terça-feira, 1 de janeiro de 2019

Agora hoje


Agora hoje

Há mais de meio século venho colhendo abóboras, isso me fez compreender que, de uma hora para outra, expressões vêm infestar a comunicação. Porém não o fazem como abobrinhas, que são fonte de nutrientes necessários ao bom funcionamento do corpo de quem não é alérgico a elas.
Faço referência a abóboras, abobrinhas e, logo acrescento, a abotoaduras, por causa de um sacerdote da Paróquia Nossa Senhora das Dores de Ibiúna. Como quem não perderia tempo em adaptar-se à vulgaridade da nossa casualidade nos trajes e nos costumes, era missionário, e veio da China.
Se por um segundo, o interlocutor desavisado via a capa do janota, era no instante seguinte, entretanto, que o pragmatismo ecumênico do cura exibia as suas páginas mais tolerantes, de vigário consciente do trabalho a que estava destinado a fazer no Brasil.
Sem informações, seria por minha conta a garantia de que o clérigo viera do país de Confúcio para algum rincão mil vezes mais pecador do que a minha cidade natal. Sempre tive para mim que o sol tupinambá já tinha feito a gentileza de assentar a batina à vênia capital do roliço orientador, deveras espiritual.
Espirituoso, desafiando-nos com o xadrez, o padre trazia os coroinhas para a casa paroquial e, então, conversava conosco sobre virtudes e pecados. Embora estivesse atento à formação de almas, o nosso Buda bonachão era tão sedutor porque agia sem a ladainha pétrea de um colonizador.
Procedimento bem distante daquele Fernando Pessoa que, crítico de certos preceitos do cristianismo, assinava, ortônimo, que era lógico e legítimo o europeu civilizado sair mundo afora a escravizar e obrigar “povos selvagens” a adotar elementos de civilização, todavia “sem o degenerado conceito igualitário, com que o cristianismo envenenou os nossos conceitos sociais.
Valha-me, Valium.
Alhos com bugalhos?
Perdoe-me a metafísica, o corpo impõe limites. Na memória, ao pé da missa, não afogo o enxadrista e o menino. Esse que é parecido comigo, semelhante àquele que poderia ter vindo. Na alegria, não fosse este que o percebe e nutre. Inconfessável, e outro.
O circuito do tempo é curto.
Pelo pouco que me sei: celebro o instante ao cuidar do dia. Meu tempo é hoje, Paulinho da Viola. Meu tempo é agora, Mãe Stella de Oxóssi.
Já hoje, o presente do instante? Logo agora, o instante do momento? O momento do presente: agora hoje.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, 01 de janeiro de 2019.

domingo, 30 de dezembro de 2018

A fumaça dos dias


A fumaça dos dias

Semana passada, em crônica que trata da relação de pai e filho, o escritor António Lobo Antunes me encantou ao afirmar, sobre a presença sonora do seu progenitor, que “nunca havia frio ao pé da sua voz”. Na minha bonomia, tomo o que se me apresenta de uma beleza imediata sem o estalar dos dedos da mente. Por minhas deficiências cognitivas, fui mastigando esta imagem, mas o meu tanto para atinar com o fogo foi preciso. E recordei uma voz antiga, sargaço para a represa dos meus escombros, que sou castor com vocação para ruínas e outros rastros não apagáveis.
Trazida à consciência, vindo das chamas insondáveis, a voz do demônio familiar, tão íntimo das gentes lá de casa. Bastava abrir a boca só para soltar a fumaça do charuto, sem o rococó dos anéis, prodígio que muito me maravilhava, que o grilo me sussurrava um tipo estranho de aflição.
Era tal o desassossego que até o meu kichute para todas as várzeas parecia menor.
Com o calo certo para doer meu sofrimento onde menos era de se esperar, o mefistofélico ancestral punha em alvoroço as minhas sinapses, tão pacatas de coração.
Posto a nu, o universo desvelado, revelado por uma voz?
Alguns, sorrindo, falariam que o ser resiste à falta da carne; outros, budistas de pouca espiritualidade, tirariam os sete véus de Maya.
Explicação simples sempre é o óbvio do argumento?
Acaso tivesse conhecido o pai de meu pai, o avô morto doze anos antes, pois os átomos moveram-se para este corpo em 1963.
Em outras palavras, sob a pele que me enquadra, não havia múmia a ser devolvida aos crentes de Yangchun. Fulcral, no entanto, era que em mim não tinha razão o autóctone dessa memória, logicamente adventícia.
Isso causa estranheza até em quem acha normal criança ter imaginação criativa o bastante para dar corpo à voz ancestral a partir de relatos que não ouviu.
Se não sei a quem moldei o timbre e, mais ainda, como dei a ele o fulgor de um deus, baforador dos puros da Bahia, como quem ouve a consciência turbada por um mistério elementar, terei eu escutado os meus diabinhos?
Para pelejar pelos seres abissais deste meu cérebro varonil, só mesmo em palavras, e todas tecidas pelos mil e um talentos de um Olavo, o Bilac, nosso bardo no vigor centenário.
Com as insolências da vida, sofro como posso.
Ô Seu António, em caso de memória sem espaço, um clique é fósforo.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 30 de dezembro de 2018.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

