Um
complexo simples
De ofício, como titular desta ação
cultural que desencadeia a presente, provoco a crônica do corrente dia, 23 de
abril, a se manter equilibrada, racional o bastante para ter no bom-senso a
Estrela da Manhã, como guia e farol. Afinal, porque vivo para escrever, sigo na
rotina da leitura do mundo com os sentidos. No entanto, para transformá-la em
texto capaz de ter quem o leia, recusarei vulgaridades, banalidades e obviedades,
apesar de danado, o oficiante.
Despido da graça do riso fácil, do
humor fleumático, do olhar irônico, tenho, ao menos, a petulância de querer-me atento
aos sinais dos tempos. Embora tal entendimento não ande lá muito bem da veneta,
trato de ir à flor dos nervos, sem invisibilidade.
Assim, tomo inevitável a conclusão que
é melhor mesmo ir sozinho, afeito mais à discrição do observador do que dado aos
gritos dos celerados, que, incapazes para dominar as próprias chamas, imolam-se
a olhos vistos.
Com a licença necessária, estimada
leitora e prezado leitor, volto à crônica anterior para dela pinçar duas
passagens. Diz a primeira: se lambo o
mundo com todos os sentimentos; diz a segunda: a enfermidade está na demasiada fraternidade.
Começo pela última. Pois, uma vez que
valorizo sobremodo quem odeio, o meu ódio é para bem poucos. Procuro preservar
a sanidade, construindo as distâncias que me permitam ficar na minha, retraído
mas alerta. Afinal, quando estou na presença dos odiados, estou fora de casa e
isto contamina o meu juízo.
É o desconforto do confronto que me
faz passar por cima da indiferença. E me ponho vivo, de olho nas pessoas,
curioso em saber o que pensam, pronto a interpelar o que dizem. O ódio é o
filtro pelo qual separo o ruído de fundo, distancio-o do que preciso escutar
com cuidado. Faço questão de ouvir. Para não perder uma vírgula, me aquieto. Retesando
os meus neurônios e dispondo dos meus tímpanos para as sutilezas, percebo as
entrelinhas nas pausas da respiração. E sem me deixar cair no entusiasmo, o ódio
me resguarda do pior que há em mim, e me motiva a interpretar o contexto e a localizar
quem fala.
Da escuta passo à argumentação,
escolho as palavras, não falo por falar. Sem levantar a voz, mantenho a objetividade.
E quanto mais a irritação me faz pensar contra a minha vontade, mais vou abaixando
a voz, mais vou falando devagar. Mil vezes ficar quieto no rancor de pessoa
incomodada com essas ideias alheias, mas é a mobilização da mente enfiada num
corpo que reage à interação com objetos do ódio que me tira da inércia de
permanecer mudo, posando de indiferente.
E...
Ao fim e ao cabo, todo este processo
de repulsa me leva ao diálogo com quem menos quero papo. Amo odiar quem me faz
vivo, a pensar as circunstâncias, a dar o melhor de mim, a me incentivar à discórdia,
à discussão, ao debate.
O antagonista virar protagonista? Merda!
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, dia 23 de abril de 2019.