O
certo do torto
Com os
compromissos inadiáveis, em outras palavras, tendo os rabichos das contas a
pagar balançando espasmodicamente o sinal de alerta, lá estava eu indo ao banco.
Em
dívida comigo, num misto de exaltação burlesca de vira-lata atormentado por
pulgas vampirescas e de figura entrevada pelo tormento, no mais autêntico dos
cérberos, lá ia eu.
Indo à
agência para desatar o nó na conta que me enforca a cada passo, tão negativa havia
dias. Numa crueldade comigo, perdidas as noites em sono entrecortado pelo
pesadelo de não dormir, eis-me no figurino dos sem pires nem chapéu, indo.
Dez
horas a porta será aberta, estarei na fila. Sem dúvida, guardarei lugar aí. Perfilhando-me
cordato na resignação das pendências, que chegue rápida a resolução das
angústias. É para já, que irei.
Epa! Perdeu
a pressa de desembaraçar-se da forca que lhe tira a álacre desenvoltura de
viver somente para o momento?
O bicho
da goiaba que fala em mim sabe que nem vi pintada no teto de nuvens a linha amarela,
para os perdulários. Resta-me o sonho do apaziguamento financeiro, a quimera de
algum perdão dos juros à medida do respirável. Por isso, minha cara
consciência, tome o siso de não gritar pelos números da senha, dessa mega
humilhante senha que ainda nem peguei.
A
caminho da sorte que me cabe, capricho nisso de ir-me ensurdecido pelo
desespero que me aflige. Só que, para não endoidar comigo, abre-se a caixa de venturas
que sempre me guarda uma das suas surpresas.
Protegido
por um muro, alguém fala alto ao telefone.
Por ter
lúcidos os ouvidos, como se pudesse tirar um naco da carne petrificada para a lapidação
do desgraçado, fui sentar na praia, voltado para o mar. Uma borrasca atlântica ergueu-se
em mim contra os gracejos do sujeito que falava que o rico tem hora de almoço, já
o pobre pode escolher se almoça ou janta.
Mas, e
sem a adversativa a história tomaria outro rumo, o vento do inverno areja a
massa cinzenta, logo penso.
Penso
que desvios não são atalhos, não cortam o caminho, fazem-no inesperado, levam
pelo desconhecido, revelam o inédito sob o cotidiano mais pedestre. No entanto,
para deixar vivo o que não pode azedar, mofar e nem empedrar, é preciso a
desaprendizagem com o que não se sabe, não se conhece e nem se imagina.
Peraí!
Não pirei na baratinha. A dívida continuava lá.
Como
tenho o juízo de não dizer um nome para não invocar a substância que a ele se
atribui, não direi Lúcifer para não o ter na minha frente, de carequinha
lustrosa e óculos de grau, e logo com este tempo de nuvens ameaçadoras. O que vou
dizer, então?
Raios!
Foi
melhor para mim. Ou raios me fulminariam se, no limite do meu juízo natural,
não viesse à ideia isso de ir tomar um ar no banco da praia. Assim, veio-me à
intuição o quanto sofre quem gerencia contas nestes dias de piromanias e
carnificinas.
Agora,
sim, posso ir à agência.
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, dia 05 de setembro de
2019.