O bonde 18


O bonde 18

Em 2018, vivi sem o amor de quem desvali. Entendo. Mas a leitura me fez ir além, e compreender a empatia.
Certo do controle sobre o que lia, abusei das bolhas sociais. Em janeiro, Débora Nascimento alertava:
Uma pesquisa realizada recentemente na Universidade de Yale ilustra um pouco como isso funciona. Bebês com idade em torno de um ano foram colocados diante de um teatro de marionetes. No pequeno tablado, um boneco com a camisa vermelha tentava abrir uma caixa sem conseguir e, então, surgia um outro, de camisa azul, que atrapalhava a tentativa. No final, ambos eram oferecidos às crianças. Todas escolheram o "boneco bonzinho", o da camisa vermelha. Mas, depois, o teste mostrava o boneco azul comendo uma papinha que elas também comiam. Então, diante dessa nova informação, as crianças preferiam o "malvado". Agora havia um gosto em comum, uma afinidade entre eles.
Ana Paula Lisboa, em julho, sobre os malvados:
E para as mulheres que rebatem quando os assediadores são denunciados, eu digo: isso não é sobre você, vai ver você não faz parte do padrão. Pense por um minuto que o padrão dele possa ser o seguinte: as meninas do primeiro período, bolsistas empolgadas por fazer um dos cursos de cinema mais caros do país, jovens de periferia com uma trajetória parecida com a do professor, de quem ele pode se aproximar com a desculpa de ajudar a realizar seu sonho de cineasta, diretora, roteirista, num mercado tão escroto e fechado em que você só entra se tiver indicação.
E, sim, nem todo homem é mentiroso, há os que acobertam as mentiras, há os que apoiam as mentiras e há os que se calam diante delas.
Em setembro, Fernanda Torres retratou um Brasil:
E você assiste à facada quase ao vivo, e se controla para não desejar a morte do pobre do ser humano. E você vê o sujeito morfinado recontar, na UTI, o milagre que fez de um misógino homofóbico racista do baixo clero um mito da classe média escolarizada que tem pânico da Venezuela. E você pensa que se danou, porque, depois do atentado, vai ser difícil roubar-lhe a aura de Lázaro ressuscitado.
E você ama Ary Barroso, e canta com seu filho o "Brasil do meu amor, terra de nosso Senhor", e tenta dizer que aqui é bom, mas não consegue. E você olha a lua cheia, iluminando os barracos da Rocinha, e tem vontade de gritar.
Passou o 19?
Felicidade! Tenho tempo, infelicidade.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, 27 de dezembro de 2018.

terça-feira, 25 de dezembro de 2018

Apenas mais um ranzinza


Apenas mais um ranzinza

Depois do meu balanceado almoço dominical, vou saltitante pelos canais da TV. Quando o tédio da digitação no controle já pespegava em mim o cansaço de nenhuma atração, aparece, me querendo atraído, o Paul Simon das adolescências.
No plural, porque a minha não foi a previsível transição para o rapaz, na qual os hormônios salpicavam o infante com acnes, espinhas e as liliputianas ilhas de pelos.
E a voz instável, típica de adolescente?
Eu mesmo caçoava da minha voz, porque, sem aviso, nos agudos da criança pipocavam os graves do adulto. E na Terra Preta da minha infância, nos anos setenta do século passado, eu andava gaiteando ─ como se as cordas vocais parodiassem um gaitista asmático.
Pela timidez míope adornada por uns óculos redondos de armação de tartaruga, imitação barata feita de plástico, ganhei o mundo com o futebol de botão, cujas partidas com meu irmão sacudiam a mesa da cozinha, nosso campo neutro.
Embora me coubesse, por minha iniciativa, preparar a Copa fraternal, preso à superfície colorida da escala do mapa-múndi, optava por naufragar a centímetros da percepção geopolítica da Ásia ao fingir cegueira para Paquistão e China, que jogavam duro com a Índia e o Vietnã.
Nesses dias dançantes, o adolescente autêntico tinha de ter a rebeldia juvenil, daquelas que mistura o Pink Floyd do Porco, o Raul Seixas da Mosca e o Prestes que os governos do Brasil adoravam abominar. Mas, para que o caldo entornasse, tinha por luta contrariar os coroas, uns velhacos tão somente porque mais velhos do que a minha geração.
Como transversais não são paralelas, volto ao topo.
As câmeras que registraram a apresentação do ex-parceiro do Garfunkel, no Hyde Park da Londres de 2012, pegavam um público certinho, que cantava canção depois de canção sem errar a letra e nem deixar as palmas quietas nas mãos.
Era até bacana que, mesmo no ombro a ombro pela visão do palco, a música pudesse juntar setentões como o cantautor; adultos maduros; maduros jovens; estudantes; e, por amor aos fatos, gente sem residência e um pence no bolso.
E as pessoas ali, todas embaladas pela ginga deste homem, branco, filho de professor universitário; um boa-pinta da Costa Leste estadunidense.
Sons do silêncio?
Alô, chapa, comigo suado, de olho no aquecimento global e nas migrações de haitianos, bolivianos, de venezuelanas...

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, 25 de dezembro de 2018.

domingo, 23 de dezembro de 2018

A criança de Omelas


A criança de Omelas

Com as Festas de fim de ano já baforando seu cálido hálito, antecipei as compras dos itens indispensáveis à vida humana. Sem refrigerante, sem panetone. Nem pude comprar nozes e castanhas por conta de uma dieta compulsória, rica em frutas, legumes e quitutes integrais. À flor da pele, inapelavelmente, aprendi que o corpo em ordem gesta pedras vesiculares.
A propósito, interpelado por uma estranha no mercado, dou ao desconforto o sorriso protocolar de quem errou o ansiolítico. A mulher, tão perspicaz, pede-me o preço de castanhas, nozes e panetone. Sem lhe dar resposta alguma, cada produto de sua cesta merece comentário.
Se o preço da convivência é o sorriso paciente, a paisagem lunar de minha expressão não foi lida, azar o meu. As minhas reflexões naufragaram na saliva engolida a seco.
Frustrado, já que aquilo não iria parar, passei a ouvi-la. E a comentarista econômica estava convicta do seu papel. Daí que reprovava o abuso, escarnecia da inflação e inventava a minha concordância, silenciosamente pudica.
Não sou um curioso inveterado, doido por histórias alheias. Levo a vida a escrever, por isso não fico escutando o que falam e, perplexo, leio o que os praticantes da escrita saem por aí a dizer que fazem da audição o sonar do caráter humano.
Sem que me azedem o almoço, que vou ao supermercado depois de anestesiar a fome dos olhos, prefiro meus fantasmas sem entusiasmo, mímicos sem pantomima, e calados.
Talvez por conta da acidez inesperada do humor, peguei-me a anotar de cabeça as vírgulas ululantes da distinta oradora.
Leitora sobressaltada e leitor horrorizado, em alguns lugares ainda há fila de pessoas. Acreditem em mim, nem só de emojis brotam as filas.
Em tal estado de espírito, e com a memória desafiada a não deixar romper o fio, lutei para não cometer um poliedro verbal como arremedo de crônica.
No fundo, eu deveria admitir que o texto está sendo escrito com o sentido e a coesão que a vida finge ter, para, assim, ir trazendo-me pela mão até o porto seguro do esquecimento.
Ou seja, hei de vencer-me, esquecendo nas grutas abissais da mente o que de fato preciso lembrar para que o texto surja.
Meu corpo pensa, e vivo a senti-lo pensando. Com engenho débil, construí este diamante cuja opacidade aprisiona a luz.
À falta da convicção dos imbecis, perdoem-me.
Sem mais, Feliz Natal.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 23 de dezembro de 2018.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

