quinta-feira, 2 de janeiro de 2020

Estupidamente


Estupidamente

Pra desanuviar desse ano, vem a voz de alguém que não recordo quem seja, leio como provocação: “todo bicho que camina va a parar a la Facultad de Filosofia y Letras”.
O lápis, com a ponta quebrada. Poetas e novelistas, enlivreirados nas estantes. Em virtude desta cabeça de papel, não marcho o mapa mental que em mim borbulha.
Quedo-me aqui, neste meu apartamento da afluência que segue na torcida pra que não faltem, pelo menos isso, as sete ondas no mar das gratidões.
Confirma-se a desculpa, padeço dor de cotovelo. Estou murcho no escuro, obra de janelas e cortinas cerradas. Sob aquele turbilhão do maravilhoso, a espocar cores, sons e cheiro de pólvora? Cancelada, a presença na praia.
E diante da incompreensão estapafúrdia da assim chamada atual conjuntura, decido soltar as amarras da linguagem. Porém, o pássaro não alça voo, e escolhe ficar aninhado no obscuro, de geolocalização pânica, posando de extração difícil.
Pego do copo d’água, tomo a parte que me cabe. Deixo metade a quem queira beber. Basta beber, nem precisa mastigar os cacos; daí, como se saliva fosse, nem vai precisar engolir o próprio sangue.
Talvez no peito.
O coração pede para livrar-se de um punhado de dores que serve pra alimentar com sofrimentos a angústia que me chama até pra bem perto, toda íntima. Coração que pulsa também para, e, numa tristeza patética, fica a conferir os erros que cometo.
Ô bicho mais sem graça. Com asas de mágoas já em rugas, feitas das penas mais pesadas que o amor. Sufoca uns brotinhos de alegria que mal chegam comigo ao sono. Ô urucubaca a comer-se.
Quero dormir. Peço ao travesseiro, não afunde mais no sombrio. A coisa não tá boa a quem quer se livrar do bicharoco. A insônia joga areia nas miopias, pesa pálpebras.
A anomalia? A temperatura vai a 36,5º. O pulso chega a 12/8. O batimento cardíaco desacelera. A sensação de que a virada vai levar ao hálito. Se houver amanhã, será nefasto. De um aziago pátina.
Pra piorar o que já está aberrante, comigo a poetar em silêncio, a névoa do abismo sobe dos pulmões aos calcanhares. Amorcegado, nesse sono de pinceladas de origem, ponho Rothko no Rotkho.
São manchetes na garganta. Garrafais, letras e não nenúfares. Aí o estômago finge conhecer o que não sabe. Entalo a pensar. Meu é o desprazer que trata de me roer sem mastigar.
Massa de ar tóxica, nuvem que não flutua nem voa, circunscreve. Nada tem de urubu, corvo, anu. Tal ave, que faz dos últimos instantes de 2019 uma estação sem nome, acalanta os meus tormentos.
Mas está por um fio. O chão já se abre. O sangue que restou dos meses de doação compulsória azeita a engrenagem que não acelera.
Bebe de mim, Margarida. Suga-me. Há tanto ainda por esgotar.
Tenho nas veias a luz da entrega, só não vou dizer.
Ô ano inibido pela pressa. Tais 365 dias como cachaça.
E o meu 2020? Por favor... estupidamente.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 31 de dezembro de 2019.

domingo, 29 de dezembro de 2019

Última hora


Última hora

Quer desassossego maior do que uma espinha?
Costumo ir ao supermercado mais próximo do prédio onde moro pelo caminho mais curto. Todavia, só vou às compras quando alguns itens de primeiríssima necessidade dominam a lista de falta iminente. Obrigado ao consumo do que preciso com urgência, percorro o trajeto a bolar como fugir da hecatombe do ambiente.
Pego e pago. Mas, terrifica-me o banal.
Com firmeza, um segurança toca o maltrapilho fedorento para fora do estabelecimento. Que ele tenha lá 51 razões de reivindicar direitos às moedas que jura possuir; que vá empenhá-las em outra freguesia, aqueles bíceps instruem-no.
Curioso, têm brotado umas garrafinhas nos interstícios da cidade. Terá quem beba pinga distribuída sem patrocinador evidente? Haverá quem queira tomar um refrigerante desses, embora esteja em vigor a dica velha de guerra de não aceitar balinha nem de conhecido?
Caramba, alguém deve ter virado a placa do desvio.
Resolvo conhecer o shopping que abriu onde já teve um shopping. Muito espaço à espera dos empreendedores. Muita gente despojada de sacolas. De regata, bermuda, chinelos e assobiando mentalmente La vie en rose, nem me reconheço.
Quase terminando a minha voltinha, dá-se um imprevisto.
Perturbo-me quando o brusco se faz notável, por isso acabo preso ao interesse de ver qual desfecho terá o imbróglio dessa mulher, cuja barra do vestido engasgou a escada rolante.
Juntam-se pessoas no primeiro andar, juntam-se outras no térreo. Que providência tomará o funcionário chamado? Já o chamaram?
Isso, aquilo, e nada de tirar o pano emperrando as engrenagens.
Com uma tesoura, executa-se o sacrifício. Dá-se a libertação.
Todos aplaudimos. Como não é mais a véspera do Natal, há quem viva no alívio das promessas que teve de pagar. Com a comilança da ceia natalina bem digerida, há quem espere de camarote. Muitos são os aplausos, muitos deles mesmo de sincera empatia. De tal maneira aplaudimos, há clima pra tanto.
Tesoura para quê? Os dentes da escada rolante já mastigaram o anonimato dessa daí, solta a mulher vestida idêntica àqueloutra.
Quem me dera a impetuosidade de comentar a vida a quente.
Traço as esquinas.
Engraçado, talvez aí estivesse, mas fui que nem vi a senhora dos cachorros. Sentada com as costas escoradas no portão da garagem da casa sem morador, ela come do marmitex na presença da mulher das boas-novas em folheto.
Entro pelo apartamento.
Oxe. Gastei a última hora sem percebê-la tão suarenta.
Estará a brincadeira em desconfiar que a neura que me trava em pensamento rola por que, avesso a descargas de adrenalina, não fico recorrendo ao subterfúgio de viver aos sobressaltos?
O espelho do banheiro me pega sorrindo à toa. Nada mais ridículo que se achar menos ridículo que o outro. Ora, ora, ora. E que sorriso torto ele tenho pra mim.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 29 de dezembro de 2019.


