A
fila manda
Lá vem o cronista falar de
acontecimentos prosaicos. Aos mísseis contra escolas, sabão e leite. De novo,
ele toca a sua flauta para que as palavras fiquem organizadas. Outra vez, o escriba
do chão da vida piscará que as entrelinhas sangram.
O seu método é sentar a bunda, escrever
e, terminado o trabalho, deixar-se à vida. Por três vezes na semana, põe gosto
de indicar que a vida é isso, e isso passa.
No batidão irreparável, a crônica trata
de reciclar clichês?
Foi o que houve ontem. Ele preparava o
almoço. Tinha a frigideira, o fogo e o bacon. A campainha soou. A prioridade
ficou sendo ir ver o que queriam. Na volta à cozinha, teve que abrir a janela.
Como o contratempo o chateou, largou o
que podia terminar. Saiu. Não tinha bacon onde almoçou. Na televisão, tinha as
medalhas dos generais.
Já que houve dias que era preciso usar
uniforme, reconheceu uma das suas professoras. Ambos com rugas. A rua nem
reparou.
Ela disse que dirigir não era um
problema. As confusões surgiam por causa do controle do alarme: o dono corria
impedi-la de levar o carro que nem era dela.
Por falta de carro, o cronista tinha
pés. Se dirigia pra onde queria. Podia inventar uma finalidade de momento.
Que alívio. A cidade levou-o ao endereço
exato.
Sem drones a marcá-lo, entrou na
farmácia. Comprou o que tinha acabado. Incluiu dois itens em promoção: lâmina
de barbear e band-aid. Como não é alvo: não fez a barba ali mesmo.
Por conta de uma antologia que anda
preparando, passou a tarde reescrevendo. Risca daqui. Rabisca dali. E a guerra
continuava.
Os pernilongos deram a deixa: as janelas
ainda estão abertas.
Atento aos pernilongos que têm voz
quando precisam ser ouvidos, fechou as janelas, ligou o repelente e foi tomar
banho.
A irritação sumiu com a água; os fios de
cabelos, não.
Depois de limpo, o ralo tascou-lhe:
― Vai, amigão. Com a coluna em
pandarecos, tente fugir do xis na sua testa.
Antes o tivesse ouvido. Uma vez desafiado,
pôs-se ereto. O tal xis havia se deslocado, ao estralar: dói a cerviz. Agora
ereta.
O ralo? Ora essa. O ralo fez o que um
ralo fanfarrão sabe fazer de melhor: gargalhou.
E gargalhada assim faz o palerma se mijar.
O cronista não mijou, ele tinha trabalho a fazer. Aí, mijou. O xis que vá pro
caramba.
Achando que podia sentir-se aliviado, o
cronista escolheu encurtar a travessia. É sério. Ele não tem preparo mental pra
vestir a carapuça de salvador do mundo. Ele escreve, e não se salva.
No supermercado, a professora da véspera
recomenda o seguinte procedimento: compare-se este produto com os concorrentes,
leia-se os rótulos e a escolha seja feita pelo que é avaliado menos danoso.
Ao abrir a carteira, a nota ignora o
cronista.
A caixa pega a nota, verifica se a onça
é verdadeira e dá o troco.
Antes que ela o chame, o freguês seguinte
se adianta.
Até o general da tevê sabe de antemão: é
óbvio falar que a pressa tem sempre razão, só que mais rentável é vencer.
Honra ao mérito?
O xis da questão: os mísseis não erram.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 01 de março de 2026.
Nenhum comentário:
Postar um comentário