Chuva
noturna
Não preciso esquecer o que finjo
lembrar? O silêncio deseja me dizer, mas as condições são adversas. Como a
vida, nestes dias de hipocrisia suprimida, a nos opor uns aos outros. Farejo
encrenca. Quero escrevê-la, talvez para torná-la mais palatável ou menos
indigesta. Do nada, como certas ideias que cravam estacas onde a dor me chama
pelo apelido, ocorre que não sei quem seja o tal menino que desmonta a boneca,
sobra-lhe um parafuso e acusa sua irmãzinha de jogar sujo, pois o parafuso sobrante
é do urutu das suas maquinações, da mana, menor e mais nova, portanto capaz de
defender-se com unhas pontuais.
É isso, amigo. O oprimido, por ser
quem é, veio a mim para desabafar, abrir o coração, exagerar na mão ao
solicitar minha empatia. Mas é das consequências desse exagero que passei a
racionalizar, movido que estou, tanto agora como então, mais pela compaixão e
menos pelo alinhamento. Porque a facilidade carimba a cegueira com o sinete do
amor. Amor, guarda-chuva a abrigar
opostos. Fervo como coração de mãe enlouquecida de tanto fermentar calor humano
em ídolos de barro. Outra vez, o excesso. Humanidade, amigo. É a partir do meu
humanismo que penso, penso embora a contrapelo ao me querer aliado. E quando
muito, ocupo-me de mim como ouvinte, interlocutor, até um moralista. Pois me
cabe pesar, ponderar, escolher a quais valores avaliar. Acolho refletir por
mim, não pelo peso da mão no meu ombro. Peso vivo do morto que não morre. A
opressão do oprimido ainda segue sendo opressão, apesar da simpatia.
Para conversa prosseguir ─ que diabos?
A especulação calha-me agora, enquanto
estou escrevendo, por conta de uma visita peculiar de outro dia. Ou melhor,
outra noite, o sábado da semana passada, dia 23 último. Peculiar e
particularíssima visita, aliás. À reflexão.
Tantos desentendimentos entre as
palavras falada e escrita. Assim, passo aos fatos. Não me envergonho nem dou
por mim que, por ventura, me tomem bichado dos nervos, com a minha cuca
impregnada de tanta laranjada, tão incorreta.
A ventania da noite anterior, da
chuvarada da sexta, parece que elegeu ficar alojada no meu apartamento. Fez em
absurdo, mais precisamente, o domicílio da familiaridade. Digo que torna a
estranho o normal. O vento passa em revista o vão recôndito, monta-se em
campana para não enxergar. Sendo ar, rebela-se ao natural da constituição,
estanca em névoa. Sinto-a na nuca, bafo de ontem a servir de ponte. Mas antes não
fosse. A noite recusa a dissipação, é o vento que fica. Nada natural, portanto.
A noite joga com o futuro em nome da força do passado. Diz-se em movimento. Posso
o choro?
O instante não dissipado configura a
presença. A ela passo, apenas depois de me desassombrar. Tão logo postos em
tela o ambiente e as circunstâncias. Para tal manifestação.
Menos um encontro. Pois, de uma manifestação.
Para resumir, mesmo de modo breve,
haverá quem censure em mim a narrativa, pelo insólito e pelas incongruências
nada lógicas do relato. Como se os vícios partissem do cronista.
O fato é que, por volta das nove horas
da noite, chovia, fazia frio e, petrificada em pensamentos sobre meu pai
falecido há quase trinta anos, a minha alma sabia que ainda era o dia de
nascimento dele: o 23. Fora o pasmo de ter vivido o dia sem uma fala sequer. Sério.
Foi quando, uma vez instalado o vento
nos quadros, indo de um para outro sem o pudor da conversa racional de mil e
uma veredas, então a figura surgiu no desenho que fica acima dos meus pés,
quando estou deitado no sofá a ver televisão.
Por conta de um cochilo ou talvez pela
percepção de estar a pestanejar, veio. Orientou-me a perdoar meus erros. O meu
pai propondo que fosse indulgente, complacente? Delírio meu, de abstêmio. Impura
a alucinação, humana.
O vento está solto.
Daí? Permanência, em inesperado
trânsito.
Encafifado. Perturbador. Ter o vento
encarnado entre quatro paredes. Varrendo os frutos de outra mão. Os quadros são
um Nu descendo a escada? Sem exceção,
ou Duchamp.
O fato é que naquele dia, por volta
das nove horas da noite, chovia, fazia frio, a mente horrorizada, perdida da
realidade. Os (muitos) jornais do dia estavam lidos, recolhidos os detritos da
fricção do real com o código moral. Quem diz tal coisa sem ao menos ruborizar? E
foi quando, aberto ao abismo pela fissura do assombro, fiquei de pé, comecei a
cantarolar. Com a timidez dos princípios, fiz a minha parte no teatro da minha
submissão. Os inzoneiros cerrados murmurantes... Cantou-me o Brasil da minha gente
que tanto amo, exaltou por mim a mão na terra a semear frustrações, derrotas,
perdas irreparáveis. Por isso, não se paga nem multa? Deixo a outros o berço admirável.
Com a repressão de ir desenho adentro,
pesco à parede a sombra do coração. A me replicar a mim. Bastasse fingir o que
esqueço. Porque ao recordar, não me perco; rememoro.
Tomo do risco o vão que flui seus
trilhos. O gélido na luz da veia, a frieza de quem calcula a próxima jogada.
Estátua a me vibrar do pé ao olho. Na retina, a TV apaga a coragem. Ainda a me
divisar dos quadros, a figura do pai pede para entender-me comigo. Antes que passe
a temporal, a alvorada desenha-se outra madrugada.
O sangue é o pacto? A propósito, não.
E logo hoje, entrado março: temos
carnaval. É preciso ter na ponta da língua, não de cor, o nome da autoridade. É
preciso escolher o urgente. A demonstrar respeito, apreço, distinção. É
vontade, índole e juízo exemplares. Por 33.763 razões, hei de pleitear a
honorabilidade da aceitação. Despido da história que a bílis teima em fazer brotar
na boca agreste, de quem cospe desertos. O anjo do vento que testemunha o que
confronta. Em vez de rir-se? Às costas, um breu.
Deprimido? Comprimido? Essa noite
fabricou-me feito mar: reprimido, nunca suprimido.
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, dia 03 de março de 2019.
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