domingo, 3 de novembro de 2019

Gente brilhante


Gente brilhante

Na época em que fazia versos, certo de que fazer versos me fazia poeta, escrevi isso: há mortos em mim que não param de falar. Nem lembro se isso aí foi escrito assim mesmo, ipsis litteris. Mas “quem faz a língua é quem a usa”, dizem-no instituições que estão funcionando, tais como a Academia Brasileira de Letras, a Associação Brasileira de Imprensa, as faculdades de Educação, Letras e Pedagogia; todas de portas abertas, a mostrar quão importante é ter pesos e contrapesos quando o assunto é falar corretamente e escrever bem. Embora haja quem diga que oratória e caligrafia pouco falem a quem abra a boca como quem posta um comentário.
Gente, devagar com o horror que o monstro passa a andar quando o comando é inteligível. Quero dizer, meu ponto fraco é o pulso forte em matéria de língua.
O rigor do castiço? O castigo do lasso?
O termo me escapa.
Como nem em ladeira abaixo haja santo que acuda, melhor contar só com a gente. E tem gente pra cada coisa neste mundo.
Tem gente que nunca se enxerga. Tem gente que faz de tudo para aparecer. Tem gente que corre da própria sombra. Tem gente que ri de qualquer desgraça. Tem gente que quer o circo em fogo vivo. Tem gente que faz outra de palhaça. Tem gente mangando do cão.
Seu Rodrigues, que palhaçada é essa?
Sim, o negócio é escrever a crônica, que hoje pareço um cachorro correndo atrás do rabo, e com tal naturalidade...
Caramba!
Calma.
Chegando ao prédio onde moro, vejo uma movimentação. Normal, deve ser a equipe de técnicos que faz periodicamente a manutenção do elevador. Não era. Tratava-se de outro grupo, o da manutenção da antena coletiva e das câmeras de segurança.
Tudo pra segurança e proteção.
Sem querer ferir suscetibilidades, mas as câmeras protegem por que vigiam? Ou vigiam por que protegem?
Caso tenha ferido, minhas desculpas.
Interessante.
Um dos mortos que não param de falar em mim é o leitor de Não perdoe! se não souber o que é perdão. Como li o livro, não farei um resumo, e direi apenas o que apreendi.
Perdoar não é livrar-se da culpa, mas assumi-la. Assumir a culpa de pensar ou agir na medida do seu pensamento ou da sua ação, ou seja, medindo o que atravanca o caminho, em vez de permitir que a vida vá em frente. A mágoa é funda; pesa; se alimenta de si mesma, como ressentimento. Se tem cura? Sim, tem. Todavia, perdoar é mais do que dar copo d’água a pessoa que tanto se odeia. Perdoar é difícil, problemático, perturbador, uma vez que é fundamental calcular a dor, o sofrimento, a angústia que configuram o imperdoável. Então, o que é que me impede de aceitar o que vai além da tolerância? Eu próprio. Perdoar é... perdoar-se. Daí, o perdão vem.
Quanta ajuda. Até parece que levei um tapa. Tapa... Oxe! Preciso pegar no manual, que nem sei direito operar a língua. Seu Rodrigues, é vapt-vupt! Shibatada é com xis ou ceagá?
Eu que o diga: oxe!

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 03 de novembro de 2019.

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