terça-feira, 18 de novembro de 2025

A razão do instante

 

A razão do instante

 

A manhã tivesse conhecido a tranquilidade que anda precisando, o cafezinho seria bem-vindo, só que o coração não especula, palpita com razão, o corpo sabe por quais motivos nem deve palitar os dentes.

Voltando à loja, ia calculando, pedindo por mais movimento, orando para manter a integridade, orando para que Deus aja bem, não o deixe desvirtuar-se, desviar-se, extraviar-se, Ele demonstre ser do bem, seja parte, suplicando, acelerando, o Senhor obre por maiores vendas.

No duro, já que a vida é fruto das escolhas humanas, fazendo-se a gentileza de tirar Deus da jogada, para ter uma vida menos atribulada, é necessário que a porcentagem seja aumentada, fique maior.

Havendo comissão mais encorpada, qualquer dia, mesmo que o dia seja de vendas de coisas baratinhas, mixurucas, o salário ganhará em vigor, terá forças para entrar pela segunda quinzena do mês.

Ele almoça em quinze minutos, sacrifica o cafezinho pela boa causa que é imaginar a bufunfa acabando só no trigésimo dia.

Come quibe, pastel e coxinha, sem nem um gole de suco, uma vez que vai divisando o dia em que o caraminguá possibilitará a reviravolta dos cento e oitenta graus, a fim de que a felicidade seja experimentada, não mais sentida como nostalgia, que o fim do mês venha a ser vivido, ele, outra vez, seja dado como parte do mundo.

Porque a anomalia, isso de o mês ficar reduzido a quinze dias, vem acontecendo faz um tempo, desde meados do ano passado, desde que as promoções de aniversário da loja tiveram que ser encerradas.

Para que a folhinha siga vigorando, o calendário funcione direitinho, o outono volte no ano vindouro, o comércio ensina que as liquidações exitosas não duram para sempre.

Uma vez que a farra dos preços baixos tem que acabar no momento certo, o povo vá à concorrência, faça simulações e bata perna por livre escolha, mas, para conservar-se popular, a loja sabe dar um mês para que a sedução das prestações suaves, que parecem caber na carteira de qualquer um, traga mais gente ao lugar certo.

A loja sempre tem razão.

Melhor não pensar no cafezinho que não toma desde que o outono veio, desde que o ano passado é mesmo uma página virada, arrancada da folhinha.

Faz bem deixar para trás o vivido. Há de se pensar no que está por vir. É bom não dar ouvidos ao que já é passado. É justo que pense nas vendas que fará. Que as calendas saiam da frente, não irrompam como perigo à frente, uma curva acentuada, ribanceira, outro precipício.

Por temer ficar desempregado, já não chegou o momento de pensar em assistir à próxima Copa num televisor de 55”?

Tendo ainda vinte minutos da hora de almoço, sem pesar que possa haver alguma inconveniência, pede ao gerente que o atenda.

E o vendedor realça o melhor de cada modelo. Sugere que o carnê não lhe seja sufocante. Ao fim, o felicita pela escolha, pela maravilhosa tevê de 65”.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 18 de novembro de 2025.

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