De peito aberto


De peito aberto

Que dias! Preciso escrever de cara que o que é mal precisa vir escrito no texto, explícito. Se o mal não é nada vergonhoso para quem faz, é sim a quem não reage à agressão que sofre.
É ridículo. Mas, neste mundão onde há pessoas de variadas calibragens de leitura, cabe a mim pôr logo na mesa: há pessoas que leem em voz alta, letra por letra; há outras que juntam os parágrafos sem ajuda; e temos as que vão rápido das palavras às ideias, daí às entrelinhas. E todos quebramos a cara ao buscar a chave da cabeça de quem escreve. O ridículo do escritor está nas palavras que usa para querer desviar os olhos de quem lê. A ilusão está nessa esperança.
Bobagem achar que estou fora dessa.
O que motiva quem passa a inspiração para o papel? Sei lá. Escrevo, vou escrevendo, paro de escrever. Leio. Releio. Mudo uma palavra. Troco a posição de algumas. Leio, releio. O ponto final estabelece a trégua necessária entre nós, entre o texto e mim. Sem isso, nada de publicação.
O que eu quis dizer com o que está escrito? Qual é o fundo do que escrevi? Meus abismos costumam tomar conta de mim para evitar que o texto morra no raso. O que penso ter de transmitir aos leitores e às leitoras?
Bah! Insetos é que transmitem doenças.
Parece que estou enrolando, mas as linhas anteriores estão a me servir. Eis o ponto: estou imerso na realidade absurda de fatos, acontecimentos, notícias e informações. Sem o controle do que acesso, leio, ouço, contam-me, recontam-me. Acho que estou lelé da cuca, a ponto de nem ligar para a enxurrada de bobagens, bizarrices e lacrações mil. Por aí.
Pela TV, flagelo das quimeras nefelibatas, Nelson Motta diz que Leonard Bernstein mudou uma palavra na Ode à Alegria, poema de Schiller que Beethoven usou na Nona Sinfonia. Foi trocada Freude (Alegria) por Frieheit (Liberdade).
Coisa de demagogo? Não bulirei com a origem. Demagogo quer dizer condutor do povo. Como sou do povo, boto uma fé danada num mundo menos desigual. Então, além dos médicos e dos advogados, que melhor maestro do destino do que a TV?
Enfim, não tenho pureza de alma, sei pouco de mim para ter plena consciência do que faço.
Se o calor da hora arrepia-me?
Ao cumprir a Constituição, o ministro Marco Aurélio põe a gente estranhíssima.
Como não quero dar cabo das minhas soldas mentais, por gentileza, não invoquem a tutela do Supremo.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 20 de dezembro de 2018.

terça-feira, 18 de dezembro de 2018

Sábado


Sábado

Diante do Romeu e Julieta que os noticiários me resgataram para a infância, sufoco. Reconheço a canção. Desconcertado, sinto a perplexidade. Há um dedo de covardia e uma pitada de repulsa. Lembro amarguras que vivi, e ainda me intoxicam.
Perplexo? Sou presa involuntária da ansiedade que toma conta das aflições e me conduz de olhos abertos por onde nem vejo. Neste apagão, emerge-me da memória o que fiz. O surto é vigoroso, mas não é pânico.
Nos últimos anos, de 2013 para cá, o bicho tem mostrado as garras e roçado as presas na minha carne despreparada para o abate. Por isso, ando um tanto angustiado, meio depressivo, querendo sair voando sem vassoura.
Mas a Terra é azul.
A vida, esta trama à vista de todos, cega todo mundo. De tal sorte que dor, sofrimento, medo e angústia, alegria e felicidade, empatia e simpatia acabam por tornar invisível essa realidade que temos bem diante do nariz: nós mesmos.
Confesso um pragmatismo vacilante, incorporo-o. Sem ele, a rua de Paris em que os carros ardem haveria de tornar-se a paralela à rua onde vivo, moro e estou domiciliado. Mas não, o fogo de Paris não queima as pestanas; meu sono, sim.
Tolero em mim a existência melancólica? À insônia da ânsia escapam-me indiscrições.
Atravesso a madrugada, certo de que na calçada do outro lado o mendigo que me observou saindo do banco vai seguir lúcido. Àquele que traz nas roupas a limpeza, todavia, falta-lhe a dignidade do caráter. Esta pessoa opaca e vazia: eu.
A aurora vem. Não peço por ousadia, coragem e intrepidez. Isca da morte a querer fugir do destino, caço no ar a panaceia, mas a desculpa me escapa. Sei, a dignidade é para os fortes.
Não durmo, pois todo paraíso me põe a sós comigo.
Aí, gostaria de ter visto o Deus das Goiabeiras descer para o bar. Amigo do dono, do cachorro famélico e da moça da foto, ele beberia três copos de tubaína Vichi sem fazer careta. A sua mão deixaria de tremer. A sua barriga voltaria a trabalhar. Sem juízo, a vida seria sempre domingo. O Guarani X Treze de Maio dos melhores dias.
Adeus tubaína. Tchau goiabeiras.
Minha miséria não conhece mais os domingos dessa Ibiúna.
O suor do meu rosto não esgota, cansa. As rugas comem os segundos, as horas, semanas, décadas. Escuto a minha vida.
Se tem uma saída?
No xeque-mate sem bispo, sigo sendo a vítima na imolação que executo.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 18 de dezembro de 2018.






