Só
depois que devolveu o copo vazio é que a senhora compreendeu a sua circunstância,
que lhe era incompreensível como viera parar ali, como podia ficar sentada naquele
degrau se havia tanta coisa para dar conta, se a manhã seria curta, acabaria
encurtada pelo tanto de tarefas que tinha de dar cabo antes de almoçar, antes
de poder preocupar-se com o almoço, a refeição que somente ela teria de
preparar.
ꟷ
Gente, cadê o meu celular?
Recebendo
a atenção de mulheres que nem conhecia, ignorante do que lhe deram para tomar, ela
verificou se os grampos ainda domavam os fios de cabelo, aqueles cuja ambição era
bailarem, já que se faziam ao vento ainda que o ar conhecesse a estagnação do
mormaço.
ꟷ
E meu celular, cadê?
Quando
os sinos badalaram, a mulher transfigurou-se. O seu corpo passou a tremer. A sua
boca soltou gemidos. Os seus olhos reviravam nas órbitas. Viu-se naquele súbito
muito esquisito. Tanto se lhe deu um mal-estar profundo que ela perdeu os sentidos.
Assim
que bateu a oitava badalada, a senhora abriu os olhos. Havia mulheres a lhe perguntarem
se estava bem. Uma delas segurava a sua mão, afagava-a, acarinhava-a. Ela e as
outras, todas queriam saber se realmente estava bem, se de fato melhorara.
ꟷ
Gente, cadê meu celular?
Tinha
um homem, o que lhe entregou um copo d’água. Mas a água dada nem tinha açúcar. Disseram
que precisava beber tudo. O homem e as mulheres pediram, insistiram, que bebesse
devagar, isso lhe faria bem. Desde que bebesse tudo, seria isso que a deixaria
melhor.
Ela
sabia que roupa era aquela. Mesmo a constrangê-lo, o encarou. Ela sabia que o policial
não era nenhum bombeiro.
ꟷ
E o meu celular, cadê?
Os
sinos pararam, ela voltou a si. Mas voltara para achar-se àquela escadaria? Revelar-se
àquela porta? Dar-se àqueles vitrais?
Certamente,
sabia onde estava. Notou que acordara ao pé da igreja que abandonara. E o que a
ressabiava era localizar-se. Já que naquele lugar a sua presença a incomodava.
Estava justamente diante daquela igreja, daquela a que deixara de recorrer, dessa
que passou a não mais se sujeitar.
Pelo
conhecimento de que o que ali era dito como sendo a Palavra, a senhora sabia
que era a Palavra dita de outro modo, filtrada, era outra coisa. Ali a coisa enganava,
seduzia e punha na vereda do engano, do erro, do passo dado, da passada no desencaminhamento,
da perda do rumo da verdade.
E
a Verdade era uma, e bem distante do que conhecera ali, naquela construção
erguida em louvor de quem a construiu.
Ela
soube que estava longe de casa, pois morava longe. Ela soube que teria de dar
uma pernada de uma hora, porque vivia longe dali. Ela ficava protegida, distante
de quem a enganava com um copo que nem tinha açúcar, com uma água que nem sabia
como deixá-la bem.
Ao
fim da mesmíssima oitava badalada?
ꟷ
Dona, celular achado na praça, caído, não tem dono, não.
Rodrigues da Silveira
Ibiúna,
dia 25 de novembro de 2025.
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