O
senhor desculpe, mas o senhor não pode ficar parado aqui, pois o senhor
atrapalha o caminho. Senhor? Está me ouvindo, senhor? Por gentileza, o senhor
tem que sair da passagem, pois as pessoas pegam este caminho.
Demorei
um instante para cumprir a ordem?
Fiz-me
demorar. Olhei o homem e vi a criatura. Não me deslumbrei no que vi, e continuo
opaco ao funcionário que veio me interpelar.
Vejo
que o indivíduo tem um crachá na lapela. Que bom que exibe o documento que o
identifica, ou eu não o reconheceria na autoridade que nele está instituída.
Uma
vez que o crachá traz a foto tirada pela máquina da empresa que o tem
contratado, nem preciso vê-la para compreendê-la no poder que ela tem.
Toda
foto em todo crachá profere o discurso: a pessoa que o usa é representante da
instituição que a obriga ser identificada pelo crachá que a firma um
instrumento, não a serviço do que for, mas a serviço do que seja compreendido
como legítimo, legal e disciplinador.
Fiz-me
demorar por um milésimo de segundo? Em relação a quê? Ao universo? Ao indivíduo
que me abordou tal qual a um cão? No que, ambos, precisamos ter de
domesticados? Eu com minha orelha cheia de pulgas? Ele protegido por um crachá?
Em relação ao que achamos que temos? Nada disso? Tudo isso? Ou a ambos?
Embora
não o desculpe, faço a gentileza de sair.
Não
preciso desculpar quem faz o trabalho pelo qual é cobrado que faça e que o faça
sem que lhe digam que o possa fazer melhor, nem o desculparia ainda que
houvesse feito algo de ruim.
Por
igualmente ruim, gritaria palavrões. Assim opresso pela vilania de agir
pessimamente, eu seguiria no meu caminho.
O
senhor me perdoe, mas o senhor não deve pensar deste jeito. O senhor é mais que
um vira-lata carregado de pulgas. Senhor? O senhor me entende? Por obséquio, o
senhor dê passagem. Deixe-me mostrar-lhe do que sou capaz. Já que confio em mim
pela sagacidade que julgo ter, permita-se crer no seu perdão, senhor.
Antes
de perdoar quem espere sê-lo, desejo de ser perdoado?
Tenho
outra história para dizer.
Vi
nascerem minhas crianças. Passei noites em claro quando houve febres. Neguei
brinquedos quando a impaciência era febril. Fui sóbrio quando deitaram
opróbrios sobre mim. Vi crescerem minhas crianças, e disso não guardo mágoas
nem as ostento.
Para
acusar quem acusa as dores que causei, busco escusas?
Saio
do caminho. E saio ressabiado, uma vez que o segurança veio a mim por
indicação. Veio até mim porque há câmeras vigiando.
Olho
por sobre o ombro. De soslaio, olho a câmera no alto. E vejo, a luz acesa diz
que a máquina está acionada.
Quero
falar uma história sem fugir da luz da verdade?
Volto,
e pergunto ao segurança para que lado fica o banheiro.
Não
voltei apenas por uma informaçãozinha à toa, voltei pelo nome da corporação no
crachá.
Deus
me livre!
Dos
meus anjinhos, o mais rebelde bate ponto na tal firma.
Rodrigues da Silveira
Ibiúna,
dia 16 de novembro de 2025.
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