domingo, 2 de novembro de 2025

Gentilezas de amigo

 

Gentilezas de amigo

 

Mostrando as sacolinhas que trouxe pro churrasco, a pessoa, certa de estar certa, dá uma latinha que nem tenho o trabalho de abrir. Pego-a aberta por estar aberto à gentileza. Embora o gentil me seja estranho, pego e beberico. Beberico-a, pois a cerveja não está morna.

Estranho a afetação, tão simpático. Por não conseguir engolir mais um gole, o maxilar relaxa e eu babo. Tem também a afobação, que ele não me deixa engolir a cerveja porque, já sufocando no bodum, o peito do cara comprime meu nariz e o meu queixo trava.

Sendo abraçado com tanta generosidade, ele diz que o Amintas vai chegar depois do almoço porque a mãe dele não gosta nada que o filho falte à macarronada.

É sim, o cara das latinhas fede, tem necessidade de demonstrar-se afetuoso, exibe-se másculo e gosta de uma fofoquinha.

Acha que me informa?

O que já sei não é novidade. E não havendo nada de novo, também me exibo, que eu também adoro fofocar, desde que me deixem respirar e apreciar o gole que tenho na boca.

Ao cara das latinhas, por pirraça, não digo que, ontem, o meu amigo Amintas telefonou-me para avisar que chegaria depois de almoçar na casa da mãe dele, porque ela não gosta nada que um filho seu decida-se por faltar à macarronada da família.

O amigo do Amintas não se acanha, vai entrando. Porque não gosta que bebam cerveja quente, vai pela casa adentro, já perguntando onde fica a geladeira. Por eu ser bom anfitrião, e sensato, na certa iria querer tomar e iria querer oferecer uma gelada aos meus convidados.

Se assim o permita, é claro. Assim o permito, é claro. E que ele faça o que parece disposto a fazer, já o fazendo, já enchendo o freezer, já pegando duas latinhas, sendo uma para mim, é claro.

O que a mim me parece claríssimo, muitíssimo óbvio, é que não sei quem ele é. Assim, amigo do Amintas, nem acho de hesitar, pois devo acompanhá-lo. Vou com você, pois eu o conheço pelo modo como age, que você é gente que não dispensa nenhuma latinha.

Melhor vigiá-lo sem discrição, pois ser amigo de um amigo meu não implica que haja o que contestar. Até porque o freezer reabastecido diz que lhe devo gratidão, sem me achar certo da sua linhagem. Pois você mostrar-se amigo do amigo, ainda que o traia a fala mais gentil do que a mais gentil dos amigos, é uma baita bajulação.

O amigo do Amintas bajular-me dentro da minha casa é o jeito mais simpático de alguém, que não é familiar nem íntimo, convencer de que é de bom-tom sondar o Amintas.

O amigo do Amintas, sem pressão, portanto gentil e simpático, pede que o deixe procurar onde o sinal esteja mais forte.

Como deixo que use o celular na calçada, já que destravo o portão, o danado do meu telefone vai junto com o amigo do Amintas.

ꟷ Ainda bem que tenho mais aparelhos, Amintas.

O amigo também lhe é estranho, pois ele não conhece ninguém que tenha lágrimas tatuadas caindo de nenhum olho esquerdo.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 02 de novembro de 2025.

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