sexta-feira, 27 de dezembro de 2019

Cara de bobo


Cara de bobo

O poeta recôndito, a postos em mim, vez ou outra quer tomar sol. Pensamos de acordo, o bolor gosta dos cantinhos desconhecidos dos ventos da luz. Assim, para não nos asfixiarmos na palidez que enruga a cútis de tanto pudor, vem a calhar levá-lo pegar um ar.
Nada como sair pra espairecer um pouco.
Quanto a mim, entretanto, não entro em fria por impulso. Topo um sacolé. Da carteira, tiro a sorte. Seja feita esta minha vontade.
O calçadão lotado convida a observações desinteressadas. Passo por turista. Pachorrento, que adoro mormaço, que o calor cansa, que o depois do almoço, então, pede mesmo um chupe-chupe.
Nem vendedor, nem banco para sentar a lerdeza.
Como lombriga mata, apelo para um picolé.
Pesam-me os pés, jogo-os ao mar, bem em frente da lotérica. Pra quem vibra com pescarias, porto de apostas nesta época é rede farta. Com a serpente fluindo águas de enseada, afino os ouvidos para me deliciar com os pescados do alarido.
Sabe aquele sonho de muro baixinho, quintal amplo, criançada na laranjeira. Sabe aquela fera para as veias do temporal no barro. Sabe aquela ressonância que o plano da minha avó apressa enxotar. Sabe aquelas taxas de gente graúda da peneira infantil do time.
Pra enfrentar a realidade, perdê-la ao domá-la por atos e palavras. Que brilhe a máscara, o disciplinado aos fatos. Se dois mais dois dão quatro, que a raiz quadrada de dezesseis venha a dar no mesmo.
Em outras palavras, se estiver mentindo ou gracejando, querer-se errado é induzir ao erro. Para entender a vida, torná-la um jogo.
Numa partida de xadrez, aliás, os jogadores parecem quietos, têm calculadoras tinindo, podem a tossinha pro gole d’água. No conforto do embate escancarado, o diálogo ali é confronto. Afinal, haja jogada pra atirar os ponteiros pra fora do tempo. Exigem-se, ambos. Então, a derrota aponta que há um vitorioso; o outro sofre a sua derrota. Sem o compensatório da persuasão, basta o aperto de mão.
Pra compreender a habilidade da leitura do mundo, aprendê-la.
Embora haja quem faça de conta, como bem lhe convém, ponha a pitada de lucidez, acrescente o pitaco dos falsificadores, mais pilhéria a gosto, vá mexendo devagar mas com firmeza, na convicção perdida de quem mais vê do que enxerga.
A matéria não causa espécie, produz energia. O cosmo, segundo adoradores de truísmos, de acordo com temperatura e pressão, está a ponto de não mais prescindir da precisão dos números. Pode cegar ou flamejar-se em explosão. Extraordinário, o fogo que houver.
Voilà.
Por leis, códigos e contraditórios, o repentino da poesia sussurra um número. De posse da dica dada pelo universo, vejo a apontadora, que não disfarça ter a sua fezinha da Virada. Como azar é pra quem tem, arriscarei umas merrecas. Na cabeça.
Mas quê!
Melados de Chicabon, um dínamo de vida vem dar suas lambidas nos meus dedos.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 26 de dezembro de 2019.

terça-feira, 24 de dezembro de 2019

Aquela canção


Aquela canção

Hoje? Ontem? Na dúvida, permaneci parado. E não apenas, fiquei na minha. Embora não soubesse qual era mesmo a minha. É que não penso direito quando estou queimando o carbono das pestanas. Sei, a emoção suplanta a razão. Estímulo? Os ritos da travessura azedam as coisas, e o sono tira a paz bem no meio do sonho. Dali em diante? Mantenho os olhos fechados, naquela quietude de quem tem mais é que ficar dormente. Que a noite germine calamidades. Padeço ouvir o que não ouço? Fácil, passo a sorrir pra chuva que imagino. E quando topo desperdiçar a lucidez, acordo.
Sei aquela canção da manhã cantada como quem bebe histórias da ostra encontrada sob a areia, coberta de terra, retirada da lama. O ventre da noite cósmica protegia a ciência. Sim, até das ambições.
Aquela canção do fim da manhã diz que há pérola dentro de mim. Há o sol, como objeto de valor fora das vitrines onde o penhor ofende desigualdades. À medida de algas petrificadas, o grau da eclosão em mares sempre navegados, sem que os extintos nas eras evaporadas queiram reinar nos veios calcinados do bicho agora exposto. Eu?
Aquela canção no meio da tarde cantada junto, desafinada junto, acompanhada com o estralo dos dedos, com abraços acolhedores, é o mundo redivivo a cada assobio. Tal canção traduz: a esperança na fatia do peru, mesmo o gosto alterado; a promessa na solidariedade, já mofado o lixo na lata. Ambas impregnadas do tão humano? E isso faz máculas vencerem o amor. E isso pode cálculos. Nós?
Aquela canção no meio do gole de água vem despida da sede que não devo prometer a quem espera que, a qualquer instante, a boneca que fala que me ama naquele inglês perfeito brote ao pé da árvore ou a capotão nº 5 de costura grossa crescerá túrgida junto da lareira.
Nem lareira nem pinheirinho, que o país tá numa draga. Eles?
Dá-se um jeito, pois tudo nesta vida tem como. Basta querer. E se basta, que venha a nós de uma vez. Se puser fé na reza brava, virá logo. Se tiver figa de madeira roxa na bolsa. No meio da tranqueirada da bolsa, o cartão der crédito a quem precisa.
Entre as folhas do contrato do apartamento e o celular cuja bateria pifou, aí está o cartão do SUS. E os dias andam mesmo pedindo esse basta bem dado. Sem fazer fita, bem na fuça do olho grande.
Que os invejosos sonhem. Também.
Depois que apreciadores da fantasia alheia saírem em segurança, o restante fique como se encontra. Sem perdão, o atendimento canta alto. E com tanto amor no coração, a noite maravilhosa sempre quis ser uma noite feliz. Mas a canção no meio da madrugada tinha de vir logo com a geladeira entupida de pudim de leite condensado? A vida de ingratidões estraga a humanidade, o gelo no freezer também.
Ontem. Descascada, a banana adoça. Hoje. A bunda amorteça a queda. Somando saberes: coma-se o fruto com casca e tudo.
Mesmo sem entender os estratagemas, cantemos.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 24 de dezembro de 2019.

