A
manhã tivesse conhecido a tranquilidade que anda precisando, o cafezinho seria
bem-vindo, só que o coração não especula, palpita com razão, o corpo sabe por
quais motivos nem deve palitar os dentes.
Voltando
à loja, ia calculando, pedindo por mais movimento, orando para manter a
integridade, orando para que Deus aja bem, não o deixe desvirtuar-se,
desviar-se, extraviar-se, Ele demonstre ser do bem, seja parte, suplicando, acelerando,
o Senhor obre por maiores vendas.
No
duro, já que a vida é fruto das escolhas humanas, fazendo-se a gentileza de
tirar Deus da jogada, para ter uma vida menos atribulada, é necessário que a
porcentagem seja aumentada, fique maior.
Havendo
comissão mais encorpada, qualquer dia, mesmo que o dia seja de vendas de coisas
baratinhas, mixurucas, o salário ganhará em vigor, terá forças para entrar pela
segunda quinzena do mês.
Ele
almoça em quinze minutos, sacrifica o cafezinho pela boa causa que é imaginar a
bufunfa acabando só no trigésimo dia.
Come
quibe, pastel e coxinha, sem nem um gole de suco, uma vez que vai divisando o
dia em que o caraminguá possibilitará a reviravolta dos cento e oitenta graus,
a fim de que a felicidade seja experimentada, não mais sentida como nostalgia,
que o fim do mês venha a ser vivido, ele, outra vez, seja dado como parte do
mundo.
Porque
a anomalia, isso de o mês ficar reduzido a quinze dias, vem acontecendo faz um
tempo, desde meados do ano passado, desde que as promoções de aniversário da
loja tiveram que ser encerradas.
Para
que a folhinha siga vigorando, o calendário funcione direitinho, o outono volte
no ano vindouro, o comércio ensina que as liquidações exitosas não duram para
sempre.
Uma
vez que a farra dos preços baixos tem que acabar no momento certo, o povo vá à
concorrência, faça simulações e bata perna por livre escolha, mas, para
conservar-se popular, a loja sabe dar um mês para que a sedução das prestações suaves,
que parecem caber na carteira de qualquer um, traga mais gente ao lugar certo.
A
loja sempre tem razão.
Melhor
não pensar no cafezinho que não toma desde que o outono veio, desde que o ano
passado é mesmo uma página virada, arrancada da folhinha.
Faz
bem deixar para trás o vivido. Há de se pensar no que está por vir. É bom não
dar ouvidos ao que já é passado. É justo que pense nas vendas que fará. Que as
calendas saiam da frente, não irrompam como perigo à frente, uma curva acentuada,
ribanceira, outro precipício.
Por
temer ficar desempregado, já não chegou o momento de pensar em assistir à
próxima Copa num televisor de 55”?
Tendo
ainda vinte minutos da hora de almoço, sem pesar que possa haver alguma
inconveniência, pede ao gerente que o atenda.
E
o vendedor realça o melhor de cada modelo. Sugere que o carnê não lhe seja sufocante.
Ao fim, o felicita pela escolha, pela maravilhosa tevê de 65”.
Rodrigues da Silveira
Ibiúna,
dia 18 de novembro de 2025.
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