quinta-feira, 19 de dezembro de 2019

A neblina


A neblina

Como hoje não estou para brincadeiras, digo que o que orienta os meus sentidos, direcionando o foco das minhas alegrias e filtrando o grau das minhas decepções, tem a ver com momento e lugar, é o que me apanha na sua teia de acontecimentos. Sem confusão nenhuma, a vida de cada dia deve a sua existência a circunstâncias que fogem indubitavelmente ao entendimento, ou têm razões imponderáveis.
Mas será?
De que me adianta o absurdo de não entender o que querem dizer os sinais do mundo. Indecifráveis, portanto incompreensíveis.
Será o acaso o menino de todas as crônicas perdidas?
Esta, ô exemplo, está atravessada pela imagem que somente me vem nas palavras: o horror devorando sardinhas.
Estará nisso a origem do fantasma que trago em mim?
Nas paredes do estômago, na ceva do íntimo, nada prevenia que, em meados de 2006, a crise viria daquele 2005, de cujo dia único me despertei um tão fundo mar? Obscuro, repulsivo, mar arredio a boias de carinho e braçadas de acolhimento. Horror que segue.
Fui ao médico, e ao mundo veio um nome: gastrite.
Sob ataque do inexplicável, insondável provedor de mal-estar, me azedei de tal modo que, examinado nas raízes, o despautério ainda zomba do diagnóstico. Devorando...
Comigo à porta daquele prédio, já aí em 2017, que havia consulta urgente. O doutor dessa minha cabeça mantinha ali seu consultório. Pro acesso, preciso ter autorizada a entrada? Bastava o CPF digitado no painel eletrônico ou poderia a identificação do indicador, quiçá do polegar, cadastrado no sistema. Aceito o CPF, por favor.
Ladeado por seguranças de ponto sem fio no ouvido, o balcão era grande o bastante para que três funcionárias de crachá e coque bem visíveis checassem documentos e a sua veracidade, para autorizar o acesso aos elevadores.
Oito portas largas, divididas igualmente à direita e à esquerda, sob o comando de dois funcionários, cada qual responsável pela bateria do seu lado; esse digitou no painel o código do meu crachá; instruída a máquina do andar a que, individualmente, fui autorizado, subi.
Pelo endereço da sala, à direita e à esquerda, a ordem era: A pros pares e B pros ímpares. Um horror...
A ironia é que o doutor que poderia me trazer de volta à voz do dia a dia está submerso nessa rede em que sereias seguem afogando.
Ai, ai, meu bom Bacamarte, estou aqui, sujeito a ser nauseado por desejos que até me conseguem dourar.
Mas... é da vida.
A vida sedutora, bicho que se come pelo rabo, a olhos vistos.
Tal o encanto do mar, bravio, indomável, o sol nas próprias vagas, fúria a espumar nos rochedos o sal que o farol não anuncia.
Sigo, tão útil aos diagnósticos. Sigo, desconfortável no rótulo. Vou que vou, devorando sardinhas que me devoram.
A existência puxa pra 2002 e os fracassos, pra 2020?
Há perguntas que dilaceram pelas respostas que não tenho.
A neblina é agora.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 19 de dezembro de 2019.

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