domingo, 22 de dezembro de 2019

Panetone cancelado


Panetone cancelado

Antecipando-me às festanças, começo pedindo pra esclarecer que pouco tenho a dizer sobre o tal do Santa, esse que nunca mostrou a cara que dizem que ele tem. Embora baseado no depoimento sincero de pais observadores, atentos às sutilezas consumistas dos rebentos, o que há a respeito não passa de retrato falado. Em outras palavras, quem põe a mão no fogo pra negar que a barba não é agregada ou o barrigão de tanto chocolate? Assim, de chofre, faço este meu pedido, mesmo soando como prévia das desculpas esfarrapadas.
Isso vai de mal a pior. E do pior ao péssimo é um pulinho.
Por ora, admito a dívida com uma amiga que veio visitar-me, mas eu estava desfilando meu espírito de Natal. A coitada da minha amiga viajou da infância para dar com o desamor da porta, insensível a três horas de campainha.
Renas mascando juros? Ficam banidos os enfeites da porta.
Ô vida.
Como o Velhinho anda num aperto danado. Soube que os pedidos de todo mundo estão na nuvem, que tá pesando pra caramba, e, com a lista quase infinita de gente que não paramos de nascer, corre-se o risco de desabamento.
Quê? O mundo acabar em água não está descartado?
Acabar...
A semana poderia ter acabado na segunda-feira, com aquela Tati falando o que falou na TV, mas a boa família brasileira tá de ouvidos lacrados com o mimimi pra cima do Trio ― o Pai, o Filho e o...
Ué. Que fim levou?
Tá osso. Cadê misericórdia pra patos, burros e vacas leiteiras?
Sim, sagaz leitora e fanfarrão leitor, os jornais online informam que Wakanda está em guerra comercial com o Tio Sam.
Assim, os bichos mencionados estão deletados do planisfério.
E precisamos falar da Terra e de suas filhas e seus filhos, desses que andam por aí aprontando que nem o pé de vento que aqui bateu agorinha de pouco.
Como o troço veio de roldão, homens e mulheres, cães e gatos, todo mundo e seu pai também, toda gente que estava no olho da rua viu-se pega no contrapé.
E foi um tal de pôr o bichinho no colo, encolher-se junto ao tapume do prédio que virá, implorar pra que São Pedro lá do céu desligasse o aspirador rapidinho, ê.
Ê? E fez-se o que não se fez.
A tarde vai no ritmo. A chuva não veio, nem temporal se formou. O azul esplêndido. A dona do cão vai faceira. 37 graus. O sol manda no pedaço. O Atlântico segue blefando as suas ondas. Na passada leve, já curtindo a leitura próxima, a casquinha me abocanha R$ 3,00. E o sabor promete, No centro do reino de Ártemis, por Eucanaã Ferraz.
Ainda bem que me lembro da revista que não li. Toco pra casa.
Haja desvios de vultos empacotados.
Que lindeza o par de vaso: a distinta num tamanquinho de Rodes e a... Filhinha? Amiguinha? A fofinha... Uma cabrita. A dupla de rosa: o chapeuzinho na cabeça das duas; o lacinho no tornozelo destro de uma e na patinha posterior direita da outra.
Méé? Mesmo com um 2019 desses?
Mééé!
Tá bom. Boas Festas pra você também.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 22 de dezembro de 2019.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2019

A neblina


A neblina

Como hoje não estou para brincadeiras, digo que o que orienta os meus sentidos, direcionando o foco das minhas alegrias e filtrando o grau das minhas decepções, tem a ver com momento e lugar, é o que me apanha na sua teia de acontecimentos. Sem confusão nenhuma, a vida de cada dia deve a sua existência a circunstâncias que fogem indubitavelmente ao entendimento, ou têm razões imponderáveis.
Mas será?
De que me adianta o absurdo de não entender o que querem dizer os sinais do mundo. Indecifráveis, portanto incompreensíveis.
Será o acaso o menino de todas as crônicas perdidas?
Esta, ô exemplo, está atravessada pela imagem que somente me vem nas palavras: o horror devorando sardinhas.
Estará nisso a origem do fantasma que trago em mim?
Nas paredes do estômago, na ceva do íntimo, nada prevenia que, em meados de 2006, a crise viria daquele 2005, de cujo dia único me despertei um tão fundo mar? Obscuro, repulsivo, mar arredio a boias de carinho e braçadas de acolhimento. Horror que segue.
Fui ao médico, e ao mundo veio um nome: gastrite.
Sob ataque do inexplicável, insondável provedor de mal-estar, me azedei de tal modo que, examinado nas raízes, o despautério ainda zomba do diagnóstico. Devorando...
Comigo à porta daquele prédio, já aí em 2017, que havia consulta urgente. O doutor dessa minha cabeça mantinha ali seu consultório. Pro acesso, preciso ter autorizada a entrada? Bastava o CPF digitado no painel eletrônico ou poderia a identificação do indicador, quiçá do polegar, cadastrado no sistema. Aceito o CPF, por favor.
Ladeado por seguranças de ponto sem fio no ouvido, o balcão era grande o bastante para que três funcionárias de crachá e coque bem visíveis checassem documentos e a sua veracidade, para autorizar o acesso aos elevadores.
Oito portas largas, divididas igualmente à direita e à esquerda, sob o comando de dois funcionários, cada qual responsável pela bateria do seu lado; esse digitou no painel o código do meu crachá; instruída a máquina do andar a que, individualmente, fui autorizado, subi.
Pelo endereço da sala, à direita e à esquerda, a ordem era: A pros pares e B pros ímpares. Um horror...
A ironia é que o doutor que poderia me trazer de volta à voz do dia a dia está submerso nessa rede em que sereias seguem afogando.
Ai, ai, meu bom Bacamarte, estou aqui, sujeito a ser nauseado por desejos que até me conseguem dourar.
Mas... é da vida.
A vida sedutora, bicho que se come pelo rabo, a olhos vistos.
Tal o encanto do mar, bravio, indomável, o sol nas próprias vagas, fúria a espumar nos rochedos o sal que o farol não anuncia.
Sigo, tão útil aos diagnósticos. Sigo, desconfortável no rótulo. Vou que vou, devorando sardinhas que me devoram.
A existência puxa pra 2002 e os fracassos, pra 2020?
Há perguntas que dilaceram pelas respostas que não tenho.
A neblina é agora.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 19 de dezembro de 2019.

