domingo, 3 de março de 2019

Chuva noturna


Chuva noturna

Não preciso esquecer o que finjo lembrar? O silêncio deseja me dizer, mas as condições são adversas. Como a vida, nestes dias de hipocrisia suprimida, a nos opor uns aos outros. Farejo encrenca. Quero escrevê-la, talvez para torná-la mais palatável ou menos indigesta. Do nada, como certas ideias que cravam estacas onde a dor me chama pelo apelido, ocorre que não sei quem seja o tal menino que desmonta a boneca, sobra-lhe um parafuso e acusa sua irmãzinha de jogar sujo, pois o parafuso sobrante é do urutu das suas maquinações, da mana, menor e mais nova, portanto capaz de defender-se com unhas pontuais.
É isso, amigo. O oprimido, por ser quem é, veio a mim para desabafar, abrir o coração, exagerar na mão ao solicitar minha empatia. Mas é das consequências desse exagero que passei a racionalizar, movido que estou, tanto agora como então, mais pela compaixão e menos pelo alinhamento. Porque a facilidade carimba a cegueira com o sinete do amor. Amor, guarda-chuva a abrigar opostos. Fervo como coração de mãe enlouquecida de tanto fermentar calor humano em ídolos de barro. Outra vez, o excesso. Humanidade, amigo. É a partir do meu humanismo que penso, penso embora a contrapelo ao me querer aliado. E quando muito, ocupo-me de mim como ouvinte, interlocutor, até um moralista. Pois me cabe pesar, ponderar, escolher a quais valores avaliar. Acolho refletir por mim, não pelo peso da mão no meu ombro. Peso vivo do morto que não morre. A opressão do oprimido ainda segue sendo opressão, apesar da simpatia.
Para conversa prosseguir ─ que diabos?
A especulação calha-me agora, enquanto estou escrevendo, por conta de uma visita peculiar de outro dia. Ou melhor, outra noite, o sábado da semana passada, dia 23 último. Peculiar e particularíssima visita, aliás. À reflexão.
Tantos desentendimentos entre as palavras falada e escrita. Assim, passo aos fatos. Não me envergonho nem dou por mim que, por ventura, me tomem bichado dos nervos, com a minha cuca impregnada de tanta laranjada, tão incorreta.
A ventania da noite anterior, da chuvarada da sexta, parece que elegeu ficar alojada no meu apartamento. Fez em absurdo, mais precisamente, o domicílio da familiaridade. Digo que torna a estranho o normal. O vento passa em revista o vão recôndito, monta-se em campana para não enxergar. Sendo ar, rebela-se ao natural da constituição, estanca em névoa. Sinto-a na nuca, bafo de ontem a servir de ponte. Mas antes não fosse. A noite recusa a dissipação, é o vento que fica. Nada natural, portanto. A noite joga com o futuro em nome da força do passado. Diz-se em movimento. Posso o choro?
O instante não dissipado configura a presença. A ela passo, apenas depois de me desassombrar. Tão logo postos em tela o ambiente e as circunstâncias. Para tal manifestação.
Menos um encontro. Pois, de uma manifestação.
Para resumir, mesmo de modo breve, haverá quem censure em mim a narrativa, pelo insólito e pelas incongruências nada lógicas do relato. Como se os vícios partissem do cronista.
O fato é que, por volta das nove horas da noite, chovia, fazia frio e, petrificada em pensamentos sobre meu pai falecido há quase trinta anos, a minha alma sabia que ainda era o dia de nascimento dele: o 23. Fora o pasmo de ter vivido o dia sem uma fala sequer. Sério.
Foi quando, uma vez instalado o vento nos quadros, indo de um para outro sem o pudor da conversa racional de mil e uma veredas, então a figura surgiu no desenho que fica acima dos meus pés, quando estou deitado no sofá a ver televisão.
Por conta de um cochilo ou talvez pela percepção de estar a pestanejar, veio. Orientou-me a perdoar meus erros. O meu pai propondo que fosse indulgente, complacente? Delírio meu, de abstêmio. Impura a alucinação, humana.
O vento está solto.
Daí? Permanência, em inesperado trânsito.
Encafifado. Perturbador. Ter o vento encarnado entre quatro paredes. Varrendo os frutos de outra mão. Os quadros são um Nu descendo a escada? Sem exceção, ou Duchamp.
O fato é que naquele dia, por volta das nove horas da noite, chovia, fazia frio, a mente horrorizada, perdida da realidade. Os (muitos) jornais do dia estavam lidos, recolhidos os detritos da fricção do real com o código moral. Quem diz tal coisa sem ao menos ruborizar? E foi quando, aberto ao abismo pela fissura do assombro, fiquei de pé, comecei a cantarolar. Com a timidez dos princípios, fiz a minha parte no teatro da minha submissão. Os inzoneiros cerrados murmurantes... Cantou-me o Brasil da minha gente que tanto amo, exaltou por mim a mão na terra a semear frustrações, derrotas, perdas irreparáveis. Por isso, não se paga nem multa? Deixo a outros o berço admirável.
Com a repressão de ir desenho adentro, pesco à parede a sombra do coração. A me replicar a mim. Bastasse fingir o que esqueço. Porque ao recordar, não me perco; rememoro.
Tomo do risco o vão que flui seus trilhos. O gélido na luz da veia, a frieza de quem calcula a próxima jogada. Estátua a me vibrar do pé ao olho. Na retina, a TV apaga a coragem. Ainda a me divisar dos quadros, a figura do pai pede para entender-me comigo. Antes que passe a temporal, a alvorada desenha-se outra madrugada.
O sangue é o pacto? A propósito, não.
E logo hoje, entrado março: temos carnaval. É preciso ter na ponta da língua, não de cor, o nome da autoridade. É preciso escolher o urgente. A demonstrar respeito, apreço, distinção. É vontade, índole e juízo exemplares. Por 33.763 razões, hei de pleitear a honorabilidade da aceitação. Despido da história que a bílis teima em fazer brotar na boca agreste, de quem cospe desertos. O anjo do vento que testemunha o que confronta. Em vez de rir-se? Às costas, um breu.
Deprimido? Comprimido? Essa noite fabricou-me feito mar: reprimido, nunca suprimido.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 03 de março de 2019.



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