O amor indispensável
Nas compras, com a
multidão pagando pela paz na Terra.
O amor que nos une é que
nos afasta dos maus, diz o homem de guarda-chuva na mão. Permanece calada a
mulher de sombrinha na mão, mais interessada em uma sandália de prata. Talvez
quem pouco amor tem recebido possa negar que as festas do Ano Novo já dobram a
esquina, mas não o faz.
Pode acontecer, pois está
vindo. E traz o branco do vestido curto e o branco do bermudão pelas canelas. Funde
a saliva pela sandália de prata à da perdição do sarongue cor de sangue com
girassóis, araras e um coiote ocre. Isso, ocre no rubro.
Sem gritar e sem ultrajar,
passa uma turma. Vem de cabeça baixa, telefone na mão. Meninas e meninos; em
grupo, e sem tropel.
Por sua vez, o amor que
une muito agrada a quem vive grudado no próximo, de modo que, afinal vindo,
será pérola a mais no colar da vida, insiste o chato de pescoço à mostra.
O inocente não perde a
inocência quando se diz inocente, reza o tagarela. Perde-a quando diz coisas
sem pensar, emenda no gatilho a distraída. Põe a palavra depois de outra, diz
àquela a terceira, a essa a quarta. Até que o poço dê no fundo de outro. E? E? Juntos
fazem correr suas águas. Olham-se e vão pensando, vão.
O ar continua condicionado.
Não como batatinha nem bebo refri.
Logo ali, na fila do
caixa, a estudante de Direito conversa consigo, se faz o dia virar noite,
entendo; se faz o que entendo, aí me arrisco a querer pra mim uma folga; o doce
amarga de azedo, quero ir embora.
O professor de História
está atrasado pra aula depois do almoço, em vez de espantalho, instalem-se
parabólica e painéis solares, pra que os ouvidos possam ouvir, pra que os olhos
possam ver.
Também tenho ilusões,
mas elas voam. Lá fora, são andorinhas.
A mulher passa pano
úmido no chão do shopping, a queda do céu não pode vir, então, que não venha,
já o suor faça do milho estocado as broas às mães que se aproximam como luz das
madrugadas, bebe a água que pode, e se borboletas sabem virar vaga-lumes, podem
o que mais?
Também entra na história
o senhor que tem tempo de sobra, se a noite sai, o sol entra, se as nuvens rodam
no céu, trazem chuva, água boa pros frutos que serão colhidos na estação, pra
que bocas comam seu quinhão.
Sigo comigo, minha vó cirandava
em silêncio, entrada na lucidez octogenária, vergonha não punha no que fazia, punha
o medo de ter perdida a vontade de seguir como gente, bicho que pensa, flor do
riso que chora, deixava maldizer da vida quem vigilante da fé apregoada a si
mesmo, minha vó olhava, eu olho.
2020, meu caro.
Desde já, saiba que não
pularei nenhum dia e vou tirar o coração pela boca quando for justo que o tire.
Caso o amor queira ficar numa boa, ficarei lendo e pensando. Mesmo que a
desfeita seja dígitos em uma urna, essa boçal que me come feijão e frevo? Haverei
de ferver, e faço voto que não me falte sequer uma sombrinha.
Inté mais, 2020.
Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 08 de dezembro de
2019.