terça-feira, 17 de dezembro de 2019

O olho da noite


O olho da noite

Se o dia promete, cumpra-se o ordenado pelo que se há de fazer.
Sentado à mesa de trabalho, a tanto de implicar com a insistência do vento a desnudar a face do espelho: que poesia haverá em ficar bulindo com as coisas da gente? Bafo da Terra, vá brincar lá na praia, tem tanto azul para poder pôr pra fora as suas asinhas.
Sem o susto do medo que prega peças, faço minha parte e, neste texto, vou movendo o fio do realismo, o elixir dos prosaicos, uma vez que, à cata de alguma personificação, não darei corda ao místico.
De prosa em prosa, com a mão do cronista abrindo mão da língua do vento, chego aonde o gatinho familiar do Manuel e as enigmáticas pedras do Carlos vão ninar o poeta, já fora de cena.
Uma vez que não acreditar em nada pode causar problemas, trato indispensável montar o quadro, ajeitar o figurino e decorar o texto.
O que tenho para dizer?
Conheço uma anedota, dessas que não fazem rir, que minha avó contava nas ocasiões mais esquisitas, quando a parábola soava mais estranha. Só depois, bem depois, quando as lufadas já não eram tão violentas, então a fresca tomava rumo, como frescor de brisa.
A historieta diz que um campônio estava indo pela estrada. Num saco às costas, levava queijos e compotas de doces; e num carrinho, um sortidão de vegetais.
A caminho do vilarejo mais próximo do lugar onde morava, ele ia vendendo os seus produtos. E tinha pressa.
Para aliviar-se das iguarias de açúcar, tanto punha fé que o sol as mudaria que até o saco foi logo vendido. E queria apressar-se.
Na lábia, professava que ia atrás de unguentos pros dedos tortos de trabalho. Quem o ouvia lamentar-se da faina dos dias comprava mais do que precisava. Ele sabia matar a sede que sugestionava.
Tendo já percorrido quatro partes da sua jornada, o pelintra viu-se com uma cebola. Como a estrada chegava ao fim, o jeito era negociar com quem aparecesse na frente.
Vindo dar-lhe as boas-vindas, da choça de palha a pique saiu um velhinho de andar pesaroso.
Cantou-se a ladainha de restar apenas aquela mísera cebola.
O ancião, assentando-se junto do andante, propôs comerem a tal cebola; repartida entre ambos, ao sabor da pinga do seu alambique.
Eles comiam, eles bebiam.
Falaram das noites frias que anunciavam o outono vindo, e o gole. Falaram dos dias do inverno que pediam despensas, outro gole. Daí a primavera aflorou de permeio, daí o gole derradeiro.
Não seria o caso de sair de mãos abanando.
Se o velhinho jogou de longe uma moeda de cobre nas mãos em concha da visita? Pois beberam juntos. O cego atirou-lhe uma moeda de prata? Que manhã boa tinha sido aquela. E como paga da farra na cidade, o homem da choupana deu-lhe a sua moeda de ouro.
Mostrasse as mãos; elas estavam sem nada. No sério da palavra, aí a cebola do ano germina em quem só tem olhos pra ver.
E foi, é?
Oxe. No véu do espelho, a lua de dezembro tá que nem pisca.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 17 de dezembro de 2019.

domingo, 15 de dezembro de 2019

O ofício


O ofício

Quando abelhas param um ônibus, será sinal dos tempos?
Largo a notícia sobre os últimos eventos na Inglaterra eleitoral, no súbito da chuva. Corro às janelas, chove forte. E na chuvarada, umas crianças desgarram-se do pai e da mãe que vão conversando, como se chuva não houvesse.
Como não havia dessa vez, no recuperado do acontecimento.
Talvez me conjurem de tê-lo trazido pelo prazer da rememoração sem motivo. Não fosse o homem aí sentado no meio-fio com a boca escancarada pras nuvens que mandam água do céu.
Tirando sentido disso?
Lá estava eu, engessado na autoridade do paletó. Como padrinho, no engravatado da cerimônia. Sorrindo minhas dissimulações. Então, deu-se a entrada dum figurão do interior, da cidade paulista, que era Piedade.
Pelas tantas, veio o merecedor das devidas vênias. Mostrando-se, pelo porte, considerar-se vereador, prefeito, quiçá um dos magnatas do comércio, e mui digno dos maneirismos de alguns dos presentes.
A jovem e o jovem, os mocinhos, contavam com a vinda daquela agenda apertada. Providencial, mesmo, foi uma senhorita tomar-lhe o braço para composição do nosso lado, que ele era como éramos ali, testemunhas do casamento.
Se fosse uma história da carrochinha...
Quebrando o protocolo, tornado vilão pelas circunstâncias, um cão viria conferir o que estava ocorrendo. Sem convite que o autorizasse entrar, viria assuntar a mulheres e homens, com os seus olhinhos a indagar o motivo da reunião. Contudo, sendo conto de outra espécie, aqui não se verá no encalço do filósofo de patas o óbvio barnabé de laço na mão.
Com o ritual seguindo seu rumo, sequer a presença em cena do homem das ruas mereceu ter sido notada. O invisível seguia fora de foco àquela gente orgulhosa das conquistas, cidadãs e cidadãos que, nas palavras do pastor, houveram-se por abençoados.
Todavia, façamos jus a uma história que faz em cacos o esperado, pois o protocolo, uma vez introduzido na crônica, é para ser feito em pedacinhos.
Dito isso...
Quando a magia da celebração parecia já bem encaminhada, eis que duas menininhas, gêmeas até em suas roupinhas, ei-las a correr em meio aos convidados, na algazarra das trancinhas em disparada.
Acabei perdido do interesse no compartilhamento do fogo de uma vela para duas menores que a ladeavam. Adeus, metafísica. Adeus, ó metáfora do amor supremo. Adeus, adeus.
Fez-se a fila dos cumprimentos, noiva e noivo acolheram por bem recebê-las, as felicitações, com aquela resignação dos receptores da verdade, havida como fogo no sacramental da explicação.
Guardei ouvidos sobre o ministro, que era pai de satãs sem sutiã, que, embora constrangidas, ó hormônios do demônio, sabiam sorrir.
Tais olhares numa contradança?
Sob pancadas perdigotas de renitentes, a graça dos peraltas está em manter o clima sem ferrarmos o rebolado.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 15 de dezembro de 2019.