domingo, 16 de dezembro de 2018

Tempo dos infernos


Tempo dos infernos

A impassibilidade das placas ensina-me que há portas pelas quais não se entra bem como portas que não servem de saída. E de repente, vendo TV, lendo Jonathan Swift, contando gatos no escuro ou à espera da dor sem dentista... Impiedosamente, vem. Que sensação horrível, a de estar preso em mim, forçado a vivenciá-la do começo ao fim. São tempestades nervosas. E muitos as conhecem pelo singelo nome de chilique. Tenho-o. E como não fujo da metafísica do conflito, aumento o melodrama.
A coisa diz meu nome num corisco?
Se tem porta aberta, corro fechá-la. Não sou besta, passo a chave. Fechadura é fabricada para ter utilidade, tenha. Se bem que a brisa da tarde e os cantos da passarinhada convidam a paranoias menores. Mas com a prevenção não se brinca.
Fujo de mim de jornal em punho. Pelo menos, acredito.
Para entender o Brasil dos meus dias, leio o que tomo por importante. É imprescindível a leitura dos fatos. Para saber das realidades, informam-me as notícias.
O auxílio-reclusão é pago a menos de 8% dos presidiários, pessoas cujo salário é inferior a R$ 1.300,00, gente que, pelo menos por 24 meses, deve ter contribuído com a Previdência. Ou seja, não é qualquer preso que tem a ajuda.
Aliás, são os seus familiares que recebem, desde que haja a comprovação de que o preso é arrimo. Por ser em cota única, quanto maior o número de dependentes, menor o dinheiro por pessoa.
Detalhe. O valor do benefício é proporcional ao que foi pago pelo contribuinte no período superior ou igual ao tempo que a lei determina. 
Querem o fim da apregoada bolsa-bandido, como se fosse um prêmio a todo criminoso que está na cadeia. Querem a mão do benefício invertida. Em vez de a família do preso receber, tomam por justo que a família da vítima fatal receba a ajuda ou, em caso de lesão que incapacite, a vítima seja aposentada por invalidez. Não é preciso acabar com a ajuda-reclusão, pois a lei em vigor diz que tanto a vítima como a sua família têm direito ao benefício, desde que a vítima tenha sido ou seja contribuinte da Previdência Social.
Direito não é privilégio. E a Terra não para. Certo?
Como o ano legislativo não acabou, na sessão da Câmara de quinta foi lembrado o AI-5. Para os 20 cartazes com retratos das vítimas havia 11 deputados.
Cuspindo fogo, fecho o jornal.
Esquento tanto, o Niño nem precisa lufar o inferno.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 16 de dezembro de 2018.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

Café sem pulgas


Café sem pulgas

Quem for amigo que se explique no cafezinho.
Porque ofensa e fofoca podem ser resolvidas com um papo. Isso, porém, não ocorre com injúria, difamação e calúnia, pois, nestes casos, o Código Penal entra em campo para multar ou condenar à detenção, conforme o crime cometido.
Dito isto. Tomo por ofensa, sem dúvida, o que fizeram com Marta, genial jogadora da seleção feminina de futebol.
Para não levar um olé, vou aos fatos.
Em 2007, Marta deixou a marca dos pés e a placa sumiu. O pessoal da Calçada da Fama do Maracanã afirma que a Melhor do Mundo, eleita por seis vezes, nunca teve a honra de ser entronizada entre cracaços como Pelé e Zico.
Marta, a única mulher na Calçada, merece a homenagem e tem todo o direito de ficar emocionada e nem falar no assunto do sumiço da placa anterior. O importante é olhar para frente.
Pois bem, seguirei o exemplo da nossa talentosa camisa 10 e não vou ficar de picuinha com os administradores do estádio.
Espero de coração leve que arranjem uma explicação que seja plausível a ponto do convencimento de todos nós. E posso dizer que não jogarei com subterfúgios, torcendo ardilosamente para que alguém venha a dar nome aos bois que perderam o registro que a Marta fizera logo depois do ouro do Pan.
Aliás, a história lembra o sumiço definitivo, até o momento, da taça Jules Rimet, que parece ter sido derretida. O caneco foi levado por gatunos, em dezembro de 1983, da antiga sede da CBF, que ficava na Rua da Alfândega, no Rio de Janeiro.
O curioso é que a nossa Jules Rimet fora roubada em 1966, durante a sua exposição em Londres. Porém, dessa vez, houve Pickles, o cachorro que achou a taça num jardim, embrulhada em jornal.
Por aqui, entretanto, nada de aparecer um vira-lata para nos dar um jeito. Assim como a primeira placa da Marta sumiu no ar, a taça do Tri virou saudade.
Sim, aquela saudade dos 90 milhões em ação, da escalação do Dadá na seleção feita pelo Médici, do Milagre Brasileiro e da inflação de 10,4%.
Opa! Um índice desses não dá saudade em ninguém, muito menos na maioria dos 57 milhões de eleitores que levou o Jair, que não é o Furacão da Copa, ao Planalto.
Admito que, como sou de esquecer em quinze minutos o que fiz num quarto de hora, há coisas que, para não as repetir, tenho de lembrá-las.
E, do nada, lembro-me do labrador que não bebe café.
Dei a sua comida, Édipo?

