terça-feira, 4 de novembro de 2025

Girassol descalço

 

Girassol descalço

 

Num átimo, percebo. Estou alterado. Sem que tenha controle sobre o que sinto, passo, de repente, a me sentir diferente. Me acho, que sim, porque busco respostas que não sejam as sabidas. Quero precisão na procura. É para encontrar-me nas repostas que sejam outras que, num átimo, quero achar o que nunca tenha procurado.

Em vão, o universo não faz noite o dia, não faz do vinagre um vinho fino, nem me faz perceber que faço o que nunca tenha feito.

Como acho o que faço, vejo-me na rua.

Estou a caminho, devo pagar contas. Contudo, devo ter saído muito cedo de casa, porque as lojas estão fechadas. Sei aonde vou, preciso ir, pois, embora a agência nem esteja aberta, vou pagar boletos.

Nem preciso calcular, nem sei das horas, sei que voltarei mais cedo que o costumeiro. Mesmo indo sob chuva, temendo escorregar, sei que ficarei na varanda. Dar-me-ei este tempo, a escutar a chuva.

Na caminhada, vou que nem preciso por onde me levo. Pensando, sentindo, achando que me levo a agir como outra pessoa a me orientar. Eu vá porque tenho deveres, que eles não são de mais ninguém.

Sim, eu sei, eu sinto, eu percebo: estou outro porque me sinto outro; embora seja ilusão, há esse poder, que eu posso ser outro.

Por algum mistério que não calculo o quão poderoso ele possa ser, a chuva me ilumina, me faz ver um vira-lata.

Não faço nada e, mesmo assim, o cachorrinho abana o rabo. Ainda assim, o bichinho quer vir comigo.

Cãozinho, esqueça, vá por aí, siga seu caminho. Entenda-me, não aprovo isso de irmos juntos por aí.

Mesmo que o universo oriente-me a suspirar pelas coisinhas à toa do mundo, bato o pé, toco o cão, não quero nenhuma sombra que nem pedi. Dispenso suas pulgas, já me coço do que nem sei o que seja.

Ainda que nem me entenda, vai-se o cão.

De súbito, faço que não aperreio. Enjoei de tomar chuva.

Tenho tais súbitos, que me quero mais centrado no que faço. Busco a concentração. Na agência fechada, em segurança, tiro o celular do bolso e pago os boletos. Não reclamo de ter entrado cedo, muito cedo, num horário em que nem os caixas eletrônicos funcionam.

Opero mal quando chove?

Parto-me pelo meio: à direita, sou o urso a usar do monociclo para arranjar trutas que o alimentem, sim, as palmas são o que preciso para me exibir; à esquerda, sem ferroar quem exare fel, acho-me adocicado, mel a querer mel, cordato, sou abelha a visitar lavandas.

Partido ao meio, cachorrinho, lembro-me.

À direita e à esquerda, opto. Quero ser adotado por aquele cão. O urso e a abelha, carrego-os pela rua. Por isso, vamos achá-lo, cão que abana o rabo. Como pulga a atormentá-lo, porque chove, cão que late sem parar, vou ladrar até que me apareça.

Venha, cachorrinho, pois, embora meio zureta pelo tanto de chuva, minha cachola é girassol descalço de petulâncias. Vira-lata, venha latir onde tênis não envelhecem, venha latir no meu peito.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 04 de novembro de 2025.

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