domingo, 8 de março de 2026

Cinco minutinhos

 

Cinco minutinhos

 

De repente, a imagem fica travada. Desligo o aparelho. Tiro o fio da tomada. Acompanharei o ponteiro até que se completem cinco minutos ― tempo para a tevê esquecer-se de que houve travamento.

Imagino que objetos têm habilidades. Eu mesmo tenho esta: perco a paciência quando sou testado.

Destravo fácil: vou à varanda. E topo fumar.

Eventualmente, quando a cachola sussurra que sou um sujeitinho bem impaciente, roo a unha.

Assumo o papel. Quero melhorar a minha atuação. E minha boca é um apontador. Daí a unha ficar pontiaguda e restar cotó.

Coitado do mindinho? Qual o quê!

Engraçado, este lápis não me engana: é um rabinho.

Juiz da situação, movo o dedinho. Delibero. Lembro-me do sal com que tantas vezes salpiquei lesmas, lacraias, minhocas e taturanas.

Sei o que os meus miolos não entendiam: a criança que usava o sal como queria ensinará ao adulto que as lesmas e taturanas espumam, morrem e gritam.

Na plenitude dos meus poderes: continuo surdo.

A saída é abrir uma boca. Ou parafusar um umbigo. Vê-lo banguela. De tanto ser lambido, espanado.

Sem rangidos nem prurido, o meu juízo sentencia: é espantoso uma minhoca subir pela fenda afora.

Não sei de pai que não goste de acariciar o próprio umbigo.

Se tem quem use a unha do mindinho para tirar sujeirinhas, por que meu pai não lamberia o dedo depois de cheirá-lo?

Jamais o vi enfiar sal naquilo. Ele deixava o umbigo por dentro da camisa. E todos os botões ficavam fechados.

Eu olhava. Nem relava o mindinho na goela. Argh!

Ao vê-lo enfiar a mão entre um botão e outro, era óbvio que ele não estava meditabundo. Sem piscar, eu corria. Adorava o Batman, e não um Adam West da vez.

Para negar que ele fosse um Napoleão pinel, a camisa combinava com a gravata. Embora a autoridade dele fosse melhor expressa pelo manejo da cinta.

Como nunca usei camisa com todos os botões fechados, a minha bunda sabia o quanto eu devia amar a cinta de papai.

Mas o grande amor do meu pai era café.

Bater na minha bunda com cinta era tão somente uma paixão: batia e pronto. Nem perdia o sono com isso.

Se um aborrecimento o impedia de tomar café quando era hora, eu sabia que ele ferveria o leite. Por gostar de nata, o leite até derramava da caneca.

Sempre que vem à língua a nata naquele copo, tenho mais certeza de que salivar me perturba. E preciso fumar.

Um moço dá o cigarro, acende-o e vai-se embora.

Vendo-o ir pela calçada, minha mente trava nesta ideia: a televisão é o sal que conserva a juventude.

Não há visualização que se apague quando a conexão liga o dedo que aperta o controle à tela em que Ferruccio Furlanetto manda ver a sua “Madamina, il catalogo è questo”.

Sei, sinto e saboreio: Leporello fuma comigo.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 08 de março de 2026.

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