quinta-feira, 12 de dezembro de 2019

Fumacê


Fumacê

Como não tem podido ficar em casa, que hoje fosse o caso. Bem faz que seja, está chovendo. Puxa a cortina, o tanto pra conformar-se com o aguaceiro a impedi-lo de ir aonde houvesse de ir. Frio, vento e chuva, que não sejam tais condições a vencê-lo? Irritam-no. Com a cabeça pegando fogo, e sem ao menos arranjar uma cara digna, a de quem escolhe por si o constrangido do apático, topa a máscara que resulta na mensagem digitada. Aos vivos, diz que a vontade é mesmo de ir-se para atender os compromissos, mas esse tempo. Não fosse, teria podido sair de casa. Como queria ter podido mais. Até bate uma saudade, do nada.
Aconteceu. Num ônibus, indo ao psiquiatra em Santos. Se mais ou menos? Em atrito consigo mesma, que trate a mente de se retratar:
Como tenho talento pra me concentrar no que faço, procuro errar bastante, assim no desembaraço de ir escrevendo, sem ficar vigiando que a fala da escrita vá ditando o seu ritmo, na velocidade com que a mão consegue acompanhar o que o pensamento solto vai saltando, é como se a correnteza fosse menos de água e mais de ar na ventania de sua necessidade de expressão, sem as rédeas das margens, sem os arreios de impor ao xucro a cavalgada do conformado ao cabresto, passo a estudar como cheguei aos erros, e ir mudando, aprimorando, custa o esforço da coisa querida, vou aparando o excesso, e vou na levada, até que os erros ganhem em mim o estatuto da virtude, assim conquistada na concentração da melhoria, a do mal tornado bem, do imperfeito que foi sendo lapidado, burilado, decomposto, recomposto, até revelar a luz do limite do possível, o que ganha de mim um ufa!, que é aquele peso tirado dos ombros, ufa!, nada como fazer o que dá pra fazer sem se descabelar, que assim o fabricado desse modo tem ainda a preservação das cicatrizes, cascas, feridas, manchas, do que não sai nem com cândida, mas tem que o resultado não vou chamar de horripilante, uma vez que monstro é a perfeição, que é o antípoda do bem feito. Se gostou da coisa, roube-a pra você. É isso, a vida diz verdades sem as platitudes do verdadeiro, como se uma pérola fosse achado do improviso. Toca! Pegue, pegue sem medo, que ideia não se rouba, se compartilha.
Rosa? Rita, o nome que a voz turva dos ruídos parece borbulhar. Decantá-la, a face, trabalho que os trapos da memória cobrem mal. Da visão captada, o aplicável ao real; da apreensão, o rebarbativo.
O ato, pra quê. Pra escrever, o quê. O que pensa, como. Como se vive, quando. Quando escreve, sobrevive. Até por quê? O texto diga o que tem pra dizer. Embora a razão sofra derrotas, que ela lute com o reles da cuca.
Que fogo é esse?
Se não do trânsito dos neutrinos que passam pelo corpo que não os ampara, de onde vem?
Ao tirar o dia para o disponível do ócio, a recompensa do espanto resultaria em maior fracasso se tentasse frear-se ao menor gozo.
― Ô pirralha do cacique.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 12 de dezembro de 2019.

