Estupidamente
Pra desanuviar desse ano, vem a voz de
alguém que não recordo quem seja, leio como provocação: “todo bicho que camina
va a parar a la Facultad de Filosofia y Letras”.
O lápis, com a ponta quebrada. Poetas
e novelistas, enlivreirados nas estantes. Em virtude desta cabeça de papel, não
marcho o mapa mental que em mim borbulha.
Quedo-me aqui, neste meu apartamento
da afluência que segue na torcida pra que não faltem, pelo menos isso, as sete
ondas no mar das gratidões.
Confirma-se a desculpa, padeço dor de cotovelo.
Estou murcho no escuro, obra de janelas e cortinas cerradas. Sob aquele turbilhão
do maravilhoso, a espocar cores, sons e cheiro de pólvora? Cancelada, a
presença na praia.
E diante da incompreensão estapafúrdia
da assim chamada atual conjuntura, decido soltar as amarras da linguagem. Porém,
o pássaro não alça voo, e escolhe ficar aninhado no obscuro, de geolocalização pânica,
posando de extração difícil.
Pego do copo d’água, tomo a parte que
me cabe. Deixo metade a quem queira beber. Basta beber, nem precisa mastigar os
cacos; daí, como se saliva fosse, nem vai precisar engolir o próprio sangue.
Talvez no peito.
O coração pede para livrar-se de um
punhado de dores que serve pra alimentar com sofrimentos a angústia que me
chama até pra bem perto, toda íntima. Coração que pulsa também para, e, numa tristeza
patética, fica a conferir os erros que cometo.
Ô bicho mais sem graça. Com asas de
mágoas já em rugas, feitas das penas mais pesadas que o amor. Sufoca uns brotinhos
de alegria que mal chegam comigo ao sono. Ô urucubaca a comer-se.
Quero dormir. Peço ao travesseiro, não
afunde mais no sombrio. A coisa não tá boa a quem quer se livrar do bicharoco.
A insônia joga areia nas miopias, pesa pálpebras.
A anomalia? A temperatura vai a 36,5º.
O pulso chega a 12/8. O batimento cardíaco desacelera. A sensação de que a
virada vai levar ao hálito. Se houver amanhã, será nefasto. De um aziago pátina.
Pra piorar o que já está aberrante, comigo
a poetar em silêncio, a névoa do abismo sobe dos pulmões aos calcanhares.
Amorcegado, nesse sono de pinceladas de origem, ponho Rothko no Rotkho.
São manchetes na garganta. Garrafais,
letras e não nenúfares. Aí o estômago finge conhecer o que não sabe. Entalo a
pensar. Meu é o desprazer que trata de me roer sem mastigar.
Massa de ar tóxica, nuvem que não
flutua nem voa, circunscreve. Nada tem de urubu, corvo, anu. Tal ave, que faz
dos últimos instantes de 2019 uma estação sem nome, acalanta os meus tormentos.
Mas está por um fio. O chão já se abre.
O sangue que restou dos meses de doação compulsória azeita a engrenagem que não
acelera.
Bebe de mim, Margarida. Suga-me. Há
tanto ainda por esgotar.
Tenho nas veias a luz da entrega, só
não vou dizer.
Ô ano inibido pela pressa. Tais 365
dias como cachaça.
E o meu 2020? Por favor... estupidamente.
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, dia 31 de dezembro de
2019.