A
neblina
Como hoje não estou para brincadeiras,
digo que o que orienta os meus sentidos, direcionando o foco das minhas
alegrias e filtrando o grau das minhas decepções, tem a ver com momento e lugar,
é o que me apanha na sua teia de acontecimentos. Sem confusão nenhuma, a vida de
cada dia deve a sua existência a circunstâncias que fogem indubitavelmente ao
entendimento, ou têm razões imponderáveis.
Mas será?
De que me adianta o absurdo de não
entender o que querem dizer os sinais do mundo. Indecifráveis, portanto
incompreensíveis.
Será o acaso o menino de todas as
crônicas perdidas?
Esta, ô exemplo, está atravessada pela
imagem que somente me vem nas palavras: o
horror devorando sardinhas.
Estará nisso a origem do fantasma que
trago em mim?
Nas paredes do estômago, na ceva do íntimo,
nada prevenia que, em meados de 2006, a crise viria daquele 2005, de cujo dia
único me despertei um tão fundo mar? Obscuro, repulsivo, mar arredio a boias de
carinho e braçadas de acolhimento. Horror
que segue.
Fui ao médico, e ao mundo veio um nome:
gastrite.
Sob ataque do inexplicável, insondável
provedor de mal-estar, me azedei de tal modo que, examinado nas raízes, o despautério
ainda zomba do diagnóstico. Devorando...
Comigo à porta daquele prédio, já aí em
2017, que havia consulta urgente. O doutor dessa minha cabeça mantinha ali seu consultório.
Pro acesso, preciso ter autorizada a entrada? Bastava o CPF digitado no painel
eletrônico ou poderia a identificação do indicador, quiçá do polegar, cadastrado
no sistema. Aceito o CPF, por favor.
Ladeado por seguranças de ponto sem
fio no ouvido, o balcão era grande o bastante para que três funcionárias de
crachá e coque bem visíveis checassem documentos e a sua veracidade, para
autorizar o acesso aos elevadores.
Oito portas largas, divididas igualmente
à direita e à esquerda, sob o comando de dois funcionários, cada qual
responsável pela bateria do seu lado; esse digitou no painel o código do meu
crachá; instruída a máquina do andar a que, individualmente, fui autorizado, subi.
Pelo endereço da sala, à direita e à
esquerda, a ordem era: A pros pares e B pros ímpares. Um horror...
A ironia é que o doutor que poderia me
trazer de volta à voz do dia a dia está submerso nessa rede em que sereias
seguem afogando.
Ai, ai, meu bom Bacamarte, estou aqui,
sujeito a ser nauseado por desejos que até me conseguem dourar.
Mas... é da vida.
A vida sedutora, bicho que se come pelo
rabo, a olhos vistos.
Tal o encanto do mar, bravio, indomável,
o sol nas próprias vagas, fúria a espumar nos rochedos o sal que o farol não anuncia.
Sigo, tão útil aos diagnósticos. Sigo,
desconfortável no rótulo. Vou que vou, devorando sardinhas que me devoram.
A existência puxa pra 2002 e os
fracassos, pra 2020?
Há perguntas que dilaceram pelas respostas
que não tenho.
A neblina é agora.
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, dia 19 de dezembro de
2019.
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