terça-feira, 16 de julho de 2019

Subir para cima


Subir para cima

Então, eis que me vejo precisado de tomar posição diante, por exemplo, da calma dos mansos, da inocência dos puros e da presunção dos soberbos?
Há quem afirme que não houve coisa nenhuma mudança no clima, que tudo não passa de conversa para boi dormir. Aí, fico a me perguntar: boi dorme quando ouve papo furado?
Fui ler sobre o clima e o tempo. E descobri que o primeiro conceito leva em conta observações diárias e cálculos complexos para que se elabore um modelo em escala global, projetando temperatura e regime de chuvas para daqui a 20, 50, 100 anos. Já o tempo, veja como o céu se apresenta no momento ou saiba qual a previsão para amanhã ou depois.
Durante anos, o homem do tempo da rádio Jovem Pan AM, Narciso Vernizzi, era quem passava a sua previsão a partir do posto de observação que tinha em São Roque. Porém, nunca soube se ele, na hora de fixar os seus boletins meteorológicos, levava em consideração a altitude. Puxa! Não ouço a rádio faz tempo, parei antes mesmo da morte do jornalista, em 2005.
Além da emergência climática...
A inocência do mundo é a limpeza do puro? Isto é subir para cima, agora que sei o que significa mundo. Sim, tratei de ir ao dicionário para aprender que imundo é antônimo de mundo.
Sonho, logo penso que me lembro. O quanto de lembrança? O tanto que me permite o meu inconsciente. Mas não é daí que posso contar, é daqui, da realidade, do universo, do planeta.
O planeta...
E a ONU informa que, em 2018, mais de 821 milhões de pessoas passaram fome na Terra. Com tuítes, Trump atacou, com racismo e xenofobia, quatro deputadas estadunidenses que lutam pelo fim do Serviço de Imigração e Alfândega. E o Bolsonaro quer detonar o Parque Nacional Marinho, que fica em Fernando de Noronha, pondo fim aos recursos cobrados de turistas para a preservação do meio ambiente ─ com a coleta de lixo, a coleta e o tratamento do esgoto, a oferta de água potável.
O que isto me diz?
Turistas viajam e gastam. Imigrantes fogem de guerras e da fome. Pessoas vivem na Terra. Que haja uma redistribuição de renda pelo planeta todo, uma vez que a sociedade humana é global, planetária.
Pois então. A Inglaterra terá a efígie de Alan Turing na nota de 50 libras. O pai da Ciência da Computação e da Inteligência Artificial foi quem decifrou o Enigma, o código utilizado pelos nazistas em sua comunicação durante a 2ª Guerra.
Faço referência a este cientista, pois alguém com tal calibre intelectual possa me explicar a seguinte estatística:
─ 47% não entendem por que não sabem explicar a opinião que têm;
─ 44 % entendem por que não explicam a opinião que têm sobre o que não sabem.
Como palhaçada não faz o palhaço, nem em Washington, é preciso decifrar o que pensam as brasileiras e os brasileiros. Daí, talvez, seja possível localizar o Brasil no presente da América e do planeta, para que haja o futuro da Terra.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 16 de julho de 2019.

segunda-feira, 15 de julho de 2019

A noite escura


A noite escura

Já tinha anoitecido. Bem antes, à tarde, puxei as cortinas da sala devido à luz do sol, que me incomoda.
Gosto do breu, nele o mundo ganha outros contornos, acho que fica informe. Assim, liberto das amarras da perspectiva, das leis da física e da geometria lógica, posso soltar as velas e navegar por aí, sem referências.
Mas, noto de passagem, isso não significa que detenho as forças da natureza. O vento, por exemplo, para de soprar e o barco perde velocidade, fazer o quê, uma vez sem motor...
Então, como não fiz curso de navegação, deixei de orientar as velas para mais bem aproveitar a força do vento, deixei-as já que estavam bojudas, acelerando a nau que me transportava mar adentro.
Resultado?
Sem conhecimento das regras naturais, mesmo ali no sono, o aviso dizia que o mundo não estava contra mim, eu é que marquei bobeira e me deixei levar pela mágica do momento. O pano das velas a mil, no embalo, que ilusão...
O pior é que o vento estava diminuindo, dando sinais de que iria cessar, mas, distraído, fiquei viajando no doce abismo de uma mulher, com suas seduções, carícias, e encantamentos.
Não me ajustei às necessidades do instante porque não fiz a leitura do que me ocorria, e com o barco parado, preso a uma postura única e prolongada, uma dor de cabeça soou o alarme.
Acordei sem barco e sem musa.
Mas era tarde, muito tarde.
Sem dinheiro para ter sequer um rádio a bordo, por quê? A grana torrei com caixas de cerveja, umas latas de sardinha e o macarrão para a travessia noturna.
No mesmo lugar, no sofá da sala, fui despertado.
Conferi minha coluna, era aí que o bicho pegava para valer e me resgatou do pesadelo. Havia mesmo me embriagado com a minha saliva, até parece um vício. Apego-me fácil aos vícios.
Por isso, já fui me acomodando outra vez no sofá, com as pernas esticadas, com uma colcha para me aquecer e com as costas ajustadas às almofadas.
Insensatez? Talvez.
Mas quem sabe, nesta nova viagem, não haja barco nem mulheres. A cerveja? Não quero que me falte, gosto de molhar o bico para cantar à vontade, à solta.
Que tipo de pássaro canta por mim quando anoiteço?
Não colho raminhos da terra firme porque nem me arrisco a ir longe, é que o conforto do ninho me reconforta.
A minha situação, afinal?
A escuridão era a mesma, ainda. Lembrei que me bastariam dois passos de onde estava para acender a lâmpada. Preferi ficar no escuro, deixando que o sono me embalasse ladeira abaixo, boiando no aquário dos sonhos.
À flor da miséria desta condição, sonhando outra crônica.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 14 de julho de 2019.

