Livre
é a pessoa que fala o que pensa quando ninguém pede a ela que diga o que se lhe
passa pela cachola. Livre é a pessoa que dispara falar sem pesar o que resulta
em quem a escuta. Livre é a pessoa que dá no pé quando a outra que tagarela sequer
se deixa ser contraposta por argumentos éticos, deduções coerentes e diabólicas
falácias. Livre é pender ao pueril, ser gente jocosamente mefistofélica.
Embora
Mefistófeles desconverse, o riso liberta.
Por
mim, já que me alegra falar por mim e não por Mefistófeles, digo que é
divertido sentir o quanto risadinhas estreitam o fosso que separa jacaré e vilão.
Certo de que o embate descambará em pugilato, prefiro que o entrevero vire tapa
na cara e empurra-empurra a entronizar outro clichê, aquele em que entra em
cena uma turba com tochas, ancinhos e gritos de morte ao monstro da colina.
Mefistófeles,
meu camarada, agora é a minha vez de cutucá-lo, pois não vejo os políticos como
aquele monstro protegido por jacarés.
Quando
políticos esgrimem palavras, seja no Irã, no Japão ou em Eldorado do Borba Gato,
o jacaré ouriçado vira piranha e solto o timão, vou à deriva, deixo os ventos enfunarem
as velas, que me assaltem o riso, um riso nervoso e um risinho que não faz
espumar, porque não é raivoso.
Pareço
raivoso, mas estou só enfurecido.
A
fúria pega quando estou concentrado, descontrolado, já sequioso de sangue, já a
piranha desejando que a contenda vire uma carnificina, já o cardume
adensando-se pelo meu sangue na água.
Sou
mil piranhas. Para não pescá-las, cevo-as. Como entretêm, sou exagerado, multiplico-as,
e são milhares, bilhões de neurônios, trilhões de sinapses, são o dedo a indicar
a terra arrasada.
Quando
a cachola dá espelho, Mefistófeles, lá eu sorrio.
Sorrio,
não configuro a nauseabunda lama que apodreça o que me toca, o que venha a ficar
putrefato. Como o fedor inebria, as palavras fazem a alma arder por fuzarcas,
mil diatribes.
Viro
andar na tábua e me jogo ao mar. E nadarei, lutarei para chegar à praia. Andarei,
correrei, serei manada, alcateia, uma vara.
Na
vara, o varão estufa o peito, ergue o queixo, seu olhar é de quem quer seviciar,
escalpelar e empalar. Por seviciar, escalpelar e empalar, a pessoa escancara-me
guerreiro, combatente, bastante viril.
Calço
tênis, uso óculos e sorrio a cada vez que me elogiam o tênis, os óculos e por não
ter comprado o troço, aquela pochete.
Como
confetes alegram a alma, não estanco na vitrine, uso a tocha para iluminar
certos políticos.
A
certos políticos não basta ter umbigo, é capital que o umbigo seja o seu lugar preferido
no mundo. Como é estimulante o mundo ser um palco, é primordial que haja um microfone.
Para que haja sintonia entre público e umbigo, digo, político, é sintomático
que o palco seja ocupado que nem palanque.
Mas,
Mefistófeles, cê acha simpático vender isqueiro?
Rodrigues da Silveira
Ibiúna,
dia 21 de novembro de 2025.
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