terça-feira, 10 de dezembro de 2019

Um abraço


Um abraço

No friozinho deste instante, passa por mim um cão. No encruado deste instante, vegeta no seu olhar uma flor sem viço, o baço do seu desatino. Este desgarrado reverbera o mundano da sua presença. No seu olhar, a solidão de quem espera o que deseja. Na ânsia de suas necessidades, algo estranho manifesta essa vontade que não sabe de si, mas busca abrigo. Uma incompreensão aquietada no diapasão do pedestre; um rocio na raiz da muda ― abismo de cão no homem.
Irmanados na dor, nessa dor funda de quem pouco deixa de si nos rastros do mundo, como desejo que se cala pelo desconcerto diante da vida. Embora negado, seguidamente negado, o cão não se busca nas perguntas que não faz, guarda o amor aos pés dos sentimentos. Chega a abanar-se ligeiro, atiçado talvez por ter sentido a resposta, e veio tão somente outro gesto qualquer.
Diante do que passa, o menino não fica sentado.
Se falta a palavra, que se invente. Que seja a mais precisa, a mais íntima do que sente, a que expresse o que quer dizer. Com pontos de fuga, perspectivas de espirais, abstrações de névoa, esse tanto que o confunde. Afinal, quem roda em torno de si afaga a vertigem.
Sol? Pelo brilho quando pronunciada, talvez seja mesmo a palavra sol a que esteja imaginando, no momento deste ardor.
O menino sorri, pois algo aí não o convence de que esteja certo. A boa nova da coisa toda é que não quer nem pensar que esteja certo. O sol, isso o põe bastante alegre, cheio de si nessa alegria, embora nem desconfie que seja euforia, aquilo, o que o move.
Ô sarna! Vai ao lápis para exprimir o que pulsa na mente.
A gravidade do pensamento sugere a poesia que lhe escapa mal o grafite baila no ar. O inefável que o inspira nem sopra ruínas; pétalas e espinhos somem ao redor da folha.
Encantado pelo que não veio, abre-se ao sorriso do singelo?
Fechados os olhos, ajeitado ao corpo, desnudo na cama, sente-se de volta ao figurino de menino só.
Levo-o, quem almejava cantar o que hoje canto. Não apenas por mim nem só por ele, me apetece pedir por tantos que zanzam por aí, enfiados numa tosse que logo vai passar, entretanto não passa coisa nenhuma.
Menino, conquanto possa um tropeço, cuide que estão olhando de soslaio. Bem no momento da passada, há uns trecos que gostam de fazer piada. Rapaz, a rua anda louca para rir da nossa cara.
Vou-me, e sou levado a ir. Reluto, e luto. Escolho baixar a febre.
Quando passo ao pranto, conheço o triste do desamparo. Todavia, pela lágrima, importa saber que o mundo não sente da maneira como sinto o osso do viver?
O sol sobe as montanhas, desce os poços, escala as notas, atalha frases. Sem interromper o fluxo, sua língua estrala. Há uma implosão, há este sol que se apaga. Há uma explosão, o eco do que se perde à razão do ser.
Trocando em miúdos, o menino que carrega o homem nos braços claudica ao traduzir, em palavras, o que significa esperança.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 10 de dezembro de 2019.

sábado, 7 de dezembro de 2019

O amor indispensável


O amor indispensável

Nas compras, com a multidão pagando pela paz na Terra.
O amor que nos une é que nos afasta dos maus, diz o homem de guarda-chuva na mão. Permanece calada a mulher de sombrinha na mão, mais interessada em uma sandália de prata. Talvez quem pouco amor tem recebido possa negar que as festas do Ano Novo já dobram a esquina, mas não o faz.
Pode acontecer, pois está vindo. E traz o branco do vestido curto e o branco do bermudão pelas canelas. Funde a saliva pela sandália de prata à da perdição do sarongue cor de sangue com girassóis, araras e um coiote ocre. Isso, ocre no rubro.
Sem gritar e sem ultrajar, passa uma turma. Vem de cabeça baixa, telefone na mão. Meninas e meninos; em grupo, e sem tropel.
Por sua vez, o amor que une muito agrada a quem vive grudado no próximo, de modo que, afinal vindo, será pérola a mais no colar da vida, insiste o chato de pescoço à mostra.
O inocente não perde a inocência quando se diz inocente, reza o tagarela. Perde-a quando diz coisas sem pensar, emenda no gatilho a distraída. Põe a palavra depois de outra, diz àquela a terceira, a essa a quarta. Até que o poço dê no fundo de outro. E? E? Juntos fazem correr suas águas. Olham-se e vão pensando, vão.
O ar continua condicionado. Não como batatinha nem bebo refri.
Logo ali, na fila do caixa, a estudante de Direito conversa consigo, se faz o dia virar noite, entendo; se faz o que entendo, aí me arrisco a querer pra mim uma folga; o doce amarga de azedo, quero ir embora.
O professor de História está atrasado pra aula depois do almoço, em vez de espantalho, instalem-se parabólica e painéis solares, pra que os ouvidos possam ouvir, pra que os olhos possam ver.
Também tenho ilusões, mas elas voam. Lá fora, são andorinhas.
A mulher passa pano úmido no chão do shopping, a queda do céu não pode vir, então, que não venha, já o suor faça do milho estocado as broas às mães que se aproximam como luz das madrugadas, bebe a água que pode, e se borboletas sabem virar vaga-lumes, podem o que mais?
Também entra na história o senhor que tem tempo de sobra, se a noite sai, o sol entra, se as nuvens rodam no céu, trazem chuva, água boa pros frutos que serão colhidos na estação, pra que bocas comam seu quinhão.
Sigo comigo, minha vó cirandava em silêncio, entrada na lucidez octogenária, vergonha não punha no que fazia, punha o medo de ter perdida a vontade de seguir como gente, bicho que pensa, flor do riso que chora, deixava maldizer da vida quem vigilante da fé apregoada a si mesmo, minha vó olhava, eu olho.
2020, meu caro.
Desde já, saiba que não pularei nenhum dia e vou tirar o coração pela boca quando for justo que o tire. Caso o amor queira ficar numa boa, ficarei lendo e pensando. Mesmo que a desfeita seja dígitos em uma urna, essa boçal que me come feijão e frevo? Haverei de ferver, e faço voto que não me falte sequer uma sombrinha.
Inté mais, 2020.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 08 de dezembro de 2019.