quinta-feira, 11 de julho de 2019

Num instante


Num instante

A crônica era outra, mas virou esta, num instante.
Foi num instante, e nem percebi. Mas, é tarde demais. Para arrependimento, então, nada disso. Para ter-me dado conta de que tinha me bandeado para esta história, menos ainda. Entre o instante que foi e o instante da constatação do perdido, não entra nenhuma culpa. Inútil querer dizer à consciência que em mim o arrependido alega-se inocente. Se o instante foi, já foi. Percebo que estou condenado a sentir o que sinto, ou julgo andar me sentindo assim, meio a me embromar. Embora possa atribuir à falta momentânea de juízo a tese que sustento, que o passo se acerta com as pernas, fisicamente, não por metáfora. Sem dar motivo a angústias, atribulações, confusão mental.
O instante não consome a realidade brasileira. Há homens que matam mulheres por elas serem mulheres. Há milhões de pessoas desempregadas. O Neymar a caminho do Camp Nou.
O instante não entra pelo cano nem vai pelo ralo. A pressa é minha, a bobeira também. Perco, deixo ir ou nem noto, sei lá. Tenho a percepção da minha perplexidade. Me pacificaria se a atribuição tirasse o concreto do tempo ou revelasse abstrata a minha sensação do esvaído?
Decisiva é a realidade. O instante não vira a página. E eu?
Depois do feriado do Nove de Julho, vou pagar contas. Fico na fila, o instante anda comigo. O acaso me põe atento ao meu entorno, e noto o calendário com o mês de junho virado para o público. Os dias úteis marcados pela funcionária com coração.
Sensacional? Não a marca, a atitude. Sua marca no pouco que pode tomar para si, já que o uniforme é da empresa para a qual vende seu tempo, já que o sorriso dá expediente pelas horas em que é mal paga. O que me importa dizer, contudo, é que a cabine tem a sua cara, até onde lhe é permitido.
Portanto, viva o instante em que pus o olho naquele objeto. O dinheiro segue o fluxo, pois paguei minhas contas. O sorriso com logo me deseja um bom dia. Nenhum de nós terá um dia bom. Mas não vou ficar ranzinza, resmungando ao vento. Que seja. Por um instante menos cínico, mesmo breve como a vida, que haja um bom dia. Sem esperança, também digo bom dia.
Mas o instante... Que pode um instante?
Um instante: Estou indo. Tire a mão da campainha, saco.
Um instante: Nem vi de onde veio a bicicleta que me pegou.
Um instante: Fale de novo porque perdi o fio da meada.
Assim, até parece que o mundo não tira o olho.
Num instante, entro em parafuso, desabo na entrelinha que me suga para dentro do texto. Por que tinha a consciência de tomar posse de mim deste jeito? Que falta de humor.
Ô azar! Nem dá para jogar a culpa na fragilidade humana. É só se distrair um instante e a gente quebra a perna porque não viu a merda no passeio. Ô vida! Ainda bem que o gesso virgem aceita corações e demais mensagens realmente positivas.
Dona crônica, por favor, dá para respirar um instante?

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 11 de julho de 2019.

terça-feira, 9 de julho de 2019

Gentilezas


Gentilezas

Numa boa, entro no carro de uma amiga, iremos visitar uma convalescente, acamada por uma gripe feroz. Vamos porque ela melhorou. O suficiente para não sermos inconvenientes.
Chegamos num pé, também o papo foi agradável. Nada de Vaza-Jato, nada de Lava-Jato, muito de lava-prato. Ou seja, o pé no chão permite voarmos o caminho sem prestidigitação.
Entramos no quarto. A doente não precisa simular o sorriso que, a nossos olhos, a faz simpática e amicíssima das gentes em geral. De fato, ela é, ao natural, uma pessoa admirada por sua empatia e sua simplicidade, que a singularizam.
À cabeceira da enferma recuperada, já passadas a febre e as dores do corpo, um desenho. Do seu neto, avisa-nos a avó.
“Que linda fadinha!”
Aciono o interruptor, mas a lâmpada logo queima.
É uma borboleta.
“Obra de veterano, hein.”
Uso o farolete, as pilhas pifam de pronto.
Nem tem um mês que o garoto está aprendendo desenho.
“Parece fotografia de tão perfeita.”
O fósforo acende a vela, só que o vento apaga o pavio.
O próprio autor da borboleta desenhada: Não é o grafite HB Nº 2 que orienta os olhos para a leitura do que está no papel. São precisamente os espaços, os respiros, o branco da folha que dão suporte à mancha preta que abro com os traços.
Quero a gentileza, sem subserviência é claro. Com pigarro.
“Você copiou de foto ou modelo vivo?”
Quero respirar sem uso de aparelho e sem inalação. Acho.
Nada disso, pois o ar fica carregado. Sinto que entro mais e mais nas trevas do que não sei dizer o que seja. Não entendo.
Resta a tocha providencial, mas pouco dura a combustão.
Tomo mais uma lição do rapaz: O barato está em desenhar sem ter uma ideia orientando a mão. Sem buscar o registro da realidade a partir da fantasia.
“Entendi... Você domina o instinto em nome da arte, né?”
No escuro, conto com a realidade que me ilumina.
Ele diz que tem ainda de se controlar, porque num desenho à mão livre sempre tem o risco de deixar tosca a arte final pelo traço muito pesado.
De minha parte, digo que tenho muito que aprender. Grato por compartilhar o que aprendeu em pouco tempo, menino.
A amiga sorri, eu retribuo. Nada como a simpatia.
A visita já deu. Não queremos incomodar. Então, vamos?
Abraços sinceros. Beijos amáveis. Até a próxima, querida.
Que quarto abafado, mortiço. Espero não pegar aquilo.
Sem outros comentários, tento me ajeitar. Entro no carro. E dou tchau, sorrindo. Sou todo sorrisos.
Putz!
Mas que aperto aqui atrás. E isso? É um tal de vai e não vai. Como tem sinal na Kennedy. E a Vaza-Jato, hein?

