Cidadania,
cidadãos
Às vezes, tento me impedir mas não
consigo. Reconheço as minhas muitas falhas. Por exemplo, afeiçoei-me a enveredar
pelos caminhos da palavra difícil. Ponho relevância nesse vício, porque a
sedução de pegar das palavras, até mesmo das mais comezinhas, pego-as, digo eu,
para dar um nó no pensamento, revirando-as para integrar uma obscuridade, cujo
entendimento fuja ao fácil. E, com gosto, admito obrigar ao malabarismo a
espinha das palavras. Vai daí que o chão batido da estradinha mais chã se revela
do Neguev a areia mais sagrada.
Por que ajo assim? Não deveria a
simplicidade pautar a fala dos mansos que gostam de entabular um papo bom e útil?
Que
barata a liberdade, comprada à perversidade. Tomo da culpa, e como o miolo de pão...
Propenso a me acomodar ao mal-estar
que pareço tolerar, não o transfiguro em ira, ódio ou raiva. Não o faço, porém,
por alguma qualidade intelectual ou por algum capricho espiritual. Talvez por que
me tomo por um bom rapaz, desses que estuda para não perder das origens a
educação abençoada do pai ao pai do pai, indo por onde o rastro afiança. Acho.
Deixo quieto. Sentado, elefante observa
mais.
Penso a fratura da realidade comigo, e
nem sei dizer se esta atitude tira de mim a oportunidade de autodescoberta ou,
pelo contrário, faz leitura do mundo em queda livre. Do acaso, e isso é
possível porque a ruptura veio antes ou não haveria a fenda do meu olhar a
desvelar o surreal da vida, tiro do acaso, então, a chance de explicar o que
não explico.
Quando os olhos não temem as
monstruosidades que trago a lume, traduzo-as para mais bem se desentenderem o
homem (minha carne de ossos e carências) e sua consciência (o sopro que reconfigura
o ar relampejante dos vazios). Diz o que diz o mundano fraturado. O fosso não me
obscurece em bloco único, posto que pulsa o poço da mente, há zonas graduadas
de luz ─ da luminosidade da lua acima da boca ao breu do fundo mais fundo, sete
palmos na lama que suporta sete metros de água represada por medos sem nome e
tristezas muito vívidas.
Como os ingênuos gozam ao atribuir
valor incomensurável àquilo que nem entendem, o preço da lucidez é a solidão.
No livro dos dias, entretanto, não desperdiço a incomunicabilidade que preciso
esquecer. Preservo-a pela leitura. Divirto-me, leio.
Na escola estadual Laurinda, enfiado num
bolso bordado no pátio a cantar o Virundum, foi nesses dias que o banheiro virou
território da Loira, a cuja ubiquidade atribuía-se a mais excelsa das fantasmagorias,
a da aparição. O medo aguçava o desejo, pois ela vinha do desconhecido e os
hormônios dos treze anos me expunham ao ridículo. E fui jogado às paredes e portas,
e à calça molhada também. Na realidade, vi-me. Leio-me, agora.
Abespinha? Sim. Mas, cidadãos estão para
opinião pública assim como a cidadania grassa longe das redes sociais.
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, dia 05 de março de 2019.
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