Sintonia fina


Sintonia fina

Miando, um gato deu a dica de que estava cercado de folhas por todos os lados. Empoleirado no galho do arbusto, e por saber o lugar que ocupa neste ponto entre Boqueirão e Forte, o tinhoso miava.
Nesta aprazível estância balneária, da varanda deste apartamento observo cães correndo atrás de passarinhos, passarinhos fugindo de gaviões, gaviões comendo restos na praia, a praia que acolhe quem a escolhe.
Ô simpatia.
Sei da orla a quarteirões daqui, mas simpático à ideia de que uma cidade praiana pode amáveis reflexões, teço gracejos, e até um gato na árvore vem para quebrar a manhã em duas.
Sim, em duas. Antes, quando o escriba foi às compras, não ouviu miado algum ao passar pela jabuticabeira, que nem era propriamente uma mas, para tornar apetitosa a leitura, fica transformada no meu pé de jabuticaba.
Em duas, como ia dizendo. Porque, voltando, eis o consumidor de sacolinhas na mão. Aliás, nem deveria estar carregando as quitandas neste tipo de material, pela difícil degradação do plástico.
Feitas as ressalvas, a da imaginação fantasiosa que manipula este cenário para benefício de quem lê e a da necessidade tão urgente da conscientização climática de quem lê e de quem escreve, passemos às artes do bicho de bigodes que mia a plenos pulmões.
Estaria o felino esgoelando a incompetência pra descer do lugar a que subiu por capricho? Idiossincrasia apenas dele ou da espécie? A tais perguntas o texto não encontra respostas.
O quê!
As boas e samaritanas mãos da dona do miau acorreram e deu-se o resgate. Proporcionando a todos uma cena tocante.
Haja vista ter testemunhado o tatibitate capaz de tirar ronronados mesmo deste cínico, admirador confesso dos cães de rua, o narrador compadecido permitiu-se sorrir.
Mas, este bichano é outro bicho.
Afável ou emburrado, eis que o escrevinhador partia em missão ao comércio da avenida. Indo atrás do ansiolítico e buscando tinta para a impressora. Pondo ordem nos fatos? Antes das compras, desfrute-se uma casquinha, sentado no calçadão, com o marzão de horizonte.
Teria sido o roteiro da tarde, mas outro animal entrou outra vez no meio do caminho de quem ia e parou. E parado, pôde ouvir.
O gato da goiabeira era zarolho, este é malhado.
Goiabeira?
De fato, querem tumultuar a narrativa. Porém, o homem que narra viu no celular que a moça e o alpinista não eram os mesmos.
Boquiabertos; houve quem desse um passinho atrás, acusando o cronista de alcoolizado em serviço; ele jura que não bebe há meses e sequer tomou o café das três.
Assinaladas as incongruências, que a presente crônica relate que: o filhote e a senhorita passam bem; o siamês cego fica se lambendo diante dos eventos; como beija-flor-das-acácias, falta o gato que falta; o chão segue firme na calçada; todo e qualquer gato é bicho.
Reparando os gatos... A sutileza está no miado.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 05 de dezembro de 2019.

terça-feira, 3 de dezembro de 2019

Pindorama, meu amor


Pindorama, meu amor

As festas estão de volta. Outra vez.
E, como sempre, o controle da velocidade da passagem dos dias está nas mãos da mais arteira das crianças, Jânio. Assim, topo sentar diante da TV para aplaudir o rio dos fogos, cantar as fraternidades ao peru, lacrimejar uns amores na virada.
E olha que o ano nem quis saber da minha entrega. Sim, mudei os hábitos. E tudo começou com uma colherzinha de café. O bocadinho do pó de café, o torrado e vendido nas gôndolas, passei a derretê-lo na boca, com a língua amargada no pinhão.
E fiz o possível pra não deixar mofado o pão da partilha. Me armei das melhores intenções pra desaguar as ânsias que a boca rumoreja.
Quando vão chamar pra ver o sertanejo que não desafina?
Não posto mais na pia os pratos vazios da comilança desenfreada de hambúrgueres e miojos. E tirei o cafezinho de hora em hora, ainda mais porque adoçado com a pontinha da colher de sopa. Parei com o açúcar que punha no café.
Também sou gente, gente.
Tudo começou quando me dei conta que andavam enfiando colher na minha boca, de modo que ia engolindo bules e bules de café como quem carrega sacas de açúcar.
Pois é, já caibo à mesa.
Apesar de a multidão da casa dizer que tem sono, digo de mim pra comigo mesmo: estou pronto. Então, que venham os sinos do galo. E tragam goiabadas e marmeladas.
Cabaninha no quintal? Mudei de pele.
Vestido a caráter, caprichado no melhor dos figurinos, o medo me despe o atraente. Com o pudor dos puritanos, a gabolice dos imbecis, a vigarice dos cretinos e a parvoíce dos tolos. Finíssimo; tô outro.
Posso a pose ao lado da manjedoura.
Pra que a paz cresça das sementes da verdade e seja feita, travo o riso. Mesmo que o capim da soja seja de plástico nas entranhas do boizinho e da vaquinha? É de felicidade que mugem. Afinadíssimos.
Por onde hei de ir-me na poesia destes dias? Por Maracangalha, de pandeiro na mão? Oxe. Não, não, irmão do sol. Vou, pelo canto.
Para onde hei de ir-me com este drama? Para Pasárgada? Oxe. Não, não, irmã do sal. Vou, pelo conto.
E tudo vai acabar bem, uma vez que vou parar de contar sapos na hora de dormir. Talvez, já o travesseiro certinho sob a cabeça. Talvez seja doce dormir em paz, na paz dos justos.
Para tanta leveza, toneladas de amor.
Diz o amor em mim, diz o que me acalma:
Por favor, nada de Maracangalha. A alucinação tem dentes que já devoram os próprios dedos. Por gentileza, nem Pasárgada. Tormento é ter cães sem coleira nos calcanhares das doceiras.
Quando o orvalho da aurora goteja sua hora?
O fiel sabe que quem não ajoelha não merece os joelhos que tem.
Oxe!
No topo da escadinha de cinco degraus, com uma lata e um pincel de largo calibre? Abro a porta ao sopro do sonho e nele, nesse sonho torto de fome, há este poeta de pernas de fora e barro nos pés, é ele que escreve com a sua letra meio itálica:
O chão que nos acolhe haverá sempre de nos recolher.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 03 de dezembro de 2019.

