quinta-feira, 7 de março de 2019

A palavra não cura





A palavra não cura

Nesta Terça Gorda, n’O Globo, para Cora Rónai os imbecis representam-se apenas a si mesmos e faríamos um bem para a sociedade se não compartilhássemos o que publicam, seja em relação à política, seja em relação ao que for.
Por rato, acolho tal opinião. De minha parte, todavia, apenso a ela uma reparação, sem a pretensão de apurá-la. Pois, a mim me parece, uma tolice querer-me autoridade sobre a necedade de outrem. Basta a minha. Por pusilânime que soe a quem lê a admissão. De topada em topada, não crio calo nem me quebro. Sangrar é maneira de se conhecer. Dolorido, mas um modo.
Tolo como posso, não minto todo o tempo. Também invento.
Invento? Penso na poesia. E quando trato da poesia, apesar da dúvida que me põe renitente quanto à presunção do juízo, é que trato de juntar alhos com bugalhos. Do pé faço mão, para erguer em engenho a visão de mundo, a minha própria.
De que é feita a minha visão? Dos retalhos alheios, moldo a minha alma como quem fabrica o fuxico. Aprendo a coser com os cacos de prazer que me escolhem. Com João Cabral, Murilo Mendes, e confraria dos Andrade, seja Oswald, Mário, Carlos.
Deixei de imitá-los. Passei a vivê-la, a Língua Portuguesa. E pus tijolo por tijolo na ponte para chegar à linguagem, e ainda não cheguei. Preciso dinamitar a travessia para fazê-la minha. Da mão faço pé. Ando até onde vou, pois saio para ficar.
Visão esta que me leva à realidade, conforme a leio a partir de mim. Realidade, e não mundo. Mundo faz pensar em limite, fronteira, pátria, nação, civismo, fortes depressões, falésias de alturas estonteantes, nauseabundas certezas topográficas. Só que a noite escura da minha mente topa coriscar quando vem à ideia uns pensamentos. Até mesmo imbecis, tênues e pessoais à beça. Ouço o Manoel de Barros. Fiz poemas, pois a poesia é a virtude do inútil. Inutilidade, e não imbecilidade.
Exatamente porque são parcos os meus conhecimentos de física: intuo que o tempo é uma dimensão da matéria, ou seja, não há tempo fora da substância; palpito que da supernova ao resfriamento, da semente ao fruto, da fecundação ao pó, tempo é ilusão. E a ele nos apegamos como uma contestação, contra o fim. A matéria morre, junto vai o tempo. É concomitante: sem suporte, não há tempo.
O reparo é preciso?
Meu asinismo não acha absurdo em saber que a árvore desaba na mata mesmo sem meu testemunho. É fato natural. Preciso é orientar-me a não temer o que não sei nem espero. Sempre a mesma queda: nem o mal nem a imaginação. Egoísta o eu por que existe?
A coisa funciona assim, sou quem pensa e fala por mim. O que digo é que o tempo não me possui nem o possuo. Apesar da aparência, não há relação temporal direta entre a percepção e a consciência que reflete sobre o que sente. Por segundo, é o eterno presente, o instante que não passa, o momento agora. O que sinto? O sentido quase epidérmico da consciência, e a angústia de pensá-lo; é isso um átimo? O átomo, o indivisível, o ímã que continua ímã no fragmento? Tal sensação de sentir-se inteiramente na poeira de si. No entanto, o corpo sente-se à velocidade do som e a mente, na velocidade da luz. O instante é a máscara para brincar este carnaval.
Minha morada na estética, a colcha de retalhos é a prova de que a vontade tem nome, foto na carteira e números, que são para viver o carnaval. Contudo ele não basta. Não basta dizer para sentir nem sentir para poder dizer. Topar as palavras não é saber o que tem a dizer ou o que pode vir a dizer. Caso queira ou saiba o que quer. Experimente dizer o resultado. Não resulta em pensamento o que em palavra não se estrutura. O arcabouço do sentimento com a emoção da razão na lógica do sonho, feita de pandemônios a imitação. Quem desconhece diz sofrimento, para torná-la inteligível, medível e compreensível. À sombra da própria sombra, medir-se? Depende da perspectiva. Diz Clarissa Pinkola que escolher tornar-se mais sábia significa sempre escolher aprender de novo. Excitação? Pensamento a imaginar-se em toda extensão. É da pessoa.
E tempo é movimento bem o sente o homem sentado, pois escrevo sentado. E sentado, sinto. Sentindo, penso. Pensando, imagino. E imaginando, movo-me por mim. Bem como o Sol.
Que coisa. Isso não é coisa para se pensar em voz alta nem em pensamento. Rompimento, e não deformação. Ruptura, e a quebra do vaso. Ficam lembranças, recordações,  memórias. A vida, por uma interpretação. O que dá vida às coisas não são as palavras, é a interpretação que as vivifica, degela. Interpreta quem dá nome às coisas. Entretanto frágeis. Recordáveis.
Lembro, como história baseada em acontecimentos reais ou por imaginação a convertê-la em fatos reais, recordo a casa do meu avô, pai de minha mãe, e a ordem configurada a partir da vontade dele. Almoço, à mesa o dono da casa, minha avó, dois primos e eu. Daí que lembro assim, ou invento que assim seja, e lembro que só depois que a minha avó falava conosco (nós, os infantes ─ os meus primos e eu) é que podíamos falar as besteiras de criança. Funcionava, nem me ocorria o prazer da fala. Havia ordem, e era para ser cumprida. Ficou na memória, está em mim ainda.
Quando encontro pensas as fotos? Contra o misterioso gozo do hábito, julgo caricato emoldurar o outro como imagem do desejo ou evitar que minha família equilibre-se no menos torto. Desentortar-me, porém, é interpretar como se nada fosse inútil. Quem dera a cura fosse menos outra doença. A dor, no fundo, é não ter fé sequer na escrita. Sinto, o tempo não cura o que não há de ser curado. Pressinto que existir é procurar escutar. Rato após rato tantos anos, a ir-me a nada. E será débil admitir que a fragilidade encanta mas não completa? Nem só o poeta percebe o quão inútil é buscar sentido onde não há. Ruído?
Deve ser por que sou...
Oxalá haja Oxalá.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 07 de março de 2019.



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