No
banheiro, lendo um livro, ocupando-me de avançar a leitura nem que seja uma
página, tentando desenovelar as ideias que embaraçam olhos e olhar, é bem neste
estado, natural a quem acabado de acordar, que toca o telefone.
São
sete horas, deixo que toque, leio, insisto, penso em aproveitar o momento,
resisto à ansiedade de ir correndo irritar-me com a ligação da operadora cujo
assédio é para que eu troque de plano, assine outro, um que seja mais caro, mas,
como posso, quero dar prioridade a este instante, permito-me permanecer no
vaso, pois a leitura acode, ajuda, me socorre, pois tenho de sossegar-me dos
remorsos, dos muitos que, ultimamente, venho precisando desvencilhar-me.
No vaso às sete, matuto o que me abone este sujeito empatado nos afazeres domésticos, afrouxo o nó que não asfixia no pescoço, adianto que pondero sem um dedinho de autocomiseração.
Devo ser honesto com quem fez a gentileza de me convidar para o churrasco, ainda que o pimpolho esteja fazendo um mês, ainda que eu não seja o padrinho, é que sábado, ainda que eu não faça restrições a batizados num sábado, como moro sem ninguém que faça por mim o que o lar pressupõe que seja feito sem procrastinações, pretendo tirar o sábado para lavar roupa.
Devo
dar explicações menos cínicas ao casal que me chamou para a revelação do nome
do primogênito, até porque a noite passada teria sido ótima para um engano na
divisão, comigo pagando reais a menos, se houvessem notado as fatias a mais que
eu tenha comido.
Às
sete da matina, prevejo, terei de negar ter cochilado, haverá jogo na tevê, será
outra partida fantástica, mais uma decisão acirradíssima, haverá esta peleja entre
os dois possíveis campeões do campeonato, isso se houver quem se incomode que
eu ronque.
Sentado
no vaso às sete horas da matina, toca o telefone.
Toque,
mas saiba que nem sei onde está. Toque, e deixo que toque, pois nem me esforço
de lembrar onde o esqueci.
Contudo,
o danadinho não para. Parece a fim de me persuadir de ir atendê-lo. O
demoniozinho que sabe tocar quer-me persuadido de tirar a bunda do vaso, embora
sejam sete da matina.
Já
que a peste me faz crer que estarei empesteado se deixá-lo tocar até a ligação
cair, compreendo a minha situação. Convenço-me, já que ele não para de tocar, fica
mais do que evidente que não deve ser mais uma ligação da operadora.
Portanto
convencido, lamento a passividade que me impede de sair do vaso, me põe nesta
ânsia de me livrar do que me faz quedar nestes meus remordimentos.
Tenho
razão para mordiscar meus lábios?
Preso
à leitura de uma página do Otto Lara Resende, sinto, de fato: o universo quer
que eu capte a mensagem, seu recado, a dica, que a triscaldecofobia não faz
supersticioso o triscaldecófobo, pois hoje não poderia ser simplesmente mais
uma quinta-feira, sim, é quinta, só que é outro incontornável dia 13.
Rodrigues da Silveira
Ibiúna,
dia 13 de novembro de 2025.
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