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, 13 de dezembro de 2018.

terça-feira, 11 de dezembro de 2018

O cão e a fera


O cão e a fera

Na plenitude da sanidade, entendo a vida. Divirto-me tanto, que chego até a acreditar que sei por quais razões faço o que faço. Este mamífero bípede pensa.
Então, a Comissão de Cultura da Câmara acha boa a ideia de as editoras darem de graça a versão digital a quem comprar a impressa? Sei. É óbvio que as editoras somarão os custos. Ao comprar o livro de papel, pagarei pelo digital, e vice-versa. Tchau à separação de preço dos suportes. Mas os deputados da supracitada são todos especialistas em edição, e não me cabe dizer a eles o que é melhor para o setor editorial, de tão grande pujança financeira neste Brasil 2018.
Como sou pessoa limitada pelos conhecimentos que tenho, também não enfiarei a colher na farofa de motorista que ganha R$ 8.500,00 por mês para movimentar R$ 1.200.000,00, ainda mais em 2016. Agora que fomos informados, o patrão que se entenda com o funcionário. E os 24 mil reais?
Se a natureza não é sábia, é diversificada. Há laranja azeda e doce; há laranja para muitos gostos. E será auridoce a tal da laranja da Pérsia?
Caramba!
Sei de uma coisa, e por saber, perco muitas horas de vigília: quando tento encarar o mundo, a realidade me impede.
O Natal bate os seus sinos. O Ano Novo solta seus fogos. E o passado tenta imiscuir-se no futuro usando o presente como uma ponte, um elo, um portal.
50 anos em 5? 50 anos atrás? 50 anos à frente?
Talvez por cansaço, ou apatia. Ando um bocado perturbado pelas bobagens que não fiz. Ando modesto diante das minhas notórias fragilidades.
Volante no ar, a pipa da palavra volta-se para Clarice. Com Ulisses, o cão nosso de todo dia, aos pés da musa, no Leme. Em 1973, Clarice Lispector foi demitida do Jornal do Brasil, por que não sabia escrever crônica ou por que era judia? A bela, culta, misteriosa, bruxa, uma estranha estrangeira. Encontro no texto Come, meu filho:
O mundo parece chato mas eu sei que não é. Sabe por que parece chato? Porque, sempre que a gente olha, o céu está em cima, nunca está embaixo, nunca está de lado. Eu sei que o mundo é redondo porque disseram, mas só ia parecer redondo se a gente olhasse e às vezes o céu estivesse lá embaixo.
Além de superfície plana, “chato” pode ser pessoa irritante, maçante, uma companhia desagradável.
Não! Escolher é definir-se.
OK. Se a terra é redonda, logo o ponto final fecha o círculo.
Abruptamente.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 11 de dezembro de 2018.

domingo, 9 de dezembro de 2018

Ligando os pontos


Ligando os pontos

Quando penso que viverei em paz, resolvendo a meu modo os problemas de cada dia, sustentando como posso a calmaria do estômago, querendo uns momentos de prazer...
Daí os homoafetivos me pedem para lutar com eles contra o preconceito. Daí os homofóbicos me insultam porque escolhi o lado errado. Daí os cristãos me solicitam uma resposta quanto à libertinagem com o verdadeiro Deus. Daí os não-cristãos me patrulham porque não defendo a diversidade religiosa. Daí os esquerdistas me questionam a solidariedade com os excluídos. Daí os bolsonaristas me desprezam por não assinar por armas em legítima defesa. Daí os mais românticos cantam seu bolero, sonhando-me em uníssono. Daí os funkeiros botam o corpo na batida, julgando-me um frangote por não entrar na dança. Daí os maconheiros surfam para longe da caretice, apontando-me a praia para cair fora. Daí os de terno batem a rotina no cartão, insistindo comigo que o barato sai caro. Daí o macaquinho que não fala quer me indicar, à luz das ideias, como devo comer o pãozinho no café matinal; o que não vê deseja muito que eu não enrole a língua ao ler o Hipérion no original; o macaquinho que não ouve anseia por um OK monumental, petrificando-me feito estátua, mas nem o nosso Cristo me seduz à prostração. Daí tenho a pulga atrás da orelha querendo pular na sopa. Daí amigos exigem que brinde em nome da liberdade de reunião. Daí amigas reclamam da desigualdade de oportunidades. Daí há quem me diga o que não posso dizer, ainda que pense por mim que posso dizer o que eu quero. Daí há quem fale por mim o que não quero falar, adivinhando o que eu quero. Daí o suco gástrico ferve, a cabeça passa a doer, a boca resseca, o olho embaça e a mão que afaga recusa dar tapinhas nas costas.
E se eu fumasse, tragaria meu cigarrinho sossegadamente, deliciosamente, sem intermediários, porta-vozes, usurpadores, sem os tiranos de sorriso dócil a me censurar o vício, sem as tiranas de afetos profundos a me castrar a fantasia, sem esses sermões nas coronárias, sem as ladainhas na jugular. E daí eu bateria as cinzas ao acaso.
Mas, para me sentir em casa, trato de liberar os fantasmas. Sento no sofá, estico as pernas. Abro Ai de ti, Copacabana.
Como não sou uma ilha nem tiro onda, não resisto a fazer minhas as palavras do Velho Braga:
─ O pessoal anda muito desorientado.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, 09 de dezembro de 2018.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