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 09 de julho de 2019.

segunda-feira, 8 de julho de 2019

Papa figo


Papa figo

Estava numa lotérica da Costa e Silva quando fui abordado por uma pessoa simpática, dessas que sabe muito bem como puxar conversa sem importunar o desconhecido em pé na fila. Embora o sistema tenha caído havia já uns quarenta minutos, a paciência seguia intacta. Assim é que, pouco dogmático para ter moucos os ouvidos nessas circunstâncias, e tão logo a TV ligada trouxe o presidente falando sobre trabalho infantil, ouvi a história que transcrevo conforme me foi contada pelo cego.
“João Gilberto era a raspa do tacho do coronel. Foi então, lá pelas tantas, que o Queiroz, o mandachuva, deu ordem para o menino ir olhar se o trem vinha pelo sul da propriedade. Daí o rapagão montou na sua motoca, num instante galgou a colina e passou pelo rádio que o bicho punha mais do que a cara para além da curva.
O coronel nem entabulou as contas. Em dez minutos o trem ia parar no portão à beira dos trilhos. E ali, sem plataforma de estação e sem a rampa que era para o gado, a multidão teria de pular dos vagões. Para não ser atirada, ela pulava de vez.
Pulavam e iam para os galpões que os jagunços apontavam com a espingarda. Homens, mulheres e crianças separados. Já que a criançada era em maior número, a Eldorado dos Carajás tinha dois galpões só para ela. Para machos e fêmeas, cada qual bastava um celeiro.
Celeiro é modo de dizer, porque nem capim tinha lá dentro. Eram quatro paredes de tábua e o teto para cortar a ilusão das estrelas. E nem bica de água. Dormiam no chão, se pregavam no sono antes das quatro horas da alvorada.
Mas o importante é o João Gilberto. E nessa altura da vida, ele tinha dez anos. E não precisava trazer na cabeça o balaio de açaí, como um dia fez o pai. Nos idos da meninice, o velho tivera de descarregá-los a cada meia hora. Vinha da mata dos fundos onde o trem para e ia aonde ficam amontoados aqueles mortos de fome.
O progresso chegou à custa de muito sacrifício, de uma luta virulenta contra os carajás que viviam em pé de guerra. Já que eles eram insuflados por umas freiras que nem falavam direito a língua da gente. Era como se fosse da parte de Deus querer aquela guerra. E como tinha fígado para os cães do coronel.
Mas a vitória da civilização permitiu armazéns, capelinha e escola. Veja quanto espaço andava desperdiçado com o mato: a soja cresce rápido, antes das chuvaradas; com as injeções o gado fica no ponto em dois tempos; o ipê, o jatobá, a sucupira e outras madeiras viram euros para a garantia da vida plena.
E pensar que tudo começou com o Queiroz, aluno atencioso da escola da vida, logo o rapazola que nem tinha dez anos e já vivia correndo de lá para cá com um trabuco na cinta e o olho na esperança das melhorias que dão o lustro do renome.
Pois é, meu amigo, só dá valor ao trabalho quem começa na idade certa. Ou o safado acaba se encostando no Governo.”
A meio quarteirão dali, ao pé de um poste, vomitei.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 07 de julho de 2019.

quarta-feira, 3 de julho de 2019

Caro Doutor Máquina


Caro Doutor Máquina,

Chapinhar os caminhos com os pés rumorejantes afetará a coluna se o fizermos de cócoras. Relida, a poeta ainda me diz: o que ficou, ficou. Os pés no chão podem murmurar as águas, as passadas pela peneira da memória. Entenda, o amanhã que pende da teia do porvir aquece o nariz de quem diz a verdade, tanto quanto as orelhas de quem a subverte. Se veio, veio de onde proveio. Fez subir o calor do esperma no testículo? Fez subir o sangue no ovário? Até onde me é possível a separação, há construção histórica. Com o fio da cultura, o tapete. Na fonte da saúde, o pleno do abraço entre irmãos, amigos, humanos. Os irmãos que podem ser irmãs, amigas, humanas. Também o são, ainda que o sejam apenas homens e apenas mulheres. A língua falha ao dizer o que pode ser dito quando não o diz. Mas quem espera da palavra a alegria da promessa, erra. A palavra que nomeia é a que invisibiliza. A substância com que me faço. Me fabrico com tempo e lugar. O resíduo do assíduo não faz o indivíduo. Tento me ligar, e mesmo se não posso. Ponte. Corro minhas águas. Rios do efêmero, corredeiras do inesperado, em queda. Pedra sobre pétalas. Aroma apagado na pegada. Pelas trilhas que me ajuntam, e me bifurcam. Falanges de falantes. Falha a fala quando calha de não me calar. O calo da calma. A lama do que falo. A flama da chama que me chama pelo nome. Palavra pega palavra. Mão pega na mão. Bruxa que não broxa. Broto sem alarido e estampido. Mas estampado. Bruto da brita. Espero, separo. Íntimo. Intimidado. Perdido. Achado. Rachado. Partido. É o vaso. Selo. Silo. Sal de cebolas. Céu de sementes. Mel de cidra. Mal do molar. Mol de molhos. Mil folhas. Coruja, caramujo. Prima pelo prisma. Lesma. Resma. Cisma. Sismo. O abalo badala. A sina do sino da madrugada. Crisma da crise. Célula de luz. Cédula na rua. Reino do feliz. O amaro. Runa da peste. Ruína do pedestre. Rumos. Rumores. Voa, táctil. Voeja, frágil. Rumoreja, dúctil. A sorte, o norte. Tem o mote da morte, a forte. Como um qualquer, tente o que sente. Desinvente-se. Dê porto ao torto. Poste. Aposte. Comporte-se. Boçal. Postal. Portal de si. Pulsa a repulsa. Impulsiona pressões. Impressiona ladeira acima. Ladeira abaixo? Sem as facilidades da felicidade que não se busca. Brusca, a freada. Tosca, a fritada. Pense, serpente. Fabrique-se, serpeje. Vida, chave sem porta. A vida que fede, fodida. A que se mede, desmedida. Cálculo. Quando há, e porque há, que haja. A poesia que falta. A poesia do que falha. A hora da mágoa. O ouro da água. Baba, de bobo. Terra. Terror. O aterrado. No solo, sob o sol. A pé. Vai rindo. Lindo, vem vindo. Vazão. Desvão. Desrazão. Consoada. Consonante. Constipada. Local, no rim. Focal, chinfrim. Bocal, enfim. Assim, o assado. Eco do lesado. O pesado do oco. Hepático. Linfático. Enfático. O empático. Um simpático.
Outrossim, outro sim. Sim,

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 02 de julho de 2019.

