sexta-feira, 27 de julho de 2018


a face do besta


o poema, voz que corre
as portas, fabrica escadas,
não espera a palavra ganhar
peso, perdida dos trilhos.

o ruído, a falha, o que descarrila.

à falta de folhas novas,
o tormento de um horizonte
menos azul, já gasto, oxidado.
é tamanha a necessidade
de um abraço, dos afagos,
em reconhecimento.

no pátio, visto o que sobra.
quem usa o silêncio como um ímã?

a locomotiva incendiada,
as vidraças perfuradas dos carros,
os bilhetes amassados,
a estação imersa nas neblinas.
a página decifrada, avolumado mistério.
tal a composição revelada.

sorri, o incapaz do riso.
palavras mudam um verso; o verso, nada.
um não sei quê que quebra
a fala pelo que não diz,
se, por suposto, supõe ter dito,
pondo em suspeita o que se pensa,
já no pensado, já no dispensado.
quem mais lê as limalhas como paralelas?
quem amealha em paz?
alguém que ama, por amar-se; por amá-lo, atém-se
a esse, feito outro, como a ninguém.

desconfiado do eco, filtra o dom
nos mesmos ossos; noutro sono, esqueleto
já feito ninguém.

fecal, a voz do banal foca o bocal:
esse espécime, um indivíduo, o pobre.

à toa, à toa, fracassamos, essa é a trilha
─ outro dos nossos fracassinhos bestas, né?

(rodrigues da silveira, 2014)

Nenhum comentário:

Postar um comentário