quarta-feira, 27 de junho de 2018


a culpa


tem a gramática, arma a sua teia quando fala.
quer domar a fala: prepara a cova, não a sepultura.

contra o que pensamos, dizemos o pedido;
sem a colheita do massapê, escolhemos o chão mais nosso.

desconhece a espera, engrandece o silêncio,
como quem tem o dever de dar ao morto o direito à morte.

cada um arranca de si o ferrão, nas coxas;
cada qual carranca-se em vespeiro, dia após dia.

sabe da lua, pouco diz sobre o luar;
com olhos fundos, emenda-se um boneco à escuridão subordinada.

há tanta mágoa entre as papilas tensas;
e sem mel, salivamos e aferramo-nos ao ferrão da vespa.

cada poeta faz entender por que se cala;
cada lapso traduz em eclipse o desespero, fazendo azedo o poema.

(2016)


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