domingo, 30 de junho de 2019

Contos do fado


Contos do fado

Com a crise instalada em tudo quanto é parte, resta tomar umas cachacinhas. Tomá-las, pois bebericá-las é para quando boca e copo farejam-se gaguejantes. Então, urgente é encher a lata para ficar escorado no balcão, o braço feito âncora. Daí, sem dar ouvido a lorotas, o negócio é sacar no bar o que a rua anda tramando. Sobre o destino da nação. Logo, do Flamengo. Uma vez que o rubro-negro pulsa no coração, do Oiapoque ao Chuí. Vide o impávido do urubu ao lado do caixa. Olhai...
O botequim fica em famigerada quadra. Afamada pelo taco, que a sinuca de bico vara os dias. Quando há dias para serem varados, de galo a galo. O salário inteiro. Noves fora e pé na tábua, que a espelunca foi eleita o reino da alegria. E dele fica exilada uma gente que finge que malandras, rufiões e parasitas não têm direito à prosa furada. Vetados guerreiros e bruxas, geralmente caudatários do prolixo da lábia. Sem prova alguma.
Até o poeta recolhe sua verve de sete cordas na algibeira da embriaguez. Capaz dos malabares com os copos, jamais com as garrafas, mesmo as esvaziadas. Pena nem arriscar alguns poemas de honradez entre vencidos e derrotados.
O bebum que sabe de cor as sete cores do arco-íris quer o rapé inflamável que some fácil. Serve para revelar as sombras bailadoras que não cantam nem aplaudem as vítimas da falta de amor, da escassa ambição. É plausível que o enxerido dê a face para escolher a próxima.
O passado vomita as contas que vencem... amanhã.
Com a teima do pudor, nego o amor ao próximo. E limpando as unhas, faço-me sorumbático. As antenas alinhadas. Então, a bandeira está a meio pau. Cujo nome ninguém diz. Cabe não o pronunciar, afinal certos ouvidos andam ciscando.
O meu sorriso vem da fumaça do puro. Tenho traçada nos lábios a obra das volutas, ensaiadas de véspera. Assim, quero manter o fosso que separo da impostura. Sinto escancarado o espaço para uma milonga. Daí o aço chora vermelho? Que é a cor mais sentida da afronta corrigida. Está no olhar vidrado.
Alheio ao destino, amanheço a valsar... Dócil.
O corpo seco de emoções. Figura de Picasso com ângulos a insistir para que sejam mantidos os dois palmos de distância. Pelo cálculo, espaço bastante para sua canção. A adaga canta sua vontade, a sua fome de morte. A milonga inclui o bilhete do merecido, então o esqueleto acaba colhido na sentença.
A alvorada afaga a madrugada noutra dose?
Nas contas do fado, o lápis assenta a aposta do rancor. Eita! O bicho é na cabeça, o duque, o milhar. Encabeça. Houvera de resultar nula a soma das criptas, mas em nada diminui o porte do mel. Falam que está beirando a oitocentos mil o corte do frágil. Com lendas e parlendas, zombam de ogros e lobisomens. Que nem aberrações.
Tal a arenga do inacabado?
Como a fábula grassa pela realidade incógnita, a linha do luar esconde o labirinto onde vampiros peitam o sol.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 30 de junho de 2019.

quinta-feira, 27 de junho de 2019

Artimanhas


Artimanhas

Na topografia do meu corpo, aprendi a localizar o Calcanhar de Aquiles. Porque em mim o tal latejou, endureceu, e doeu. Nem precisei calcular o tamanho nem apurar a profundidade da mordedura. Obrigado à convalescença, com anti-inflamatórios, senti os caninos do desassossego, a minha própria peçonha.
Daí ter-me afastado da caminhada na beira-mar.
Pus de molho o gostoso de ir conversando com o mar, indo pela areia. Poxa, mal raiava a manhã. De quando em quando, ir deixando os pés serem lambidos pelas ondas. Com algumas onomatopeias tirando da invisibilidade o meu arrepio. Na nuca, pela medula, em descarrego das podridões.
Dia sim, outro também. Uns quatro anos, indo e vindo; uns cinco quilômetros, do Forte à Aviação. Sol e chuva; calorão e frio; névoa, neblina, e fumaça; alegria, tristeza, e melancolia.
Vamos lá! Fui. E fui até quando foi possível, e suportável.
Com a disposição de me recuperar das crises de ansiedade e da apatia em que me meti, deprimido. Medicado e orientado à disciplina de uma atividade física, aeróbica e mental.
Na dosagem psiquiátrica, prescrita.
Para o corpo deixar de padecer aquele curto-circuito. Com a irregularidade manifestada, como sintoma, de estafa, estresse, esgotamento. Colapso generalizado. O pane na máquina. Pois. E não se mente à mente, sente-se. Dado a músculos, nervos...
A folhinha foi virada. A prosa atlântica, retomada.
De volta. Circulando. Circulante. De novo.
Que me permite a amplidão do horizonte? Eis um esquisito, na figura: as mãos na cintura; o chapéu de palha de aba larga, um sombrero; os gritos dirigidos a... Ninguém ─ pelo que vejo; como posso ver. Nítido, pelo claro do subjetivo.
Na caminhada, percebo amiúde. Grita ao mar. Contra o mar. Pisoteia as ondas que se espraiam. A cada patada, solta seus impropérios. Desamarra do peito um ódio quando agride. Pede explicações, não poluiu a barreira de coral. Chama na chincha, custa manter as braçadas de humor, então gargalha de raiva. Endereça a revolta, questiona aquela ilusória calmaria. É certo, não se aceita naufragado, afogado, vencido. Faz-se entender. A água a machucar, agredir, desfazer a escultura. A sua!
Olho. Apenas dou uma olhada. De amador, amante. É uma beleza. A areia manuseada tem encantos, até harmonia.
Quem me dera tomar pulso à pulsação.
Como explicar ao mar que a obra precisa ficar de pé? O oceano conhece a linguagem da arte? A maré compreende a expressão estética do artista?
Mostro-me em todo meu apreço, sorrindo minhas garatujas.
Não domino regras. Não formulo perspectivas. À avaliação, eu gosto. Ponto. E zelo por meu direito ao raso da apreciação: o gosto. Nem palpito alguns lugares batidos. Cá, o artista; lá, o deus d’água. Incomunicáveis?
Não sendo nenhum Netuno para me fazer de surdo, trato de andar. Tenho um tendão para tensionar.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 27 de junho de 2019.


