Pindorama, meu amor
As festas estão de
volta. Outra vez.
E, como sempre, o
controle da velocidade da passagem dos dias está nas mãos da mais arteira das crianças,
Jânio. Assim, topo sentar diante da TV para aplaudir o rio dos fogos, cantar as
fraternidades ao peru, lacrimejar uns amores na virada.
E olha que o ano nem
quis saber da minha entrega. Sim, mudei os hábitos. E tudo começou com uma
colherzinha de café. O bocadinho do pó de café, o torrado e vendido nas
gôndolas, passei a derretê-lo na boca, com a língua amargada no pinhão.
E fiz o possível pra não
deixar mofado o pão da partilha. Me armei das melhores intenções pra desaguar
as ânsias que a boca rumoreja.
Quando vão chamar pra
ver o sertanejo que não desafina?
Não posto mais na pia os
pratos vazios da comilança desenfreada de hambúrgueres e miojos. E tirei o
cafezinho de hora em hora, ainda mais porque adoçado com a pontinha da colher
de sopa. Parei com o açúcar que punha no café.
Também sou gente, gente.
Tudo começou quando me
dei conta que andavam enfiando colher na minha boca, de modo que ia engolindo
bules e bules de café como quem carrega sacas de açúcar.
Pois é, já caibo à mesa.
Apesar de a multidão da
casa dizer que tem sono, digo de mim pra comigo mesmo: estou pronto. Então, que
venham os sinos do galo. E tragam goiabadas e marmeladas.
Cabaninha no quintal?
Mudei de pele.
Vestido a caráter, caprichado
no melhor dos figurinos, o medo me despe o atraente. Com o pudor dos puritanos,
a gabolice dos imbecis, a vigarice dos cretinos e a parvoíce dos tolos.
Finíssimo; tô outro.
Posso a pose ao lado da
manjedoura.
Pra que a paz cresça das
sementes da verdade e seja feita, travo o riso. Mesmo que o capim da soja seja
de plástico nas entranhas do boizinho e da vaquinha? É de felicidade que mugem.
Afinadíssimos.
Por onde hei de ir-me na
poesia destes dias? Por Maracangalha, de pandeiro na mão? Oxe. Não, não, irmão
do sol. Vou, pelo canto.
Para onde hei de ir-me
com este drama? Para Pasárgada? Oxe. Não, não, irmã do sal. Vou, pelo conto.
E tudo vai acabar bem,
uma vez que vou parar de contar sapos na hora de dormir. Talvez, já o
travesseiro certinho sob a cabeça. Talvez seja doce dormir em paz, na paz dos
justos.
Para tanta leveza,
toneladas de amor.
Diz o amor em mim, diz o
que me acalma:
Por favor, nada de
Maracangalha. A alucinação tem dentes que já devoram os próprios dedos. Por
gentileza, nem Pasárgada. Tormento é ter cães sem coleira nos calcanhares das
doceiras.
Quando o orvalho da
aurora goteja sua hora?
O fiel sabe que quem não
ajoelha não merece os joelhos que tem.
Oxe!
No topo da escadinha de
cinco degraus, com uma lata e um pincel de largo calibre? Abro a porta ao sopro
do sonho e nele, nesse sonho torto de fome, há este poeta de pernas de fora e
barro nos pés, é ele que escreve com a sua letra meio itálica:
O chão que nos acolhe
haverá sempre de nos recolher.
Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 03 de dezembro de
2019.