A
pitada de coentro
Eu estava sentado. E queria continuar
sentado.
O que não acarretou menoscabo a quem me mostrou
sua caixinha de balas. Na voz do vendedor, meus ouvidos não captaram entretons.
O que me fez comprar as balinhas foi singelo:
se alguém que tira o sustento do próprio esforço não tentou me convencer de que
a minha boca teria que ser solidária, essa pessoa estava mais abatida.
Puxei conversa.
Por lógica elegante, encadeei: ele e eu estávamos
esgotados; ele vendia balas e eu matutava esta crônica; por causas distintas,
um ao outro, nós nos entretivemos.
Ele contou que às sete já estava trabalhando.
Tinha de aproveitar que o sol ainda não estava forte. Já que a pernada da casa
ao centro era puxada, ele corria dos cães que atiçava.
Para abordar as pessoas fora da padaria,
ele vendia três salgados pelo preço de dois. Nem assim rendia.
Ele já não tinha mais de uma garrafa
térmica. Quando vendia café, tinha de ir e vir de casa com o café tirado na
hora. E perdia tempo.
Com duas garrafas, houve uma época em
que o seu pai ia e vinha com o café quente. Bastava pegar a cheia.
Das duas, a avó vendeu uma. E o seu
irmão ganhou um bolo.
― E nem era o aniversário dele. Se morasse
com a gente, a minha mãe impediria uma burrice dessas.
Isso não ajudou a aumentar as vendas.
Mas os salgadinhos eram feitos pela sua avó.
Por causa do coentro seco, o que mais
vendia eram os quibes. Os simples e os recheados com requeijão. Os simples
vendiam bem.
Os dias de feira eram chatos, ele tinha
que acordar às seis. Como as pessoas gostavam de garapa, junto elas comiam
bolovo.
― Com garapa, mais gostoso é pastel. Só
não falo pra ninguém.
A sua mãe foi embora. O pai dizia que a cama
de casal ocupava muito espaço. A avó vivia a defender que o beliche juntava os
netos. Ele nem sente tanto frio, já que a sua avó faz sopa na janta.
Já a sua mãe...
― Se ela fazia sopa, eu não lembro. Ela
deixou a gente quando eu tinha três anos. Só lembro da vez que me pôs no colo.
A gente andou no carrossel.
Na melhor vez que andou no carrossel,
uma prima o beijou.
― Não foi beijo de boa noite, arrepiei
de tão gostoso.
Por causa das festanças da emancipação
do município, na cidade estava montado um parque de diversões.
Ele ficava babando era com o bate-bate.
― Todo ano, saio batendo o mais que
consigo. Nunca enjoo. Pode ser que um dia eu pare. Quando ficar mais velho, não
sei do que vou gostar de fazer. Só vou saber quando eu tiver quinze anos, né?
Disse-lhe que gostava de nadar. Divertido
pra caraca era fugir. Era uma barafunda dos diabos. Correr, vestir-se e não
olhar para trás: era muito engraçado escapulir dos funcionários do clube.
― O senhor nadava onde nem era sócio?
Até pensei em falar que nadava
pelado, mas veio um freguês.
O homem comprou as dez balas da oferta
do dia. Do outro lado da rua, uma mulher acenou. E lá se foi o insípido.
O rapaz não azedou. Nem foi tinhoso:
― Tenha um dia bom, senhor.
Olhei no relógio. Eram onze e meia.
― Valeu o papo, rapaz.
Escrevendo isso aqui, vim temperar o meu
cansaço.
Rodrigues da Silveira
Ibiúna, dia 03 de março de 2026.
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