domingo, 23 de novembro de 2025

Chapéu, chaleira, caneta

 

Chapéu, chaleira, caneta

 

Ganhei o sábado porque não dei confiança à rebeldia. Sem nenhum cansaço, deitei-me no sofá e liguei o televisor. Se topasse minerar uma motivação para fazê-lo, digo que a preguiça estava no ar. Uma vez que só consigo prender a respiração por dois ou três minutos, fui direto ao canal de esportes. Por afirmar meu amor por mim, fui-me sossegando. Assim largado, assim enlevado, assim suspenso numa estupidez nada patética, eu, cativo, fui o mané que veio tomar conta de mim.

Não fosse esse zé ruela, o menino que me ampara quando o mundo é o campo um instante antes de soarem as trombetas, a minha carcaça azedaria a sopa, o fastio de ir no banho-maria do sábado desandaria a alma, e as minhas carnes, tanto as duras quanto as moles, estorvariam o trânsito das energias anímicas que pelejam a causa justa, que é pôr sincronizados a boca e a vontade de comer.

O parvo atina que há feijão que não acarrete em feijoada?

O parvo saliva.

É óbvio, eu tinha outros apetites. Queria que o evento fosse bom de ser assistido. Torcia pelo jogo bem jogado. Nutria a expectativa de que a realidade desse razão para ficar agradecido pelo espetáculo.

Saiu um gol. Voltei para vê-lo. Para acompanhar a jogada desde o momento em que foi criada, voltei um pouco mais. Para ver o lance de efeito, comentado já o gol assinalado, fui pulando até chegar ao ponto e regalou-me o que vi: o craque deu um chapéu no marcador e o passe foi certeiro e acertado, tanto que o artilheiro confirmou-se em boa fase, com o gol.

Pus no banco o idiota, sentei-me. E a partida melhorou porque a vi com outros olhos. Mais interessado no que via, no que realmente podia ver, então, o jogo entretinha, divertia, dava gosto de acompanhá-lo.

Já que a TV fez esse bem, que o fizesse de novo.

Após o almoço, tirei a pestana que o meu esqueleto aguardava que tirasse. Uma vez que me sentia realmente revigorado, gostei muito de tê-la tirado.

Como havia imaginado que faria, e sem ficar enrolando ou achando de ficar aborrecido pelas chamas do mundo, voltei à tevê e pus no jogo que me parecia ser o mais legal de ser visto, porque se enfrentariam o atual campeão e o time motivado pelas vitórias seguidas.

Batata!

No gol mais vistoso, o atacante trouxe a bola para perto de si com uma chaleira e, com outra chaleira, desmontou a defesa armada pelo goleiro.

Confiante de que não cochilaria, mesmo que houvesse acabado de tomar café da tarde, novamente sentado, pus no canal ao qual quis ser fiel o sábado todo.

Em jogo truncado, tudo era motivo para reclamações. Os jogadores não aliviavam nas divididas. O árbitro viu-se forçado a agir feito juiz, e amarelos e mais amarelos foram dados.

O jogo bruto foi vencido quando o cérebro criativo em campo fez o que se espera: o beque adversário caiu de bunda dentro da área, pois, com uma caneta pro gol da vitória, o camisa dez foi mesmo dez.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 23 de novembro de 2025.

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