Compreensível
Em nota sobre o poema O que amarga, Flávio R. Kothe, tradutor
e organizador d’A poesia hermética de
Paul Celan, diz que a arte é
concreta, singular, mas tem nela a elaboração peculiar do abstrato e universal,
de um modo inacessível ao conceito. Ainda, o suicídio de Celan em 1970, ao
fim e ao cabo, menos que um drama pessoal de um sobrevivente da Shoah, é visto
mais como colaboração com o inimigo na guerra contra o terror de Estado
praticado mundo afora.
Entendo. Mas: há artistas que,
pensando-se a si mesmos, pensam para o outro; e outros há que, pensando-se pelo
outro, pensam-se. Ambas as práticas trabalham a consciência, e isso independe da
sua atuação, comunal ou egoica, a posteriori.
No papel virtual, corro às folhas. Soltas
na realidade, a mim me dão suporte aos pensamentos que tomam o discurso pelas
rédeas, em desenfreado jorro que afoga a lucidez na razão.
Na grita em que me calo, balbucia quem
não se controla, vê em mim a brecha para ganhar neste mundo qualquer sombra que
lhe sirva de veículo. Para manifestar-se em desacordo com os rumos do mundo.
Como se buscasse o quê? O palco...
Desempenho meu papel. A pessoa que
escreve, posso mais que a rebeldia, mas quero ir? Posso ir além da revolta, se
irei? Pego da pena, a arma que aprendo manusear, mirar, disparar.
Penso. Para que a realidade ganhe
existência. Sinto.
Uma pizza portuguesa, para começar. Ressalvando-se:
com o número igual de fatias para ela e para ele; com a conta paga por ela, por
ele ou por ambos; antes de ir-se, agradecer quem trabalha no atendimento. Como
se vê ─ pizza é um começo.
Então, basta mudar os hábitos,
inventá-los outros e terei um mundo educado e gentil? O mundo é vasto e o meu
coração, diminuto. O sangue que levo nas veias e artérias não herdei de ninguém.
Todavia? Faço por mim, agindo. Achando que posso, e não posso. Já é muito tolerar
os modos. Dá um trabalhão a quem se dispõe servir-se de outros modelos para que
venha a tornar-se quem se quer: novo. A caminho de mim. Porque há de rebelar-se
contra ódios, gratuitos ou justificados. Pois há de revoltar-se contra amores,
servis ou ajustados. Porquanto há de revolucionar-se além das órbitas,
previstas e calculadas.
Na esfera pública da intimidade, o
plano é...
O povo? O que disparou 80 tiros e o
que os recebeu. Povo, das camadas populares, pobres, sem poder. Povo, o que
veste uniforme, almoça, janta e toma banho. Povo, os encharcados de álcool a
queimar nas ruas. Faz jus a?
Quem se acha dono, reduz custos. Na
Educação: de R$ 24 bilhões para R$ 17 bilhões; dos 21 mil cargos comissionados
no governo, foram cortados 14 mil em universidades públicas.
Diz-se o que não se diz? Não entendo o
que digo, entendo.
Ao delírio das coisas, o meu ofício é a metamorfose.
Com a percepção do afeto, em mente e
por palavras, é lícito a arte fugir à ordem ou agir contra a norma.
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, dia 14 de abril de 2019.