Ganhei
o sábado porque não dei confiança à rebeldia. Sem nenhum cansaço, deitei-me no
sofá e liguei o televisor. Se topasse minerar uma motivação para fazê-lo, digo
que a preguiça estava no ar. Uma vez que só consigo prender a respiração por dois
ou três minutos, fui direto ao canal de esportes. Por afirmar meu amor por mim,
fui-me sossegando. Assim largado, assim enlevado, assim suspenso numa estupidez
nada patética, eu, cativo, fui o mané que veio tomar conta de mim.
Não
fosse esse zé ruela, o menino que me ampara quando o mundo é o campo um
instante antes de soarem as trombetas, a minha carcaça azedaria a sopa, o fastio
de ir no banho-maria do sábado desandaria a alma, e as minhas carnes, tanto as
duras quanto as moles, estorvariam o trânsito das energias anímicas que pelejam
a causa justa, que é pôr sincronizados a boca e a vontade de comer.
O
parvo atina que há feijão que não acarrete em feijoada?
O
parvo saliva.
É
óbvio, eu tinha outros apetites. Queria que o evento fosse bom de ser
assistido. Torcia pelo jogo bem jogado. Nutria a expectativa de que a realidade
desse razão para ficar agradecido pelo espetáculo.
Saiu
um gol. Voltei para vê-lo. Para acompanhar a jogada desde o momento em que foi
criada, voltei um pouco mais. Para ver o lance de efeito, comentado já o gol
assinalado, fui pulando até chegar ao ponto e regalou-me o que vi: o craque deu
um chapéu no marcador e o passe foi certeiro e acertado, tanto que o artilheiro
confirmou-se em boa fase, com o gol.
Pus
no banco o idiota, sentei-me. E a partida melhorou porque a vi com outros
olhos. Mais interessado no que via, no que realmente podia ver, então, o jogo
entretinha, divertia, dava gosto de acompanhá-lo.
Já
que a TV fez esse bem, que o fizesse de novo.
Após
o almoço, tirei a pestana que o meu esqueleto aguardava que tirasse. Uma vez
que me sentia realmente revigorado, gostei muito de tê-la tirado.
Como
havia imaginado que faria, e sem ficar enrolando ou achando de ficar aborrecido
pelas chamas do mundo, voltei à tevê e pus no jogo que me parecia ser o mais
legal de ser visto, porque se enfrentariam o atual campeão e o time motivado
pelas vitórias seguidas.
Batata!
No
gol mais vistoso, o atacante trouxe a bola para perto de si com uma chaleira e,
com outra chaleira, desmontou a defesa armada pelo goleiro.
Confiante
de que não cochilaria, mesmo que houvesse acabado de tomar café da tarde,
novamente sentado, pus no canal ao qual quis ser fiel o sábado todo.
Em
jogo truncado, tudo era motivo para reclamações. Os jogadores não aliviavam nas
divididas. O árbitro viu-se forçado a agir feito juiz, e amarelos e mais
amarelos foram dados.
O
jogo bruto foi vencido quando o cérebro criativo em campo fez o que se espera: o
beque adversário caiu de bunda dentro da área, pois, com uma caneta pro gol da
vitória, o camisa dez foi mesmo dez.
Rodrigues da Silveira
Ibiúna,
dia 23 de novembro de 2025.
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