Cinco
minutinhos
De repente, a imagem fica travada. Desligo o aparelho. Tiro o fio da tomada. Acompanharei o ponteiro até que se completem cinco minutos ― tempo para a tevê esquecer-se de que houve travamento.
Imagino que objetos têm habilidades. Eu
mesmo tenho esta: perco a paciência quando sou testado.
Destravo fácil: vou à varanda. E topo
fumar.
Eventualmente, quando a cachola sussurra
que sou um sujeitinho bem impaciente, roo a unha.
Assumo o papel. Quero melhorar a minha
atuação. E minha boca é um apontador. Daí a unha ficar pontiaguda e restar cotó.
Coitado do mindinho? Qual o quê!
Engraçado, este lápis não me engana: é
um rabinho.
Juiz da situação, movo o dedinho. Delibero.
Lembro-me do sal com que tantas vezes salpiquei lesmas, lacraias, minhocas e taturanas.
Sei o que os meus miolos não entendiam: a
criança que usava o sal como queria ensinará ao adulto que as lesmas e
taturanas espumam, morrem e gritam.
Na plenitude dos meus poderes: continuo
surdo.
A saída é abrir uma boca. Ou parafusar
um umbigo. Vê-lo banguela. De tanto ser lambido, espanado.
Sem rangidos nem prurido, o meu juízo sentencia:
é espantoso uma minhoca subir pela fenda afora.
Não sei de pai que não goste de acariciar
o próprio umbigo.
Se tem quem use a unha do mindinho para tirar
sujeirinhas, por que meu pai não lamberia o dedo depois de cheirá-lo?
Jamais o vi enfiar sal naquilo. Ele deixava
o umbigo por dentro da camisa. E todos os botões ficavam fechados.
Eu olhava. Nem relava o mindinho na
goela. Argh!
Ao vê-lo enfiar a mão entre um botão e
outro, era óbvio que ele não estava meditabundo. Sem piscar, eu corria. Adorava
o Batman, e não um Adam West da vez.
Para negar que ele fosse um Napoleão pinel,
a camisa combinava com a gravata. Embora a autoridade dele fosse melhor
expressa pelo manejo da cinta.
Como nunca usei camisa com todos os
botões fechados, a minha bunda sabia o quanto eu devia amar a cinta de papai.
Mas o grande amor do meu pai era café.
Bater na minha bunda com cinta era tão
somente uma paixão: batia e pronto. Nem perdia o sono com isso.
Se um aborrecimento o impedia de tomar
café quando era hora, eu sabia que ele ferveria o leite. Por gostar de nata, o
leite até derramava da caneca.
Sempre que vem à língua a nata naquele
copo, tenho mais certeza de que salivar me perturba. E preciso fumar.
Um moço dá o cigarro, acende-o e vai-se
embora.
Vendo-o ir pela calçada, minha mente
trava nesta ideia: a televisão é o sal que conserva a juventude.
Não há visualização que se apague quando
a conexão liga o dedo que aperta o controle à tela em que Ferruccio Furlanetto
manda ver a sua “Madamina, il catalogo è questo”.
Sei, sinto e saboreio: Leporello fuma
comigo.
Rodrigues da Silveira
Ibiúna, dia 08 de março de 2026.
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