebentos, o que há a respeito não passa de retrato falado. Em outras palavras, quem põe a mão no fogo pra negar que a barba não é agregada ou o barrigão de tanto chocolate? Assim, de chofre, faço este meu pedido, mesmo soando como prévia das desculpas esfarrapadas.
Isso vai de mal a pior. E do pior ao péssimo é um pulinho.
Por ora, admito a dívida com uma amiga que veio visitar-me, mas eu estava desfilando meu espírito de Natal. A coitada da minha amiga viajou da infância para dar com o desamor da porta, insensível a três horas de campainha.
Renas mascando juros? Ficam banidos os enfeites da porta.
Ô vida.
Como o Velhinho anda num aperto danado. Soube que os pedidos de todo mundo estão na nuvem, que tá pesando pra caramba, e, com a lista quase infinita de gente que não paramos de nascer, corre-se o risco de desabamento.
Quê? O mundo acabar em água não está descartado?
Acabar...
A semana poderia ter acabado na segunda-feira, com aquela Tati falando o que falou na TV, mas a boa família brasileira tá de ouvidos lacrados com o mimimi pra cima do Trio ― o Pai, o Filho e o...
Ué. Que fim levou?
Tá osso. Cadê misericórdia pra patos, burros e vacas leiteiras?
Sim, sagaz leitora e fanfarrão leitor, os jornais online informam que Wakanda está em guerra comercial com o Tio Sam.
Assim, os bichos mencionados estão deletados do planisfério.
E precisamos falar da Terra e de suas filhas e seus filhos, desses que andam por aí aprontando que nem o pé de vento que aqui bateu agorinha de pouco.
Como o troço veio de roldão, homens e mulheres, cães e gatos, todo mundo e seu pai também, toda gente que estava no olho da rua viu-se pega no contrapé.
E foi um tal de pôr o bichinho no colo, encolher-se junto ao tapume do prédio que virá, implorar pra que São Pedro lá do céu desligasse o aspirador rapidinho, ê.
Ê? E fez-se o que não se fez.
A tarde vai no ritmo. A chuva não veio, nem temporal se formou. O azul esplêndido. A dona do cão vai faceira. 37 graus. O sol manda no pedaço. O Atlântico segue blefando as suas ondas. Na passada leve, já curtindo a leitura próxima, a casquinha me abocanha R$ 3,00. E o sabor promete, No centro do reino de Ártemis, por Eucanaã Ferraz.
Ainda bem que me lembro da revista que não li. Toco pra casa.
Haja desvios de vultos empacotados.
Que lindeza o par de vaso: a distinta num tamanquinho de Rodes e a... Filhinha? Amiguinha? A fofinha... Uma cabrita. A dupla de rosa: o chapeuzinho na cabeça das duas; o lacinho no tornozelo destro de uma e na patinha posterior direita da outra.
Méé? Mesmo com um 2019 desses?
Mééé!
Tá bom. Boas Festas pra você também.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 22 de dezembro de 2019.

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