Mostrando
as sacolinhas que trouxe pro churrasco, a pessoa, certa de estar certa, dá uma
latinha que nem tenho o trabalho de abrir. Pego-a aberta por estar aberto à
gentileza. Embora o gentil me seja estranho, pego e beberico. Beberico-a, pois
a cerveja não está morna.
Estranho
a afetação, tão simpático. Por não conseguir engolir mais um gole, o maxilar
relaxa e eu babo. Tem também a afobação, que ele não me deixa engolir a cerveja
porque, já sufocando no bodum, o peito do cara comprime meu nariz e o meu queixo
trava.
Sendo
abraçado com tanta generosidade, ele diz que o Amintas vai chegar depois do
almoço porque a mãe dele não gosta nada que o filho falte à macarronada.
É
sim, o cara das latinhas fede, tem necessidade de demonstrar-se afetuoso, exibe-se
másculo e gosta de uma fofoquinha.
Acha
que me informa?
O
que já sei não é novidade. E não havendo nada de novo, também me exibo, que eu
também adoro fofocar, desde que me deixem respirar e apreciar o gole que tenho
na boca.
Ao
cara das latinhas, por pirraça, não digo que, ontem, o meu amigo Amintas
telefonou-me para avisar que chegaria depois de almoçar na casa da mãe dele, porque
ela não gosta nada que um filho seu decida-se por faltar à macarronada da
família.
O
amigo do Amintas não se acanha, vai entrando. Porque não gosta que bebam
cerveja quente, vai pela casa adentro, já perguntando onde fica a geladeira.
Por eu ser bom anfitrião, e sensato, na certa iria querer tomar e iria
querer oferecer uma gelada aos meus convidados.
Se
assim o permita, é claro. Assim o permito, é claro. E que ele faça o que parece
disposto a fazer, já o fazendo, já enchendo o freezer, já pegando duas latinhas,
sendo uma para mim, é claro.
O
que a mim me parece claríssimo, muitíssimo óbvio, é que não sei quem ele é. Assim,
amigo do Amintas, nem acho de hesitar, pois devo acompanhá-lo. Vou com você, pois
eu o conheço pelo modo como age, que você é gente que não dispensa nenhuma
latinha.
Melhor
vigiá-lo sem discrição, pois ser amigo de um amigo meu não implica que haja o
que contestar. Até porque o freezer reabastecido diz que lhe devo gratidão, sem
me achar certo da sua linhagem. Pois você mostrar-se amigo do amigo, ainda que
o traia a fala mais gentil do que a mais gentil dos amigos, é uma baita bajulação.
O
amigo do Amintas bajular-me dentro da minha casa é o jeito mais simpático de
alguém, que não é familiar nem íntimo, convencer de que é de bom-tom sondar o
Amintas.
O
amigo do Amintas, sem pressão, portanto gentil e simpático, pede que o deixe procurar
onde o sinal esteja mais forte.
Como
deixo que use o celular na calçada, já que destravo o portão, o danado do meu
telefone vai junto com o amigo do Amintas.
ꟷ
Ainda bem que tenho mais aparelhos, Amintas.
O
amigo também lhe é estranho, pois ele não conhece ninguém que tenha lágrimas tatuadas
caindo de nenhum olho esquerdo.
Rodrigues da Silveira
Ibiúna,
dia 02 de novembro de 2025.
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