quarta-feira, 26 de junho de 2019

Por minuto


Por minuto

O fantasma preso aos ossos acorda outra vez. A carne nem ignora o friozinho da manhã. Sentada diante do computador, a esperança apega-se a dois dedos, para catar milho. Tremendo, a dúvida derrama café na camiseta. A assombração tem seus associados. Uma vizinha, ou uma lembrança, vem sorridente e vence as paredes, certa de que o abaixo-assinado servirá para evitar que tirem a capa do mito que cospe no próprio pé. A tela pisca. Ligado ao seu tempo, o fantasma endossa.
Passa um minuto.
O celular, avião, envia sinais magnéticos, e telegramáticos. Os abismos tecnológicos prosperam. A TV julga, sem significar o que entende por isso. A cabeça entulhada. Há tanta areia no ar. O dia a mil. É preciso unir as partes, mantê-las carregadas.
De alguma forma, o minuto pode ser útil. Muito útil.
É uma pena que o poeta tenha ido embora, pois o catador poderia tornar a canjica menos doce. Poderia a carne seca, a manhã mais amena. Falta sal? Ninguém chora por ele, nem se pergunta pela cotação do quilo da areia. Poeta, e útil.
O minuto que passa fica enroscado no próximo.
É necessário equilíbrio quando a noite fica presa na palavra que pisca na tela. Não há portal para o próximo abismo nem há queda sem perdão. Destra e sinistra trabalham em conjunto.
O minuto abre o peito do instante. Inútil, o suor escorre.
Quando o fantasma sorri, escancara-se a sua solidão. Nada é dito sobre o sofrimento. A angústia vem da maré. A maré não surfa sacolas plásticas. Existe alguma razão para que sejam aproximadas as ondas e a lua? O estado mental. A vertigem é de lambujem. O lunático pesa a água. Afoga-se no travesseiro.
O futuro? Outro minuto. Pérola no céu.
O fantasma escreve um poema. O poeta faria melhor.
Assim, a menina não larga a mão da mãe. A mãe não tira o olho da calçada. A calçada sofre com a deterioração do uso. O abuso da falta de conservação implora pelo IPTU. Então, existe a cidade. Há cidadãos interpondo a lei entre o sono da criança indo estudar e os afazeres da mulher sem registro.
O minuto sabe usar do medo. Cava fundo. Beneficia-se.
O bicho geográfico mora na pegada. Com a coceira e o pus da infecção, a vida segue bela. E cômoda, de tão decantada. O silêncio não telefona, faz questão. O capoeira quer falar com alguém menos bêbado. Há quem recuse a chamada. O medo põe anúncios. As letras leem o medo com facilidade. Há avisos de perigo onde mais se fundamenta a dose. Solto no terreno, o minuto pula na cerca e mostra os dentes. Dizem: a cerca firme; no lugar. Mas ali faltam braços. Sobram os corações; pipocam as mentes. Sem que se perceba, o meio-dia late na aorta.
Para que bilhetes suicidas se o instante é analfabeto?
Sem direito ao esquecimento, o minuto pode o fogo. Que as veias suportem a cachola a 40º C. Palavra na palavra, a fricção do momento. Feita de sucatas, e sem minuta. Há de estralar a crônica.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 25 de junho de 2019.

segunda-feira, 24 de junho de 2019

Um dia qualquer


Um dia qualquer

Sábado é para sair por aí para o que vier. Sabe aquilo da casa para o trabalho? Não é dia disso. Vale mesmo é saborear a diversão dos descobrimentos. Vendo-a sem os vícios do dia a dia, a cidade revela o que nunca escondeu a quem a vê no que tem de urbano. Mesmo sendo a mesma, é outra.
Vou-me pela avenida. Cheia de pessoas que anunciam que vendem o que não compram. Na esquina, com a minha cara de quem diz para onde?, nem marco passo nessa toada. Achega-se de mim uma mulher que me desconcerta, a manhã azul e ouro dos folhetos de propaganda engoliu o mamparra...
Sem saber o que responder, sorrio. Mamparra?
Sigo caminho. Um automóvel freia brusco. O motorista mete a mão na buzina. Volto para o meio da rua, certo do erro de achar que a velocidade da luz me protege contra o enigma. Quiçá até o Murilo Mendes me chamasse nefelibata.
Já estou na Praça Luís de Camões. Nunca antes na minha história de navegador citadino tinha vindo cá.
Cadê o Poeta? Não gosto disso. Não o encontro. Ajeito os óculos para o olhar de águia, lince, coruja. Ufa! Que safado... Atrás da horta? Da folhagem do jardim. E de pés serrados. E sem a cabeça. O que fizeram com vossa mercê...
De óculos escuros, bermudão e sandália de couro, na maior intimidade, pegando-me pelo braço:
Julga-me a gente toda por perdido, vendo-me, tão entregue a meu cuidado, andar sempre dos homens apartado, e de humanos comércios esquecido.
O idoso ficou olhando para mim, carente da interação. E eu? Me faço de bobo, dando bobeira mesmo. Não gaguejo, porque sinto uma bolha, de ar e saliva, que me vem à garganta. Só me restar sorrir e acenar-lhe.
Quem será?
No momento, quero mais é sentar. Para ganhar um ar.
No calçadão, sento. Uma senhora mirrada também faz o mesmo, e sem pressa. Seu cachorrinho olha para os demais que saracoteiam para todo lado. Ela não o põe no chão. Sem mais, solta que há o estar da pedra, há o estar do corpo, há peso e forma: os frutos apodrecem. Me deseja um bom-dia e vai-se embora.
Para onde?
Mudo de lado no banco. O Atlântico está convidativo. Mas a areia... A criançada correndo... Os vendedores... Melhor ficar.
Chupando sorvete, as mãos lambuzadas, eis que me chega um homem intimidante. O bigode intacto parece afiançar e enfatizar que dizem que finjo ou minto tudo que escrevo. Não. Eu simplesmente sinto com a imaginação. Não uso o coração.
Na nuca, sou picado por um bicho que não sei de onde veio. Foi embora. Dói. Coço. O inseto que me observa não sabe o que vê. Planeja coisas para mim que não são do meu conhecimento.
De quem são tais palavras? Sem o celular, em casa vou procurar. Se não me esquecer, vou procurar. Palavras picam?
Que sábado é esse?