Acontece


Acontece

Interessa o ridículo de cada um? Serei leve, pois dezembro é mês de felicitações, congraçamentos. Nada escreverei sobre ombreiras plissadas nem sobre quem as usa. Com leveza, eu escolho seriedade e responsabilidade.
Por certo, a mim me caberia lamentar a separação de filhos e pais nos EUA, repudiando a crueldade dos homens diante da esperança de imigrantes, ilegais ou não.
E o que acrescentaria ao que já foi dito sobre as águas do Mediterrâneo a afogar sírios? A muitos é pungente o sal do mar misturado ao das lágrimas, como quem grita pelo direito à vida e à dignidade? Ou, ao contrário, ir lutar lá na Síria, de que lado seja? Ir para ou fugir de, há calamidades que não dormem.
As leis continuam em vigor. O cotidiano tem suas urgências. Mulheres e homens curtem gatinhos fofos. Muita gente quebra a cabeça com o Natal. E o Ano Bom promete uma piscina de novidades, cada uma mais espantosa que outra.
Sem ilusões, o mundo não quer saber o que penso.
Diante dos protestos, o governo francês desistiu do aumento da gasolina e do diesel. Entretanto, se o dinheiro do aumento financiaria as mudanças de combustíveis fósseis para fontes menos poluentes, não deveríamos apoiar Macron?
É direito protestar contra o aumento. E também, é direito ir além dos combustíveis e querer debates sobre salário mínimo e revisão de impostos sobre a aposentadoria.
É jogo jogado. Democraticamente, jogado.
Misteriosa cabeça. Daí me vem um 13 de dezembro. Há 50 anos o governo brasileiro, ditatorial, impôs como nosso dever o combate à corrupção, com domicílio determinado, proibição de frequentar determinados lugares, liberdade vigiada, cassações.
Tenho dúvidas.
O futuro ministro da Justiça irá, “após investigação, decretar o confisco de bens de todos quantos tenham enriquecido, ilicitamente, no exercício de cargo ou função pública”? E quais os “meios indispensáveis à obra de reconstrução econômica, financeira, política e moral do Brasil” que ele empregará para garantir “a autêntica ordem democrática, baseada na liberdade, no respeito à dignidade humana”?
Enfim, no dia 04 de dezembro de 1993 Frank Zappa morreu. Um cérebro a instigar-nos com discos, apresentações e humor. Sobre jornalismo musical, Zappa disse que era feito por “gente que não sabe escrever entrevistando gente que não sabe falar para gente que não sabe ler”.
E Brasília com isso?

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, 06 de dezembro de 2018.

domingo, 2 de dezembro de 2018

Infortúnios do conhecimento



Infortúnios do conhecimento

Quero entender o instante. Dinâmica, a estrada não para de passar pela porta da pessoa atenta ao momento, aquela que não se deixa soterrar pela poeira da mesmice, colada ao rastro do esperado. À vera, busco apreender para aprender a ler as pegadas. Nem sempre a história é escrita por isso.
Já um dia estive em sala de aula, e lá estive como aluno de outra demão. Equipado com um aparato instrumental propício à cognição, caso houvesse alguém a me ouvir, entender-me ou tomar-me como parceiro. Sou dessas camadas, professo.
Já um dia estive trabalhando à procura de algum equilíbrio, o razoável, entre a manutenção e a inovação. Porque o ensino, o tal do processo educacional, eis que não deve dispensar uma em detrimento da outra, ambas vertentes do conhecimento. Para que se entenda e aplique-se o que seja útil e provável de dar-se à utilidade, uma vez erguido na busca do entendimento do que é dito, transformado em realidade. Ambas, manutenção e inovação, se completam, daí a transmissão do conhecimento para o saber a ser construído, vindo do feito ou do provável.
Já um dia quisera ter algo a dizer a quem nem estava aí se é morto o Almeida. Na maior parte do tempo, entre a surpresa e a dissimulação, estando eu num dos lados da equação, como sendo minha a parte indivisível e ímpar, embora embasbacada e caipira, ao me admitir atônito com a realidade. Proficiente.
Ou seja, veículo do conhecimento, o professor educa ao ser educado. O lugar e o momento motivam à necessidade dessa construção e de sua utilidade ─ concreta ou abstrata, física ou metafísica. Quem educa, aprende. Quem aprende, educa.
Já um dia estive em mim, e mais humano. Ignorante de que o material genético especificamente humano do homo sapiens sapiens não passa de um por cento e meio (sic). Há, então, um bicho híbrido em mim, essa mistura de vírus, bactérias e, até, ser humano. Muita calma, assevero.
Já um dia Newton leu o mundo, diante do Bufão com o vaso de tulipa nas mãos, orientou o Lorde para que se protegesse da trajetória do bólide? Ou, à sombra da macieira, especulou sobre os eventos? Como a vulgaridade ganha vidas, o Isaac da anedota segue emulado pela agilidade de Chuck Jones para troçar dos coiotes do mundo.
Assim sendo, muito embora o mundo não entre no homem pela mente, atreva-se a dominar o sono, escoteiro.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, 02 de dezembro de 2018.

