sexta-feira, 21 de novembro de 2025

Paixões políticas

 

Paixões políticas

 

Livre é a pessoa que fala o que pensa quando ninguém pede a ela que diga o que se lhe passa pela cachola. Livre é a pessoa que dispara falar sem pesar o que resulta em quem a escuta. Livre é a pessoa que dá no pé quando a outra que tagarela sequer se deixa ser contraposta por argumentos éticos, deduções coerentes e diabólicas falácias. Livre é pender ao pueril, ser gente jocosamente mefistofélica.

Embora Mefistófeles desconverse, o riso liberta.

Por mim, já que me alegra falar por mim e não por Mefistófeles, digo que é divertido sentir o quanto risadinhas estreitam o fosso que separa jacaré e vilão. Certo de que o embate descambará em pugilato, prefiro que o entrevero vire tapa na cara e empurra-empurra a entronizar outro clichê, aquele em que entra em cena uma turba com tochas, ancinhos e gritos de morte ao monstro da colina.

Mefistófeles, meu camarada, agora é a minha vez de cutucá-lo, pois não vejo os políticos como aquele monstro protegido por jacarés.

Quando políticos esgrimem palavras, seja no Irã, no Japão ou em Eldorado do Borba Gato, o jacaré ouriçado vira piranha e solto o timão, vou à deriva, deixo os ventos enfunarem as velas, que me assaltem o riso, um riso nervoso e um risinho que não faz espumar, porque não é raivoso.

Pareço raivoso, mas estou só enfurecido.

A fúria pega quando estou concentrado, descontrolado, já sequioso de sangue, já a piranha desejando que a contenda vire uma carnificina, já o cardume adensando-se pelo meu sangue na água.

Sou mil piranhas. Para não pescá-las, cevo-as. Como entretêm, sou exagerado, multiplico-as, e são milhares, bilhões de neurônios, trilhões de sinapses, são o dedo a indicar a terra arrasada.

Quando a cachola dá espelho, Mefistófeles, lá eu sorrio.

Sorrio, não configuro a nauseabunda lama que apodreça o que me toca, o que venha a ficar putrefato. Como o fedor inebria, as palavras fazem a alma arder por fuzarcas, mil diatribes.

Viro andar na tábua e me jogo ao mar. E nadarei, lutarei para chegar à praia. Andarei, correrei, serei manada, alcateia, uma vara.

Na vara, o varão estufa o peito, ergue o queixo, seu olhar é de quem quer seviciar, escalpelar e empalar. Por seviciar, escalpelar e empalar, a pessoa escancara-me guerreiro, combatente, bastante viril.

Calço tênis, uso óculos e sorrio a cada vez que me elogiam o tênis, os óculos e por não ter comprado o troço, aquela pochete.

Como confetes alegram a alma, não estanco na vitrine, uso a tocha para iluminar certos políticos.

A certos políticos não basta ter umbigo, é capital que o umbigo seja o seu lugar preferido no mundo. Como é estimulante o mundo ser um palco, é primordial que haja um microfone. Para que haja sintonia entre público e umbigo, digo, político, é sintomático que o palco seja ocupado que nem palanque.

Mas, Mefistófeles, cê acha simpático vender isqueiro?

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 21 de novembro de 2025.

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