domingo, 16 de novembro de 2025

Prevenção

 

Prevenção

 

O senhor desculpe, mas o senhor não pode ficar parado aqui, pois o senhor atrapalha o caminho. Senhor? Está me ouvindo, senhor? Por gentileza, o senhor tem que sair da passagem, pois as pessoas pegam este caminho.

Demorei um instante para cumprir a ordem?

Fiz-me demorar. Olhei o homem e vi a criatura. Não me deslumbrei no que vi, e continuo opaco ao funcionário que veio me interpelar.

Vejo que o indivíduo tem um crachá na lapela. Que bom que exibe o documento que o identifica, ou eu não o reconheceria na autoridade que nele está instituída.

Uma vez que o crachá traz a foto tirada pela máquina da empresa que o tem contratado, nem preciso vê-la para compreendê-la no poder que ela tem.

Toda foto em todo crachá profere o discurso: a pessoa que o usa é representante da instituição que a obriga ser identificada pelo crachá que a firma um instrumento, não a serviço do que for, mas a serviço do que seja compreendido como legítimo, legal e disciplinador.

Fiz-me demorar por um milésimo de segundo? Em relação a quê? Ao universo? Ao indivíduo que me abordou tal qual a um cão? No que, ambos, precisamos ter de domesticados? Eu com minha orelha cheia de pulgas? Ele protegido por um crachá? Em relação ao que achamos que temos? Nada disso? Tudo isso? Ou a ambos?

Embora não o desculpe, faço a gentileza de sair.

Não preciso desculpar quem faz o trabalho pelo qual é cobrado que faça e que o faça sem que lhe digam que o possa fazer melhor, nem o desculparia ainda que houvesse feito algo de ruim.

Por igualmente ruim, gritaria palavrões. Assim opresso pela vilania de agir pessimamente, eu seguiria no meu caminho.

O senhor me perdoe, mas o senhor não deve pensar deste jeito. O senhor é mais que um vira-lata carregado de pulgas. Senhor? O senhor me entende? Por obséquio, o senhor dê passagem. Deixe-me mostrar-lhe do que sou capaz. Já que confio em mim pela sagacidade que julgo ter, permita-se crer no seu perdão, senhor.

Antes de perdoar quem espere sê-lo, desejo de ser perdoado?

Tenho outra história para dizer.

Vi nascerem minhas crianças. Passei noites em claro quando houve febres. Neguei brinquedos quando a impaciência era febril. Fui sóbrio quando deitaram opróbrios sobre mim. Vi crescerem minhas crianças, e disso não guardo mágoas nem as ostento.

Para acusar quem acusa as dores que causei, busco escusas?

Saio do caminho. E saio ressabiado, uma vez que o segurança veio a mim por indicação. Veio até mim porque há câmeras vigiando.

Olho por sobre o ombro. De soslaio, olho a câmera no alto. E vejo, a luz acesa diz que a máquina está acionada.

Quero falar uma história sem fugir da luz da verdade?

Volto, e pergunto ao segurança para que lado fica o banheiro.

Não voltei apenas por uma informaçãozinha à toa, voltei pelo nome da corporação no crachá.

Deus me livre!

Dos meus anjinhos, o mais rebelde bate ponto na tal firma.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 16 de novembro de 2025.

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