a face do besta
o poema, voz que
corre
as portas,
fabrica escadas,
não espera a
palavra ganhar
peso, perdida
dos trilhos.
o ruído, a
falha, o que descarrila.
à falta de
folhas novas,
o tormento de um
horizonte
menos azul, já
gasto, oxidado.
é tamanha a
necessidade
de um abraço,
dos afagos,
em
reconhecimento.
no pátio, visto
o que sobra.
quem usa o
silêncio como um ímã?
a locomotiva
incendiada,
as vidraças
perfuradas dos carros,
os bilhetes
amassados,
a estação imersa
nas neblinas.
a página
decifrada, avolumado mistério.
tal a composição
revelada.
sorri, o incapaz
do riso.
palavras mudam
um verso; o verso, nada.
um não sei quê
que quebra
a fala pelo que
não diz,
se, por suposto,
supõe ter dito,
pondo em
suspeita o que se pensa,
já no pensado,
já no dispensado.
quem mais lê as
limalhas como paralelas?
quem amealha em
paz?
alguém que ama,
por amar-se; por amá-lo, atém-se
a esse, feito
outro, como a ninguém.
desconfiado do eco,
filtra o dom
nos mesmos
ossos; noutro sono, esqueleto
já feito
ninguém.
fecal, a voz do
banal foca o bocal:
esse espécime,
um indivíduo, o pobre.
à toa, à toa,
fracassamos, essa é a trilha
─ outro dos
nossos fracassinhos bestas, né?
(rodrigues da silveira, 2014)