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 23 de junho de 2019.

quinta-feira, 13 de junho de 2019

Entrevista

Entrevista

Como as notícias andam pouco alvissareiras e tão avessas ao humano, esse bicho que me pinta estranho, por natural um tanto esquivo, com um quê de urso. Senão feroz, um teimoso e até ranheta. Faço a fera que entra pela sua (leia-se pela minha) recusa de ir-se hibernar na indiferença? Teoricamente, cavernoso.
Em tal estado, já me via parado no meio da calçada, à vista de todos. Mais ainda, barrado bem na cara das mulheres que trabalham ─ vou de pronto à explicação ─ para dar algum arroz a netas, netos e, pelo aperto da hora a taxar tolhido o relógio, a filhas e filhos. Todas e todos, assim, de olho na resposta que o corpo padecia. Puxa vida! A entrevista na... iminência.
Ora, sem talento para improvisação, ao meu corpo apetecia dissimulado todo o terror da petrificação, do enregelamento, da cristalização e à vez do urso, o mico? Ora, ora.
Embora fosse regular, normal, a quem já passara por aquilo, a vítima do ineditismo era eu. Daí a reação da curiosidade que a minha figura provocou nos transeuntes, ou nada daquilo?
Nada disso. As pessoas iam e vinham, com as contas feitas e rarefeitas. Seguiam na rotina do invisível que as embalava ao próximo caixa, ao guichê seguinte ou para o sangue colhido na fonte. Prosseguiam na ladainha do juízo no lugar.
Ainda bem que as cabeças não transmitem pensamento ou seria pego excitado pelo possível censo. Ia nessa comoção, a de quem vai dizer o que pensa, sem fingir que se compromete a dizer o que pensa, com a cara convicta a cada... afirmação.
Acorre-me uma fieira exata de questões fundamentais para a Nação. Que absurdo Roraima exportar 194 quilos de ouro à Índia sem ter sequer um garimpo legal. É revoltante saber que, de acordo com o MapBiomasAlerta, dos 4.577 registros de desmatamento do território nacional apenas 27 áreas têm autorização legal. Mais calamidade! Em 2017, 35 mil pessoas morreram e 180 mil foram internadas por causa dos acidentes no trânsito. Melhor parar com esta lista ou terei de falar que os números do Índice Global da Paz dizem que, com os tópicos relacionados à violência, gastamos 9% do nosso PIB de 2018, isto é, mais de R$ 1.000.000.000.000,00, sim, sangramos mais de 1 (hum) trilhão nisso daí.
Caramba! Caramba! Caramba!
Preciso falar com a moça, afinal tenho modos. Mas a banca chama a atenção, volta-se inteiraço o tirocínio, aquilo é que me devora a razão: MORO PEDE PRA SAIR.
A cada passo, mais me punha atento, confiante e louco para arrumar um colaborador capaz de passar à pesquisa um retrato fiel e verdadeiro da nossa gente. Já é!
De longe, o paraíso na Terra. De perto, um folhetinho com a promoção de óculos da ótica ali da esquina. Tenha dó! Quem vai enxergar com lucidez o pântano que já está pelo joelho?
Ah! Não... O Elio Gaspari botou uma vírgula.
Suculenta, deliciosa, inadiável torta holandesa, adeus.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 13 de junho de 2019.

terça-feira, 11 de junho de 2019

A tempo


A tempo

Entendo lhufas do clima. As tais mudanças climáticas têm a ver com a formação e o deslocamento das nuvens? Sei que me cumula de ignorâncias o mentecapto a confundir a fresca com o refresco. Em deslavrado afresco, confesso-me estúpido.
Por estupidez, não acurácia, ouço mal a palavra nimbus. Ao ouvi-la, já vou tirando sapato e dobrando a barra da calça. Não espero o aguaceiro todo que a palavra torna implícita quando pronunciada. De nada adianta fingir que nem desconfio que do estrondo escapa o estrago. Sabe aquele fiozinho tão recatado na estiagem? Passa por mim o raio: vai aprontar das suas, o Pilões. Afinal, é de Tamanduateís que são feitos os Tietês.
Portanto, não me resta a desculpa da surpresa. Há rios que viajam nas estratosferas, vindo de biomas distantes, voadores.
Como queria deter o conhecimento que permitisse separar o susto do espanto. Mas a tecnologia da natureza é-me obscura, pedra bruta que cresce no meio do encéfalo. Não entendo.
O bafo quente do nosso manjadíssimo de tantos temporais? O Noroeste chega sem frescura. Chega chegando, prova viva do trabalhão que dá ficar caçando os sinais do olho do tornado. Então, de próprio testemunho damos que o Tropical Canarinho está livre de Katrinas e Etnas. Ô alísio do alívio!
Em matéria de temperatura e pressão?
Fora certos cirros hepáticos, a coisa é erguer as mãos pela bonança dos céus. O sangue não afoga a coceirinha na testa. Se neurônios e sinapses põem tortos os caminhos? Não serei quem há de se dispor a contradizer os profissionais do tempo ─ cientistas, técnicos, e os demais que nem sei nome e função.
Garoazinha... Não me fio na alegria que dura pouco.
Corro o entendimento pelo que registram os meteorologistas em boletins, mas fico a ver navios. Demasiado humanos. Vêm em dilúvio os cálculos, as tabelas, previsões e probabilidades.
O mais são nuvens, nuvens, nuvens. E a névoa dos dias.
Calma, nada. Pois cá vem O Holandês Voador. Numa horas dessas? Calmaria, coisa nenhuma. Bulhufas e pitibiribas! Entra ano e sai ano, as estações conhecem o roteiro? Isso já era. E a torneira seca? Um inverno! Que cineasta poderia vir reparar de jeito? Nem o Woody Allen, para melancolias autodepreciativas, ou o Groucho Marx, para algum inclassificável pandemônio.
Para desembargo de consciência, com mui supremo apreço, entretanto imperioso, é possível acompanhar virtualmente este relator. Desde que fique assinalado, no devido tempo, qual é a preferência da freguesia: chocolate; baunilha; mesclado; outro sabor; odeio sorvete; meu voto não tem preferência.
E sem nenhum telefone, e-mail ou telegrama interceptados, a estupidez direciona o olhar para o que os olhos não divisam: a nuvem que passa é a mesma que evapora em desamparo.
Além de mim, nesta zona onde cresce o Xixová, há quem se pergunte: geada de granizo existe?

