quinta-feira, 27 de novembro de 2025

Uma crônica mais otimista

 

Uma crônica mais otimista

 

Há sessenta anos a pessoa que via o mundo não o observava como o cronista que hoje o enxerga, ainda que continue a vê-lo que nem uma criança quando enjoa do presente que nem pediu de aniversário.

Embora a vida continue como festa que a gente não entende direito como não quer se desapegar, siga sendo aquele aniversário em que o bolo nunca é cortado quando as palmas já querem escapulir das mãos, há que se viver.

Quando o cronista está nauseado com a promessa jamais cumprida de que o bolo será fatiado tão logo os convidados conseguirem cantar Parabéns a Você, há que se dar um desconto, afinal há sessenta anos a mente alimenta-se de mistérios, como uma cereja de chuchu.

Haja alegria de querer, hein, manhã dourada.

Como o dia não se resume a outra manhã ensolarada, ainda que o sol de verão nem tenha subido ao céu para fazer calor de trinta e nove graus, antes do meio-dia, só ventilador com fissuras psicóticas insiste em comportar-se que nem ar-condicionado.

Haja quilowatts, hein, camiseta empapada.

O cronista larga o conforto, sai, mas deixa ligado o ar-condicionado, vai aonde acha que é a sua prioridade, que é ir refrescar-se com o que lhe forneça algum prazer, um prazerzinho momentâneo, efêmero, que, contudo, o faça assegurar-se menos ranheta.

Por excesso de suor, sente-se ranzinza.

Senta-se na sorveteria para tomar o sorvete. Sem pressa alguma, alegra-o tomá-lo. Ainda que as ideias se encadeiem sem nexo, já que os pensamentos vão se formando ao deus-dará, isso é possível porque tevê alguma soterra o cronista nos malefícios do mundo moderno.

O sorvete derrete porque os trinta e nove graus são previsíveis, não são números num mapa, tão redondinhos no Brasil da tevê.

Já que mapas não derretem, os pingos pedem que o indicador entre em ação.

Se importe com os outros. Ligue que os pingos serão contabilizados como desperdício. No entanto, não se avexe da língua, a vá passando no dedo. Passe-o na mesa e veja-se sendo visto ao lambê-lo.

Uma mulher de lenço no pescoço entra, escolhe os sabores e paga pelo peso das três bolas.

Embora Edileusa não perceba que o cronista saiba quem ela é, ele, sorrindo ao reconhecê-la, se limpa com um guardanapo.

Ainda bem que o guardanapo ajuda-o a ser discreto ao sorrir, pois o cronista acha graça de certa lembrança.

A história do homem com quem esteve casada por tantos anos não corre mais de boca em boca, pois muitos anos se passaram desde que Edileusa ficou convencida a dar-lhe o pé na bunda.

O ex-marido de Edileusa, se lhe pagam uma cachaça, conta ter tido muitas amantes, e foram tantas que nem sabe o tanto que deixara que partissem, pois era casado com uma pessoa especial.

Carrie Mathison? Lila Tournay? Clarice Starling? Marion Crane?

Que todas o tivessem tocado, tudo bem, mas, sóbrio, o espertinho só admite ter calafrios com a Julie Newmar.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 27 de novembro de 2025.

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