domingo, 1 de dezembro de 2019

Crepúsculos


Crepúsculos

No alto do chão em que me encontro, acordo com a passarinhada na cantoria de quem bota fogo no mundo só com o bico.
Mal abro a janela e, pela perspectiva das seis da matina, dou com a frieza do ar. A ressaca da rotina impõe o sol subindo os degraus da sua escalada. O futuro da manhã não assobia presságios.
E esse espertinho que estava na mureta da sacada? Se mandou sem nem ao menos levarmos um lero? Meu corpo tem o seu relógio ajustado pelo verão que já se avizinha. Portanto, não se sinta culpado por ter acabado com o meu sono. Numa boa, amiguinho, volte aqui.
E nada? Na mesma.
Abro a porta da varanda da sala e, de repente, passa um troço no céu. Será possível mancha de petróleo com asas?
Melhor pegar receita pra tanto lixo químico que ando comendo.
Quanto sei de passarinhos e manifestações psicossomáticas? Ixe. Da balbúrdia da natureza, o bem-te-vi tem fácil reconhecimento pela onomatopeia que o distingue. O mais? Se dou por perdido o jogo de unir nome à coisa em si? Prefiro ir caminhar no calçadão. E vou.
No meio do exercício matinal, me veio à mente a jornada cumprida num sábado de 2004 ou 2005. Certeza mesmo? Confio que em 2003 não foi, pois tinha acabado de me mudar da região de Sorocaba pra Baixada Santista. Tinha saído das fraldas da infância pra vir assumir algo bem parecido com a autonomia da maturidade, algo assim.
O que foi que lembrei sem querer, ou querendo lembrar ao modo descontrolado da cabeça que pensa por mim o que nem me imagino capaz de lembrar? Recordei uma descida da Serra do Mar.
Descemos. Os quatro estudantes de Letras da Católica de Santos, que formávamos um grupinho da fuzarca dentro do grupo monitorado pelo pessoal do Caminhos do Mar, trilhamos o parque estadual. Lá de cima, partimos do estacionamento da Henry Borden? Apagou-se... Mas viemos até o pé, ao Cruzeiro, em Cubatão.
A vista espetacular da Costa da Mata Atlântica. Aos tropeços, aos escorregões. As tramas das sendas na mata. Quem dera livrar-se das picadas de muriçocas. A natureza: ao vivo e sem dó.
Fomos pela Estrada Velha. Lendo placas, passamos a saber dos marcos históricos do caminho que estávamos fazendo. Surpresa foi ir descobrindo a vida humana, com funcionários de empresas a subir e a descer pela área que julgávamos entregue à preservação do mico no cipó. Como um cenário selvagem? Uma floresta intocável, por lei. Aliás, a cobiça por novos conhecimentos não nos impediu de dar com o policiamento ecológico, da Florestal, cuidando pra que a gente não tirasse casquinha alguma, só fotos de suaçupitas e jerivás.
Caminhada feita. O sofá no lugar. Os livros nas estantes. O míope percebe... É nas cinzas que renasce um urupê.
Se guardo em mim que a Marquesa de Santos não pernoitou na casa de pedra da Serra, o que virou fumaça nesta tela sem parede?
Ô curió, não foram as faculdades; ê paruru, foi o diploma.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 01 de dezembro de 2019.

quinta-feira, 28 de novembro de 2019

Hora, hora


Hora, hora

Luiz, o pequeno, tinha um mestre, o velho Luiz. Ambos Luíses, pai e gafanhoto, vieram ao mundo em Ibiúna, como advertem os cálculos do narrador. Na função da memória, com sua escala peculiar, tem-se o holograma do salto pro solo do Concerto para Oboé de Wolfgang Amadeus, o Mozart. De cortar o fôlego, o oboé chega a suspender o momento, apesar das escoriações sobre o corpo.
Um Gabigol a entortar o pescoço dum desgovernado?
Deixe o deboche pros cães da pátria, ó Luizinho. Mas, tente forrar o riso com esses dias de taxa das grandes pobrezas. Mas, resista ao fundir a chalaça do regressivo à burla recorrente das infâncias.
Isso, o instante da fuga, faz nostalgias com a matéria boa? Fá-las, raciocina o calado do altercador com ares de sabujo.
Isso, a sarna da sabedoria, faz saber o que quer dizer o vão, cuja carne viva pouco diz a quem tem unha?
Quem tem unha que a trate, que as pulgas insultam as narinas ao circular os circuitos da pilhéria, se desalojadas por espanador. O que diz? Poeira, entre O Paraíso Perdido e O Tempo Redescoberto, diz o gaiato da Modesta Proposta.
Vê-se aí uma exploração qualquer. Mas qual?
Está no ar. Sufoca-se. Portanto, respirar faz mal.
Mas respiração nem é da conta de quem respira. O ar entra, pois tem mesmo que fazer funcionar as peripécias, daí volta pro restante do ar que fica naquela impaciência.
― Então, como é lá dentro? Tem monstro de verdade?
O ar? Entra de um jeito e sai de outro. Porém, só o ar não basta a quem estuda as atuais condições, por isso apela a instrumentos pra medir. E o ar, concentrado na geleia geral? Nem aí pra quem precisa medir o quanto de ar precisa quem precisa de ar para viver.
Viver, e viver em paz. Isso? Isso é de cortar o coração.
O coração, eis a raiz a quem reflete sobre as condições de tempo e temperatura. Pulsa, se medicado. Há remédio a quem treme? Se há feijão a quem tem boca; se pode o pão quem tem febre. O dito cujo? Cães o amassam com o rabo ― se sentados, grunhindo; se deitados, rolando. O coração no peito de quem tem pulgas late aos afagos dos muxoxos. Todavia, as pulgas que os cães trouxeram para casa fazem a festa. Festa? Se for pra faltar ao respeito: ô suruba.
Quê? À baila, musas sorriem uma infância.
E vinha? No manso da carroça numa batida de cascos, o menino largava da rédea sem ouvir as toras virando pizza, que a fatia noutro balcão fazia solfejarem os pezinhos; no sábado da padaria do Gildo e do Serafim, naquele gostinho da noite, tal a mímica do alvoroço.
Sim, a cotovia das veredas canta aos tíbios o dissonante à arenga de quem, em tudo, revê tantos quebra-quebras.
Ê explosão de vermes no ventre do colosso. Ê chusma de arrotos da malta do meia dúzia. Ô linguagem sem drama.
E se taxar o desemprego? Orra!
A mulher do Nunes (segundo o Braga, a primeira) não foge à letra:
― O quê tem que ver com eme e pê...
Toca pro Allegro aperto? Da capo.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 28 de novembro de 2019.