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 11 de junho de 2019.


domingo, 9 de junho de 2019

Feito prato


Feito prato

Um sonho de cada vez. A caminhada na praia... O ar que a manhã despeja sobre o cinza meio azulado do mar ou a prosa mansa do mar com o friozinho azul? Preciso passar pro papel. Coar a ideia. Sem pressa alguma. Escrevendo a partir do que penso querer dizer. Não entro a escrever só porque leio. Gosto de ler, nem tanto do que leio. Tem cabimento, sim. O leitor e a leitora desejam o guisado em pratos limpos. Para isso, nutro de palavras; sinais gráficos; figuras de linguagem, de pensamento. Preservo quem lê com a cabeça e o coração. Ô coisa! De olho nas regras, burlo; jogando com limites, aposto; exploro o filtro, arisco. E os ângulos suspeitos, pontos de vista contraditórios e argumentos tão bem desenhados? Cuido do retrato que o texto fabrica, menos da boa pinta do cronista. Não me condenem por cubista nem me amarrem à lógica euclidiana. A forma é para bolo, e crônica não tem receita. Se a elegância do cronista está em ficar discreto ou feito funâmbulo de bêbado no espalhafato do tombo retumbante? Sem perder o rebolado, provocante. Ao entrar na dança, rodo a baiana. Embora os dedos teclem com a fúria dos indignados, é bacana os pratos girando na ponta das varas. Ah! Pró ou contra... Quando terminar o texto? Ao largar pela metade? Faço pose, o holofote me chama. Nas vezes que pareço que tenho decorado o texto, estou na corda bamba. Já disse alguém por aí que a gente sabe se o sal está na medida quando experimenta. Se a vizinhança fica espiando? Faz parte. O sujeito deixar todo aquele sol lá fora... Por que fica com a fuça metida na tela do computador? Fiquem sabendo que a minha língua também não se aguenta de ferina. Domino-a, ou tento. E o tal Mr. Hyde... Vou por mim, entendo do lúcido no confuso, do alívio na angústia. E sem a condescendência do palhaço que erra a mão ao fazer graça, chuto o pau da barraca. Vou sem a indulgência de me tomar por arauto de um mundo que vive de segredinho. Quando dou pelo fim? Armo o bico, pigarreio. Parei de fumar, não de tomar café. Volto, e leio tudo. De novo. E vou do título ao ponto final. Tudo? Tudinho. O sonho acolhido por palavras a mais, a menos. Se bebo da água colhida na concha das mãos? Bebo. Só que não me satisfaz. E ponho gosto que a crônica vá pela praia pensando na rede. E que, lá pelas sete, o vento do temporal anuncie a frente fria. Assim. Nem tanto pelo que escrevi e nem tanto pela vaidade que me abraça, porque o papel se faz de espelho para mais bem escoar as palavras. Se torto está o nariz? Trato de enfatizá-lo. Para que minhas ideias, mesmo as tortuosas, não torturem? A lida está em lapidar para que o sol aqueça o que se lê. Mas tem caco pelo texto todo... Quanto ao resmungo, entendo. Já a espuma? O meu angu até pode tomar caldo, não o cronista. Aliás, a crônica está servida. Bom apetite.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 09 de junho de 2019.


sexta-feira, 7 de junho de 2019

Futurado


Futurado

Que dia foi ontem... Com partes indecorosas e tudo mais?
Quando entrei na sala, lá já me esperava o Encarregado da Imagem Corporativa digitando no celular. Escrevendo no seu, o Diretor-Sênior da Segurança Institucional. E um rapaz que não aparentava ter mais de vinte anos, justo quem deveria impedir a pilhagem das ideias de projetos não formatados.
Depois de, algo errático, descansar o telefone na mesa, aí é que fui apresentado a isto tudo pelo sujeito que desfilava, sem parar de falar de si na terceira pessoa.
Ao Ego de Rodes não gostaria de agradecer, porém me via obrigado a fazê-lo, pelos seus laços de sangue com uma amiga querida que indicou a mim para redator júnior, vaga à qual me expus por e-mail, embora pouco dado ao Mundo de Jobs.
Nesta mensagem, relatei a minha passagem não diplomada pela graduação, nos anos 80, em Jornalismo na ECA; a minha formação em Letras, na Católica de Santos, nos anos 2000; e a minha atuação como professor, aprovado em concurso público, na rede de Praia Grande, tão logo formado. E, disposto a não ir pelas encruzilhadas da Odisseia, emendei títulos de alguns dos livros escritos por mim. Em poucas linhas, uma vida.
Minha mensagem enviada do celular, mesmo sem maiores cuidados na forma e fonte precária de expectativas, bastou ao empresário. O presumido patrão que se revelou aquela pessoa 100% centrada em não fazer questão da privacidade das mil e quatro soluções discutidas na minha frente? Este desconhecido que acabara de sentar à mesa sem nenhuma confirmação da minha história ou da identidade atribuída a mim pelo nome que dei à atendente do balcão à entrada daquela empresa criativa o suficiente para estar antenada com o tempo presente, eu, pois, funcionário ali?
Talvez para causar impacto, quiçá passar boa impressão ou por excesso de açúcar mesmo, o surpreendente é que bebi só um gole do suco de beterraba com laranja, de origem orgânica, que me foi servido num copo de papel reciclável, conforme fui alertado. Um aperto de mão selou o divórcio amigável.
Sem me assumir como um imprestável, os nomes da firma e do proprietário foram excluídos da lista de contatos telefônicos. Hoje, um celular vem com aplicativos que nem faço ideia para que servem. Todavia nem precisei aprender a apagá-los, pois, mal toquei no assunto com minha amiga solidária que chegava da escola de balé com sua neta de seis anos, a menina experta cuidou disso com uma contagiante alegria cândida.
Carambolas... Caracas... Sem crise.
Não fico mais me engasgando a torto e a direito. Entre uma garfada e outra da feijoada magra, a televisão de sempre fala que, agora em junho, já conseguimos chegar a 6.198 bolsas de pós-graduação cortadas por falta de dinheiro. Bah!
Penso na danadinha da pequerrucha que salvou o dia. Ela é pessoa que urge ir adiante para não adiar o futuro.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 06 de junho de 2019.