domingo, 11 de novembro de 2018

A voz fundamental



A voz fundamental

É de quem tem o que dizer; ou é de quem acha que tem o que dizer e não para de repetir isso; ou é de quem pensa que o que tem para dizer é importante, basta dizê-lo para ser ouvido.
É a do primeiro violino quando o oboé já contou a sua parte, uma vez que uma ária, para contralto ou soprano, estaria fora de lugar, pois se trata de uma sonata para piano. Beethoven, a lua de novo?
É a da oradora da turma, eleita por colegas, quando todas as famílias dos alunos estão à espera das suas palavras, as mais recomendáveis para que a esperança ganhe fôlego com a nova geração. Falando como quem tem tudo para não se calar.
É a da mãe no domingo, que ela sabe que a macarronada só dá para a família, quando o cunhado vem juntar suas quatro barrigas ocas com as oito bocas residentes. Daí o acolhimento, pois tudo tem jeito quando damos um jeito.
É a do pastor, de Bíblia na mão, pensando que já um dia foi de usar calças curtas e camisa com o nome da escola, que ele foi de aprender que é dando que se reparte. Embora, por conta das circunstâncias da vida, tenha-o esquecido entre um depósito e outro. E pensar que teve a memória boa, até para ouvir-se.
É a do poeta que olha as formigas indo e vindo, sem parar, no trabalho pesado antes do inverno, durante o inverno, no meio da noite, em pleno meio-dia. É que a natureza anda apressada com as providências que não podem ser deixadas de lado, mesmo com o presidente eleito, mesmo com o preço do tomate, mesmo que chova na caatinga logo agora, às vésperas da Black Friday.
É a da criança descalça, nariz escorrendo, vindo pedir à saída da missa, a pedir pela sua alma, não a dela, a sua, a de quem me lê e olha para o celular, preocupado com o trânsito do final deste e de todos os domingos, faça sol ou chova. Além.
É do bem-te-vi que pousou no parapeito da minha janela na manhã de ontem, quando eu ainda estava deslumbrado com o céu estrelado da noite, percorrendo distâncias entre a lágrima e a saudade da minha cama. Na imagem, em pé no parapeito, com os nervos retesados, com um certo tremor nas coxas, pelo esgotamento da decisão postergada.
Aedes, ouvir-me responder com os reparos dos louvores não traz espinhos à palavra, nem neste domingo nem nas feiras de banal extração. Quero abonar o sentido da busca do basilar no mudo ou está perdida a oportunidade do silêncio?

Rodrigues da Silveira

Praia Grande, dia 11 de novembro de 2018.








terça-feira, 30 de outubro de 2018

A festa acabou


A festa acabou

Cumpridor de minhas obrigações, fui votar. Em mais um Dia do Senhor, o domingo, e lá fui eu praticar uma ação mundana. Profana? Laica, sem implícito mistério. De olho no visor, digitei os números e confirmei. Escolhi ir, não fui pela obrigatoriedade. A multa, afinal, é uma bagatela. Hoje, custar-me-ia R$ 3,51. É que me entusiasmaram as discussões, e decidi.
Com franqueza, tenho de confessar o inconfessável.
Fui votar, não em razão de minha cidadania exemplar. Por atuar em meu nome, fui achando que estava praticando um rito narcisista. Fui convencido a externar minha opinião pelo voto.
Por sinal, a vida vai instruindo-nos a pensar por nós. Com a cabeça da gente, mesmo.
Assim é que me lembro, sem dar exatamente com o porquê, de um evento de minha infância.
Morava em Ibiúna, interior de São Paulo. Em 1967, ou 68. Tinha quatro, cinco anos. Ainda nem havia entrado na escola, que naquele tempo começava no pré-primário, o prezinho.
Chovia. Passavam caminhões com a carroceria coberta por lona camuflada. Predominava o marrom. Ou exibia a estampa atual, verde oliva? Sei lá. Só sei que os homens fora da chuva estavam armados, de capacete. Uniformizados, e gentis.
Se não me traio, acenaram de volta. Tão logo acenei.
Por que fiz aquilo? Aquilo era perigoso, gesto impensado, um aceno fora de hora endereçado a quem não devia. Daí que me puxaram para longe do vão da janela, e fecharam rápido.
Éramos três à janela: a minha irmã, alguns anos mais velha que eu; a empregada que tomava conta da casa na ausência dos meus pais, que trabalhavam fora; e esse moleque que não pensava direito e já ia dando tchau, assim, incontinenti.
Por que a gente pega da memória um cadinho de sua água?
Para mim, aquele 68 ainda não acabou. E nem tem pinta de que pretenda acabar tão cedo.
Essa rememoração? Por alguma obscuridade.
Assim como não sei dizer por quais motivos os 31.371.417 cidadãos, eleitores, não compareceram às urnas.
Abstiveram-se do quê?
Só vou saber depois da posse. Então, resignado, aceito que a resposta fique para 2019.
Peço apenas para esperar até o sexto dia de março. Será a próxima quarta-feira de cinzas...
Meu pedido não é outra molecagem. Embora eu possa estar mal acostumado, agindo com quem anda abusando, achando normal sair Brasil afora pedindo coisas razoáveis.
Perdão, mas eleições não são a festa da democracia?

Rodrigues da Silveira

Praia Grande, dia 30 de outubro de 2018.




domingo, 28 de outubro de 2018

Noves dentro



Noves dentro

Em quaisquer dos campos do conhecimento relacionados às coisas humanas, pergunto-me: aproveitar um conceito do presente para fixar uma explicação do passado ou valer-se de um conceito do passado para formular uma explicação do presente? Nenhuma das anteriores. Empregar um conceito do presente para tentar alguma explicação do presente é de minha preferência. Preferência, pois vivo aqui e agora.
Em português simples e direto. Para fugir a mistificações.
Eu busco assento na palavra, como diria o Ruy Castro, este veículo em que, digo eu, alcanço me ajeitar menos desconfortável ao passar meus olhos no mundo, na realidade com a qual tenho de lidar e nas gentes que se relacionam comigo de toda sorte de modos.
Boas maneiras em meio a muita informação?
Faço de mim o experimento a me educar. Para a vida e com a vida. Reflito-me. As retinas como filtro. Os tímpanos como radar. As narinas como sonda. As papilas como bússola. A mente e o corpo em comunicação e diálogo, permanentes. Especulo-me. Para que as digitais não contaminem com as minhas identidades o inaceitável, o intolerável, o antipático.
O zumbido dos tempos faz a rosa girar, e rodar.
Nada de certo ou errado. Apesar do certo e do errado.
O trânsito entre as verdades por vezes, e muitas vezes, não traz a chave para a fechadura. A porta segue impávida.
Acabo de fora? Chego atrasado à festa? Com as mãos no bolso? Com a boca lacrada pelo voto?
Perco a alegria. Não paro de aprender a ganhar em alegria, para melhor perdê-la. Contradizer-me, dissolver-me, já que fui névoa, já que serei outra nódoa. Habitar-me, sem habituar-me ao portal de mármore. Penso. E não desisto de pensar. Sinto. E não desisto de sentir.
Ainda há quem fale, ouço ainda as vozes, e lutarei para nos ouvirmos ainda. Pelo pouco que posso saber?
Ferro em brasa, Carlos, sou uma chave.
Eis o homem do povo que não teme o sol, a chuva, o vento, e medra em solo inculto. Entre o possível e o provável, erro a mão. À margem de mim, por que não caibo no número que me cabe? Punição pelo envolvimento, obviamente.
Amor, na conta de cabeça. Humor, na ponta do lápis.
Vem daí, da soma dos nulos, dos brancos, das abstenções e dos votos nos candidatos que ficaram pelo caminho, é desta álgebra elementar que me chega, em conclusão, que o futuro não é mais como era antigamente.
Este é o momento. Aqui é o lugar.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 28 de outubro de 2018.

