terça-feira, 12 de março de 2019

A escrita possível



A escrita possível

Escolhi voltar de Pasárgada. Não conheci reis nem a louca, a mulher que sempre quis. Nem um bêbado veio acusar a Mãe d’Água de ter postado no meio da noite que o mais ignóbil da tristeza iria matar-me. Como me consolar desse outro mundo?
Não vejo o impossível na clarividência dos loucos.
Assim a cada dia, outra vez e de novo, preciso tornar viável o Brasil que continua a não existir. Sem mim, haverão de existir os brasileiros? Nada. O Brasil não nos quer. Está farto de nós!
Ordeiros e progressistas, vamos à luta por nosso idealismo. Nos mantemos de pé, funcionando vinte e quatro horas, damos emprego a quem não tem preguiça de trabalhar, enfiamos mais bolas no gol do adversário e enchemos o copo dos que bebem sem ligar para barriga grande. De mente antenada, na ideia da pátria pela qual sabemos amar, a gente brinca no pé e tira da cabeça o nefasto, o que, a brasileiros de boa cepa que somos, é impróprio. Damos valor a quem sabe o que podemos. O pão? Há de vir. Como o país há 519 anos almejado por nós, virá.
Por mim, autoritários não passarão. Porque dizem ódio para raiva, medo, consciência. Mas os inimigos do povo continuam a passar. Posto que suas mentiras pululam no GOSTEI, as suas invejas adoecem de tantas selfies. Na realidade, tal história é o meme que vai seguir sendo o narrador tendencioso de quem puxa para si a sardinha alheia. Que história é essa, hein.
Os brasileiros somos a grande família? Não nos preocupa o próximo, aquele carente deslocado dentre a gente? Muito mal nos sentimos admitir que poderíamos mais, acaso não agissem contra o povo os que se alardeiam seu defensor? Entendo?
Meu trabalho é escutar as pessoas e, por ser desconhecido, posso ouvi-las sem que distorçam o que contam. E tomo notas, analiso, ponho no papel defeitos e virtudes. Resisto no diálogo, abreviá-lo faz mal. Reflito, penso. Para mim e para o outro.
Pois olhos leem o mundo, ouvidos leem sua visão. Vejo.
Aprendi a aprender, fui educado para isso. E me encanta a lua cheia no olhar selvagem de quem acaba de acordar. Vê?
Sonhos filtram à memória a realidade, passam a limpo o que conto. Descontam de mim, por inconsciente. Dormindo reconto. Maravilha? Quando a pessoa recorda o que nem sabia do que poderia vir a lembrar-se. É o aprendizado que as horas de sono tratam de manter. Só o que realmente marca, o resto é basura e vai para o esquecimento, onde a luz respira a treva.
Como andei tagarela em algumas crônicas, movido por um obscuro desejo de explicar-me, contenho-me para que a razão do texto surja da leitura. Escrevo sonho e leio pesadelo? Quiçá em mãos adestradas, as palavras falem; em poetas, digam.
Ademais, os bárbaros nunca tomaram o trem das onze. Por isso, voltei. Para mais bem escutar o que se diz quando nada é dito, vim. Calado?
Refazer o ingênuo em palavras, na esgrima de cada jogada, espanta-me.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 12 de março de 2019.

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