terça-feira, 4 de junho de 2019

Dádivas


Dádivas

Com renovado alento, volto das férias dadas às leitoras que nem me sabiam pescando em Ibiúna e aos leitores que vão se benzendo diante de foto minha cortando a carteira do cigarro, já que estive curtindo o saudável que ainda é possível na terra onde aprendi a ganhar no tiro os maços pestilentos. Contudo, o importante nisso é que vocês me acompanham pelas crônicas que publico às terças e quintas e todo domingo. Retorno: grato, pelo desprendimento dos instintos; revigorado, para a realidade dos meus comprometimentos. Se bem...
Em razão da índole assaz idiossincrática que me põe severo com as vicissitudes do meu tempo e as topografias das minhas platitudes, ou numa mistura disso, é que me antevejo como o construtor sujeito a limitações cognitivas e sentidos anelantes do humor a redundar em uma história de vida complicada. Este meu temperamento... como é dado a me atazanar.
Cabeça, não se manifesta o toró no tanto que venta?
Tendo o silêncio como cúmplice, emendo a entabular com o espelho o que aceito inscrito na sua face. Brotem, alegrias!
Em defesa de bichos, plantas, minérios e máquinas, ou seja, faz bem a todo mundo o que as autoridades da cidade chinesa de Shenzhen estão fazendo. Na coluna do Ronaldo Lemos na Folha de São Paulo desta segunda-feira, leio: a frota de 15.500 ônibus é 100% elétrica; a carga total da bateria, que permite rodar 300 quilômetros, sai por R$ 120,00; o carregamento pode ser feito em tomada comum; com preços menores, a pessoa é incentivada a dar carga fora do pico de consumo; e a frota toda de táxis também já é elétrica.
O planeta inteiro está atento... Vou aprendendo.
Sem ignorar que, no Brasil, o ministro do Meio Ambiente fica jogando sal grosso na picanha alheia, noruegueses e alemães estão de olho no espeto que enviam para que a Amazônia siga dando frutos a quem come e bebe sem empestear a casa toda.
Nem ovos nem tomates podres dão jeito...
Nem se fale de ficar protestando como sempre. Não porque um parceiro de ministério possa providenciar um guarda-chuva, é porque a civilização está pedindo a eletricidade de neurônios em rede, pensando e compartilhando o que existe e o que está para sair dos planos e ganhar bolsos, bocas e mentalidades de todas as gentes, sem exclusão e sem piadinha.
Mesmo se destripar piabas, a pessoa fica para semente?
Recoloco os óculos, limpos das sujeirinhas que grudam nas lentes sem que a gente dê conta de evitar, feito sanguessugas na perna do piá que, por engraçadinho, se enfia no brejo. Oxe! Lá bem no fundo, e presto, este retrato suscita o contraste do urbano poluído com o suburbano já dando pinta... Ê saracura!
O espelho, embasbacado pela energia quente de um banho, permite-me grafar com o entendimento dos entusiastas:
Agorinha mesmo, vou querer as minhas novas habilitações.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 04 de junho de 2019.


domingo, 5 de maio de 2019

A reforma da providência


A reforma da providência

Como parece enxergar prender e aprender em apreender, ignorando que é preciso desbravar o caminho para entender-se com os contraditórios da metafísica, diz o pai:
─ Sem embromação, vamos falar direto às pessoas.
Contas feitas, malas desfeitas, viajando com o DESCONFIE DA CONFIANÇA afixado na porta, diz a mãe:
─ Direto à realidade, à leitura da realidade, ao que se lê?
Sem reconhecer que, de 1995 a 2018, foram mortos no Brasil, em função do exercício da profissão, 64 profissionais da comunicação, tantos pingos para um mísero i?, o pai diz.
Como, pergunta-se a mãe, uma personalidade ganha nome, sobrenome e toda uma vida de renome?
Amiga angustiada e amofinado amigo não culpem os pobres semáforos, as humílimas lombadas eletrônicas, os desterrados radares móveis ou as extemporâneas câmeras de toda sorte. É preciso dizer que muita infração cometida é da pessoa que, ao volante, age como um espécime jurássico. Além do mais, ilude-se quem acredita que esteja colaborando para a punição do cidadão ou da cidadã ao invocar o deus do trânsito.
No comando da envenenada motoca mental, e sem ligar de ficar feio na foto, o pai diz que gente ordeira não faz bagunça.
Já que precipitação e superficialidade não a caracterizam, e estando de olho no caminhão de postagens que, uma atrás da outra, congestionam as redes neuronais, certa de que a leitura superficial não está necessariamente ligada ao suporte digital, porque o tamanho da tela de um celular não é responsável pela fragilidade da leitura de quem lê, diz a mãe:
─ Tiro uma revelação ao confessor: realidade é ficção.
O pai vai logo dizendo: Saco! Ficar lendo com lupa. O tempo urge! Que o digam os 62 dias de pauleira na CCJ para admitir constitucional o projeto da reforma da Previdência.
A mãe emenda que não dá para ignorar as letrinhas.
Bastante incomodado, o pai dispara que os insatisfeitos de sempre, os chatos, é que ficam pinçando pinta fora do lugar em gêmeos univitelinos, isso é perder tempo, coisa & tal.
Sem abdicar de parágrafos, incisos e artigos, diz a mãe:
─ Não é conveniente conjecturar sobre o que se lê? Coisa & Tal, colhe desavenças quem semeia conflitos? Sei... Otário não leva livros no bolso; só o celular. Novidade...
Pouco familiarizado com bulas, o pai tasca aviar receitas:
“Melhor evitar a aventura dos mergulhos profundos porque a pressão só aumenta à medida que vamos descendo para ir lá escarafunchar a lama. Daí, texto lido com microscópio mostra o batalhão de bactérias, de coisa esquisita... Quem tem pavor de bicho é que sofre uma barbaridade. Que doideira isso daí!”
Paulistanos da Paulista, dentro de mim mora um bicho que me dá forças para parar um tantico nesta parada domingueira. Quando me quero asfixiado, tinhoso de magrela, apeio-me na minha, porque, na manha, não pedalo para viver pedalando.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 05 de maio de 2019.