A
escrita possível
Escolhi voltar de Pasárgada. Não
conheci reis nem a louca, a mulher que sempre quis. Nem um bêbado veio acusar a
Mãe d’Água de ter postado no meio da noite que o mais ignóbil da tristeza iria
matar-me. Como me consolar desse outro mundo?
Não vejo o impossível na clarividência
dos loucos.
Assim a cada dia, outra vez e de novo,
preciso tornar viável o Brasil que continua a não existir. Sem mim, haverão de
existir os brasileiros? Nada. O Brasil
não nos quer. Está farto de nós!
Ordeiros e progressistas, vamos à luta
por nosso idealismo. Nos mantemos de pé, funcionando vinte e quatro horas, damos
emprego a quem não tem preguiça de trabalhar, enfiamos mais bolas no gol do
adversário e enchemos o copo dos que bebem sem ligar para barriga grande. De
mente antenada, na ideia da pátria pela qual sabemos amar, a gente brinca no pé
e tira da cabeça o nefasto, o que, a brasileiros de boa cepa que somos, é impróprio.
Damos valor a quem sabe o que podemos. O pão? Há de vir. Como o país há 519
anos almejado por nós, virá.
Por mim, autoritários não passarão.
Porque dizem ódio para raiva, medo, consciência. Mas os inimigos do povo continuam
a passar. Posto que suas mentiras pululam no GOSTEI, as suas invejas adoecem de
tantas selfies. Na realidade, tal
história é o meme que vai seguir sendo o narrador tendencioso de quem puxa para
si a sardinha alheia. Que história é essa, hein.
Os brasileiros somos a grande família?
Não nos preocupa o próximo, aquele carente deslocado dentre a gente? Muito mal
nos sentimos admitir que poderíamos mais, acaso não agissem contra o povo os
que se alardeiam seu defensor? Entendo?
Meu trabalho é escutar as pessoas e, por
ser desconhecido, posso ouvi-las sem que distorçam o que contam. E tomo notas,
analiso, ponho no papel defeitos e virtudes. Resisto no diálogo, abreviá-lo faz
mal. Reflito, penso. Para mim e para o outro.
Pois olhos leem o mundo, ouvidos leem
sua visão. Vejo.
Aprendi a aprender, fui educado para
isso. E me encanta a lua cheia no olhar selvagem de quem acaba de acordar. Vê?
Sonhos filtram à memória a realidade,
passam a limpo o que conto. Descontam de mim, por inconsciente. Dormindo reconto.
Maravilha? Quando a pessoa recorda o que nem sabia do que poderia vir a
lembrar-se. É o aprendizado que as horas de sono tratam de manter. Só o que
realmente marca, o resto é basura e vai para o esquecimento, onde a luz respira
a treva.
Como andei tagarela em algumas
crônicas, movido por um obscuro desejo de explicar-me, contenho-me para que a
razão do texto surja da leitura. Escrevo sonho e leio pesadelo? Quiçá em mãos
adestradas, as palavras falem; em poetas, digam.
Ademais, os bárbaros nunca tomaram o
trem das onze. Por isso, voltei. Para mais bem escutar o que se diz quando nada
é dito, vim. Calado?
Refazer o ingênuo em palavras, na
esgrima de cada jogada, espanta-me.
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, dia 12 de março de 2019.
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