quinta-feira, 25 de outubro de 2018

Pensamento lógico





Pensamento lógico

O voto é secreto. Então?
No próximo domingo, dia 28 de outubro de 2018, teremos o segundo turno das eleições e o nome do novo presidente da República sairá das urnas. Para o bem e para o mal, haverá de sair das urnas um escolhido.
Escolhido, e não o vencedor. Não haverá um vencedor nem sequer um derrotado. Porque eu elejo esta minha presunção: a de negar algum crédito racional com o voto.
O voto é secreto, lembra-se?
Minha maneira de pensar pouco importa, porque votarei. O voto não é a expressão do que penso, desejo, e do que pareço entender como escolha. A urna trará manifesto o escolhido que irá julgar o que penso. Discreta, por natureza, a urna berrará nos ouvidos do escolhido que ele pode tomar para si a decisão de dizer o que quero. Meu desejo é o resultado do que escolho, não do que posso desejar. Desejo, esse inconsciente.
O voto é secreto, tão sensível ao inconsciente.
Nem preciso de coragem para admitir a covardia de não ter a visão precisa de mim. O que é preciso? A balela da vez. O quanto me enojo. Por minha inutilidade quanto aos dados computados,  às miudezas de classe, idade, região, escolaridade, da crença no Redentor.
Depois? O voto é secreto.
Não teclo na urna a hipótese que me tira das ruas ou me faz seu morador. A facilidade complica. Meu corpo não vota contra ou a favor de um teto todo meu, e só por minha escolha. A rua escapa ao voto. Uma cifra teclada não é passaporte nem dá voz a quem normativamente escolhido. Urna consultada, urna somada. Silenciado, o voto.
Afinal, o voto é secreto. Não faço ideia do que o escolhido pensa de mim. Pouco importa. O escolhido precisa do voto, elo a subtrair ─ soma é abate. O poder de escolha escapa do voto. O voto acelera a mão que balança a rede. A rede, mortalha de mil milhares de almas em busca de um rosto, o do escolhido.
O voto é secreto?
Liberdade. Fraternidade. Igualdade. Minha é a náusea. Sem trazer à baila a Tríade Freudiana. Por que não tenho a opção da escolha? O instante de hesitação. O momento de raciocínio. Obrigatório é o voto. Ou não será voto. Quanto a mim, não me cabe nenhuma convicção em contrário.
E quando a dúvida deixa de sê-lo, passo a agir na cláusula pétrea da minha verdade. Que me falhem as palavras. Não me faltem. Optando por mim, não opto pelos demais.
Ademais, reduzido ao sincero, secreto o meu voto.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 25 de outubro de 2018.

terça-feira, 23 de outubro de 2018

Em tempo



Em tempo

Como a guarita de vigilância fica ao lado do portão de entrada do edifício onde moro, costumo parar para conversar com seu Josué, o incansável faz-tudo do condomínio.
Os assuntos acabam sendo os do dia a dia ─ se vai chover; se logo mais o Cruzeiro será campeão sobre o Timão; se é verdade que o Bolsonaro caçará o título de Padroeira do Brasil de Nossa Senhora da Conceição Aparecida.
Isso e mais aquilo, mas sem alvoroçar o gogó e sem o entusiasmo descabelante dos fanáticos. Mantemos a civilidade: eu, na minha fé de levantar outro caneco em nossa casa, e o mineiro, que não disfarça o otimismo azul por sua Raposa.
De cara, pelo que tem chovido nas últimas semanas e com o céu fechado que não permite alguma nesga para o sol, opto pela chuva vespertina, ao que me segue já agora um desalentado jardineiro, olhando no arbusto a copa indisciplinada, toda túrgida de tão verdejante.
Gosto de gente assim, cuja conversa não é de quem fica de papo para o ar. Eis que pronto se faz a hora, e como ambos não matamos o dia curtindo tudo que nos enviam pelos grupos zapianos, vamos à luta.
O zelador trata de pegar na caixa do correio as correspondências, para vir distribuindo-as do sétimo andar ao térreo. Despede-se de mim, e some prédio adentro.
De minha parte, vou-me embora para a escola, pois lá tenho alunas e alunos à minha espera. E nesta quarta de tantas inquietações, está agendada uma produção textual a partir da leitura de um poema do Luiz Gama, Saudades do Escravo.
Preciso esquecer o jogo noturno, pois nem quero pensar que vão usar o VAR, esse recurso que tanto estrago fez nos campos da Rússia. Em pleno século 21, o ser humano depender das lentes da tecnologia para abrir os olhos para o que vê?
Tudo certo, tudo em ordem. Como o cronista já sabe do hexa celeste, melhor mudar o assunto.
Afinal, estou encafifado... Por que não bolam algum treco eletrônico de ponta que faça chegar ao Tribunal de Justiça de São Paulo a decisão (de 2014) do Superior Tribunal de Justiça quanto às responsabilidades do que fazia em 1971 o coronel Ustra.
Como diz o sábio, momentos há para falar e para calar.
Bendito VAR!

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 18 de outubro de 2018.