quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

O bom ouvinte

 

O bom ouvinte

 

Falo ao telefone. O meu amigo e eu deixamos de fora da conversa os pormenores disso e daquilo que fizemos ontem. Gostamos um do outro. Não nos aporrinhamos. Piadas surgem sem forçarmos. Rimos. Somos leves. O nosso papo termina sem anunciarmos o que faremos. Só replicamos: até mais ver.

Como o telefone toca em seguida, disparo contar-lhe que havia me esquecido de comentar a decisão de um amigo nosso.

Ele me disse que iria tirar férias.

Contou que passará uma semana nas Minas Gerais. Acrescentou que a chácara fica no interior. Disse um nome de cidade que me soou inventado: Maquiné.

Como eu queria que a conversa fosse espirituosa, fiz graça. Ele não gostou quando perguntei se o dono era vampiro. Paciência, eu não tive como me segurar. Além de ficar num lugar cujo nome é trocadilho com “máquina”, a propriedade era Sagarana.

Para me fazer gargalhar, o proprietário se chama João. Ele trocou a medicina pela pecuária. Ele tem vacas, bois. O meu amigo é tinhoso. Deixou o ápice para o fim: o dono da Sagarana, destes palmos de chão de Maquiné das Minas, esse João que trocou o consultório pelo pasto, é sua maestria com a palavra que o faz famigerado como o demo.

― Deixe de disparate! Só porque ele também é diplomata, você não tem que confundir o João com o Guimarães Rosa.

Tratei de falar sério. Mostrei-me curioso. Não fui irônico ao afirmar que o tal João deve ter trocado o estetoscópio por um berrante porque os seus pulmões têm potência. Em vez de auscultar as cavidades das gentes, agora ele gosta de se fazer ouvir por bestas e abestados.

― Pare com pilhérias. O João é um homem prestimoso.

Dia ou noite, muitos aflitos procuravam-no para que desse cabo de certa doença. O mal se espalhou rápido. Gente pobre e gente rica, toda gente viu-se afetada.

Ele olhava nos olhos. Dizia que “cefaleia” e “dor de cabeça” eram a mesma coisa. Lembrava que mãos sempre têm que ser lavadas. Dava copo d’água pro remédio ser tomado na hora. E entregava a cartela do analgésico. Passando os polegares sob os suspensórios, o João nem cobrava pela consulta. Sorria, e pronto.

Um homem maravilhoso, esse João.

Se não tivesse ligado de volta, eu perderia a chance de lhe falar a verdade. Nós sabemos que estas “férias” não programadas deviam ser tratadas como “tratamento de saúde”. É mesmo! Já que a cidade toda jura que ele anda “mal das pernas”.

― Ei! Você escutou? Eu disse: mal das pernas!

Finalmente, a mulher pode falar:

― Senhor, estamos ligando porque temos uma oferta que é válida apenas se for aceita durante este telefonema.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 26 de fevereiro de 2026.

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