Goles
da alegria
Diante do goleiro, o atacante escolhe
o canto e capricha no toque na bola, mas chuta para fora. De imediato, o que pensa
o jogador? Posso arriscar. Seu coração na boca numa descarga de adrenalina. Ou
seja, na próxima, não poderá desperdiçar. O jogo segue. As torcidas a favor e
contra, ambas não perdoam o marrento, tiram onda quando pega na bola. O coração
entende, as pernas pesam, pela espinha passa o futuro próximo. É tal o espírito
que os gracejos alimentam-no intempestivo, porque ele não sabe fingir
indiferença. É do tipo que apalpa o tornozelo e sente o pé na areia, imaginando
a dancinha para o alambrado.
Teria como evitar o entendimento que
tem de si? Vibram as notas do desespero quando o cavaco canta a solidão? Goza.
O goleiro desempenha o seu papel, fica
sério ao simular a devolução da bola. Olha... Olha... É evidente que busca
irritar o artilheiro que falhou, conta com a sua desestabilização, sabe que o vencerá
pelos nervos. Não vai gozar, gozador?
Por excesso de preciosismo, por
apostar em si contra o azar e por sua confiança inabalável na habilidade de
dominar a bola e colocá-la onde bem quiser, eis que uma nova oportunidade é
construída pela equipe...
A alegria de viver pode prevalecer, e outras
jogadas irão ser construídas. Bolas na rede ou perdidas, isso faz parte do
jogo.
É alegria de viver e não felicidade,
pois nem sei dizer o que vem a ser a tal felicidade. Sempre que me vejo feliz,
topo com uma pedra e tomo um capote daqueles, que estou habilitado a seguir
perna de pau diante dos desafios da vida. Nem quando a preparação é intensa,
com muita leitura, escrita concentrada e um tanto de reescrita, nada de
finalizar com êxito merecedor de um reconhecimento duradouro. É como tomar uma
garapa e achar que aquela sensação de prazer irá durar. Tomou, acabou e, nem
dois passos depois, já era.
A alegria que me pega pelo riso, pelo
olho no olho que não provoca conformismo nem constrangimento, é esta alegria
que me leva adiante, me quer indo avante e me faz querer que os amigos avancem,
não fiquem presos à beira do abismo. Como me fazem falta pessoas cuja alegria
impulsiona, transforma e cria outra realidade ─ menos egoísta e mais de grupo ─
que congrega e emociona, sem os arrebatamentos dos efêmeros, sem as
volatilidades torpes dos que só emulam ódio e rancor.
A alegria deseja o que o coração
entende e quer, e também deseja o que a razão elabora e quer, simultaneamente, porque
coração e razão amalgamados são uma coisa só.
O fim do suspense? O matador não fez
gol algum.
Tomando meu chopinho, comendo umas coxinhas,
dou uma de Casagrande, apenas para gozar o amigo que se imagina um Gabriel
Jesus mas foi capaz de perder um caminhão de tentos na pelada das sextas. Se o
grito fica fazendo cócegas entre o pulmão e a boca, é só lembrar: semana que
vem tem mais.
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, dia 18 de julho de 2019.