terça-feira, 3 de março de 2026

A pitada de coentro

 

A pitada de coentro

 

Eu estava sentado. E queria continuar sentado.

O que não acarretou menoscabo a quem me mostrou sua caixinha de balas. Na voz do vendedor, meus ouvidos não captaram entretons.

O que me fez comprar as balinhas foi singelo: se alguém que tira o sustento do próprio esforço não tentou me convencer de que a minha boca teria que ser solidária, essa pessoa estava mais abatida.

Puxei conversa.

Por lógica elegante, encadeei: ele e eu estávamos esgotados; ele vendia balas e eu matutava esta crônica; por causas distintas, um ao outro, nós nos entretivemos.

Ele contou que às sete já estava trabalhando. Tinha de aproveitar que o sol ainda não estava forte. Já que a pernada da casa ao centro era puxada, ele corria dos cães que atiçava.

Para abordar as pessoas fora da padaria, ele vendia três salgados pelo preço de dois. Nem assim rendia.

Ele já não tinha mais de uma garrafa térmica. Quando vendia café, tinha de ir e vir de casa com o café tirado na hora. E perdia tempo.

Com duas garrafas, houve uma época em que o seu pai ia e vinha com o café quente. Bastava pegar a cheia.

Das duas, a avó vendeu uma. E o seu irmão ganhou um bolo.

― E nem era o aniversário dele. Se morasse com a gente, a minha mãe impediria uma burrice dessas.

Isso não ajudou a aumentar as vendas. Mas os salgadinhos eram feitos pela sua avó.

Por causa do coentro seco, o que mais vendia eram os quibes. Os simples e os recheados com requeijão. Os simples vendiam bem.

Os dias de feira eram chatos, ele tinha que acordar às seis. Como as pessoas gostavam de garapa, junto elas comiam bolovo.

― Com garapa, mais gostoso é pastel. Só não falo pra ninguém.

A sua mãe foi embora. O pai dizia que a cama de casal ocupava muito espaço. A avó vivia a defender que o beliche juntava os netos. Ele nem sente tanto frio, já que a sua avó faz sopa na janta.

Já a sua mãe...

― Se ela fazia sopa, eu não lembro. Ela deixou a gente quando eu tinha três anos. Só lembro da vez que me pôs no colo. A gente andou no carrossel.

Na melhor vez que andou no carrossel, uma prima o beijou.

― Não foi beijo de boa noite, arrepiei de tão gostoso.

Por causa das festanças da emancipação do município, na cidade estava montado um parque de diversões.

Ele ficava babando era com o bate-bate.

― Todo ano, saio batendo o mais que consigo. Nunca enjoo. Pode ser que um dia eu pare. Quando ficar mais velho, não sei do que vou gostar de fazer. Só vou saber quando eu tiver quinze anos, né?

Disse-lhe que gostava de nadar. Divertido pra caraca era fugir. Era uma barafunda dos diabos. Correr, vestir-se e não olhar para trás: era muito engraçado escapulir dos funcionários do clube.

― O senhor nadava onde nem era sócio?

Até pensei em falar que nadava pelado, mas veio um freguês.

O homem comprou as dez balas da oferta do dia. Do outro lado da rua, uma mulher acenou. E lá se foi o insípido.

O rapaz não azedou. Nem foi tinhoso:

― Tenha um dia bom, senhor.

Olhei no relógio. Eram onze e meia.

― Valeu o papo, rapaz.

Escrevendo isso aqui, vim temperar o meu cansaço.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 03 de março de 2026.

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