Agora
hoje
Há mais de meio século venho colhendo
abóboras, isso me fez compreender que, de uma hora para outra, expressões vêm
infestar a comunicação. Porém não o fazem como abobrinhas, que são fonte de
nutrientes necessários ao bom funcionamento do corpo de quem não é alérgico a
elas.
Faço referência a abóboras, abobrinhas
e, logo acrescento, a abotoaduras, por causa de um sacerdote da Paróquia Nossa
Senhora das Dores de Ibiúna. Como quem não perderia tempo em adaptar-se à
vulgaridade da nossa casualidade nos trajes e nos costumes, era missionário, e veio
da China.
Se por um segundo, o interlocutor
desavisado via a capa do janota, era no instante seguinte, entretanto, que o
pragmatismo ecumênico do cura exibia as suas páginas mais tolerantes, de vigário
consciente do trabalho a que estava destinado a fazer no Brasil.
Sem informações, seria por minha conta
a garantia de que o clérigo viera do país de Confúcio para algum rincão mil
vezes mais pecador do que a minha cidade natal. Sempre tive para mim que o sol
tupinambá já tinha feito a gentileza de assentar a batina à vênia capital do
roliço orientador, deveras espiritual.
Espirituoso, desafiando-nos com o
xadrez, o padre trazia os coroinhas para a casa paroquial e, então, conversava
conosco sobre virtudes e pecados. Embora estivesse atento à formação de almas,
o nosso Buda bonachão era tão sedutor porque agia sem a ladainha pétrea de um
colonizador.
Procedimento bem distante daquele
Fernando Pessoa que, crítico de certos preceitos do cristianismo, assinava, ortônimo,
que era lógico e legítimo o europeu civilizado sair mundo afora a escravizar e
obrigar “povos selvagens” a adotar elementos de civilização, todavia “sem
o degenerado conceito igualitário, com que o cristianismo envenenou os nossos
conceitos sociais”.
Valha-me, Valium.
Alhos com bugalhos?
Perdoe-me a metafísica, o corpo impõe
limites. Na memória, ao pé da missa, não afogo o enxadrista e o menino. Esse
que é parecido comigo, semelhante àquele que poderia ter vindo. Na alegria, não
fosse este que o percebe e nutre. Inconfessável, e outro.
O circuito do tempo é curto.
Pelo pouco que me sei: celebro o instante
ao cuidar do dia. Meu tempo é hoje,
Paulinho da Viola. Meu tempo é agora,
Mãe Stella de Oxóssi.
Já hoje, o presente do instante? Logo
agora, o instante do momento? O momento do presente: agora hoje.
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, 01 de janeiro de 2019.

