domingo, 1 de março de 2026

A fila manda

 

A fila manda

 

Lá vem o cronista falar de acontecimentos prosaicos. Aos mísseis contra escolas, sabão e leite. De novo, ele toca a sua flauta para que as palavras fiquem organizadas. Outra vez, o escriba do chão da vida piscará que as entrelinhas sangram.

O seu método é sentar a bunda, escrever e, terminado o trabalho, deixar-se à vida. Por três vezes na semana, põe gosto de indicar que a vida é isso, e isso passa.

No batidão irreparável, a crônica trata de reciclar clichês?

Foi o que houve ontem. Ele preparava o almoço. Tinha a frigideira, o fogo e o bacon. A campainha soou. A prioridade ficou sendo ir ver o que queriam. Na volta à cozinha, teve que abrir a janela.

Como o contratempo o chateou, largou o que podia terminar. Saiu. Não tinha bacon onde almoçou. Na televisão, tinha as medalhas dos generais.

Já que houve dias que era preciso usar uniforme, reconheceu uma das suas professoras. Ambos com rugas. A rua nem reparou.

Ela disse que dirigir não era um problema. As confusões surgiam por causa do controle do alarme: o dono corria impedi-la de levar o carro que nem era dela.

Por falta de carro, o cronista tinha pés. Se dirigia pra onde queria. Podia inventar uma finalidade de momento.

Que alívio. A cidade levou-o ao endereço exato.

Sem drones a marcá-lo, entrou na farmácia. Comprou o que tinha acabado. Incluiu dois itens em promoção: lâmina de barbear e band-aid. Como não é alvo: não fez a barba ali mesmo.

Por conta de uma antologia que anda preparando, passou a tarde reescrevendo. Risca daqui. Rabisca dali. E a guerra continuava.

Os pernilongos deram a deixa: as janelas ainda estão abertas.

Atento aos pernilongos que têm voz quando precisam ser ouvidos, fechou as janelas, ligou o repelente e foi tomar banho.

A irritação sumiu com a água; os fios de cabelos, não.

Depois de limpo, o ralo tascou-lhe:

― Vai, amigão. Com a coluna em pandarecos, tente fugir do xis na sua testa.

Antes o tivesse ouvido. Uma vez desafiado, pôs-se ereto. O tal xis havia se deslocado, ao estralar: dói a cerviz. Agora ereta.

O ralo? Ora essa. O ralo fez o que um ralo fanfarrão sabe fazer de melhor: gargalhou.

E gargalhada assim faz o palerma se mijar. O cronista não mijou, ele tinha trabalho a fazer. Aí, mijou. O xis que vá pro caramba.

Achando que podia sentir-se aliviado, o cronista escolheu encurtar a travessia. É sério. Ele não tem preparo mental pra vestir a carapuça de salvador do mundo. Ele escreve, e não se salva.

No supermercado, a professora da véspera recomenda o seguinte procedimento: compare-se este produto com os concorrentes, leia-se os rótulos e a escolha seja feita pelo que é avaliado menos danoso.

Ao abrir a carteira, a nota ignora o cronista.

A caixa pega a nota, verifica se a onça é verdadeira e dá o troco.

Antes que ela o chame, o freguês seguinte se adianta.

Até o general da tevê sabe de antemão: é óbvio falar que a pressa tem sempre razão, só que mais rentável é vencer.

Honra ao mérito?

O xis da questão: os mísseis não erram.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 01 de março de 2026.

 


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