A
escuta sensível
Oxalá haja Oxalá.
Pronto, o espetáculo começa pela frase
que não deveria ter encerrado a crônica anterior. Relapso, deixei. Se nem sei editar
um texto? Ficou, daí a tortuosa explicação.
Soa duplo o espírito? Oxalá, do árabe insha’Allah, se Deus quiser, tomara. Oxalá, do iorubá Òrìsànlá, diz: luz (oxa) branca (alá), um
Deus? Pondo acaso no cálculo, tem-se o cruzamento de um significado com outro: Oxalá
haja tomara; tomara haja Oxalá; tomara haja tomara.
Tomara em mim reverbere nítido,
abundante, adube terras e águas o fora faiscante. A distância flexível vem à probabilidade.
Não penso em primeira travessia, primeiro beijo, primeiro livro.
Reinações de Narizinho? O Noventa e
Três? O Alienista?
Das leituras, o gosto vai além das
retinas. São osso novo a cão velho das ruas. Mesmo relendo, nova é a leitura.
Se lerei o artigo 142? Necas! Prefiro gozar
de comentários, correções e adendos. O veja
bem o que eu disse é a cara dum Brasil que não se corrige porque nunca
aprende. Entendo que há método, e vejo nisso o jogo sujo dos perversos. Janiossauro
fala sem dar pelo lugar que está ocupando, primeiro o errado e, em seguida, correr
se emendar. Assim, é nossa referência para aprendermos sem ajoelhar no milho.
Como nos convém, aliás.
Janiossauro? Está no Fausto de Thomas Mann, que perdeu o
privilégio de ter cruzado com o bicho, toda
a gente sabe que nenhum tolo estremece em face da sua própria alucinação.
Aprender pelo exemplo? Mentira! Pois
tomo da Bíblia antes de deixar a cama, e, durante a corrida na esteira, fico em
ponto com o noticiário, e o café me destina às capas dos jornais que assino. A
Constituição, à mão na mesa de trabalho, consulto-a quando me sacode alguma dúvida
sobre legalidade. Há umas inconveniências. E para que não se perca do mundo a
ordem pela qual zelo insone, prevaleço à verdade.
Nada de protagonismo infantiloide, confesso
minha limitação física. O cérebro cansa fácil com a pirotecnia dos malabaristas
amadores, a boca seca logo, há tensão em músculos, tendões e nervos, sobretudo
os nervos. Confesso que nem julgo direito o Brasil que me consome. Por que julgaria
repentino? Me deixo consumir por trampolinices dos Malasartes sem escol.
Gaiato.
Desejo o que penso, concebendo-me abjeto.
Posto que meu maior abjetivo da vida é fazer-me menos esotérico, vagamundo e
lucifeérico. A focinheira, opcional a quem ousa aproximar-se, será para grunhir
o que não calo? Nem de longe nem de perto sequer no interior, é infâmia que, de
tão feroz, chega a marcar o pescoço ao cobrar nortes. Quando me chamo à fala, banal.
Desloco o que em mim palpita. Olho à
esquerda, à direita. O torso projeta a sombra, reconheço-me. Identifico em mim
a voz que sonda o ar, vamos pôr a
embaixada em Jerusalém? Quero disciplinar-me por meio das palavras, que tal Alcântara na mão dos gringos?
Sim, dizer palavra é orientar o ar. Entretanto, pela alucinação que vivencio,
digo que preciso ter o que dizer. Sem ruídos, dizê-lo: nada de chuva dourada?
Educo-me pelo limite do que posso, penso
e acredito.
E há quem empregue a linguagem para passar
informações, sejam dados empíricos, exatos, comensuráveis, sejam estados de
mente, psique, alma. Não sigo por aí. Linguagem é sintoma, até com estilo. Freudiano
leitor de orelhas, consigo escutar-me. Divirjo de mim como criatura portadora da
palavra. Que cortam, fazem sangrar, e espirrar. Se palavras levam a mudanças?
Ciente, consciente, inconsciente ─
sofro, e faço sofrer.
A coração dos pudicos não interessa,
se verdadeira. A falsa, porém, a que me põe perplexo e perturbado, por essa aguço
os caninos. Abro o peito à faca, jorro no sangue que não enregelo, coagulo,
aborreço. O coração que enrubesce é triste, todavia ri ao entrar em erupção
diante do inédito inesperado enigmático. Tal coração sabe de cor que a razão é
eterna enquanto passa. Inaudível e tímido, enrubesço. Reação de circo, é?
Sou passista, faço jus à sombra que sabe
de mim por meu corpo. Como o presente guarda do futuro a relação do que não se espera,
o instante fabrica as lágrimas no riso. Se não estou a morrer, muito me engano?
Sobrevivo ao oásis que me impõe areia até os olhos. Fiz de mim o sarcófago que
me carrega.
Condenado ao amor por liberdade do
inconsciente, finjo-me arbítrio a desdenhar da racionalidade. Traçada tão
ridícula nos desenhos da criança. Onde a árvore, uma chaminé? Onde uns palitos,
a família? Onde a tosse, os urubus. Para descarrego do pó, o acaso é a cova
mais viva, a do corpo que canta e dança porque se reprime. E passo o recibo. Haja
paciência!
De amores, me componho. Pela paz da
ciência, amores.
Por amores. Ao equilíbrio mental, não.
À justiça social, não. Ao socialismo, não. Aos perigos da infância, não. Ao
precipício da maturidade, não. Ao suplício artrítico, não. Na vigilância, me
sinto efêmero. O mais são flores de plástico ao pé do busto do precário. De
encontro em encontro, a piedade. Este amor sutil não falta, e vicia. Pois a
incerteza não satisfaz. E tu?
Um dia basta, uma hora é o bastante,
um segundo já foi tão basto quanto a minha insônia. Agora, estralando em mim
como uma sibipiruna na chuva. Lapidado por dentro, sofro. O oco.
Então, como condenar minha mãe que
nunca escondeu que deixa pelo meio o que escrevo? Ela está certa na razão de
sua vontade. Cavalo xucro, o meu cérebro inventa um cão que é o cabeça da
cidade? Crianças viram gato? Bota a denunciar um criminoso? Flor de pedra?
Barroco isso, né?
Sabe minha bunda o que mais brotará
deste pântano mental que me castiga na cadeira por sete horas diárias. Escrevo,
mas a quem me dirijo? Nem a Ele nem a Outro, apenas a nós dois.
Sem dormir, sem banho e sem tempo, é no
silêncio do muito sério que gozo da minha retórica impura. E tu:
“Você existe, logo existo”.
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, dia 10 de março de 2019.
Nenhum comentário:
Postar um comentário